sexta-feira, dezembro 30, 2011

Esperar...


Escolhi-te porque gostei do teu olhar. 

Podias muito bem estar à espera do novo ano, sentada num dos degraus, vestida de escuro, mas sem ocultares a tua beleza, com um cigarro entre os dedos e um olhar com alguma melancolia, mas incapaz de esconder a esperança que pode vir aí...

O óleo é de Marcelo Bravo Becerra.

quarta-feira, dezembro 28, 2011

Arrumar as Ideias


Mais difícil que arrumar a secretária, é arrumar as ideias.

Separar coisas como a ficção, a poesia, o ensaio, o teatro ou o cinema...

Ainda ontem estive de volta ao primeiro acto de uma peça que estou a escrever, uma comédia romântica. Chama-se, "O Amor é uma Invenção do Cinema".

Gostava de me sentir menos envolvido no quotidiano, ter mais tempo para mim, mas parece-me que isso ainda não vai acontecer em 2012...

O óleo é de Kjetil Jul.

terça-feira, dezembro 27, 2011

Arrumar a Secretária


Quem passa o ano a "nadar em papeis", como eu, tem sempre a preocupação acrescida de arrumar a secretária, de separar o que é importante e o que é acessório, com a esperança de que o ano novo seja mais "organizado".

É aqui que surgem as dificuldades, tudo me parece importante, as pilhas de papeis e de livros raramente diminuem, quanto muito mudam de sitio...

O óleo é de Brad Slaugh.

segunda-feira, dezembro 26, 2011

As Estradas, os Carros e as Pessoas

Não esperava encontrar tanta gente nas estradas no dia de Natal. À hora de almoço havia mais confusão junto à Ponte, que num dia da semana. Talvez uma boa parte dos filhos tenham decidido ir almoçar com os pais, como foi o meu caso.

Eu sei que a estrada não é definitivamente um lugar de paz, nem mesmo num dia que devia apelar ao amor e à compreensão, mas...

Se uma boa parte das pessoas quer chegar o mais rapidamente aos seus destinos, outros nem por isso. Isso explica-se pelas oscilações de velocidade que podem ir dos sessenta aos duzentos.


O mais estranho é que as pessoas que conduzem a menos velocidade, são quase sempre as que têm comportamentos mais perigosos nas auto-estradas. São as que ensaiam ultrapassagens a menos de oitenta, quando estamos próximos, obrigando-nos a travar (e a dizer uma série de palavrões pouco dignos da quadra...), que não sabem a bênção que representam os sinais de mudança de direcção (quantos acidentes se evitariam com este simples gesto...), etc. 

Todos lhe chamamos condutores de fim de semana (realmente fazem-se notar mais aos sábados, domingos e feriados...), mas eu diria que são pessoas inábeis para a tarefa e que não deviam conduzir automóveis.

O óleo é de Mark Lague.

sexta-feira, dezembro 23, 2011

O Natal e a Bondade Divina


Faltava uma semana para o Natal, quando o Manuel, com apenas oito anos, chegou a casa e disse aos pais que nunca mais ia à catequese e à missa.

Os pais estranharam esta decisão, ainda por cima tão afirmativa, embora reagissem de forma diferente. O pai sorriu para dentro, satisfeito por o filho ter descoberto tão cedo, a farsa que era a igreja. A mãe ficou muito desgostosa, queria que o filho descobrisse Deus, seguisse os seus ensinamentos e fosse sobretudo uma boa pessoa.

Quando durante o almoço de sábado a mãe questionou o filho sobre a sua atitude, este respondeu que tinha sido escolhido para ler um poema de Natal na missa, por ser quem lia melhor na catequese. Só que o padre assim que soube, disse à catequista que quem ia ler o poema era o neto do senhor Ferreira, o homem mais rico e importante da aldeia. 

Para que não restassem dúvidas sobre a sua posição, fez uma pergunta à mãe, que a deixou sem palavras: «Se Deus é assim tão bom, porque razão quer que sejamos pobres e não tenhamos presentes de Natal?»

O óleo é de Derek Gollahen.

quinta-feira, dezembro 22, 2011

Estrangeiro? Não Obrigado. Quanto Muito Diferente.


Não é o que estão a pensar, não é um nega ao nosso primeiro-ministro, que está sempre a pensar no bem-estar dos portugueses, até os aconselha a emigrarem, especialmente professores, para o reino do Eduardo dos Santos.

Chamaram-me "estrangeiro", por já ter as prendas de Natal compradas a uma série de dias, escapando às filas intermináveis nas estradas que vão desaguar nos centros comerciais, sem falar das no interior das lojas.

Só no centro da cidade de Almada é que não se nota a correria atrás dos últimos presentes.

Isto não é de modo nenhum uma critica às pessoas que inundam as grandes superfícies atrás das últimas oportunidades. Percebo-as melhor que há um ano. No meio de tanta indefinição, aproveitam enquanto ainda há dinheiro...

O óleo é de Andrezej Gudanski.

quarta-feira, dezembro 21, 2011

Podias Estar à Minha Espera



Quando entro já lá estas, sentada sozinha na tua mesa.

Olhamos-nos como se disséssemos bom dia sem palavras.

Pouco tempo depois olhas para o relógio e vais à tua vida.

O mais curioso é que nunca te tento dar uma vida, arranjar-te um emprego ou encontrar-te uma rua.

Prefiro que sejas a mulher sentada, que espera que eu chegue ao café, para depois partir...

O óleo é de Katarzina Rzontkonska.

segunda-feira, dezembro 19, 2011

«Ó Escola!»


Há anos que não ouvia a expressão, «ó escola!». Quando me virei estava longe de pensar que era alguém a meter-se comigo. 

Quem passou pela Marinha conhece bem esta expressão, utilizada entre camaradas, normalmente dos mais antigos para os mais modernos.

Sim, camaradas. Por lá colegas eram as meninas oferecidas das ruelas viciosas e dos bares manhosos, que proliferavam por uma outra Lisboa, distante da dos nossos dias.

Era um antigo companheiro, que não via há mais de quinze anos. Falámos um pouco e despedimos-nos. Quando ele se afastou senti que aquele conhecimento era quase de outra vida, por termos actualmente tão pouca coisa em comum.

Às vezes pensamos que mudámos pouco, mas felizmente há sempre um ou outro episódio que nos prova o contrário...

O óleo é de Adam Pekalski.

domingo, dezembro 18, 2011

Os Sapatos Amarelos


Achei curioso encontrar um par de sapatos amarelos, de senhora, em cima de um "caixote" do lixo, de uma das ruas secundárias de Almada.

Como tinha a máquina comigo, aproveitei a oportunidade e registei o momento, já a pensar numa "posta", que podia ser sobre qualquer coisa, até sobre uma "cinderela" qualquer, que passasse por ali, achasse graça ao amarelo dos sapatos (confesso que me lembrei do ferrari amarelo da canção, tal como do famoso porsche amarelo do Futre).

A proximidade do Natal também tem destas coisas...

sábado, dezembro 17, 2011

Tempo da Solidariedadezinha


Irrita-me este tempo da "solidariedadezinha", dos fulanos que aparecem orgulhosos na televisão, ufanos por  uma vez por ano se lembrarem que existem pobrezinhos e gente sem abrigo. São tão queridos, que até são capazes de vestir um aventalzinho e servir-lhes uma refeição.

Como deve ser bom pensar que dos 365 dias, um apenas, é suficiente para alegrar os "pobrezinhos" e para lhes fazer sentir que afinal deus existe...

O óleo é de Peter Smets.

sexta-feira, dezembro 16, 2011

No Tempo em que Éramos Quase Pobres...


No tempo em que éramos quase pobres, tinha poucos amigos da minha idade com carro.

Aos vinte e muitos poucos anos recordo que boa parte dos amigos da "borga", com quem me aventurava na noite, eram todos ligeiramente mais velhos que eu.

Estou a falar da primeira metade dos anos oitenta. Há quase trinta anos...

Dentro da noite, conhecíamos alguns mulheres, quase "aves nocturnas", que também escolhiam a quinta-feira como espaço de diversão, escapando às enchentes do fim de semana.

Como ninguém tinha carro e gostávamos mais de gastar dinheiro em cerveja que em táxis, esperávamos quase sempre pelo primeiro barco da manhã.

Nem sempre estávamos em bom estado, mas como éramos jovens, não custava nada fazer uma directa. O quase ligeiro peso dos olhos era coisa pouca, mesmo quando com mais uns "quilos" depois do almoço...

Esperávamos muitas vezes o barco à beira-mar, a olhar o rio com a neblina matinal, quase sempre divertidos e sem esperar que aparecesse ele rei dom Sebastião, como neste óleo de Tim Etiel.

quinta-feira, dezembro 15, 2011

A Linha do Oeste


O fim anunciado da Linha do Oeste foi tema de conversa, com uma amiga, que curiosamente está ligada ao PSD.

A conversa estava a correr bem enquanto recordámos as várias viagens que fizemos juntos com outros amigos comuns e passámos ao lado das coisas sérias. O problema foi quando eu coloquei o dedo na ferida e culpei este governo de querer poupar onde não pode e de estar apostado em destruir o melhor transporte do mundo.

O que achei mais engraçado foi ela aproveitar a deixa para culpar o PS desta e de outras medidas. Sorri e abanei a cabeça, dizendo meio a brincar: «senhor perdoai-lhes, não sabem o que fazem nem o que dizem». O que eu fui fazer e dizer. Não achou piada e até foi capaz de me deixar a falar sozinho. Pensava que ela já não tinha idade para fazer uma  cena destas, mas estava enganado...

Provavelmente, daqui a um ano esta gente ainda anda a culpar o "socras", de todos os males deste país.

O óleo é de Fábio Hurtado.

terça-feira, dezembro 13, 2011

As Cavacas e os Cheiros da Mercearia dos Primos


Quando era pequenote devia abusar da familiaridade dos primos que tinham uma mercearia e um café em Salir de Matos. Acho que o café do primo Zé foi mesmo o primeiro das redondezas. Enchia-se de gente aos domingos à tarde, que chegavam das aldeias vizinhas, montados em motorizadas ruidosas, as famosas "zundapps", "famels", "sachs V5" e "casais".


Mas havia dois sitios ainda melhores, um era a fábrica de cavacas das Caldas deles, onde eu e o meu irmão nos enchiamos de açúcar, quando nos autorizavam a "rapar" os tachos. O outro era a mercearia da prima Ermelinda, onde se podia sentir o cheiro do café e das bolachas maria e de baunilha, vendidas avulsas...


O óleo é de Bernard Safran.

segunda-feira, dezembro 12, 2011

«Não achas estranho, trabalhares com três gajos com nome de mulher?»


Há pormenores que achamos tão normais, que só reparamos neles quando alguém nos chama a atenção.


Trabalhei durante quase quatro anos numa secção em que três dos meus colegas tinham nome de mulher. Não sei porquê, mas raramente nos tratávamos pelos nomes próprios. Talvez fossem resquícios da vida escolar ou militar, ou apenas hábitos herdados desses lugares onde trabalham quase só homens.

Foi por isso que fiquei quase de boca aberta quando o Silvestre me perguntou: «não achas estranho, trabalhares com três gajos com nome de mulher?» Só mesmo ele, tão distraído com as coisas importantes, era capaz de reparar numa minudência dessas.

Claro que não era estranho, eu diria que se tratava de uma mera casualidade que os meus colegas se chamassem Graça, Rosário e Paula. Se não fosse o palerma do Silvestre, capaz de tropeçar numa pedra ou meter os pés numa poça, nunca repararia nesse pormenor...

Sei que lhe disse qualquer coisa do género: «e se fosses ver se lá fora está a chover?»

O óleo é de Anna Magill.

sexta-feira, dezembro 09, 2011

As Benditas Mulheres


Eram pouco mais novas que eu. Escutava-as com e sem atenção, enquanto fingia que corrigia a revista, quase a ir para a tipografia. Estar mais ou menos atento dependia sobretudo das suas palavras, do que eram capaz de dizer sobre o mundo dos homens.

As mulheres são muito menos púdicas a falar de nós, que nós delas. Acho que não somos tanto de catalogar, de impor qualidades e defeitos, com tanta objectividade e pertinência.

Lembrei-me do jantar de amigos da quarta-feira, em que raramente apareceram mulheres à mesa. Eu sei que elas na infância e adolescência nunca têm papeis muito vincados nas nossas vidas. Era mais fácil sairmos à noite aventura com amigos, que fazer o "passeio dos tristes" com as nossas namoradas, até porque há trinta e alguns anos não haviam todas estas liberdades de hoje...

O óleo é de Evgeniy Monahov.

quarta-feira, dezembro 07, 2011

Lias, Bebias, Sorrias...


Estive algum tempo a olhar-te.


Lias, bebias e sorrias, debaixo dos teus óculos escuros, como se estivesses na tua ilha, sem ninguém à tua volta.

Olhava-te com admiração, indeciso. Não sabia se deveria acreditar na tua capacidade de abstração ou na tua qualidade de actriz.

Lembrei-me da Laura, que gosta tanto de escrever e de representar...

O óleo é de Jerone Garth Parker.

segunda-feira, dezembro 05, 2011

«Que bom voltar a sentir-me comunista.»


Perguntei por ti e disseram-me que não aparecias por ali há meses.


Fiquei no mínimo intrigado, até por aquela esplanada ser um dos teus "escritórios" favoritos.

Telefonei-te e disse que estava por ali, à tua espera.

Bonacheirão como de costume, disseste que já estavas a caminho. Pelo meio ainda explicaste que a renda do escritório era demasiado alta e resolveste alugar um mais pequenote e com uma preço mais acessível.

Apareceste dez minutos depois, com o teu estilo inconfundível de "parte pratos". Começaste logo por pedir um cigarro a um conhecido, confessando que já não compravas tabaco há mais de um mês, "vendendo" à malta a quem cravavas um "paivante" a treta de que andavas a tentar deixar de fumar.

Sempre a sorrir, disseste que estavas acampado mesmo em cima da crise, uma "puta" alemã ou francesa, que te obrigou a mudar de vida. Um pouco mais a sério lá explicaste que o teu ordenado curto de actor fora reduzido para metade, assim como o de todos os elementos da companhia. E com o "escritor" a mandar na cultura as coisas só têm tendência a piorar...

O que antes era impossível deixou de ser, até confessaste estar preparado para fazer o papel de padre ou sacristão nos "morangos com açúcar".

Eu sei que somos bons a tirar partido das coisas más, por isso nem estranhei que dissesses que uma das coisas boas destes tempos foi teres voltado a viver em "comunidade". Beber café e almoçar e jantar no teatro passou a ser natural, a malta até improvisou uma copa e uma cozinha, onde cada um pode exibir os dotes culinários. E bebedeiras, agora só em casa ou nas dos amigos.

Gostei muito da tua expressão, carregada de ironia: «que bom voltar a sentir-me comunista.»

O óleo é de Hans Leijerzapf.

domingo, dezembro 04, 2011

Quando a Diferença não Faz Grande Diferença


O antigo futebolista brasileiro, Sócrates, deixou-nos hoje, com apenas 57 anos, vitima de uma intoxicação, que se tornou fatal devido ao seu passado de abuso do consumo de álcool.


Foi um jogador diferente, a par da sua carreira futebolista, formou-se em medicina, que penso nunca ter exercido, pois quando abandonou o futebol colocou a sua popularidade ao serviço da democracia e dos mais desfavorecidos, envolvendo-se no mundo da política brasileira.

Outro aspecto curioso, foi ter partido no dia em que o seu clube do coração, o Corinthians, se sagrou Pentacampeão Brasileiro.

Escolhi este título, porque Sócrates tinha tudo para não morrer desta forma, precocemente. Não foi um dos muitos futebolistas, que enquanto jogou, apenas pensou no presente (gastando boa parte do seu ordenado milionário em carros e mulheres velozes). Além da formação superior, era um exemplo de carácter e coragem, dentro e fora dos relvados.

sábado, dezembro 03, 2011

As Fotos de Família


Passei a pente fino os três envelopes de fotografias e não encontrei uma única sem pessoas.


Uma amiga herdara-as dos avós e nunca lhes mexera, confessou-me que lhe fazia mal ver todas aquelas pessoas que conhecera e que já não estavam cá. Mantinha-as na mesma caixa de madeira, penso que de charutos, que lhe tinha sido entregue como herança.

Como sabia que eu gostava de fotografias e tinha interesse pela história local, emprestou-mas e deu-me carta verde para digitalizar as que quisesse.

Acabei por digitalizar meia-dúzia delas, apenas pela sua profundidade, pelo que se via por detrás das pessoas.

Para a maior parte das pessoas as máquinas fotográficas, apenas serviam para retratar gentes. Havia mesmo quem fosse periodicamente ao fotógrafo, tirar fotografias com outra qualidade e dimensão, para oferecer e também para ficarem registadas nos álbuns de família.

O óleo é de António Doughi.

quinta-feira, dezembro 01, 2011

Da Independência à Dependência


Hoje é um dia especial, por duas razões importantes: uma nacional, outra mundial.


Provavelmente foi o último Primeiro de Dezembro que comemorámos como feriado. Se já pouca gente liga ao dia da nossa Restauração, no já longínquo ano de 1640, em que nos conseguimos ver livres dos espanhóis, daqui para a frente ainda cairá mais no esquecimento.

Também se comemora o Dia Mundial da Luta Contra a Sida, a doença mais traiçoeira e cobarde do nosso tempo. Infelizmente ainda não se descobriu a cura, mas graças aos avanços da medicina, tem sido possível melhorar a qualidade de vida dos doentes, permitindo que tenham uma vida quase normal.

O preconceito também tem diminuido. A Sida deixou de ser a doença das minorias, para passar a ser a doença dos descuidados e distraídos...

O óleo é de Vijender Sharma.

quarta-feira, novembro 30, 2011

Quando a Realidade Finta a Ficção


O episódio de ontem, na qual o administrador da Caixa Geral de Depósitos foi vitima de "carjaking", quase que coincide com o argumento do filme do meu amigo, de quem vos falei na última "posta".


Ele criou uma situação em que à mesma hora são raptados um ministro, um banqueiro e um empresário, cópias quase fiéis daqueles que pensam ser "donos" do país, e a quem são pedidos milhões de resgate.

E tudo isto começou com um desafio colocado pela personagem principal, um professor desempregado, que se viu obrigado a viver de expedientes, próximos do mundo da criminalidade. Duas semanas foram suficientes para se adaptar e sentir algum gozo nas brincadeiras do gato e do rato, com as polícias. Como ele sempre achou miseráveis os assaltos a velhinhas e a pequenos comerciantes de bairro, começou a questionar os bandidos de segunda e terceira que vai conhecendo, perguntando-lhes porque arriscam tanto por apenas umas dezenas ou centenas de euros, em de vez de correrem atrás dos milhões.

Atónicos e irritados de início, acabam a dar razão ao professor, que também começa a dar aulas a quem vive do lado de fora da lei.

Depois deste exemplo verídico, em que a realidade resolve fintar a ficção, é caso para dizer: «quem tem dinheiro no nosso país que se cuide, ou arranje uma dúzia de guarda-costas».

O óleo é de Mery Sales.

terça-feira, novembro 29, 2011

O Filme da Tua Vida


Encontrámos-nos na Baixa, ocasionalmente, depois de nos olharmos percebemos que éramos mesmo nós. Trocámos sorrisos e um abraço forte, que soube bem por tudo, até para esquecermos o frio do meio da tarde. Depois agarraste-me o braço e levaste-me para dentro de um café, onde ficámos na conversa mais de duas horas (cancelei uma reunião de trabalho por telemóvel, apenas com a desculpa que tinha encontrado um amigo e estava no "Nicola" a matar saudades, sem falar de doenças, filhos, filas, avarias, etc, as desculpas que costumo receber...).


Estavas mais magro e também mais calmo.

Falámos de quase tudo, de política, de futebol - nem o "galinheiro" da Luz escapou...-, de música, de livros, de filmes, e de nós claro. Quiseste saber coisas lá de casa, dos miúdos que estão quase grandes, da loura rebelde. Como sempre, falaste pouco de ti. Perguntei pela Clara, a tua fonte de preocupações. Não te alongaste muito, apenas lamentaste ter sido um péssimo pai, sempre entretido com a gente de fora, seguindo os maus exemplos do teu pai. Quando falas dele, continuas a resumir tudo a uma frase, «era um homem extraordinário». Esqueces que era um reaccionário, apaixonado pelo dinheiro e pelas mulheres dos outros. Agradeces que ele, ao contrário de tantos progenitores, nunca quisesse que fosses a sua cópia, preferia que fosses um artista, de qualquer coisa. Foi por isso que te pagou estudos, cursos, viagens, e até os primeiros filmes, que quase ninguém viu. Nem sequer estranhou que te tornasses comunista. Mas disse-te uma vez, que para os burgueses era muito fácil gostar de Marx ou de Lenine, mais difícil era ser pobre e comunista. Nunca o esqueceste, foi por isso que também nunca deixaste de ajudar aqueles que precisavam.

É também por isso que estás a realizar aquele que deve ser o teu último filme, demasiado autobiográfico, que pode ter vários títulos, até a banalidade que não está guardada apenas para os operários da Margem Sul, que nunca quiseram enriquecer nem se tornaram funcionários das autarquias da CDU, "Comunista Até ao Fim".

Não sabes se vais acabar o filme, nem tão pouco se isso será importante. Não compreendes este mundo, que parece sem rumo, «refém de gente corrupta que nada em dinheiro». Nem compreendes estes desempregados que não se revoltam contra os patrões nem contra o estado.

Contaste-me que no teu filme acontece precisamente o contrário, há um "robin dos bosques" urbano, que se torna bom a transformar ricos em pobres e pobres em ricos... Filme que tem ainda outro contra, não fala de princesas nem de príncipes.

Quando saímos do café já era noite. Antes de nos despedirmos no coração da cidade, com um novo abraço, combinámos almoçar em Cacilhas, um dia destes.

O óleo é de Brent Lynch.

domingo, novembro 27, 2011

Porque Hoje é Dia de Fados...

A Nossa Canção

O fado é uma mistura de amor,
Saudade, sonho e muita emoção,
Liberta o sentimento, a dor,
Que inunda as estradas da solidão.

É a canção dos saudosistas,
Da gente que parte, com e sem calma,
Que faz eco às vozes fadistas,
Que cantam o que lhes vai na alma...

Não conseguem esquecer o país
As gentes e os lugares amados.
Mesmo que naveguem num mar feliz,
Jamais esquecem os dias passados...

Deixam escapar uma lágrima de tristeza
Presos a um sonho quase encantado,
Enquanto cantam com beleza,
A Canção da nossa alma, o fado.

Poema escrito por mim, que faz parte do caderno de poemas, "Palavras ao Tejo".

sábado, novembro 26, 2011

O Essencial em Segundo Plano


Na última "posta" excedi-me em palavras e como deixei o essencial para o fim, nem todos os meus leitores lá chegaram.


É por essa razão que considero o comentário da Carol precioso, pois trouxe ao de cima uma "falsidade", que tem sido usada durante anos, à qual também dei relevo, propositadamente.

Quando a minha amiga falou que o pior pesadelo da vizinha eram as derrotas do Benfica, expliquei-lhe que se isso fosse verdade, a senhora só devia levar pancada meia dúzia de vezes por ano, porque o clube da Luz era o clube que mais vitórias alcançava nesse tempo, no nosso país.

Penso que é tão errado associar os bons chefes de família ao Benfica, como os agressores dos casos de violência doméstica. Deve-se associar sim, ao futebol, e a toda a alienação que provoca junto dos seus adeptos.

Muito triste é perceber que as pessoas têm uma vida tão pequena, que para se sentirem vencedores, têm de viver as vitórias e as derrotas dos seus clubes como se fossem suas, sejam elas do Benfica, do Sporting, do Porto ou do Cascalheira Futebol Clube. Infelizmente esta "cegueira" escolhe sempre inocentes como vitimas...

O óleo é de Luís de la Fuente.

sexta-feira, novembro 25, 2011

Quando Ser Benfiquista ou Sportinguista Acaba por Ser o Menos Importante...


Não estou aqui a falar do Benfica, por amanhã ser dia de "derby" na Luz, nem tão pouco por ter decidido ser benfiquista numa família de sportinguistas.


Até porque já devia ser adolescente quando soube o porquê do sportinguismo da minha mãe. A história sobre o sportinguismo do meu pai ainda é mais recente. Como nunca lhe perguntei, ele também nunca me contou essa e tantas outras coisas que ficaram por contar sobre a sua vida. Há pouco tempo tive uma conversa deliciosa com o meu tio Valentim, em que ele desfiou um bom novelo de memórias sobre a sua infância e juventude. Fiquei a saber muitas coisas sobre o meu pai, o seu irmão mais velho que o trouxe para a Capital e foi tão importante na sua vida. Foi também no decorrer desta conversa que soube a razão do seu sportinguismo.

O meu pai e os irmãos nasceram na Beira Baixa, numa das muitas aldeia perdidas do interior, distantes do "mundo". Um dia apareceu lá na aldeia um tio, que trazia nos bolsos uns cromos do Sporting da Covilhã, que estava nessa altura na primeira divisão (nos anos quarenta do século passado), e acabou por os oferecer aos sobrinhos. Aquelas imagens a cores foram uma autêntica novidade para quem nunca saíra dali e pouco sabia sobre futebol. A alegria deles foi tanta que nunca mais deixaram de gostar das camisas listradas a verde e branco do Sporting da Covilhã e do de Portugal.

A minha mãe antes de ser sportinguista, começou por ser anti-benfiquista, porque durante a passagem do Caldas pela primeira divisão (nos anos cinquenta...), numa das visitas do Benfica este ficou alojado no Hotel Lisbonense e os seus craques resolveram levar da Cidade uns "recuerdos" sem avisar a gerência, tais como talheres, toalhas, copos, etc. Na altura isto foi um escândalo local, e quem não gostava da equipa da Luz ainda ficou a gostar menos, como foi o caso da minha mãe.

A outra razão para não ser benfiquista é muito mais arrepiante e foi-me contada há mais de vinte anos por uma amiga, que por uma razão qualquer me explicou porque não gostava do Benfica.

Quando ainda não se falava de violência doméstica, era costume um vizinho agredir a mulher e os filhos, especialmente quando o Benfica perdia, mesmo na casa ao lado dela. Toda a vizinhança ouvia a gritaria, o barulho de coisas a partirem-se e os choros, ao qual se seguia sempre um silêncio sepulcral. Ela também chorava muitas vezes no seu quarto, de raiva, por ninguém entrar naquela casa e parar aquele animal. Tinha catorze anos quando se mudou para o centro da cidade e deixou de assistir a este espectáculo degradante, mas nunca o esqueceu. Nem nunca conseguiu perdoar ao Benfica, mesmo que fosse apenas um elemento secundário em toda a história.

Naturalmente, não deixei de ser benfiquista por estas duas histórias. Na época ainda utilizei um argumento para defender o Benfica, mas nada de muito relevante para a história. Importante é dizer que tenho muita vergonha de todos os cobardes que aproveitam as derrotas e as vitórias de um desporto qualquer - que devia ser apenas isso -, para deitarem fora a raiva e a frustração de uma vida falhada, no corpo de inocentes, que se calam tempo demais, quase sempre por amor...

A fotografia é de Maurice Tabard.

quarta-feira, novembro 23, 2011

Amanhã Faço Greve


Só tenho de estar solidário, especialmente com as pessoas com menos recursos da sociedade, que são sempre as mais atingidas pela "crise".

O desemprego está a destruir vidas e a provocar dramas impensáveis, perante a "cegueira" habitual dos patrões.

A imagem mostra-nos uma greve de varinas na Capital, em 1912.

Adenda: esqueci-me de registar o principal, estou frontalmente contra as medidas deste governo, completamente dominado pelos poderes economico e financeiro e preparado para privatizar tudo o que possa ser lucrativo para os amigos.

terça-feira, novembro 22, 2011

Histórias Absurdas


Às vezes penso que uma das coisas mais absurdas dessa coisa que chamamos amor, é sermos atraídos e apaixonarmos-nos por pessoas completamente diferentes de nós. As diferenças são quase daquelas que fazem "faísca", e mesmo assim, continuamos na nossa luta diária.


Sei que gostamos de desafios, mas isso não explica tudo...

Nem é preciso, embora nós tenhamos a mania de arranjar explicações para tudo.

O óleo é de Mark Keller.

segunda-feira, novembro 21, 2011

Fugir do Escuro


Não me apeteceu sorrir, porque não era uma piada.

A senhora com mais de setenta anos contou-nos que tinha medo do escuro. Depois de se tornar mulher, escondeu-o, primeiro do marido, depois dos filhos. Fingiu muitas vezes que a escuridão já não a assustava. Como quase todas as mulheres ficou viúva e voltou a sentir a solidão e o medo da infãncia. Hoje só consegue adormecer com o candeeiro da mesa de cabeceira aceso.


Foi por isso que confessou, que o pior que lhe podiam tirar, nestes tempos de crise, era a luz eléctrica. Olhámos uns para os outros, sem saber o que dizer.


Ninguém sorriu, bastava olharmos a senhora para percebermos que que não era nenhuma piada...


O óleo é de Peter Taylor Quidley.

domingo, novembro 20, 2011

A Coragem de Continuar a Fazer dos Domingos um Dia Diferente


A vida incaracteristica que enfrentamos nas cidades fez com os domingos perdessem a importância social que tiveram durante anos. É mais fácil a uma boa parte das pessoas ficar de pijama em casa, pelo menos até ao almoço, que levantarem-se antes do meio da manhã, tomarem um banho apetecido e vestir uma roupa diferente, especializada para os dias que não são dias.


É por isso que é de louvar a atitude dos país da Carolina, que ao domingo nunca ficam em casa. Ele não têm paciência para participar no culto católico e ouvir as palavras do padre da freguesia, mas espera a esposa à saída da igreja, umas vezes a pé, outras já com carro a brilhar, preparado para ir a qualquer lugar, escapando da vulgaridade dos dias.

Não há qualquer ironia nas minhas palavras, acho louvável a acção de todos aqueles que conseguem fazer dos domingos um dia diferente, por mais estranhos que possam parecer. O pai da Carolina, por exemplo, tem um hábito que com o decorrer do tempo fez com que fosse olhado de lado pela vizinhança e motivo de conversa do café mais próximo, porque é também ao domingo de manhã que pega no trompete e toca uns acordes, a reviver os tempos em que foi músico da filarmónica da Incrível.

Às vezes passo pela rua e ouço os seus solos entre o jazz e o blues, que se escapam pela janela. Não é nada desagradável, para mim claro, que estou a passar na rua...

Aliás, a única coisa que me irrita um pouco (aqui estou a favorecer a questão...) nestes amantes do domingo, é a sua capacidade de transformarem as estradas portuguesas em autênticas romarias, fazendo com que andar de carro ao fim de semana, seja uma aventura no mínimo surpreendente...

O óleo é de Ton Pinch.

sexta-feira, novembro 18, 2011

Não Sei Porquê...


Não sei porquê, mas sempre preferi fotografar lugares sem gente. É, sempre preferi os candeeiros às pessoas.


Em parte isso deve-se à minha falta de jeito para explorar a componente humana, sinto sempre que estão a mais na fotografia.

Por outro lado também tenho pouca paciência para ficar à espera do "passarinho". E a paciência é uma qualidade básica para se ser bom fotógrafo...

Esperar é mais que uma virtude para quem tira retratos, muitas vezes é o segredo de uma fotografia única. Tanto se pode ficar à espera do Sol, como da Sombra, ou até de um sorriso, ou de uma distracção.

Embora acredite muito no "click" de momento, sei que a sorte é uma coisa tramada, dá sempre um bocado de trabalho...

quinta-feira, novembro 17, 2011

E se Pela Boca Morre o Peixe?


Embora esteja ligado à literatura de várias maneiras, inclusive como criador, acho uma vergonha o que se está a fazer ao mundo das artes, a quem este governo está a retirar as poucas migalhas que tinham para sobreviver. Enquanto tira de um lado, deixa perceber que a literatura é a menina dos olhos deste governo, não fosse o secretário de estado escritor.


O aumento do IVA nos bilhetes para espectáculos de teatro, música ou cinema é um bom exemplo. A demissão de Diogo Infante do Teatro Nacional D. Maria II (depois de ter confrontado o governo numa entrevista dada ao "Expresso") é outro. Só nos livros tudo ficou igual.

Parece que a arte de talma está longe das preferências artísticas de Francisco José Viegas e o Joaquim Benite ainda vai mudar de opinião, em relação ao que disse há meses ao "I". É que há culturas e culturas...

Não é por acaso, que há milhares de anos que a vida nos ensina que «pela boca morre o peixe».

quarta-feira, novembro 16, 2011

«Esta gente já não se casa, vive junta.»


Fingia mais uma vez que lia o jornal porque era impossível passar ao lado da conversa das duas mulheres, que deviam rondar os sessenta anos e estavam sentadas à minha frente no cacilheiro.
Uma delas lastimava-se à amiga que agora ninguém se casava. Viviam juntos enquanto durava o amor, quando ele acabava, faziam as malas e voltavam para a casa dos pais, dos irmãos ou dos primos.

A outra concordou: «esta gente já não se casa, vive junta». E com um sorriso nos lábios, preso às nuvens que andavam às voltas lá fora, disse que há mais de vinte anos que não ia a um casamento. Depois falou da sua experiência pessoal, dos seus dois filhos que nunca que casaram. Um estava junto e outro ainda vivia lá por casa.


O mais curioso foi nenhuma delas defender os jovens, falar do desemprego, da dificuldade em alugar e comprar casa, dos obstáculos cada vez maiores para se formar uma família. Também nenhuma falou neste tempo que parece não ter espaço para chegar a netos...


Ficaram ambas a recordar os últimos casamentos onde estiveram presentes, para acabarem a falar dos seus, contando os pormenores decorativos dos seus vestido de noiva, brancos como mandava a boa tradição virginal...


Continuei a fingir que lia o jornal, rendido ao Cristiano Ronaldo e companheiros, que tinham goleado a Bósnia, que demonstrara dificuldades em jogar em relvados normais. Até que o cacilheiro chegou ao cais...


O óleo é de Juan Moreno Aguada.

segunda-feira, novembro 14, 2011

O Tempo, Curto e Longo...



Devia compreender mais o Carlos, por agora depois de velho, andar a passear o seu cão pela cidade. Sei que o passeio é apenas mais uma forma de ele lhe agradecer a companhia e a amizade, que tanto o ajudam a "enganar" a solidão.

De manhã explicou-me como o tempo pode ser estranho e diferente. Sete anos tanto podem parecer cem anos como estarem demasiado próximos, soarem a quase ontem. Sabe que nunca vai esquecer a companheira, que vai ser assim até ao fim.

O pior de tudo são mesmo as datas que estão gravadas no seu coração: a primeira vez que a viu, o casamento, e sobretudo o seu adeus, no fatídico dia 12 de Novembro...


Só tenho medo que ele à medida que se vá afeiçoando ao seu fiel amigo, vá desistindo das pessoas.


O óleo é de Chris Chapman.

sábado, novembro 12, 2011

Nunca vi Ministros tão Arrogantes, Burros e Teimosos


Embora gostasse que estes ministros estivessem certos, estou convencido que daqui a um ano estaremos numa situação económica pior que a dos nossos dias. Com a agravante de nesta caminhada de "certezas", além de nos terem subtraído os subsídios de férias e natal, destruíram o serviço nacional de saúde, deram cabo da rede de transportes públicos e privatizaram bens essenciais como a água.


A última descoberta destas "sapiências" foi acabar com o desconto de 50% para os passes das crianças, jovens e terceira idade. É uma medida de tal forma estúpida, que em termos práticos, acredito que o seu efeito deverá valer zero para as nossas finanças.

A única coisa que vão conseguir é limitar ainda mais as pessoas de idade, fazendo com que fiquem mais tempos sozinhas em casa, deixando de visitar amigos e familiares, porque para quem tem reformas baixas, uma coisa é pagar vinte cinco euros de passe, outra bem diferente é cinquenta.

É uma pena sermos governados por gente tão arrogante, burra e teimosa, por mais diplomas que tenham pendurados nas paredes.

A fotografia é de Robert Doisneau.

sexta-feira, novembro 11, 2011

São Martinho Histórico


Hoje temos um São Martinho histórico, não pelas castanhas assadas e a água pé, mas sim por esta trilogia dos onzes. Só daqui a um século é que voltaremos a ver o primeiro dos algarismos a ser repetido novamente seis vezes nos calendários.


E se estiverem no Rio, aproveitem para ver esta exposição, "Onze", com onze artistas como manda o figurino.

O Sol habitual deste dia alegre é que anda um pouco escondido (alías o tempo está mais as travessuras do S. Pedro que para os sorrisos do Sol), mas parece que não podemos ter tudo (nunca percebi porquê)...

quinta-feira, novembro 10, 2011

«Vou telefonar para a dona Júlia da SIC!»


Sei que a televisão pode ser quase tudo, por isso não devia estranhar o desabafo daquela senhora de idade na mercearia.


Raramente olho para os programas da manhã e da tarde, o que não me impede de saber que são um lugar onde se exploram cada vez mais as emoções humanas. Para terem matéria para os espectáculos que montam diariamente, os apresentadores lançam convites para quem tem histórias para contar, para aparecer por ali.

Talvez sejam estes convites que tenham a capacidade de transformar a televisão em algo mais importante que um objecto de divertimento, que parece querer funcionar como um "tribunal de justiça" ou uma agência de "cobradores de fraque".

A história da senhora acabou por se juntar à excitação vivida nos últimos dias na escola primária da minha filha, que tem como protagonista um miúdo, penso que autista (dos que foram integrados nas aulas normais para poupar uns euros ao Estado...), que usa a violência, como forma de comunicação. Segundo as histórias que correm nas redondezas é normal bater nos colegas (e até já bateu na professora). Só descobri esta história esta semana quando um grupo de pais ameaçou que ia fechar a escola a cadeado e que a SIC ia estar presente.

Percebi que devia encarar a afirmação da senhora na mercearia, que ia telefonar à dona Júlia da SIC, porque estava farta do deixa andar do senhorio, nada preocupado que lhe chovesse em casa, quase como na rua, com alguma normalidade.

Saí da loja a pensar que só num país estranho, que parece não ter ninguém interessado em resolver os problemas das pessoas, é que a televisão é encarada como uma alternativa mais válida que o recurso aos tribunais ou às forças de segurança...

O óleo é de Berbardien Sternhein.

terça-feira, novembro 08, 2011

Um Dia Para Esquecer


Hoje foi um dia para esquecer. Até a chuva apareceu, para ajudar a "festa".

Quem passou por engano nas estações ou rente ao cais, descobriu muito descontentamento, muitas palavras de ordem, sobretudo contra os funcionários das empresas de transportes fluviais e ferroviários.

As pessoas escolhem sempre os alvos mais fáceis, neste caso os operários, com as greves do costume, porque se sentem particularmente atingidas, pois pagam o passe social (que querem que deixe de ser para todos...) e sentem-se defraudadas. Esquecem por momentos os governantes que usam uma tesoura invisível para cortar "gorduras", que só é guardada quando chegam às suas mordomias e da família, com vários condutores privativos das viaturas que teoricamente são de todos nós. Teoricamente!

A única coisa que sei que ninguém têm dúvidas, é que vamo
s pagar mais e ficar pior servidos de transportes públicos.


Só não vamos descer de autocarro para burro, porque não há por aí "jericos" suficientes para tanta gente...

Mas talvez façamos o contrário da China, trocando o carro pela bicicleta...

O óleo é de Mao Yigang.

segunda-feira, novembro 07, 2011

Nascemos Velhos do Restelo


Olho para a nossa história e sinto que sempre foram mais os que ficaram no cais, que os que partiram nas caravelas. E não foi apenas uma questão de espaço...


Mesmo nos tempos salazarentos, eram mais os que ficavam, condenados à miséria, que aqueles que partiam à aventura para outros países, em busca do que não existia por cá: dinheiro para comprar pedaços de sonhos.

Nem mesmo durante a guerra colonial, se fugia do destino, que podia muito bem acabar além mar. Só uma minoria teve coragem para desertar.

Ainda hoje é assim. É por isso que digo que a maior parte de nós nasceu "velho do restelo".

Felizmente há sempre alguém que parte e tem sucesso, na senda de Vasco da Gama ou de José Mourinho.

Acho que nós, os que ficamos por cá, com o olhar preso ao cais, gostamos muito do chão que pisamos, mesmo quando o vento teima em soprar contra tudo aquilo que é razoável...

O óleo é de Anne Magil.

sábado, novembro 05, 2011

«Sou bom, tão bom, tão bom.»


Se há coisa que me irrita na televisão dos nossos dias, é a auto-promoção que se faz em todos os canais, que começou a ser explorada pela SIC (que ainda continua a ser a maior neste jogo de espelhos...), escandalosamente, desde que começou a entrar pelas nossas casas a dentro.


Não sei se há algum prémio extra para todos os jornalistas que alinham nestes jogos, que olham para a televisão como se estivessem ao espelho a convencerem-se que: «sou bom, tão bom, tão bom.»

Infelizmente esta mania foi passando para outros campos da nossa sociedade, onde é comum ouvirmos discursos ou entrevistas, que não passam de auto-elogios, quase sempre forçados e bacocos.

O nosso presidente da República também é bom nisso. Pelo menos que seja bom em alguma coisa, embora tenha muitas dúvidas de que consiga convencer algum espelho...

sexta-feira, novembro 04, 2011

O Quadro da Sala


O valor das obras de arte sempre foi, e continua a ser, relativo, porque há quadros que têm histórias demasiado fortes, para terem preço.


Era o que se passava com o quadro da sala da casa dos avós da Laura, que me deixava sempre por ali, preso, por alguns segundos, até ela me pegar no braço e dizer, «anda».

Ainda conheci a jovem que estava ali, sentada, no meio do campo, para todo o sempre, a matriarca da família, que nos preparava lanches deliciosos, no intervalo das brincadeiras.

Numa das últimas vezes que estive com a Laura, falei-lhe do quadro. Ela sorriu por eu ainda me lembrar do retrato da avó pintado por um jovem pintor, que nunca se tornou conhecido. Acabou por me dizer que agora estava pendurado na sua sala, depois de ter andado por várias paredes da casa dos pais. Convidou-me para uma visita, para me ver parado, a olhar para a avó, como fazia na infância. Prometeu que desta vez não me puxava o braço e dizia, »anda»...

O óleo é de Prudence Heward.

quarta-feira, novembro 02, 2011

Podia Ser um Filme...


Podia ser uma cena de filme, realizada por um europeu daqueles que gostam de dar voltas ao amor, que o preferem contar de uma forma distorcida, de maneira a que nada pareça bater certo.

Coisas do século passado, em que ainda existia teatro de revista e umas moçoilas boas que eram apelidadas de coristas. Normalmente eram mulheres desinibidas, habituadas a mostrar as melhores partes do corpo nos palcos, cantando e rindo, mas quase sem falas.

Havia um pouco de tudo, mulheres que já tinham ultrapassado os trinta e que viam os sonhos a fugir para longe. Sim, os sonhos de um dia serem as protagonistas de qualquer peça teatral, ou até de um filme. Apenas as jovens que rondavam os vinte anos e que pensavam ter forças para provar que eram mais que um corpo curvilíneo, continuavam a correr atrás dos sonhos.

Tu pertencias a este último grupo, notava-se que tinhas o mundo todo à frente.

Não sei se gostei logo de ti, ou se simplesmente fomos empurrados um para o outro, como costuma acontecer quando se juntam grupos de homens e mulheres, uns conhecidos outros nem por isso.

Sei apenas que é impossível esquecer o que vi no fim da noite, no lado escuro do quarto.

Era tão novo... nunca tinha visto uma mulher a despir-se com tanta naturalidade, sentada na única cadeira do quarto. Cantavas e sorrias de uma forma tão suave, ora olhando para mim, ora para dentro de ti.

E claro, também foste a primeira que vi usar um cinto de ligas.

O óleo é de Paul Laurenzi.

segunda-feira, outubro 31, 2011

Uma Nota de Outras Crises


Hoje descobri uma nota de mil escudos especial, na secretária de um amigo. Quando ele viu que gostei da ideia e do humor, disse que podia ficar com ela, acrescentando que tinha outra em casa.


Não me lembrava daquele tempo, nem do "D. Sá o Sacador".

Quando Sá Carneiro faleceu eu tinha dezassete anos e se havia coisa com a qual não perdia tempo era com a política. Só o fui conhecendo depois, e posso dizer que a história não lhe foi ingrata, não só por ter morrido de uma forma trágica, mas também por respeitar um homem especial, pequeno e corajoso, pouco português, diga-se de passagem.

Viveu um "amor proibido" às claras, com a bonita Snu Abecassis, dando o "peito às balas", contrariando a prática de então: manter o casamento de fachada e dar umas voltas com a amante.

Mas no que era mais admirável, era dar apenas seis meses aos seus ministros para culparem os seus antecessores dos erros cometidos. Também aqui não voltou a ter seguidores. De certeza, que daqui a um ano, os governadores "salvadores da pátria", ainda vão andar por aí a culpar Sócrates e companhia, das suas asneiras...

sábado, outubro 29, 2011

Um Belo Cartaz


Se há um cartaz cheio de bom gosto, é este, que publicita o "Lisbon & Estoril Film Festival", que vai decorrer entre 4 e 13 de Novembro.


Há criatividade, ao mesmo tempo que há suavidade e encanto, movimento, água, sol, ou por uma só palavra, Cinema...

sexta-feira, outubro 28, 2011

Lágrimas Sentidas


Não eras uma chorona, nunca foste a vida inteira.


Era difícil ao quotidiano roubar-te uma lágrima, talvez por teres aprendido desde muito cedo, que chorar não tornava os dias mais agradáveis e felizes.

Tinha de ser um acontecimento muito grave, uma perda importante, para que as lágrimas se soltassem e começassem a descer pelo teu rosto. Rosto que não perdia a beleza, mesmo lavado pelas lágrimas.

Naquela manhã choravas, as lágrimas quase que formavam um rio. Naquela manhã partira a pessoa que amaras mais intensamente, o único homem da tua vida, o companheiro de todas as horas e pai dos teus dois filhos.

Sabias que nada seria como dantes e era isso que te assustava...

O óleo é de Carlos Marijuan.

quarta-feira, outubro 26, 2011

O Outono Não Veio


O Outono, conhecido como a meia estação, este ano não veio, pelo menos com o seu requinte habitual. Não houve espaço sequer para prepararmos as roupas quentes, quanto mais para a nostalgia das folhas caídas...


Embora seja uma estação bonita, com as folhas a pintarem os jardins e os seus caminhos de castanho dourado, sempre a achei triste.

Pior que o Outono, só mesmo o Inverno.

Embora goste da cor cinzenta, não há nada como o céu azul, para começar bem o dia...

terça-feira, outubro 25, 2011

O Dono do Tempo


Sempre senti que o velho Fernando tinha um poder qualquer especial, pela forma como lidava com o tempo.

Talvez fossem resquícios dos muitos anos que passou agarrado aos relógios de todos os tamanhos e feitios.

Claro que ele nunca foi apenas relojoeiro, nem ourives. Todos sabiam que ele era sobretudo um contador de histórias, das boas, daquelas que nos alegravam no final de dia de trabalho. Era por isso que nunca conseguia fechar a loja às 19 horas, ficava sempre mais um bocado, a ver os amigos passarem à sua porta e espreitarem, prontos a contar as novas da Capital, ou a aventura da travessia do rio, quando o Tejo estava mais agitado e se deixava levar pelos ventos e pelas ondas que chegavam do Atlântico e abanavam o Mar da Palha.

Ainda hoje, quase a fazer 88 anos, é praticamente a única pessoa que me conta anedotas, das que me deixam a sorrir...

Ainda bem que o Fernando se dá tão bem com o tempo, que o deixa ficar aqui, para nos fazer sorrir...

O óleo é de Max Ferguson.

domingo, outubro 23, 2011

A Importância da Música


Hoje ao ouvir os concertos do Festival de Bandas da Incrível, lembrei-me de várias coisas, inclusive de uma história real, digna de um filme, e com música.


Durante a guerra colonial, um alferes apaixonado por música clássica, pegou o gosto ao seu pelotão, que primeiro estranhou a sonoridade, mas depois entranhou e interiorizou...

Sempre que chegavam do mato, especialmente quando havia troca de tiros com o inimigo, com baixas de ambos os lados, o alferes ligava o gira-discos e colocava música de Mozart, Beethoven, Bach, Verdi, Mahler ou Wagner, que escutava em silêncio, sentado no chão, com uma cerveja gelada nas mãos.

Os seus homens ao principio riam-se e trocavam piadas e sinais que o alferes estava a ficar "apanhado", mas depois renderam-se e começaram a seguir o mesmo ritual, pegavam numa cerveja e ficavam por ali, a olharem para nenhures, saboreando a música que os conseguia levar para onde queriam, ainda que apenas por breves momentos...

O Manuel nem precisou de ver "Apocalypse now", para sentir a força da "Cavalgada das Valquirias" de Richard Wagner...

Ainda hoje quando anda mais irritadiço, pega num "cêdê", coloca música clássica e parte de viagem. E só regressa depois da "tempestade"...

sábado, outubro 22, 2011

A Curiosidade Humana


Sempre fui muito curioso.


Sempre gostei de "invadir" os sotãos da casa dos avós, cheios de tralha e de malas cheias de histórias...

Como eram lugares espaçosos, havia por ali tantas memórias guardadas dos tios, desde livros, revistas (algumas das quais "destrui", ao recortá-las, na meninice...), fotografias e outros objectos.

Uma das malas mais preciosas para mim, era quase como a desta imagem, de cabedal, e escondia autênticos tesouros. Além de uma máquina fotográfica de fole, haviam também envelopes cheios de fotografias, que eu olhava com satisfação, identificando algumas pessoas, no meio de desconhecidos...

O óleo é de Nadine le Prince.

quinta-feira, outubro 20, 2011

Coisas do Mundo


Sempre que desaparece um ditador, o mundo devia ficar mais livre, justo e fraterno.


Infelizmente, quando olhamos à nossa volta percebemos que nem sempre isso acontece...

O óleo é do almadense Albino Moura, um grande artista em qualquer parte do mundo.