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segunda-feira, outubro 08, 2007

Vindima


É Outono e na aldeia cheira a mosto, um cheiro doce, redondo, farto. Ouve-se, ao longe, o cantar arrastado de uma roga e, na calçada, ecoa o trotar de bestas carregadas de uvas, na azáfama alegre dos últimos dias de sol, para colher o trabalho de um ano, antes das primeiras chuvas que nunca se sabe quando vão cair e já se adivinham para os lados do Monte Airoso.
Pela noite dentro, os lagares enchem-se com a voz ritmada do mandador - esquerdo, direito, esquerdo, direito, tudo a eito, um, dois, esquerdo, direito – marcando a cadência, numa melopeia sonolenta, às vezes intercalada por uma modinha antiga tocada num realejo, se houver tocador á mão.
Vindimas de pobre, sem rogador, nem rancho, nem concertina, nem ferrinhos ou bombo, que conserto desta monta só no Douro, onde o vinho era do fino e valia muito mais.
Quem se lembra das vindimas há-de ter saudades de um copo de mosto, colhido directamente do lagar, doce, perfumado, fresco, e ainda se lembrará da recomendação para o beber com moderação, pois continuava a ferver no estômago.
O vinho que se provava no S. Martinho para lhe adivinhar as qualidades futuras, era o orgulho de cada agricultor, que acreditava que o seu vinho era o melhor vinho do mundo. Para que o confirmassem, a sua pipa estava sempre à disposição de quem quisesse beber um copo e para retribuir esta franqueza, seria ingratidão não dizer bem do vinhito, de preferência com metáforas iniciáticas que os provadores usam para lhe qualificar a cor, o aroma, o sabor e o corpo.
À sua saúde, meu avô, à tua, meu primo!
Nos melhores anos, o vosso vinho, esperto, cheiroso, fresco, foi mesmo o melhor vinho do mundo.
Joaquim Nascimento


quinta-feira, setembro 20, 2007

O Meu Livro da Primeira Classe


No início do ano lectivo fico atento à algazarra que se ouve na proximidade das escolas para conferir se ainda é o mesmo que se ouvia na minha aldeia, quando havia crianças e a escola abria, pontualmente, todos os anos.
Os livros e o material escolar eram então mais escassos, o que me leva a cobiçar as volumosas mochilas, recheadas de livros, de cadernos e de auxiliares pedagógicos que também dei às minhas filhas e que agora vou espreitando nas prateleiras das lojas, com enorme vontade de comprar.
No meu tempo, havia o livro único para cada uma das classes obrigatórias e, para além do livro, tínhamos uma lousa, um ponteiro, um giz, uma pena, um lápis, às vezes meia dúzia de cores, um caderno de linhas, que na primeira classe era de duas, para que as letras saíssem alinhadas e da mesma altura. E uma sacola modesta de serapilheira que transportávamos a tiracolo para ficarmos com as duas mãos livres para correr, para brincar, para lutar. Tudo com parcimónia como era norma, nesse tempo do livro único!
Desde então, guardei na memória o meu Livro da Primeira Classe e procurei-o durante anos, para lhe voltar a encontrar o cheiro, as cores, o tamanho e o toque.
Encontrei-o, finalmente, não uma reprodução qualquer, mas o próprio, o verdadeiro, ele mesmo, já usado, com algumas folhas soltas, mas completo. Nunca mais o vou perder!
Tinham passado mais de cinquenta anos, mas o cheiro ainda lá estava, as figuras de cada página eram-me familiares e ainda sabia de cor grande parte das lições.
Desde então guardo-o com usura e desfolho-o de longe em longe com todo o cuidado, não vá ele desfazer-se, e quem quiser tê-lo nas mãos tem que me dar garantias de que sabe manusear livros preciosos, ou que está disposto a aprender.
Por estes dias voltarei a abrir o meu livro da primeira classe, com a algazarra de crianças em fundo, e não deixarei de conferir se alguma das primeiras letras se apagou ou se alguma figura se escondeu, sem me dizerem nada.

Joaquim Nascimento

domingo, setembro 09, 2007

Carreira da Meda - a Própria!


A personagem principal desta fotografia é a carreira da Meda, o veículo que se vê em segundo plano, com capacidade para transportar uma dúzia de pessoas, a carga pesada no compartimento J e a bagagem no tejadilho a que se acedia por uma escada exterior, onde algumas vezes me dependurei.
Claro que a carreira da Meda, ou a carreira da Viúva, não era a preto e branco e nas suas cores bem combinadas predominava o verde claro que alguns castanhos e outros tantos amarelos sublinhavam.
São visíveis, na retaguarda, as três primeiras letras do nome da firma, “VIUVA CARNEIRO E FILHOS, LDª” e quem me dera poder virá-la de frente para mostrar os cromados do radiador, o distintivo da marca e as tabuletas amovíveis que indicavam o seu destino e o assinalavam como transporte colectivo de passageiros.
O autor desta fotografia foi o Alfredo que, em meados dos anos quarenta, voltou do Brasil com sotaque e uma “kodak” com que fixou para a posteridade esta e outras cenas que procuro recuperar. Eu sou uma das crianças do grupo e a minha mãe diria que sou o mais lindo de todos, mas ela não deixaria de aceitar que o mesmo dissessem dos seus, as outras mães.
Suspeito que nesse dia ninguém chegou, ninguém partiu, só subimos até à paragem para ver passar a carreira, imitando a gente da Vila que todos os dias interrompia o trabalho para a ver chagar à Avenida, assim iludindo o desejo de partir.
Ainda que quiséssemos embarcar não caberíamos todos, mas dou-me conta do desacerto desta palavra com sabor a cais, aqui tão longe do mar!
Pela roupa ligeira que vestíamos seria Verão, talvez domingo, pois tanta gente desocupada àquela hora, só mesmo num domingo o que pode ser confirmado pela roupa que, embora modesta, não era roupa de todos os dias.
Que eram dezasseis horas e trinta minutos da tarde é mais que certo, pois era esta a hora a que a Carreira da Viúva chegava pontualmente aos Pereiros, depois de ter vencido a estrada íngreme, aberta ao sabor das curvas de nível, desde o Douro, lá ao fundo, no Pinhão.
Ao longo da vida, várias vezes revisitei esta fotografia para avivar a memória que dela guardo e da sua circunstância. Obrigado, minha mãe, pelo cuidado com que a guardou durante mais de sessenta anos, para que eu a possa partilhar!
Joaquim Nascimento

quarta-feira, junho 27, 2007

A Fonte da Aldeia


Da varanda da minha casa vejo a “Fonte da Aldeia” como era há 40 anos, uma fonte de mergulho com um negrilho ao lado, uma da faia e uma cerdeira que já lá estavam quando eu nasci.
Vê-se pelo nome que esta é a fonte mais antiga dos Pereiros e a sua água fresca nascida da fraga, a alguns metros de profundidade, terá sido o elemento primordial para fixação dos primeiros moradores. Desde então, com ela se baptizaram gerações de conterrâneos meus, a outros tantos aspergiu, a quase todos lavou a cara e a todos matou a sede, sem que alguma tenha secado.
No S. João, o largo á sua volta era o sítio escolhido para acender o fogo e, nesse fim de Junho, a fonte ainda tinha água suficiente para o banho lustral de quem tinha preguiça de descer ao rio. A fonte e o rio iriam minguar nos meses seguintes e, na fonte, iria nascer apenas um fio de água que era preciso “guardar” até chegar para encher o cântaro, uma pessoa de cada vez, dia e noite, pois era preciosa demais para se desaproveitar.
Esperar a água ou “guardar a vez” era um acto social dos moradores, melhor dizendo, das moradoras, pois essa tarefa cabia às mulheres, na repartição que então vigorava, e a vez de cada uma era assinalada pela ordem do alinhamento dos cântaros no poial e respeitada com o máximo rigor.
Para a fonte convergia o povo e este intervalo na dura faina do campo era aproveitado para conviver, para falar da vida, principalmente da vida alheia e para encontros de namorados que se tocavam discretamente e faziam juras de amor.
Na minha memória, a Fonte da Aldeia ainda é assim, e quem me dera ter uma fotografia antiga para vos mostrar como mudou, depois que alindaram excessivamente e lhe alteraram o traçado.
Terão julgado irrelevante substituir, por novas, as pedras seculares, terão pensado que era inteligente mudar-lhe a entrada, deixando sem sentido as escadas que levavam ao fundo, eliminar-lhe o poial onde se pousava o cântaro antes de o pôr à cabeça, ou substituir-lhe, por betão, as enormes lajes de xisto que lhe serviam de cobertura e guardavam musgo de muitos séculos!
Eu sei que não foi por mal, mas esta não é a Fonte da Aldeia guardada no imaginário dos que partiram e que ali desejam voltar a matar a sede e a saudade, porque ainda acreditam que a sua água será sempre a melhor do Mundo.
Mas será que isto importa, quando se tem água canalizada em casa?!

Mais um texto de Joaquim Nascimento.

segunda-feira, junho 11, 2007

As Estátuas Anónimas


Volto ao “Largo da Memória” para falar de três estátuas anónimas com quem me cruzei na cidade de São Tomé e a quem pedi licença para tirar uma fotografia que não ficou grande coisa.
Reergueram-nas na parada fronteira da fortaleza de S. Sebastião, depois de as apearem pedestais e aqui procuram esquecer dias piores, quando foram desmontadas e içadas para um terraço.
Não é uma ou outra beliscadura que sofreram neste afã, um nariz desfigurado, uma espada de ponta partida, um quadrante avariado, um gibão roto, que as vai pôr de mal consigo ou com os outros.
Sabendo que eram nossas, fez-me impressão não lhes saber seu nome, e essa foi uma boa razão para começar a reunir uma colecção bibliográfica sobre S. Tomé e Príncipe e para me entusiasmar com a sua história.
Hoje sei referenciá-las nos sítios onde as ergueram, sei quem as esculpiu, sei quem representavam e, aproveitando a maré, fiquei a conhecer muitos outros moradores, entre os quais algumas das suas Donas - Ana de Chaves, Simoa Godinha, Violante d’Alva Brandão, Maria Correia - filhas da melhor nobreza da terra, que também mereciam uma estátua. Hei-de evocá-las um outro dia, que hoje é dia dos nossos, cujos nomes vou já revelar.
Se os olharmos de frente, o da esquerda é João de Santarém, descobridor, obra do escultor António Duarte, o do meio é João de Paiva, primeiro povoador, de Joaquim Correia e o da direita é o descobridor Pero Escobar, de Euclides Vaz. Mereciam que alguém lhes afixasse uma pequena etiqueta, como o nome, a morada, e a profissão, para os apresentar, de novo, aos santomenses. Se o vento estivesse de feição, a etiqueta podia ser mais composta, talvez assim:
“Fulano de tal, português, navegador. Venceu o mar desconhecido e o seu medo e aqui chegou em 1470, ou 1471, era quase Natal. Não viu ninguém. Tomou a altura do Sol e seguiu viagem para contar a quem o mandou”.
“João de Paiva português, povoador. Aceitou esta terra de El Rei, para a povoar e cultivar. Foi sesmeiro, mas desconseguiu, que a gente era pouca e as doenças muitas. Morreu na Ilha e quis ser sepultado em Ana Ambó, ouvindo o mar”.
Parece redundante, mas apetece terminar com um aviso a todas as estátuas, sobre a conveniência de trazerem consigo, sempre, um documentos de identificação!

Mais um texto do nosso colaborador Joaquim Nascimento, ilustrado com a escultura de Fernão Mendes Pinto, do Pragal, Almada, do mestre António Duarte, meu conterrâneo.

quarta-feira, maio 30, 2007

Praia dos Pescadores


Agora que os últimos pescadores se transferiram para o moderno “porto de abrigo”, à entrada da marina, Albufeira perdeu boa parte da sua identidade e a gente do mar tem que disputar aos turistas cada metro quadrado de praia, se quiser sentir o calor da areia debaixo dos pés.
O porto de abrigo era uma velha aspiração de classe, ainda Albufeira era uma vila piscatória e o trabalho do mar verdadeiramente duro, os remos, as redes, os barcos, tudo à força de braços. Concretizou-se agora, já os pescadores eram poucos e, aqui que ninguém nos ouve, quando o espaço que ocupavam na praia passou a valer mais do que o pequeno porto construído à boleia da marina que escavaram no vale da Orada para plantar casas nas suas margens, não se envergonhando de terem inutilizado a pequena praia da Baleeira, a preferida da Edite, desde o seu tempo de mocinha.
Na Praia dos Pescadores, os motores já tinham substituído as velas, era o tractor que arrastava os barcos para os pôr em seco, a madeira já se tornara material obsoleto para construir barcos e os seus nomes estavam a apagar-se da proa substituídos por números de matricula, rasurando invocações antigas “Deus me Guie”, “Sempre Veio”, “Vamos à Vida”, “Estrela da Manhã”, ”Maria Cristina”, “N.S.da Orada” obra de pintores “naives” que acrescentavam a estes nomes uma estrela, um peixe estilizado, uma imagem religiosa, uma sereia e arabescos geométricos que tornavam os barcos particularmente belos.
O peixe já não chegava a horas de almoço e a lota tinha-se mudado para um edifício coberto, novas tecnologias e muito gelo, e começava a esquecer-se o antigo ritual que presidia à venda, onde os dedos da mão também falavam e só os iniciados entendiam:
_ “vai-s’a vender vende-se! ‘tá trê’ de fora”. E três dedos da mão esquerda deviam á vista de todos, para mostrar que o preço estava na casa dos duzentos “98, 97, 96, 95...” por aí fora, sempre em sentido decrescente, até se ouvir “chui”, exclamação usada pelo comprador para dar a ordem de compra, cujo preço correspondia ao último número anunciado, neste caso 295 escudos, há quantos anos isto lá vai!
Não há-de tardar muito que um gabinete de imagem, como há tantos no “allgarve”, invente um nome menos proletário para esta praia, a que só os velhos se referirão pelo seu nome de sempre, Praia dos Pescadores.


Mais um texto de Joaquim Nacimento, acompanhado de um quadro de João Vaz.

domingo, maio 20, 2007

Tropa: Memória e Fábula


Este fim de semana vai realizar-se o almoço anual da nossa tropa, ao longo de todo o dia, como se o estômago fosse o mesmo de então e, entretanto, não tivéssemos mudado de dentição.
- Lembras-te, pá ? - Claro que me lembro, então eu podia lá esquecer-me !
E ainda que as memórias já não confiram, é preciso entrar no jogo e dizer que sim, mesmo sabendo que muita coisa foi sendo ajeitada ao longo da vida, para melhorar a nota, para retocar a foto, para espantar o medo.
Só valem as memórias boas, é a primeira regra deste jogo; a segunda é que ninguém se “chiba” à frente da família e vamos pedindo fôlego para jogar o dia inteiro, com um empate no final. A família não estava lá e às más memórias sempre podemos dizer:
- Olha que não, camarada, não foi bem assim e mostraremos um ângulo mais favorável.
Fizemos a tropa em Moçambique, entre 1963 e 1966, uma tropa de paz e de guerra, de riso e choro, de bebedeira e lucidez, de coragem e medo, de vida e morte, e é das suas memórias que falaremos ao longo do dia, com a algazarra de putos felizes na parada do quartel. Se exagerarmos aqui ou ali, não será por mal, nem para prejudicar ninguém, mas quem ouvir de fora há-de ter a generosidade de dar-nos uma razoável taxa de desconto.
- Estás na mesma, pá, parece que não passou um ano por ti ! O “tanas” é que não passou, se me permitem esta moderada linguagem de caserna, claro que passaram, mais por uns do que por outros, que a vida não trata todos da mesma maneira. Então onde ficou o meu cabelo preto e farto ? Onde está a minha resistência antiga ? Onde deixei a minha cintura fina, os meus sessenta e sete quilos de peso, a minha pele lisa, os meus olhos de águia? Onde guardei os meu sonhos desse tempo ?
Mas é bom acreditar e, a esta distância, quem não namorou a rapariga mais linda da vila, quem não os teve no sítio naquela operação difícil, quem não esteve quase a “lerpar” e deu a volta por cima, quem não era o mais “vivaço”, o mais desenrascado, o mais corajoso, o galã da companhia ?
- Claro que eras tu, camarada, mas eu também não te ficava atrás!
Este fim de semana vai realizar-se o almoço anual da nossa tropa e, vencida a inibição inicial de quem passou um ano ou mais sem se ver, voltaremos a ter vinte e dois anos e uma vida inteira à nossa frente.
Se tivermos sorte e o vinho for bom, até podemos terminar o dia em Inhaminga, com uma cerveja no Simões, ou em Vila Cabral, com um churrasco no Planalto e, num lado ou noutro, com uma moça muito bela a nosso lado.

Mais um texto de Joaquim Nascimento...

terça-feira, maio 15, 2007

O Café Bailote


O café Bailote era o verdadeiro Café Central de Albufeira, mesas de tampo de mármore, cadeiras de bunho, bilhar ao meio da sala, café de saco, aguardente de medonho e, mais tarde, a pintura cubista do seu dono, nas paredes.
Era o tempo em que a Vila cabia entre o Rossio e a Praia dos Pescadores e as únicas intervenções salientes eram o túnel de acesso à praia, a colónia de férias da FNAT, quatro pisos em cima da Praia dos Alemães, e o Hotel Sol e Mar encravado na falésia a que comeu mais de cem metros, para ver o mar das janelas. Eram ainda poucas, mas já prometiam!
Mestre Bailote descobriu a pintura, depois dos cinquenta anos e, a partir de então, compôs primorosamente a figura de artista “soixantard”, cabelo comprido, vestuário “casual chic”, ar distraído, pele morena bronzeada, amor em várias línguas e ninguém como ele soube retractar o casario de Albufeira, na simplicidade das suas linhas depuradas à luz velada da noite e, para o conseguir, nunca precisou mais de quatro cores, o azul, o negro, o branco e o ocre, e alguns dos seus tons.
Pessoa de poucas falas e quase sempre alheado do funcionamento do café, onde figurava como o mais chique dos clientes, nunca ousei pedir um café a mestre Bailote que, para isso, lá estava o João, mas perguntei-lhe várias vezes pelos seus quadros que, infelizmente, nunca pude comprar.
Numas férias de Verão soube-se que o Mestre resolvera deixar-nos e, passado algum tempo, o seu café entrou em cruel decadência, até que fechou portas e se deixou entaipar para uma intervenção radical que durou quase uma década.
Reabriu em 2006 como Ristorante Italiano Bailote, assim mesmo, o pé direito por metade, escuro, claustrofóbico, muitos cromados no balcão, mobiliário de plástico e este nome estrangeiro na fachada antes do apelido do velho dono que conservaram talvez por soar a italiano.
Do velho café, para além do apelido, sobraram dois ou três quadros na parede que cada vez menos pessoas saberão relacionar com Mestre, pintor de mérito e pioneiro da hotelaria em Albufeira.
Este texto de Joaquim Nascimento está ilustrado com o óleo "As Pombas" de Picasso.

sábado, maio 05, 2007

O Café da Júlia


O Café da Júlia é um dos raros lugares de Albufeira onde ainda se ouve o falar algarvio, esse linguajar cantado, de tão marcada individualidade que um estranho, só com muito treino, consegue entender e, raramente, falar.
Ir ao café da Júlia, para além da bica e dos jornais diários, permite surpreender algumas conversas entre gente da terra e descobrir que ainda há quem fique marafado com as obras do polis, quem se preocupe com o afluxo turístico, quem saiba se está levante, ou quem se rale com outros pequenos nadas.
Há alguns anos este papel era repartido com o Café Bailote, ali ao lado, mais snobe na sua fisionomia de café central, mesas de tampo de mármore, bilhar ao meio da sala, café de saco, aguardente de medonho, espelhos embaciados e, mais tarde, a pintura cubista do seu proprietário nas paredes. Não resistiu á morte do dono e, depois de uma penosa decadência, fechou para obras, reabrindo como Ristorante, isso mesmo, o pé direito por metade, pouca luz, claustrofóbico, muitos cromados, mobiliário de plástico e dois quadros do Mestre. Ninguém como Bailote soube retractar a luz velada da noite algarvia no seu casario, nas açoteias, nas falésias e no mar, para o que lhe bastavam quatro cores, o ocre, o azul, o negro, o branco e alguns dos seus tons.
No café da Júlia ainda se pode pedir uma bica e beber uma imperial a gosto, leve, gasosa, dois dedos de espuma, à temperatura adequada e, com sorte, até nos podem servir um pires de cadelinhas, ou condelipas, ou lambujinhas, afinal mais três nomes para as conquilhas, abertas num fio de azeite, dois dentes de alho e muitos coentros, um molho que elas se encarregarão de engrossar, largando na frigideira a sua reserva de água e todo o sabor do mar!
Poucos em Albufeira lhe saberão dizer onde fica o café da Júlia, pois este nome é, por assim dizer, uma alcunha do tempo em que a sua proprietária, uma anafada senhora da terra, o dirigia recostada numa cadeira de verga, ainda estas cadeiras se fabricavam em Loulé e a China era um lugar inacessível.
Pergunte pela Pensão Silva e, se tiver sorte, talvez encontre um quarto vago, mesmo no centro da vila, onde se poderá hospedar à maneira antiga, dormida e pensão completa.

Joaquim Nascimento escreveu e dedicou esta prosa à sua cunhada Graciete que foi comensal da Pensão da Júlia durante alguns anos. Eu escolhi o óleo "À Beira Mar" de José Malhoa, que mesmo sendo na Praia das Maças, fica bem neste texto...

quinta-feira, abril 26, 2007

As Árvores da Minha Terra


As árvores da minha terra são os sobreiros, não os raquíticos sobreiros do Alentejo que até os naturais apoucam, chamando-lhes chaparros, mas árvores fortes, altas, imponentes que três homens, ou até mais, teriam dificuldade de abarcar. Conheço um a um cada sobreiro dos Pereiros e sei o ruído que o vento faz na sua copa no Inverno, quando criava o ambiente fantástico para as histórias da minha avó Rosalina.
Duram vidas e vidas, os sobreiros da minha terra, e o do Vale Frechoso já era adulto no tempo do meu avô.
Pelo solstício de Inverno, mandava a tradição que os rapazes cortassem furtivamente uma grande árvore para acenderem uma fogueira enorme no adro da igreja e para esse auto de fé o meu avô recomendava sempre o sobreiro do Vale Frechoso que ficava na extrema da sua propriedade e lhe ensombrava a horta e prometia-lhes vinho à discrição para aquela noite de festa.
Este foi um dos raros sobreiros mal amados dos Pereiros, mas já então era tão corpulento que se tornou impossível abatê-lo o que o salvou de uma morte certa.
A última árvore sacrificada nesta celebração, um sobreiro, ou uma oliveira, já lá vão setenta anos, desencadeou uma forte repressão por parte das autoridades concelhias que chegaram tarde para evitar o abate, mas ameaçaram prender todos os homens, se a queimassem.
Passou o Natal, estava a chegar o Ano Novo e aquele monte de lenha ali estava no meio do adro á espera de destino! E aquela festa que sempre fora dos homens e principalmente dos rapazes, foi então feita pelas mulheres que, sorrateiramente, lhe deitaram o fogo, com a coragem que àqueles faltou.
Terá sido o último ano em que se celebrou, pelo fogo, o prenúncio do crescer dos dias e o sobreiro do Vale Frechoso lá continuou majestoso, espalhando os seus ramos e a sua sombra num raio de muitos metros, parece que não passa um ano por ele, como se diz aos velhos, quando os revemos.
Que a sorte e o deus das árvores proteja os sobreiros dos Pereiros contra as pragas que estão a matar os chaparritos do Alentejo que, embora feios, magrizelas, raquíticos, têm, como os nossos, o direito de viver e de ser felizes.

Mais um texto de Joaquim Nascimento...

quarta-feira, abril 11, 2007

Albufeira


Em Albufeira, se conhecer as ruas estreitas sobre a falésia, pode espreitar o mar e livrar-se do barulho das ruas, do excesso de alguns prédios que lhe tapam a vista e até dos turistas que se atropelam, coitados, por falta de espaço vital. Percorra, então, o que resta da Vila antiga debruçada sobre o mar, olhe a última casa de açoteia e chaminé rendilhada, sente-se num banco ali à mão e contemple o azul até à linha do horizonte, céu e mar, olhe o peneco e a praia e descubra que praia é uma razoável extensão de areia dourada e fina, e não um amontoado de corpos queimando ao sol.
Albufeira está a lidar mal com o seu crescimento que reproduz, inexoravelmente, o modelo de todo o turismo algarvio, onde agora introduziram o golf.
O programa Polis, na vila antiga, tenta corrigir alguns aspectos mais negativos - eles dizem impactos, talvez de tiros - mas o que é mais visível neste esforço inglório feito de poeira e desconforto é a incapacidade de conter os automóveis fora do seu perímetro, a iluminação de boite, o piso de supermercado e, principalmente, o crescimento excessivo das esplanadas em frente dos restaurantes, quando se esperaria que todo este espaço fosse devolvido livre aos cidadãos. E nas suas costas continuam a plantar prédios, modificando o perfil das colinas, ocultando encostas, barrando linhas de água!
Nestes restaurantes-esplanada onde até o pobre frango da Guia teria vergonha de ser apresentado, nunca vai encontrar uns carapauzinhos fritos, como os que a Edite faz e põe na mesa acompanhados de salada fresca que perfuma com com orégãos e de um arroz de tomate malandrinho.
Se for à praça do peixe, ainda os compra, quase a saltar. Regresse a casa, aprenda a amanhá-los, salgue-os com a dose certa de sal grosso, espere que o tomem, passe-os por farinha e frite-os então em óleo bem quente o que, não sendo simples, cabe dentro dos seus dotes culinários e vai ocupar-lhe boa parte da manhã.
Em Albufeira, deve espreitar o mar e, se apurar o ouvido, ainda pode escutar as horas certas batidas pelo relógio da torre, horas laicas pois sino e torre são da Câmara.
Eu costumo contá-las pelos dedos, para não me enganar.
Mais um texto de Joaquim Nascimento, frequentador assíduo de um dos bancos cá do Largo.

quarta-feira, março 28, 2007

A Páscoa na Aldeia


Volto de novo à terra, Doiro acima de comboio, a carreira à minha espera no largo da estação, para me levar até ao planalto, a fiel carreira da Meda que, às dezasseis e trinta, me deixará nos Pereiros.
À chegada será Primavera clara ou quase e eu seria capaz de reconhece-la em qualquer parte do Mundo, pelo perfume das amendoeiras em flor, pelo chilrear dos pássaros, pelo zumbido das abelhas, pela cheiro a terra lavrada, pela simbiose perfeita entre estes cheiros, sons e cores.
Do forno comunitário já sobe o cheiro do pão e, na mesa, a minha mãe tem prontos todos os seus mimos, bola de carne, folar, biscoitos, com que vou matar saudades e fome, logo ao subir da escada.
- Um beijo à avó, minha filha. Olhe como a sua neta está linda, minha mãe !
Amanhã cedo vou à missa como todos os meus conterrâneos, vestirei uma opa vermelha para pegar no pálio na procissão e, com voz afinada, cantarei
aleluia, aleluia,
respondendo às invocações do Abade Celestino, no salmo em que anuncia à Mãe a ressurreição do Filho, afinal o mais sublime desejo de qualquer mãe que há três dias tenha perdido o seu.
À tarde sairá o compasso que vou receber em nossa casa, na companhia de quem quiser entrar para partilhar alegrias, trocar mimos, comungar afectos!
Os sinos repicarão toda a tarde e eu, pelo jeito de tocar, vou identificar quem toca e prestarei homenagem a quem consegue transformar em sinfonia duas notas repetidas,
dlim dlão, dlim, dlão.
Vem daí, João, homem de Deus. Como pediste, as mimosas que conhecemos por acácias, estarão em flor, terás na mesa uma bola de azeite e uma regueifa fresquinha, e, se prometeres que vais, vou rogar a música de Custóias para dar brilho à nossa Páscoa!
Mais um texto de Joaquim Nascimento sobre as nossas tradições ancestrais.

sábado, março 17, 2007

A Minha Escola


A minha escola foi a escola da D. Guilhermina, embora tivesse tido outra professora na primeira classe, a D. Deolinda, de quem recordo , para além da dificuldade das primeiras letras, o ademane de sacudir a sua longa cabeleira, num gesto vedado às mulheres da minha terra que habitualmente tapavam a cabeça com um lenço.
A minha escola funcionava todos os dias, de manhã e de tarde, de segunda a domingo, o primeiro que chegava ia pedir a chave à Senhora, e lá dentro tinha o som de muitas vozes a entoar a tabuada, três vezes um três, três vezes dois seis..., os rios e os seus afluentes, Sabor, Tua, Corgo Tâmega e Sousa... ou as linhas do caminho de ferro, com as suas estações e apeadeiros, pois nesse tempo saber era decorar e a minha escola não ia ficar atrás de qualquer outra.
Nos intervalos, principalmente ao meio-dia, ouvia-se a algazarra das nossas brincadeiras na rua em frente, os esconderilhos, o arco, o pião, o fito, a macaca, a cabra-cega, a bola de trapos pois o recreio da minha escola era toda a aldeia e brincar um acto da mais pura imaginação.
Tinha todas as classes na mesma sala, a minha escola, com a vantagem de ser para ambos os sexos, contrariando a política do “estado novo”, circunstância que me permite recordar, com especial ternura, as raparigas do meu tempo, a Leonor, a Teresa, a Almerinda, a Piedade, a Isabel, a Virgínia, a Adelaide, a Deolinda e outras cujo nome se esfumou na minha memória, embora guarde de cada uma o sorriso breve do seu rosto.
E guardo o cheiro dos livros, só agora me dando conta que não eram os livros, mas o Livro, o Livro da Primeira Classe, o Livro da Segunda Classe, o Livro de Leitura da Terceira Classe.
Há uns anos consegui comprá-los num alfarrabista e, imediatamente, reconheci todas as suas figuras e voltei a saber de cor todas as lições, como se fora ontem e eu me estivesse a preparar para ser chamado dali a pouco. Mas o cheiro a tinta fresca tinha-se perdido definitivamente!
Apesar da sua elevada frequência, a minha escola era um posto escolar e as professoras regentes, eufemismo para lhes pagarem menos pela transmissão do mais básico dos saberes, ler, escrever e contar, primeira, segunda, terceira classe, que a quarta classe, nos Pereiros, era quase curso superior .
Aqui fica, como se fosse uma redacção, esta memória breve da minha escola. Dedico-a à D. Guilhermina, a quem quero expressar o meu reconhecimento por me ter ensinado a escrevê-la. Acredito que, se a lesse com os seus óculos de lentes grossas, iria dar-me uma boa classificação, principalmente depois de eu a passar a limpo, numa folha de papel Almaço, com a minha caneta de aparo de molhar e a caligrafia certa, elegante, desenhada como a Senhora me ensinou.

Mais um texto de Joaquim Nascimento. Infelizmente não consegui arranjar uma capa dos livros da primária de que o Joaquim fala (nem mesmo no "google"...), pelo que escolhi a bonita escola primária da Foz do Arelho, do Grandela, um bom exemplo arquitectónico das escolas primárias da Primeira República.

segunda-feira, março 05, 2007

A Feira de Santa Luzia


Este ano irei outra vez à feira da Santa Luzia e vou querer que esteja tanto frio como no meu tempo de miúdo e, se tiver sorte, talvez haja neve no Monte-Airoso que lhe fica em frente, de onde soprará um vento cortante que há-de afilar-me o nariz e engaranhar-me as mãos.
Ao fundo, continuará a correr o rio Torto, o que só acontece neste tempo de Inverno e, quem prestar atenção, vai ouvir o seu ruído surdo nos açudes que o aprisionam e nas margens que o apertam.
Irei pelo caminho velho para beber água na fontela do Vale Vinhoto, onde descansarei um pouco para recuperar forças antes de subir a ladeira que vai levar-me à capelinha da santa, logo a seguir.
Podia ir de carro, pela estrada nacional 222, mas não, quero ir a pé, pelo caminho antigo, para me reencontrar com cada uma da suas fragas, com cada uma das suas árvores, com cada um dos seus acidentes. Já não vou encontrar ninguém na faina agrícola para lhe dar os bons dias - bom dia senhor Ernesto, então não vai à festa ?! - e, embora sozinho, hei-de regressar pelo mesmo caminho, de cabeça toldada, como bom romeiro que se preza, sem outro risco que o de cair de mim abaixo, um tombo curto, pois a mão de Deus há-de amparar-me para que se cumpra o adágio: ao menino e ao borracho ...
Vou comer marrã, muita marrã, frita na sua própria gordura, a sertã de ferro num fogo vivo de estevas e de carrascos, vou comer marrã com trigo da Póvoa, amassado em quartos, com a sua poupinha ao meio, que vou partir em pedaços convenientes com a navalha de pé de pau bem afiada, como confirmei quando a passei pela unha.
E vou beber vinho tinto, tanto quanto me apetecer, o vinho tinto dos Pereiros, esperto, ladino e jovem, à temperatura certa para se beber, este vinho que se provou no S. Martinho e que se apagará com o calor do Verão.
O trigo e a marrã vão confortar-me o estômago, o odor farto do rechinar da carne vai ficar-me no olfacto e, seja milagre da Santa, seja do vinho novo, colar-se-á nos meus olhos um brilho novo que quero conservar, até poder regressar.
Oxalá que haja laranjas, tão azedas como as que comprei há 50 anos com os 2$50 que a minha avó me deu, e não haverá nada melhor para cortar a gordura da marrã que estas laranjas do Douro que só na Páscoa estariam maduras se não tivessem caído com a ventania de Dezembro.
- Será que o dinheiro chega, minha avó ?
É que ainda quero comprar um pífaro de barro, de cores garridas e de três notas que se tocam com uma mão só, que com a outra quero tocar um bombo garrido onde desenharam pares alegres, num vira minhoto e foguetes a estralejar.
- Será que o dinheiro chega, minha avó ?
Não posso deixar de comprar o registo da Santinha, a Milagrosa Santa Luzia que se venera na sua capela de Pereiros, no dia 11 de Dezembro, para que ela nos dê vista e claridade até no céu entrarmos, com lá estará escrito e eu rogarei. Vou dobrá-lo ao comprido, em três partes iguais e vou enfiá-lo na fita na fita do chapéu, com o rosto da santa voltado para fora, e este será o sinal certo de que fui romeiro mais uma vez.
- Será que o dinheiro chega, minha avó ?

Mais um bonito texto de Joaquim Nascimento...

sábado, fevereiro 24, 2007

O Barbeiro das Avenidas Novas


O senhor Araújo foi um barbeiro bem sucedido, pela tenacidade, pela competência e pela parcimónia, qualidades que trouxe da sua Beira natal e praticou até ao último dia.
Começou como empregado numa barbearia popular de Alfama, onde aperfeiçoou os conhecimentos rudimentares da arte que aprendera na aldeia e não tardou muito que se tornasse proprietário do estabelecimento.
Ali, foram seus clientes os fragateiros, os estivadores, os bufarinheiros e outra gente da beira-rio, mundo estreito para si, até que se mudou para as avenidas novas - bom dia senhor doutor, boa tarde senhor engenheiro - três cadeiras, manicura, engraxador e tabuleta.
Alfama foi também o meu bairro na segunda metade dos anos sessenta, mas só nas avenidas novas o conheci e durante mais de trinta anos lhe confiei o meu cabelo, retinto e forte, nos primeiros tempos, encanecido e ralo, por último.
Barbeiro à antiga - cabeleireiro de homens que é lá isso, meu amigo?! - olhava com desconfiança para as novas tecnologias da profissão que aceitava a contragosto depois de testadas pelo seu empregado de sempre, o senhor António, mas se fosse ele a mandar, a tesoura continuaria a ser a extensão natural do seu braço, com o som ritmado e sonolento de sempre, e as lâminas descartáveis – um desperdício, meu amigo, nada que chegue a uma navalha bem afiada! - escusavam de ter aparecido.
Mas não pensem que esta barbearia era obsoleta ou retrógrada, pois o senhor Araújo era um homem de brios e não aceitaria ficar atrás dos outros, nem permitiria que nas bancadas do seu estabelecimento faltasse qualquer dos instrumentos modernos da profissão.
O senhor Araújo tinha uma farta cabeleira branca, impecavelmente penteada, o que acentuava a elegância do seu porte e, por si só, o recomendava a qualquer cliente.
Quando lhe perguntei o segredo - que champô, que creme, que loção - intimamente desejoso de vir a ter uma cabeleira parecida:
- Sabão, meu amigo !
- De seda, senhor Araújo?
- De seda?! Azul, meu amigo, azul!.
Aqui há anos, já perto dos 80, o senhor Araújo teve apalavrado o trespasse do seu estabelecimento, tendo finalmente admitido que era tempo de descansar e de regressar à terra, onde tinha uma mansão que só abria uma vez por ano, na semana do padroeiro, que o seu estabelecimento patrocinava.
À medida que se aproximava o dia da escritura, o senhor Araújo começou a andar nervoso, ficou mesmo doente e, sem olhar ao prejuízo, devolveu em dobro o sinal que tinha recebido.
- Pensando melhor, o que é que eu ia fazer com o dinheiro, meu amigo?
O senhor Araújo cortou-me o cabelo pouco antes de eu ir de férias - assim curtinho, parece mais cheio e dá menos trabalho – e quando voltei passado um mês, encontrei uma cadeira vazia:
- Não me digam que o senhor Araújo sempre foi de férias ?!
Mas não, o senhor Araújo não tinha ido de férias, o senhor Araújo deixara-nos definitivamente num dos domingos anteriores, ia a caminho de casa ao volante do seu velho Taunus, depois de ter passado pela barbearia, para ver se tudo estava em ordem.
Faleceu
in itinere, diria um dos seus clientes versado em leis e, se o conhecesse bem, descontar-lhe-ia o facto de ser dia de descanso semanal.
Com a receita do sabão azul, o senhor Araújo augurou-me um cabelo farto até ao fim dos meus dias. Já o desonerei desta promessa, mas às vezes me apeteçe-me cobrá-la do seu genro, agora que finalmente é ele o patrão e o meu cabelo vai ficando cada vez mais ralo:
- Então, senhor Carlos, já não se cumprem as promessas?
O senhor Araújo quis ser cremado e dispôs que suas cinzas fossem espalhadas na serra mãe, a Gardunha, onde nasceu, granjeou a terra e guardou o gado, era ainda criança e muito dura a vida.
Foi um sábio, o senhor Araújo, na sua Arte, na sua Vida e na sua morte!


Mais um excelente texto de Joaquim Nascimento, que desta vez tem dedicatória: «Para a minha filha que me deu o mote.» A fotografia do Marechal no barbeiro é de Eduardo Gageiro.

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Um Tinto à Minha Mesa


O vinho nosso de cada dia está este ano pior, não sei se por ter sido um ano de má colheita nas terras de onde vem, se por qualquer erro humano que sempre pode acontecer a quem pratica esta alquimia de fazer das uvas vinho, falível como qualquer arte, muito longe de ciência exacta, onde se obtém o mesmo resultado quando se repetem as premissas.
Era um tinto do Baixo Corgo, ainda na Região que o Senhor Marquês mandou demarcar e que já me tinha pregado um susto aqui há três anos, quando resolveu ocultar-se durante algum tempo. Reapareceu pouco depois com roupagem nova, talvez mais janota, e eu que cheguei a temer o pior, mal voltei a vê-lo precipitei-me para ele, mas fiquei tranquilo quando o abri e provei, por ter verificado que mantinha intactas todas as qualidades que me levaram a escolhê-lo, ficando demonstrado, também aqui, que o hábito se não faz o monge também o não desfaz.
Além disso, manteve o preço, numa relação muito virtuosa com a qualidade e com o prazer que me proporcionava e continuou a sentar-se à minha mesa, como era de toda a justiça. Recomendei-o frequentemente aos meus amigos, mas quero crer que não tive nisso muito sucesso, talvez pelo excesso dos adjectivos que usava na sua promoção que fazia duvidar que tantas qualidades coubessem num preço tão modesto.
Este ano foi diferente. Em Outubro começou a rarear, pouco depois esgotou-se nas três grande superfícies onde me habituara a comprá-lo. Que lhe terá acontecido, perguntava eu para comigo e aos empregados que por ali andavam, sem receber resposta mais elucidativa do que o óbvia e burocrático: está esgotado !
Com renovada esperança e a serenidade de um Buda com muitos anos de chá, esperei pela nova colheita mas já com a convicção de que o meu vinho, quando voltasse, iria manter todas as qualidades que tinham determinado a minha preferência e, pelos vistos, a de muitos outros consumidores.
Infelizmente não foi assim e aquele vinho que já considerava meu, como se lhe tivesse granjeado a vinha, pisado as uvas e envasilhado o mosto, chegou ronceiramente pelo Natal, mais baço aos meus olhos o ruby da sua cor, menos redondo ao meu palato um novo e arrevesado gosto, já não salta quando o sirvo, já não cheira às uvas maduras das muitas castas que se juntavam para o fazer e o gosto bom a frutos vermelhos que antes o distinguia, abandonou-o fortemente. Agora está mais pesado, perdeu o melhor da sua juventude e não ganhou nenhuma qualidade de um vinho velho.
Nem sequer é relevante que esteja mais barato um euro, pois quebrou-se a relação virtuosa, essa divina proporção, que manteve durante tanto tempo.
Mesmo assim, mantenho ainda alguma esperança de que num melhor ano de uvas ele volte a ser quem era pois quero atribuir esta expontânea redução de preço à honestidade do seu produtor que reconheceu, antes que alguém lho dissesse, que este ano o seu vinho valia menos.
Vou esperar pela próxima vindima. Vou mesmo rezar aos santos protectores das uvas que as faça boas, doces, sumarentas e cheirosas para voltar a ter o meu vinho tinto da Região que o Senhor Marquês mandou demarcar, de novo jovem, fresco, leve, com aroma a frutos vermelhos, de sabor fresco e equilibrado, parecido com o vinho da minha terra - as mesmas castas, o mesmo chão, a mesma sabedoria - que na minha memória todos os anos se faz e se consome antes de fazer um ano, antes que o calor o tolde e o envinagre.
Oxalá, para aquecer a alma, a um preço justo!

Mais um texto da autoria de Joaquim Nascimento, colaborador do "Largo da Memória", ilustrado pelo famoso óleo, "O Almoço dos Remadores", de Renoir.

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Os Pêssegos da Avó Maria

Quando chegar o Verão havemos de voltar ao rio, de manhã cedinho, para comermos pêssegos maduros, ainda húmidos do orvalho da manhã, ou então escolheremos o fim da tarde para regarmos a horta, só para sentirmos o cheiro da terra molhada.
Os pêssegos do rio são os melhores pêssegos do Mundo e para o confirmar basta tactear-lhes a pele, de seguida abri-los com cuidado para que não se perca uma gota sequer do seu suco e só depois trincá-los, para apreciarmos em toda a plenitude o seu cheiro e o seu sabor.
Lindos por fora na sua pele rosada que qualquer mulher gostaria de imitar - pele de pêssego com se diz de uma pele jovem - lindos por dentro no carmim da sua concha, cujo negativo o caroço imprimiu, os pêssegos do rio foram criados para saciar bocas gulosas, mais do que estômagos famintos, e foram estes pêssegos que eu procurei sempre de cada vez que comi pêssegos ao longo da minha vida, mas raramente os terei voltado a encontrar.
Os pêssegos melhores do Mundo são os pêssegos do rio Torto, mas posso garantir que, dentre eles, os melhores são os pêssegos da avó Maria, no rio do Gato, um trecho do mesmo rio, que o rio da minha terra é um rio de muitos nomes, à medida que passa por nós ou nós por ele, nas curvas do seu destino.
Parecidos com os pêssegos da Avó Maria só as maçãs do José Francisco que ele trazia do Oeste, para oferecer à Fernanda, a nossa e não a outra, nem enormes, nem pintadas, mas que, na modéstia do seu tamanho, enchiam logo todo o espaço á sua volta com o gosto antigo da maçãs de cheiro.
Vamos então ao rio apanhar pêssegos, enquanto o orvalho da manhã os conserva frescos, e assim os teremos no mais vivo da sua cor, no mais intenso do seu perfume, no mais requintado do seu sabor!
Vamos a pé, pelo caminho velho, à ida pelos seus atalhos, pois é a descer e todos os santos ajudam, à vinda, mais devagar, por cada uma das suas curvas que ainda havemos de reconhecer, apesar de o mato ter feito um enorme esforço para apagá-las.
Quando chegarmos, uma ligeira brisa há-de agitar a folha espessa dos salgueiros, um marantéu que é o mais lindo de todos pássaros, há-de cantar num dos seus ramos mais altos, enquanto debica a primeira refeição do dia e o feno das margens há-de cheirar à roupa lavada que, na véspera, ali esteve a corar. Se tivermos sorte, esquadras de libelinhas hão-de voar ao rés-da-água e com elas vamos espreitar o fundo do rio, de calhaus rolados e água pura.
No próximo Verão havemos de voltar ao rio, para nos emocionarmos com a sorte dos pessegueiros que já ninguém cultiva e para lamentarmos que tenha desaparecido das vargens o cheiro fecundo da terra regada.
No próximo verão, uma última vez !


Este bonito texto da autoria de Joaquim Nascimento está ilustrado com a "Ponte Rústica de Colares", óleo da autoria de Alfredo Keil.

terça-feira, janeiro 23, 2007

A Carreira da Saudade


Mais do que o seu percurso entre a Meda e o Pinhão, a carreira era para nós a velha camioneta que vinha todos os dias pela EN 222 e nos ligava à Vila, ao Comboio e ao Mundo, pela linha do Douro.
A carreira da Meda ou a carreira da Viúva passava nos Pereiros todas as manhãs, pelas oito horas e trinta minutos, e regressava às quatro e meia da tarde, depois de subir penosamente, curva-contra-curva, Pinhão, Bateiras, Casais, Ervedoza, até ao planalto da Pesqueira, num esforço notável para a provecta idade dos veículos que a firma Viúva Carneiro & Filhos, Ld.ª escolhia para fazer este percurso diário e exigente.
À ida, chegava à Pesqueira um pouco depois das nove, para que as pessoas dos Pereiros, do Vilarouco, do Vidigal e mesmo de freguesias mais afastadas da EN 222, como Valongo, Trevões e Vázeas, pudessem estar na Vila à hora de abertura das repartições onde a burocracia as chamava, sempre com algum receio da sua parte e quase nunca com qualquer proveito.
À vinda, passava outra vez pela Pesqueira, um pouco depois das três horas e ali fazia uma curta espera. Mostrar-se na Avenida para ver passar a carreira constituía a actividade social mais importante da gente da Vila, podendo dizer- se que o trabalho da parte da tarde só se iniciava depois de a carreira ter passado, ou era interrompido durante esse período e não vestir a melhor roupa para solenizar esse momento desqualificaria qualquer cidadão.
Neste curto intervalo desfilavam pela Avenida funcionários, artistas, comerciantes, desocupados, donas de casa virtuosas e meninas casadoiras, bisbilhotando que pessoas tinham chegado e imaginando o destino da viagem das que seguiam, assim alimentando o seu imaginário de moradores desta pequena vila do interior, onde nada se passava desde os tempos do Senhor Marquês de Pombal e da Real Companhia Velha.
Alguns grupos exibiam distintivos profissionais por si criados, como os alfaiates que espetavam na lapela do seu casaco escuro uma agulha onde enrolavam um bom pedaço de linha branca com as duas pontas a esvoaçar e, se estou a ver, punham mesmo ao pescoço a fita métrica do ofício feita de linóleo de cores berrantes.
A carreira da Meda também servia de relógio, nesse tempo em que os relógios eram raros e não se usavam todos os dias. “Já passou a carreira?” equivalia a perguntar “que horas são ?” e responder“ passou mesmo agora” era o mesmo que dizer “são oito e meia” se era de manhã, ou “quase cinco horas” se era de tarde, e dizer “hoje nem me dei conta de ter passado a carreira”, equivalia a afirmar “andei tão absorvido que nem dei pelas horas terem passado”.
Em boa verdade, a maior parte das vezes nem se via passar a carreira, pois a estrada velha, assim chamávamos à estrada nacional lá em cima, por contraposição ao pequeno ramal finalmente aberto e a que chamávamos a estrada nova, a estrada velha, dizia, não se avistava de todo o povo e, por isso, se quiséssemos ser rigorosos, teríamos que dizer, ouvi passar a carreira, pois era o ruído do seu cansado motor a arrancar para a paragem seguinte, na Horta, que chegava cá em baixo e despertava os nossos sentidos.
A nós, os dos Pereiros, onde o tempo se calculava pelo Sol, sem grande rigor, a carreira da Meda iniciou-nos no dever de cumprir um horário, pois toda a gente aceitava a obrigação de estar a horas, pois “ a carreira não espera por nós, nós é que temos que esperar por ela” , como responderia qualquer pessoa que subisse mais cedo até à paragem, dois quilómetros mais acima, a quem observasse “ainda é cedo, tens muito tempo” , e assim se aprendia, com naturalidade e os meios ao dispor, o dever de pontualidade.
A carreira da Meda também cumpria com muito rigor o seu compromisso de pontualidade com os passageiros e raramente terá chegado à paragem dos Pereiros, depois da sua hora, a menos que fosse Inverno e a neve lhe tivesse pregado alguma partida, e não consta que alguma vez tenha perdido, no Pinhão, o combóio descendente, ou que tenha daí partido antes de ver instalados todos os passageiros do combóio ascendente que a procuravam e isto constituía, ao fim e ao cabo, a obrigação maior deste transporte colectivo de passageiros e bagagens empilhadas no tejadilho, quando acabou o compartimento “J”.
Pela carreira da Meda se emigrou para o Brasil, para a África, para a França e para a cidade grande, com o coração apertado pela saudade e pelo receio do desconhecido e pela mesma carreira alguns regressaram um dia, umas vezes com a felicidade estampada no rosto, outras vezes mal disfarçando nas suas rugas cavadas as desilusões de uma vida, pois a sorte, contrariamente ao Sol quando nasce, não é para todos.


Este texto tem a assinatura de Joaquim Nascimento, que volta ao "Largo da Memória".

quinta-feira, janeiro 11, 2007

O Último Adelo de Lisboa


Devo confessar que não conhecia o significado da palavra Adelo (indivíduo que vende objectos usados). Embora o senhor Neves possa não ser o último "vendedor" de usados de Lisboa, transcrevemos o texto da autoria de Joaquim Nascimento, que me chegou à mão por José do Carmo de Francisco, porque é uma homenagem a uma cidade que tinha como habitantes pessoas que conversavam... (a ilustração foi retirada do livro "Carta de Lisboa", da autoria de Eric Sarner e Miguelanxo Prado)

Só agora que as novas tecnologias me conferem a possibilidade de visualizar, simultaneamente, boa parte das gravuras que fui comprando ao longo dos anos, me dou conta que é meu dever prestar homenagem ao senhor Neves a quem comprei boa parte delas, entre dois dedos de conversa. Mais sobre a vida do que sobre as peças em exposição e, menos ainda sobre o seu preço.
Até porque entre nós se estabeleceu um pacto secreto: o senhor Neves não me pedia preços muito elevados pois, tendo descoberto o meu pudor para lhe oferecer menos, sabia que devia pedir um preço justo, à cabeça, ou muito perto dele, para não inviabilizar, logo ali, a transacção.
- Tenho pena, senhor Neves, mas não me convém !
Eu sei que este não é o método clássico de formação de preços, muito menos neste ramo de actividade, mas connosco sempre foi assim e, salvo raras excepções em que terei pago simultaneamente o custo, também justo, da aula - o senhor Neves era um bom mestre em gravura, livros e faiança portuguesa e era generoso a transmitir esses conhecimentos – os seus preços foram sempre honestos e quase sempre couberam no meu orçamento que, como bom psicólogo, o senhor Neves intuía com bastante rigor.
Nas poucas vezes que deixei de lhe comprar sempre me arrependi e, quase sempre, quando voltei – ainda as tem senhor Neves ? – as peças já tinham sido vendidas.
Ainda hoje guardo na memória algumas que, assim, deixei de ter.
Nunca disse ao senhor Neves e pouca vezes o terei confessado a alguém que o almoço sentado, substituído por uma sanduíche foi, muitas vezes, a fonte da minha poupança para sustentar a extravagância de coleccionador, donde terá resultado um lucro acrescido para a minha saúde, para a minha elegância e para o prazer de as possuir.
O senhor Neves, no seu adelo, tinha uma empregada com funções imprecisas, mas de simpatia a toda a prova, a Dona Maria para mim, a Maria para o senhor Neves, Dona Maria que, muitas vezes, esteve do meu lado, nesta questão de preços.
Uma das suas funções era fazer o almoço para os dois num espaço precário conquistado à tralha amontoada, outra era reservar, pela manhã, um espaço para estacionamento do velho FIAT 127 do senhor Neves, o mais perto possível do estabelecimento.
A origem das minhas gravuras foi um segredo que guardei usurariamente durante alguns anos, pois não podia correr o risco de contribuir para aumentar a sua procura, promovendo o aumento de preços e a rarefacção o mercado. Eu sei, eu sei que o livre comércio não é isto !
Trabalhei algum tempo fora de Lisboa e, por essa razão, as minhas visitas ao senhor Neves foram-se tornando cada vez mais raras, até que um dia dei pelo estabelecimento fechado e nem sequer me atrevi a perguntar aos vizinhos pelo senhor Neves, receando a resposta óbvia que a sua provecta idade prenunciava.
Prefiro pensar que o senhor Neves ainda lá está, ou vem a caminho no seu velho carro, e qualquer dia reabre o seu Adelo com stock renovado e vai reservar para mim as mais belas gravuras, ou os mais raros incunábulos. Se eu o merecer, ou tiver sorte, talvez até me venda a imagem do patrono do seu estabelecimento ou o vulto policromado da República que, embora em lugar de destaque, eram apenas figuras tutelares do estabelecimento, onde nunca estiveram à venda, por nenhum preço.
O senhor Neves foi o último adeleiro de Lisboa e o seu estabelecimento, esconso, bafiento e desordenado, rés-do-chão e cave, chamava-se, não sei porquê, "Adelo de São Joaquim".