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sábado, julho 06, 2019

Desabafos & Ingenuidades (a vida como ela é...)


A maior parte das pessoas que trabalham, a partir dos quarenta começam a estar fartas do seu "circuito diário" (casa, trabalho, trabalho casa...), por que a vida nunca facilita. Aliás, com o passar dos anos, ainda tem o condão de nos ir dificultando, cada vez mais as coisas...

Os filhos, que muita boa gente já "desistiu de ter" (preferem o cão ou o gato...), embora acabem por ser a principal razão da nossa existência, nunca deixam de ser um "mar de preocupações". Dos seus tempos de "cristal" (meninice...) à idade adulta, onde quase que se tornam quase de "aço" (mesmo que este só exista nas suas cabeças e seja maleável...), passamos por um pouco de tudo (sem falar de casos dramáticos...). 

Embora saiba que é capaz de ser quase igual em todo o lado, no nosso país os problemas estão longe de terminar quando eles acabam o curso superior. Normalmente tem duas soluções: aproveitar qualquer emprego que surja, mesmo que não tenha nada que ver com a sua formação (até podem aproveitar a vaga como caixa do supermercado da esquina...) e seja precário, ou emigrar.

Há já algum tempo que não trazia para aqui as conversas, que tenho com a Rita (mais raras, estupidamente, porque se deixarmos, a vida também nos vai afastando dos amigos...). 

Não temos cão nem gato, mas temos filhos com a mesma idade (diferença de meses...), na tal fase complicada, quase entre o fim da universidade e a entrada no mundo do trabalho. 

Não somos diferentes dos outros, dizemos muitas coisas parvas, como o cidadão comum (os maus exemplos diários quase que nos obrigam a esses desabafos...), até falamos da nossa "burrice", de não os empurrarmos para uma das juventude dos partidos do "centrão". 

Mas são só desabafos, queremos muito que eles sejam criaturas livres e com capacidade para pensar pela sua própria cabeça, e mais importante, sem passarem o resto da vida com as "mãos sujas"...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)

terça-feira, março 26, 2019

A Velocidade dos Relógios que Temos Dentro de Nós...


Sempre tive a sensação de que os relógios não rodavam com a mesma velocidade, que os minutos não tinham sessenta segundos para todas as pessoas. Agora quase que me apetece dizer que tenho a certeza. Até consigo desculpar as pessoas que andam sempre atrasadas, que andam sempre numa correria atrás do tempo. Elas são as mais prejudicadas, são as que têm relógios com os segundos mais rápidos...

Claro que estou a brincar. Embora não tenha qualquer dúvida, que nem todos temos a ligeireza de trocar as voltas ao "tempo"...

E não estou a falar deste "tipo chato", por falta de assunto. É mesmo por sentir que estou a perder a tal ligeireza, que me fazia ter tempo para fazer mais duas ou três coisas, que agora me começam a escapar.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

terça-feira, janeiro 29, 2019

«Afinal, ele é como nós!»


A expressão que escolhi como título deste texto, é dita vezes sem conta, quando políticos como o nosso Presidente da Republica, andam por aí, misturados com o povo, oferecendo-lhe a melhor da atenções na passagem em revista dos seus anseios e problemas. E se eles forem de "prometer", são capazes de dizer que irão até ao "fim do mundo", para tentar resolver os ditos problemas.

Lembrei-me de escrever sobre isto ao ver o bom do Santana Lopes na televisão a visitar o Bairro da Jamaica, no Seixal, naquela que terá sido uma das suas primeiras saída para o terreno,  em pré-campanha eleitoral, pelo seu Aliança.

Neste caso particular, os moradores do bairro, só não devem ter dito que ele era como eles, por causa da diferença da cor de pele...

Mas atenção, este "menino guerreiro", é dos melhores em campanhas eleitorais. Os partidos da direita que se cuidem (e até o próprio PS). Diz o que as pessoas gostam de ouvir, de uma forma clara e concisa, sem se perder em abraços, beijinhos e selfies. Ou seja, a palavra da moda (que parece assustar tanta gente...), há muito que faz parte do seu vocabulário político.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)

segunda-feira, janeiro 21, 2019

Quando a História e a Dignidade Valem Muito Pouco...


Alguns amigos chegaram-me a falar da possibilidade de a Incrível Almadense vir a ter problemas no futuro, com o edifício onde está instalada a sua sede social, após a morte do seu principal proprietário. Porque os herdeiros poderiam pensar apenas no prédio e não em toda a história que este encerra. Uma história que já terá mais de 118 anos, como edifício-sede, da Colectividade mais antiga de Almada, que comemorou em Outubro de 2018, 170 anos de vida associativa, ininterrupta.

Infelizmente foi isso acabou por acontecer. E a Incrível Almadense foi notificada que a sua renda ia ser actualizada (para valores obscenos...), porque há muitos anos que não sofria qualquer aumento...

Claro que todos sabemos que a lei não contempla questões morais ou éticas. Mas devia. Pois no caso particular do prédio onde está instalada a sede social da Incrível, sabemos que seu senhorio não realizou qualquer obra de beneficiação, pelo menos nos últimos cinquenta anos (provavelmente o número real está mais próximo dos 100 que dos 50...).

Poderia enumerar dezenas de obras, algumas avultadas, como foi a substituição do telhado, da canalização, da instalação eléctrica, das janelas e portas, das múltiplas reparações de paredes, das pinturas, interiores e exteriores, etc. Ou seja, a Incrível gastou milhares de euros em benefício de umas instalações, que sempre considerou suas (é importante referir que a Colectividade tentou comprar o prédio várias vezes, mas o  principal dono, disse para não nos preocuparmos com isso, por que era um processo complicado, havia muitos herdeiros, etc), com o apoio dos associados e também do Município e da Junta de Freguesia.

Nada que incomode os novos senhorios. Eles querem lá saber dos 170 anos de Incrível, de todo o seu passado histórico, que tanto dignifica a Cidade de Almada. Querem sim, dinheiro, quanto mais melhor. 

Claro que não alugarão o prédio a ninguém, pelo valor que que estão a pedir à Incrível. Mas vão conseguir ficar "famosos" em Almada, por retirarem a Incrível no espaço que funciona como sua sede social, há mais de 100 anos (118, segundo os relatos dos antigos...).

(Fotografia de Luís Eme - Almada)

segunda-feira, dezembro 31, 2018

«Tudo é possível, até o impossível»


Este ano de 2018, que se está quase a despedir, foi um ano curioso, para não lhe chamar outra coisa.

Aconteceu um pouco de tudo. Houve dois ou três episódios, que não só me ajudaram a seguir outros rumos, como fizeram com que percebesse, ainda melhor, a natureza humana (vi com mais nitidez o que as pessoas são capazes de fazer, para se manterem no poder - por mais pequeno que ele seja...).

Uma das coisas mais positivas, foi ter conseguido mais tempo para mim, para fazer coisas que me dão prazer. 

Andei mais, por aqui e ali, a descobrir coisas. Li muito. Nunca tinha lido tantos livros num só ano (quarenta e nove...). E claro que também escrevi bastante. Até aqui no "Largo" (foi o ano que escrevi mais textos, 314, com este de despedida de 2018). E para não variar, fotografei, exageradamente, muitas vezes apenas por que sim (deve ter sido por isso que utilizei tantas fotografias da minha autoria nos meus blogues. 273 no "Largo", 76 no "Casario" e 31 nas "Viagens", nada mais nada menos que 380 imagens).

É também por isso que espero por 2019, com grande tranquilidade. Embora esteja envolvido em meia-dúzia de projectos, colectivos e individuais, não há nenhum que seja decisivo, para o que quer que seja. São apenas, para desenvolver, sem pressões, sem prazos. O que é muito bom. Pois todos eles têm tempo suficiente para respirar e para decidirem "o que querem mesmo fazer da vidinha"...

Para terminar, desejo um bom ano de 2019, também tranquilo e inspirador, para todos os visitantes do "Largo".

(Fotografia de Luís Eme - O cartaz do "Regresso da Mary Poppins", não aparece aqui por acaso, ele diz-nos que «tudo é possível, até o impossível)

quarta-feira, dezembro 05, 2018

Escuteiros de Almada Suspensos pela Igreja...


Estive quase a colocar como título, "Padre da Paróquia de Almada Suspende Escuteiros", talvez fosse mais verdadeiro...

Embora seja estranho, que uma pessoa só, tenha o poder de suspender a actividade lúdica e católica de 120 jovcns almadenses.

Há algum tempo que ouço falar do "novo padre" (Marco Luís), por gostar de fazer mudanças, "quase à político" (apenas porque sim e não para melhorar as coisas...). Desde os horários das actividades à sua gestão, passando também por algumas mudanças físicas (obras "desnecessárias" na Igreja de Almada...), que segundo um documento distribuído pela cidade ("Pela Preservação da Igreja de Almada (Obra Icónica da Cidade)") serão de alguma forma um "atentado ao património histórico-cultural", e que também são parte do desentendimento entre os dirigentes dos escuteiros e a Paróquia....

Provavelmente este problema vai-se arrastar no tempo, como acontece nas instituições conservadoras...

É por isso que que alguns dos jovens escuteiros, que gostam do que fazem, têm vontade de mudar de agrupamento (o da fotografia é o de Cacilhas, que tem as suas instalações na Quinta do Almaraz)...

(Fotografia de Luís Eme)

sexta-feira, outubro 26, 2018

(A Primeira Despedida à Francesa)


Como expliquei na resposta a um comentário, o conto que escrevi para o livro, "Contos do Portugal Profundo", é grandito. Mesmo assim resolvi ir ao encontro de duas frequentadores dilectas do "Largo", que mostraram interesse em ler a história, publico aqui os dois momentos que acabaram por contribuir para o título da ficção ("Despedidas à Francesa num Outro Portugal"). Um hoje. E outro amanhã...

«[…] Na Vila perdeu-se um pouco pelas ruelas, quase desertas, até que entrou num café, decidido a petiscar qualquer coisa. Um dos pratos do dia era ervilhas com ovos escalfados, algo que não comia há muito tempo. Não pensou duas vezes na escolha da ementa.
No final, quando saboreava o café, foi surpreendido pelo olhar vivo de uma mulher da sua geração, cujas rugas indiciavam que poderia ter um ou dois anos a mais que ele. Mas ela não se limitou a olhar, foi-se aproximando e fez-se mesmo convidada para um café, como se estivessem numa daquelas casas onde os homens pagam bebidas às mulheres.
Ao perceber que ele não estava com muita vontade de falar, fingiu não se preocupar e fez quase todas as despesas da conversa. Esperta, começou por o provocar e fazer sorrir, quando tentou certificar se o gato da vizinha Aurora também lhe comera a língua.
Disse ser uma Eva e quis saber quem era ele. Ofereceu-lhe o segundo nome, Manel, o que foi aproveitado para ela misturar logo um pincel na conversa, em mais uma tentativa de deixar mais à vontade.
Naquele momento não sabia muito bem o que pensar da mulher, com o tal nome original que alguns homens fingem acreditar, que foi uma criação por Deus… Mas era impossível passar ao lado da sua lata…
E ela lá continuou a falar sem parar. Queria saber coisas do homem que se ia tornando um mistério, por não lhe dizer praticamente nada do que lhe apetecia ouvir. Foi quando Eva lhe explicou que podia mentir, inventar uma vida, acrescentando que às vezes era uma boa maneira de se sonhar acordado. E sem deixar que a interrompesse afirmou que todos mentimos, todos escondemos alguma coisa. Foi quando ele sorriu de novo, por ser verdade e também por ter à frente uma mulher que parecia não desistir às primeiras às segunda e às terceiras.
Talvez fosse professora de filosofia, ou então psicóloga, daquelas que fartas de ouvirem as histórias dos outros, se resolvem libertar nos lugares mais insólitos e oferecer quase todas as palavras do mundo a desconhecidos.
Ela insistiu e foi ainda mais longe na descodificação que fazia da natureza humana. Falou do medo, da impotência, da solidão, da perda… Metia-se com ele, talvez por sentir que ele fingia não ser grande adversário, E era verdade. Naquele momento estava ali sentado, com a mesma sensação de estar a assistir a uma peça de teatro ou a um filme. E como sabia que o silêncio era de ouro nos momentos em que a arte se confundia com a vida, não perturbava nem um pouco o “monólogo” da Eva…
Numa última tentativa de lhe arrancar alguma coisa dos bolsos de dentro, onde se escondem os sonhos e pesadelos, Eva contou algo que, segundo as suas palavras, nunca tinha dito a ninguém. Pensava cada vez mais vezes que talvez tivesse sido melhor ter uma vida calma, de ser apenas mãe e dona de casa. Ter uma vida mais parecida com a da avó que com a da mãe, que também teve de trabalhar a vida quase toda fora de casa… E foi ainda mais longe. Olhou para outra mesa mais distante, com dois adultos e duas crianças, e falou-lhe de uma família, que poderia muito bem ser a sua, se…
 Foi o único momento em que se sentiu quase obrigado a dizer alguma coisa. Com um sorriso leve afirmou que adoramos desculpas, quando todos estamos sempre a tempo de mudar. Sem se deixar interromper, disse que a vida tem o condão de nos oferecer mais que um caminho, tanto podemos dar um passo em frente, dois para o lado ou um para trás.
Depois das suas palavras apareceu o silêncio. Os segundos que se seguiram pareceram minutos. Foi como se ele quebrasse a magia do “monólogo” anterior.
Foi neste momento que Eva fingiu ir à casa de banho e desapareceu.
Só dez minutos depois é que percebeu que ela não ia voltar… Ainda ficou por ali a pensar, pelo menos outros dez minutos, novamente com a máquina do tempo a fazer marcha atrás, e sem grande esperança de a voltar a olhar.
O mais curioso foi ter gostado de a conhecer, mesmo que soubesse que era provável nunca mais se encontrarem, em qualquer parte incerta, porque como lhe confessou, quando ensaiou a despedida, estava ali apenas de passagem. Depois ela desculpou-se, quase à homem, que ia fazer uma “mija” e já voltava.
Mas desapareceu…
Talvez fossem as suas palavras que quebraram a magia da conversa, comandada pela mulher, do início ao fim.
Foi acordado nas suas deambulações pelo olhar de uma outra mulher, que entrou à procura de alguém e saiu. Sorriu novamente, mais pelo presente que pelo passado, porque há muito que não o olhavam de uma forma estranha, e muito menos se faziam convidados para a sua mesa. [...]»

 (Fotografia de Luís Eme)

domingo, outubro 21, 2018

Contos do Portugal Profundo


Escrevi assim na minha "Carroça":

«A blogosfera tem bastantes coisas boas. Uma delas é a interacção entre pessoas, que gostam das mesmas coisas que nós.
Alguns dos comentadores do blogue literário, "Horas Extraordinárias", de Maria do Rosário Pedreira (poeta e editora), pensaram (penso que a ideia inicial foi da Cristina Torrão...) na possibilidade de  se editar uma colectânea de contos, aberta a todos os "comentadores-escritores", interessados em fazer parte activa da obra.
O mote foi "Portugal Profundo", segundo a visão de cada um de nós.
Aceitaram o desafio: António Breda Carvalho, António Luiz Pacheco, Cláudia da Silva Tomazi, Cristina Torrão, João  J. A. Madeira, José C. Catarino, Luís Alves Milheiro, Maria do Rosário Pedreira e Pedro A. Sande.
E o livro já anda por aí e pode ser adquirido na Amazon.»

Posso acrescentar que o meu conto tem como título, "Despedidas à Francesa num Outro Portugal", onde misturo memórias reais da Beira Baixa com alguma ficção, como foram os dois encontros inesperados, que tiveram despedidas à francesa...

sábado, setembro 01, 2018

Ser (ou não ser) o Melhor do Mundo...


Incomoda muito os jornalistas (sim, especialmente estes...), quando alguém se acha dos melhores do mundo, e afirma-o, sem qualquer problema.

Isso tem acontecido com Cristiano Ronaldo e José Mourinho, no estranho mundo do futebol.

Mourinho sempre gostou de criar uma relação de "amor-ódio" com a comunicação social, algo que teve os efeitos desejados nos seus primeiros tempos na alta roda do futebol mundial, mas que hoje não se aproxima dos  seus objectivos: proteger a sua equipa e os seus jogadores.

Ele sabe que os tempos são diferentes (pelo menos desde que treinou o Real Madrid, pois em clubes desta dimensão, tudo é notícia, e ele é apenas mais um...). Mas mesmo assim não deixa uma resposta para dar, especialmente aos jornalistas de fraca memória (são quase todos, por causa do "negócio" e não só...), que o questionam como se fosse um "principiante" ou um "derrotado". 

É por isso que acho muito bem que puxe dos "galões" e diga que sozinho têm mais títulos de campeão inglês que os restantes 19 treinadores da liga inglesa. Porque a memória é tramada... Mourinho também poderia responder, com toda a legitimidade, a todos aqueles que dizem que só sabe ganhar com jogadores que custam milhões, que as duas vezes que foi Campeão Europeu, conseguiu-o com equipas quase "modestas" (FC Porto e Inter de Milão), pelo menos quando comparadas com as do Barcelona, Real Madrid, Bayern de Munique, Arsenal ou Manchester United...

Já em relação à polémica do troféu de melhor jogador europeu, em que Modric venceu Cristiano Ronaldo, penso que nem seja motivo para grandes ondas, pois o médio croata fez uma excelente época. Estranho sim, que ninguém tenha falado sobre a justeza da entrega do prémio de melhor guarda-redes europeu a Keilor Navas (que na minha opinião, pouco modesta, nem sequer entra na lista dos dez melhores guardiões que actuam na Europa...), quando estava a competir com Buffon...

(Fotografia de Luís Eme)

domingo, janeiro 28, 2018

Um Desafio Complicado para 2018...


Este ano estou decidido a voltar a ler um livro de António Lobo Antunes (provavelmente por teimosia...). Até já escolhi dois títulos, que estão há muito em lista de espera, especialmente o "Fado Alexandrino". O outro romance é "Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo". Vamos ver se não me arrependo logo nos primeiros capítulos...

Continuo a pensar que qualquer escritor que publique livros, não pode escrever apenas para o seu umbigo, tem de pensar também nos leitores. Algo que Lobo Antunes desistiu há já algum tempo, assim como de contar uma história. Mesmo assim continua a ser "endeusado" pelo nosso jornalismo cultural

Hoje no meu trabalho de "arquivista" descobri um  artigo crítico de António Guerreiro sobre, "Ontem Não te Vi em Babilónia", publicado no antigo suplemento do "Expresso", "Actual",  de 28 de Outubro de 2006, que diz quase tudo o que penso, nesta sua última fase como romancista (em que ele se transformou quase num "deus" da literatura - basta ler as entrevistas...).

Transcrevo a parte que achei mais interessante:

«Posso dizer que “Ontem Não te Vi em Babilónia” é um romance difícil de ler porque subverte os códigos do género mais facilmente reconhecíveis, porque a ordem narrativa não se baseia num agenciamento causal e cronológico de factos (dito de outro modo: não há uma história fabricada como um contínuo), porque recorre aos processos do monólogo interior, o que significa que o modo da narração é caracterizado pela focalização interna. Em vez de um narrador que procede a uma organização lógica, temos as vozes das personagens, em longos monólogos que se desenvolvem ao sabor de associações, de evocações, de memórias. Em suma: segundo regras de descontinuidade que são o contrário da linearidade narrativa.
Mas também posso dizer (e digo-o com convicção) que  este romance de Lobo Antunes é difícil de ler porque cria imensos ruídos, muita confusão, no modo como elabora a sua matéria narrativa e, principalmente, os processos de polifonia. Aquilo que poderia ser apenas complexo torna-se inutilmente complicado, até ao ponto em que é impossível discernir quem conta o quê e reconstituir os fios de uma intriga, da qual o romance no entanto não prescinde. A regra da profusão (nos seus monólogos, as personagens entregam-se a um discurso que está próximo da associação livre) resulta em algo que funciona no vazio e que se torna exasperante.»

(Fotografia de autor desconhecido)

quarta-feira, janeiro 10, 2018

Quando a Amizade Vale "Ouro"...

Hoje fez-se história nas Caldas da Rainha, a bonita cidade onde cresci e onde volto sempre que posso, para abraçar a minha mãe e o meu irmão.

O seu clube mais emblemático, o centenário Caldas Sport Clube, venceu o Farense e "carimbou" a sua passagem para as meias-finais da Taça de Portugal, onde segundo consta vai defrontar o D. Aves.

O meu irmão depois de assistir à vitória do Caldas com a Académica, desafiou-me a marcar presença no jogo dos quartos de final, com o Farense. Eu disse logo que sim... Nem fazia ideia de há quantos anos não via um jogo de futebol no velho Campo da Mata, onde também joguei algumas partidas pelas equipas de iniciados e juvenis, no tempo do pelado...

Mas não há bela sem senão. Ou seja, acabámos por facilitar (pela tal falta de hábito de ir ao futebol, por ser um dia da semana e por estar "mau tempo no canal"...) e só pensamos adquirir os bilhetes no dia do jogo... E quando chegámos o aviso nas bilheteiras fechadas dizia tudo.


Falámos com alguns amigos para ver se havia alguma possibilidade de nos arranjarem algum bilhete... foi quando um velho amigo dos tempos de escola, que não via há uns bons trinta anos, foi em busca de outro amigo comum, ligado ao Caldas (que também não via desde o século passado...), que nos ofereceu dois convites... E fez com que valesse a pena vir de Almada até ao Oeste, para ver o Caldas...

E depois foi muito bom assistir a um excelente jogo de futebol, com as bancadas repletas de gente a vibrar, quase em sintonia com as duas equipas, que jogaram bem melhor que algumas da Primeira Liga...

Percebia-se que o Farense era uma equipa mais experiente e matreira, mas a juventude e irreverência do Caldas podia fazer miséria... E fez.



Esteve a perder um zero, dois a um, mas os seus jogadores nunca desistiram, tal como o público, e o três a dois, acabou por chegar no prolongamento, com justiça.

Desta vez não houve grandes penalidades, mas se houvesse, acredito que a vitória nos sorriria de novo...

E ficou mais uma vez provado que a amizade vale ouro e perdura no tempo...

(Fotografias de Luís Eme)

sexta-feira, janeiro 05, 2018

«Vaca é a tua mãe, ó meu cabrão de merda!»

Ontem ao fim da tarde assisti a uma cena digna de um filme felliniano.

Ainda vinha ao longe e já estava a ouvir um carro a apitar. Quando cheguei à caixa do multibanco percebi que era uma viatura que queria sair e estava "tapada" por uma carrinha de alguém que vendia cafés, e não deveria estar muito longe...

Estive à espera na caixa uns três minutos (o senhor queria levar o dinheiro todo...). E só quando me vinha embora é que vejo um sujeito com dois rapazolas a aproximar-se da carrinha. Os rapazes entraram mas o homem não deve ter gostado da buzina do carro, e em vez de pedir desculpa pelo incómodo ainda foi tirar satisfações.

Pela forma como mexia os braços percebi que não estava a ser muito meigo. Normalmente nem sequer me aproximava da discussão, mas reparei que era uma mulher que estava dentro do carro, Um homem mais ou menos da minha idade, atento ao que se passava, também se começou a aproximar (acabámos por dar força um ao outro...). Quando chegámos ao pé do carro o "valentão" calou-se e assim que o meu companheiro de aventura perguntou à condutora se havia algum problema, ele começou a afastar-se sem palavras. Ela exaltada respondeu que havia, mas que ia já deixar de haver, e saiu do carro, virando-se para o homem que já estava a "bater em retirada": «Oiça lá!»

O homem parou e esperou-a em posição de desafio. Quando ela ficou frente a frente, surpreendeu tudo e todos, ao dar-lhe um chapadão daqueles que fazem eco (bem merecido...), atirando-lhe logo de seguida: «Vaca é a tua mãe, ó meu cabrão de merda!»

O homem ficou paralisado por uns segundos, agarrado à cara. E nós aproveitámos esta pausa para fazer escolta à mulher para junto do carro.

Contra todas as previsões, o "herói" enfiou o rabinho entre as pernas, entrou na carrinha e desapareceu o mais rápido que pôde da praça.

Depois cada um de nós seguiu o seu caminho, quase sem palavras.

Quando vinha para casa não consegui esconder a satisfação, por me ter aproximado e ter dado a força que a mulher precisava, para silenciar um dos muitos "chicos-espertos"  (e ordinários) deste mundo...

(Fotografia de Roger Schall)

sexta-feira, dezembro 01, 2017

Uma Cidade Capaz de nos Deslumbrar Todos os Dias...

Hoje, quase casualmente, passeei por uma zona que me era desconhecida.


Já tinha passado perto, mas por esta ou aquela razão, nunca tinha subido a rua até ao fim. Pode ter sido por falta de tempo, mas provavelmente isso aconteceu apenas por que sim.

Percebi mais uma vez que Lisboa, tal como todas as grandes cidades, tem sempre mais que um "tesouro" à nossa espera. Uns chegamos lá, outros nem por isso. Mas é um bocado como os livros, por muito que gostemos de ler, não os iremos conseguir ler todos...

(Fotografia de Luís Eme)

terça-feira, junho 06, 2017

«Ainda bem que já não há "banha da cobra" para todos»

Apesar de se terem escondido debaixo do tapete valores que a minha geração e anteriores, consideravam essenciais (eu bem sei que para muitos era apenas teoria, não foi por um mero acaso que os políticos dos últimos quarenta anos, pertencem todos à minha e às gerações anteriores...), a mentira (e a "pós-verdade") continua a ter a perna curta.

Ou seja, percebe-se à légua que hoje já não há "banha da cobra" para todos...

Cada vez tenho menos dúvidas de que a qualidade - e hoje somos um país, onde cada vez mais se aposta na qualidade - dá cabo de todos os negócios dos espertalhaços que ainda continuam a querer "vender gato por lebre", em várias esquinas. 

E é aqui que entra o turismo, que tanta "porrada" tem levado nos últimos tempos. Tem sido ele que tem empurrado muitos jovens a fazerem pela vida e a serem inovadores,  ao perceberem que só terão hipótese de crescer, e de ter sucesso, com a aposta na diferença e na qualidade.

É por isso que eu digo: «Ainda bem que já não há banha da cobra para todos.»

(Fotografia de Luís Eme)

segunda-feira, junho 05, 2017

Setenta e Nove...

Porque é que alguém começa a fumar aos setenta e nove anos?

Por uma razão demasiado óbvia: acredita na publicidade impressa nos maços.

Todos eles dizem que os cigarros matam. E é normal que alguma gente com uma idade já quase avançada,  um pouco farta de viver, faça também um manguito à vida quase saudável. 

Quando se está farto de andar para trás e para a frente e não se tem coragem de acabar tudo em segundos, com um tiro na carola ou com a suspensão do corpo, preso pelo pescoço a uma corda, fumar pode ser uma boa alternativa...

E com um pouco de sorte aprende-se a gostar de fabricar nuvens de fumo e a ter um hálito apropriado para quem já não faz linguados... 

(Fotografia de Luís Eme)

quinta-feira, maio 04, 2017

Só nos Desiludem as Pessoas de Quem Realmente Gostamos...


Como já devem ter reparado, ando há pelos menos dois dias, a tentar fugir das palavras.

Sei que não devo, nem quero, particularizar.

Se pensar bem, nem se pode dizer que me aconteceu uma coisa do outro mundo. Toda a gente sabe que a amizade não sobrevive a tudo. Apenas a quase tudo...

Não foi a primeira vez que descobri que a desconfiança às vezes anda perto demais do ciúme e da inveja, e que se pode tornar numa mistura explosiva... 

Nem se pode falar de uma "história de saias", até porque ela anda quase sempre de calças...

Acabei por ficar a pensar que a forma de gostar nunca tem uma medida certa, é por isso que às vezes gostamos mais dos nossos amigos que eles de nós, tal como o seu contrário. 

E claro que fiquei desiludido. Sei que só nos desiludem as pessoas de quem realmente gostamos...

(Fotografia de Rurik Dmitrienko)

domingo, abril 02, 2017

Viver é Isso...

A vida está sempre a desafiar-nos, com pequenas e grandes coisas.

Basta olharmos à nossa volta, para percebermos, que viver é isso.

(Fotografia de Luís Eme - "Passeio dos Tristes")

sábado, janeiro 28, 2017

Normalmente são os Extremos que se Colam na Nossa Memória...


Podia empurrar o título deste texto para as relações amorosas (sim, são os amores que consideramos grandes, muitas vezes obsessivos, que andam aos pulos dentro da nossa cabecinha...). Mas ele foi colocado com o meu pensamento num outro cenário: na escola.

Sim, na escola, nos professores (poucos...) que recordamos ao longo do nosso percurso estudantil. Eu só recordo os bons (felizmente mais...) e os maus professores que tive. Os outros soam a indiferença...

Ainda há poucos dias recordava o meu primeiro professor de educação física no ciclo preparatório (grande João Berjano...), pela sua enorme capacidade pedagógica. Em 1974 as escolas tinham todas poucas instalações para a prática desportiva (se pensarmos na quantidade de turmas existentes...), quando chovia ficávamos no balneário a escutá-lo, ao mesmo tempo que ele procurava saber coisas de nós, com bonomia. Até era capaz de nos oferecer uma anedota, para nos ver sorrir...

Podia falar também da minha professora primária (açoriana e com um nome invulgar que não consigo recordar...), que terá sido a primeira pessoa a elogiar a minha escrita nas redacções e a incentivar-me a escrever, escrever...

Dos maus, não vou escrever uma linha. Por isso mesmo, por serem maus. Por terem aprendido pouco na escola da vida e na outra...

Mas são estes mesmos, tão diferentes, que se colam na nossa memória...

(Fotografia de Luís Eme)

sexta-feira, dezembro 30, 2016

À Espera de 2017, sem ter Godot por Perto...

Não tenho grandes balanços para fazer de 2016, foi um ano com parecenças com outros, recentes.

Sei que houve uma dedicação excessiva (pelo menos para quem trabalha sobretudo com as letras...) à fotografia, com duas exposições grandes (foi muito para um amante de fotografia mediano...). Algo que com toda a certeza não irá acontecer nos tempos mais próximos.

2017 será forçosamente um ano diferente: há um livro que quer muito existir (além de alguns compromissos já assumidos, ele já está a crescer e a andar de um lado para o outro...), irá nascer um novo blogue (dedicado a Romeu Correia, no ano do centenário do seu nascimento) e espero, finalmente, viajar com Fernando Pessoa por Cacilhas. 

Talvez também exista uma peça de teatro. Mas vamos ficar por aqui. Já são coisas suficientes para fazer de 2017 um ano diferente... 

(Fotografia de Luís Eme)

quarta-feira, outubro 26, 2016

O Vicio de Criar...


Chamei-lhe vicio, mas poderia chamar-lhe necessidade, sim, necessidade de criar.

Penso que hoje as pessoas sentem mais vontade de criar, de fazer algo de artístico. Isso acontece por várias razões. Por um lado, a sociedade de hoje está mais fechada, tornou-se mais individualista e egoísta. Acho que a "solidão", o estarmos mais tempo apenas com nós próprios, faz com que se pense e se imagine mais. Por outro lado, as pessoas a partir do momento que os filhos se tornam adultos, passam a ter mais tempo livre, viajam mais pelo passado e voltam a fazer coisas que gostavam, e para as quais achavam ter algum jeito (escrever, pintar, tocar, cantar...). A maior parte das vezes fazem-no apenas para satisfação pessoal, para se sentirem vivas.

Eu próprio assumo que escrevo  por necessidade. Embora exista uma lista longa de coisas que me levam a escrever, sei que o "jogo de palavras" me ajuda bastante a manter o equilíbrio emocional.

(Isto de escrever directamente para o "bloguer" tem que se lhe diga. Tinha pensado falar do meu amigo João, dos problemas que tem graças ao seu "vício de criar". Por muito bom músico que seja, os vizinhos não estão para aturar a sua inspiração. Segundo ele, já nem paciência têm para ouvir baladas, quanto mais para alguma coisa mais mexida e elaborada. Se mora na Margem Sul e ouvir tocar viola num lugar isolado, pode ser que seja o João...).

(Fotografia de Luís Eme)