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sexta-feira, agosto 23, 2019

«A vida dos certinhos não interessa a ninguém»


Realmente, não lembrava a ninguém andar neste quase fim de Agosto quente, tão composto, com gravata e casaco, pelas ruas.

Menos me passava pela cabeça que um quase "hippie" soltasse esta frase, com desprezo: «A vida dos certinhos não interessa a ninguém.»

Pois é, o mundo do trabalho, distante da "vagabundagem", tem destas coisas...

A coisa boa da quase provocação, foi ter obrigado as pessoas que estavam próximas, a sorrir. O resto, depende das vidas, tanto dos certinhos como dos outros...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, agosto 14, 2019

coligação de avulsos...


Estou a acabar de ler "Coligação de Avulsos - ensaios de crítica literária", de Abel Barros Baptista.

Nem todos os ensaios me despertaram o interesse, mas há um ou outro, cuja pertinência acabou por me fazer pensar, muitas vezes até fora das palavras do autor.

É por isso que vou apenas realçar um ensaio, O Surto da Ficção e a Capitulação da Crítica, com aquele que o autor considera "melhor representante" da tal capitulação. Mas vamos lá às palavras de Abel Barros Baptista:

«O atrás referido Grande Prémio do Romance e Novela (APE) constitui-se o melhor representante da capitulação da crítica. José Saramago, por exemplo, o mesmo que viria a ganhar o Nobel em 1998, foi quatro vezes preterido nesse prémio: viria a ganhá-lo apenas em 1991, com o Evangelho Segundo Jesus Cristo, numa altura em que o seu êxito internacional era irreversível, sobre esmagador. É irrelevante debater se os romances que venceram Memorial do Convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis, A Jangada de Pedra ou História do Cerco de Lisboa eram melhores ou piores romances que estes: interessa sim, sublinhar que, durante toda a década de 80, a crítica, com pouquíssimas excepções, paralisada perante o sucesso de um escritor relançado inusitadamente, não encontrou meios de lhe entender os livros, como se precisasse de mais tempo para assimilar uma radical novidade, o que até nem era o caso.»

Eu não falaria em falta de "entendimento", preferia a palavra "preconceito". Neste caso particular o preconceito que existe em termos ideológicos, sobre o homem - que neste caso particular foi José Saramago -, ao ponto de se ser capaz de colocar o escritor num plano secundário...

segunda-feira, agosto 12, 2019

A Verdade e a Honestidade no Futebol


Não é por conhecer José Mourinho e achar que ele é um dos melhores do Mundo (que não perdeu qualidades, nem está desactualizado, como gostam de insinuar por aí...), que deixo de destacar Pep Guardiola, com quem me identifico mais como técnico, por que privilegia sempre que pode, o espectáculo futebolístico, desenvolvendo e apoiando a criatividade dos seus atletas.

Ontem ele disse uma frase que vai fazer comichão a muito boa gente, especialmente alguns futebolistas que dão a sensação de se preocupar mais com a sua imagem exterior que com a equipa onde jogam (e também os muitos jornalistas  e comentadores que invejam o seu êxito e dão sempre mais que cinco tostões por uma polémica...). Eis as suas palavras:

«O Rodri vai ser um jogador incrível para nós. Não tem brincos nem tatuagens e o cabelo é de um médio. Um médio defensivo deve ser assim e não pensar no resto.»

Concordo plenamente com o que ele disse. O médio que joga à frente dos defesas, é quem mais se deve preocupar com a equipa, quem deve ser mais eficiente e jogar da forma mais fácil (não é por acaso que são conhecidos como os "carregadores de piano"...), sempre com o pensamento do colectivo. Sei que quem percebe pouco de futebol vai tentar chamar-lhe preconceituoso e outras coisas feias.

A verdade e a honestidade fazem quase sempre doer. Neste caso particular irritam os "craques" que vão ao cabeleireiro dia sim dia não e estão a pensar mais na próxima tatuagem ou no brinco novo que vão comprar, que no próximo jogo...

(Fotografia de Luís Eme - Ayamonte)

segunda-feira, agosto 05, 2019

A Criatividade e a Influência Musical do Zeca e do Pedro


Zeca Afonso fez noventa anos no dia dois deste mês. 

Falou-se e escreveu-se muito do seu património discográfico (para uns tantos perdido, para outros esquecido ou abandonado, mas eu acho que não, deve ser sim, um daqueles "tesouros" muito bem guardados no cofre de alguém...), até se fizeram as petições do costume, para que a obra do Zeca fosse classificada de interesse nacional. Algo que me parece um pouco inconsequente, pois se há obra musical que sempre teve e tem interesse nacional, será a de Zeca Afonso.

Como continuamos a não saber o que se passa no "lado de lá do mundo", talvez até seja possível que o Zeca, escreva e cante, sobre aquilo que lhe querem dar agora (e "panteão" rima com tanta coisa...) que ele não está por cá, para receber... E também já deviam saber que o Zeca não gosta nada dessas coisas. 

Para o conhecermos bem basta escutarmos atentamente as letras das suas canções. Fazia-nos melhor escutar os seus poemas que pedem revoluções, que assinar petições.

Mas nem era sobre isso que queria escrever...

Três dias antes do dia de aniversário do Zeca, Pedro Ayres Magalhães fez sessenta anos.

Continuo a pensar que o Zeca e o Pedro são as pessoas mais importantes do panorama musical dos últimos cinquenta anos, não só pelo que criaram, mas muito pelo que influenciaram. Curiosamente, ou não, exerceram a sua influência em espaços musicais completamente diferentes.

Se o Zeca aos noventa anos de idade, já está próximo de ter conquistado a "unanimidade" (o que quer que isso seja...), o Pedro ainda está muito longe desse patamar. Mas eu sei que ele irá lá chegar. Deixo aqui algumas das suas palavras, ditas numa entrevista ao jornal "I" (que falam um pouco do que escrevi):

«Eu senti a solidão de ser português quando era adolescente, nos anos 70. E o que me fazia impressão em Portugal era ninguém se relacionar com esse problema. Por isto sentia falta de pensar, de teorizar. Encontrei a resposta a escrever canções sobre a saudade, sobre o que somos como portugueses, tanto nos Heróis do Mar como nos Madredeus. Os Madredeus não foram bem entendidos, mas amanhã, quando as pessoas estiverem ainda mais insatisfeitas com o presente, irão pesquisar e nessas pesquisas vão encontrar a história, muito bonita, de uma banda que cantava sobre o ser português e que foi tocar essas palavras a todo o mundo.»

Há ainda outra coisa que une o Pedro ao Zeca, bastante importante: nunca se "venderam", nem cederam à nossa maneira pequenina de se estar na cultura (e nas outras coisas, claro), sempre que podiam passavam ao largo das "capelinhas" do costume.

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)

segunda-feira, julho 15, 2019

Algo que Fica Depois do Bom Gosto e do Bom Senso...


Reparei nas pequenas notas que tinha num papel, com coisas que aconteceram e outras imaginadas. A única coisa que tinham em comum, era não "caberem" num blogue (pelo menos nos meus...). 

Isso fez com que pensasse na palavra "auto-censura", que se usa por tudo e por nada, vá lá saber-se porquê. Senti logo que era demasiado forte. Há muitas coisas que se dizem ou escrevem, que sabemos logo que ficam algures depois do bom gosto e do bom senso, quase numa rua escura, suja e mal cheirosa.

E estava aberto o caminho para falar da historiadora mais famosa do país - por umas semanas, diga-se de passagem, que popularizou de novo os "bonifácios"... Mas  o bom gosto diz-me que não. Muito mais que o bom senso. E sabem que mais, neste pequeno caso a auto-censura, nem sequer espreitou à esquina.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

domingo, julho 14, 2019

«Sabes lá o que é ver a vida a fugir!»


Aquela frase podia ser para mim, mas não era. Nem sabia muito bem o seu contexto, pois apanhei-a em andamento, no meio da rua.

Mas a mulher que a soltou, não estava nada animada, eu diria, pela forma como se expressou, que estaria entre a revolta e o desespero. Provavelmente teria razões para isso. Sem precisar de lhe pedir o bilhete de identidade (talvez daqueles que já não existem, vitalícios...), percebi que tinha ultrapassado os oitenta anos, há já algum tempo.

Continuei a andar, sem olhar para trás, mesmo assim a frase não me saiu da cabeça durante algum tempo. Imagino que quem tenha entre os oitenta e os noventa anos, tenha uma percepção do tempo, bastante diferente da minha, que sinta que a qualquer momento pode ser agarrada pela "morte".

Embora digam que a "inoportuna" não escolhe idades, a estatística é "menina" para nos dizer o contrário...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

terça-feira, julho 09, 2019

A Tranquilidade e o Tejo...


O Tejo é especial, por todas as razões, e mais algumas, que ainda não descobri.

Quando escrevi o caderno poético, "Almoço de Poetas no Ginjal", enriqueci a minha colecção de transcrições de textos e poemas que abraçavam o "melhor rio do mundo".

Pensei logo que devia criar um blogue, mas por saber que o tempo é bom conselheiro, fui esperando uma qualquer maré... Maré que acabou por chegar no começo deste ano. E foi assim que nasceu o Olha o Tejo...

Queria que fosse um espaço onde se respirasse tranquilidade, na companhia de palavras e imagens bonitas (todas minhas, ao contrário das palavras...), que de alguma forma ilustrassem o amor que se pode ter por um rio, a várias vozes.

Não é de longe nem de perto o meu blogue mais visitado, mas é o único onde me consigo imaginar a passear rente ao seu leito e a sentir o vento agradável no cabelo, no rosto e no corpo...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

sábado, junho 29, 2019

O Poder e a Oposição entre o Humanismo e o Nacionalismo


O humanismo não defende, nem quer, o mesmo que o nacionalismo, é por isso que estão quase sempre em oposição, tanto na Europa, em África, na América ou na Ásia.

Se os humanistas ficam demasiadas vezes preso às ideias, os nacionalistas não descansam enquanto não são poder, para conseguirem criar todo o género de obstáculos a quem chega de fora - preferencialmente se vierem apenas com uma mão à frente e outra atrás.

Nestes tempos cheios de "anestésicos", as suas palavras chegam mais depressa aos ouvidos do "povo", que, por exemplo, a sucessão de imagens televisivas (talvez pela sua banalização...), que relatam mortes de crianças e adultos, no Mediterrâneo ou no Rio Grande.

É por isso que não estranho que no nosso país - onde não "existem" racistas nem nacionalistas - se critique a nova "invasão" de brasileiros, mesmo que a sua maioria venha fazer o trabalho que nós não queremos fazer (precário e mal pago...), tal como acontece nos países para onde emigramos.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

domingo, junho 16, 2019

«Hoje, mais que os livros, premeiam-se os autores»


Os prémios literários raramente são temas de conversa (pelo menos nas conversas que mantenho com as pessoas que escrevem...) E quando se fala dos ditos prémios, é quase sempre para dizer mal de alguém (e tanto pode ser o vencedor como um membro do júri...).

Foi por isso que foi bom escutar o Zé a dizer: «Hoje, mais que os livros, premeiam-se os autores.» E nem teve qualquer problema em falar de si próprio: «Por acaso, o único prémio literário que recebi, foi dado a um dos livros com que menos me identifico.»

Mas quis ir mais longe e acrescentou: «Embora esteja na moda, é uma parvoíce entregar "prémios de carreira" a quem tem menos de 80 anos...»

Quando lhe perguntei por que não recusavam este tipo de prémios ele foi taxativo: «De uma maneira geral as pessoas que escrevem não vivem muito à vontade. Pelo que todo o dinheiro é bem vindo...»

Foi quando o Rui resolveu um ar da sua graça e disse: «Ainda bem que o Herberto era milionário, pôde recusar uma data de prémios, E alguns até eram chorudos.»

Acabámos todos por sorrir, usando várias cores.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

domingo, junho 09, 2019

Criticar a Justiça é das Coisas mais Fáceis do Mundo


Já depois de escrever o texto de ontem, publicado aqui no "Largo", li a crónica publicada no "Expresso", de Maria José Morgado, em que ela nos apresenta alguns dados estatísticos, que no mínimo, devem-nos deixar a pensar.

Ela aborda a luta contra a corrupção, sem deixar de focar as "montanhas que parem ratos" (de 604 comunicações de crimes só resultaram 19 condenações...), analisando os dados fornecidos pelo Conselho de Prevenção da Corrupção.

Quando ela refere: «O CPC recebeu no ano de 2018, descontadas as cifras negras e a fragilidade dos números alcançados, um total de 604 comunicações de crimes económicos, dos quais os principais diziam respeito a 248 crimes de corrupção, 153 de peculato e 17 de prevaricação. Deste universo, destacam-se as comunicações de crimes com indícios probatórios, das quais resultaram 73 acusações, 19 condenações, três Suspensões Provisórias do Processo e duas absolvições. As conclusões são más.»

É importante referir ainda que 48% destes crimes comunicados aconteceram em Autarquias...

Escolhi o título "Criticar a Justiça é das Coisas mais Fáceis do Mundo", porque é a verdade. 

Raramente perguntamos, por que razão os processos que chegam aos tribunais revelam "tantas" deficiências e fragilidades nas investigações. Enquanto o Ministério Público e a Polícia Judiciária se debatem diariamente com problemas, como a falta de pessoal ou a utilização de meios técnicos ultrapassados, os "criminosos de colarinho branco" podem contratar os melhores escritórios de advogados (peritos na leitura das leis, que muitas vezes foram eles próprios que redigiram...).

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

sábado, junho 08, 2019

«Somos o País das escolhas erradas. E tudo começa nas pessoas...»


Não sei se é coisa com mais de quarenta anos, mas acho que sim. Até por que já ouvi histórias sobre as escolhas e nomeações de ministros e secretários de estado dos governos provisórios  - nem vale a pena falar de outros cargos menores -, que cabem que nem uma luva no anedotário nacional. Do género de telefonaram para a casa de alguém às duas da manhã a perguntarem se queriam ser isto e aquilo, e que tinham de dar uma resposta às nove da manhã (muitas vezes eram cargos com pastas sobre as quais não tinham perdido mais de cinco minutos da vida...). A maioria refugiava-se na tese de que "era a oportunidade de uma vida" e não queriam saber de mais nada...

Sei sim, que foram raros os homens e mulheres que tiveram a coragem de dizer, não, por saberem que não "cabiam naqueles fatos"...

Infelizmente esta história não se ficou pelo "país provisório" do Verão Quente, continuou a repetir-se até actualidade. 

A coisa mais fácil de fazer na política é uma lista de ministros, secretários de estado, presidentes de câmaras, e vereadores, medíocres e incompetentes (alguns ainda acrescentaram ao currículo adjectivos ainda menos abonatórios, e só não estão na prisão porque a nossa justiça é o que é...).

Do que não faço ideia, é se essas pessoas alguma vez se questionam, sobre o mal que fazem ao país, quando deixam que os seus interesses pessoais, do partido e dos amigos,  se sobreponham aos interesses de todos nós...

Comecei a escrever e como de costume fui andando... quando na conversa que tive com dois amigos, apenas falámos dos ministros da administração interna, da educação e da saúde.

E o Pedro numa frase disse tudo: «Somos o País das escolhas erradas. E tudo começa nas pessoas...»

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

segunda-feira, junho 03, 2019

A Nitidez das Palavras...


Há pessoas que não conseguem comunicar de uma forma directa, seja utilizando a via oral ou escrita.

Posso mesmo dar um exemplo familiar. A minha companheira no sábado esqueceu-se da carta de condução e quando me telefonou disse-me para dizer à filha para procurar na carteira que estava dentro da mala, que ela sabia onde estava. Poderia me ter dito simplesmente, «está na minha carteira». Moral da história: a minha filha andou às voltas da mala da mãe (a procurar um carteira mais pequena, que era a que ela tinha nesse momento...), até que eu decidi abrir a "carteira grande" e lá estava a carta de condução...

Este exemplo serve para outras coisas, em que a sua forma de comunicar choca por vezes com os filhos, por que gosta de acrescentar sempre, mais um ou outro pormenor.

O mais curioso, é que eu era para falar da escrita, daquelas pessoas que gostam de escrever com demasiados artifícios, dificultando por vezes a nossa compreensão.

E agora que estou quase no fim, devo confessar que tudo isto começou com uma frase de Frederico Lourenço: «O objectivo da minha escrita sempre foi a clareza. Não quero ser incompreensível. Procuro a maneira mais nítida de exprimir as minhas ideias, e dá muito trabalho.» 

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)

sexta-feira, maio 24, 2019

Um Bom Rapaz de "Orelhas Grandes"...


Um rapaz bem vestido passou por nós e depois de nos ver, parou para nos cumprimentar. Não aceitou o convite para se sentar por que disse que estava atrasado e lá foi à sua vidinha.

Já estava a alguns metros quando o reconheci. O meu companheiro de jornada sorriu ao perceber. E depois saiu-se com uma das suas saídas boas.

«É uma simpatia de rapaz, mas assim que chegou ao poder, aconteceu-lhe o mesmo que acontece a muito boa gente, quando se torna ministro, secretário de estado ou vereador, começa-lhe a crescer as orelhas.»

E continuou, sem perder o humor: «Falava com ele quando era da oposição e era uma maravilha, tinha soluções para tudo. E algumas até eram boas ideias. Em pouco mais de ano, parece que esqueceu tudo.»

Mesmo sabendo que é mais fácil falar à mesa do café que fazer parte de um governo, nacional ou local (como era o caso), parece que a maior parte das pessoas quando chegam a lugares de poder, deixam de ter memória, inteligência e vontade...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)

terça-feira, maio 21, 2019

«Dá uns chutos na bola e acha que pode comprar o mundo»


Um rapazola que não devia ter muito mais de vinte anos descia a avenida montado num descapotável vermelho, de matrícula inglesa, com o volante ao contrário.

Como todos os "deslumbrados", olhava para todos os lados, a dizer que estava por cá.

Um homem parado no passeio disse para quem o quis ouvir: «Dá uns chutos na bola e acha que pode comprar o mundo». Se era assim, devia conhecer um pouco mais da vida do rapaz que o comum dos mortais, que estava por ali, naquele momento.

Sabia que basta jogar na terceira ou quarta divisão inglesa, para ganhar mais dinheiro, que muitos jogadores da nossa Primeira Liga...

Mesmo assim desejei que o rapaz soubesse que a vida de jogador dura apenas um instante. E por isso mesmo, que não passasse demasiado tempo a passear-se de descapotável...

Quando estava a chegar a casa, agradeci à rua, por continuar a ser um bom "alimentador" do Largo...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

terça-feira, maio 14, 2019

Quando os "Passarões" da Rua da Cristina Foram Parar à "Gaiola"...


A história era simples, o Rui, o Jorge e o Zeca, os falsos "heróis" da Rua da Cristina tinham sido apanhados, em flagrante, por um casal de polícias que usara o disfarce de turistas, dos apetecíveis, com boas máquinas fotográficas, computadores e notas de euros com três algarismos, para os levar à certa.

"Pinóquio", o maior contador de histórias das redondezas, esqueceu por momentos as suas patranhas e resolveu usar os seus exemplos para aconselhar a rapaziada mais nova, a não tentar "voar alto demais".

Quem não conhecesse a história de vida das três "aves de arribação" - como era o meu caso -, que tinham sido engaioladas, por andarem demasiado descontraídos pelas ruas, esquecidos que nas profissões de risco  "a distracção é quase sempre a morte do artista"... não conseguia deixar de sorrir pela arte do "Pinóquio", que à medida que ia falando, ia arranjando um lugar no "cinema", para aqueles três rapazolas que adoravam dar nas vistas, quase sempre pelos piores motivos.

Nunca os tratou pelo nome próprio, mas sim pelos "nomes de guerra", que curiosamente também foram uma invenção sua. 

Só alguém com a sua imaginação era capaz de baptizar o Jorge de "Canário", que além de falar pelos três, adorava dar música aos "camones", aliás, às "camones". O Rui ficou o "Corvo", por ser o mais misterioso e também o mestre dos silêncios. E o Zeca só podia ser o "Melro", o finório e espertalhaço do trio, sempre cheio de ideias mirabolantes, roubadas das séries e dos filmes.

O mais curioso, foi perceber que a rapaziada jovem tinha percebido a lição do "Pinóquio", sem perder o sorriso...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

domingo, maio 12, 2019

«A colecção de arte não volta para as suas mãos»


Um amigo, mais entendido que eu em leis, assegurava-me há alguns meses, que a Colecção Berardo, que está no Museu com o mesmo nome, no CCB, já não saía das mãos do Estado. Falou-me inclusive da tentativa frustrada dos representantes do "dono" de levarem para fora algumas das sua obras mais valiosas, para serem leiloadas.

Depois do espectáculo protagonizado pelo "comendador" na Assembleia da República (onde até tem por lá uma sobrinha...), não sei se será assim...

Joe Berardo, bem acompanhado por um "advogado-ponto", disse  apenas o que quis, sem perder a oportunidade de se rir na cara dos deputados da comissão que o recebeu, sempre que lhe foi possível.

Claro que nada disto é novidade, já passaram pelo Parlamento, vários "berardos", que se limitaram a brincar com coisas sérias, sem que os deputados corem de vergonha ou façam alguma coisa, para alterar este estado de coisas.

(Fotografia de Luís Eme - Alcântara - 45 anos depois de Abril, ainda não conseguimos resolver este problema, continuamos a ser nós, os pobres, a pagar a "crise"...)

sábado, maio 04, 2019

«Não faço ideia... Mas ele é feliz a falar...»


Há pessoas que têm essa capacidade espantosa de conseguirem falar minutos, e até horas, sem dizerem nada. Claro que espalham palavras, mas estas são tão vazias (apesar de terem enfeites e de serem aparentemente cerimoniosas...)  que não se agarram a coisa nenhuma, dentro e fora de nós.

Comunicar é uma coisa especial, e não é mesmo para todos, por muito que se goste de "botar palavra"...

Quando o Carlos me perguntou se o António saberia que falava, falava, sem dizer nada, abanei os ombros com um sorriso, pela franqueza deste amigo. Depois disse-lhe: «Não faço ideia...» acrescentando ainda de sorriso, "mas ele é feliz a falar...»

Acho que a capacidade de falar, também está ligada à capacidade de olhar e de sentir a realidade, de tentar compreender o mundo, sem o fechar com definições...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)

sexta-feira, abril 19, 2019

«A Vida é uma chatice!»


A mulher que estava na caixa do supermercado, ao mesmo tempo que puxava do porta-moedas (ainda há pessoas antigas que usam estas pequenas carteiras...) disse, com um ar farto e cansado: «A vida é uma chatice!»

Ninguém lhe respondeu. Parece-me que as pessoas têm medo de gastar as palavras. É uma poupança incrível, por essas ruas fora...

Sai para a rua e as nuvens dançavam por cima de nós, a brincar ao "esconde esconde" com o Sol. Foi quando passou por mim um homem, cujo rosto nunca mais esqueci, provavelmente pela  memória da sua quase "filosofia de rua". 

Eu conto. O senhor foi apanhado a agarrar um guarda-chuva alheio à saída do café e quando lhe perguntaram, se não tinha vergonha de estar a roubar o chapéu, ele devolveu à procedência uma frase lapidar, ao mesmo tempo que voltava a colocar o guarda-chuva no mesmo sítio: «Não. Está a chover lá fora e o chapéu dava-me jeito. Feio, feio, é roubar descaradamente como o Salgado. Devia dizer-lhe para ele voltar a pôr o dinheiro que nos roubou no banco.» E saiu porta fora, sem esperar resposta.

Curiosamente, desta vez o "filósofo" trazia um chapéu de chuva na mão.

À medida que ele se afastava, fique a pensar que deve continuar a não ter medo de "gastar as palavras"...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)

quinta-feira, abril 11, 2019

O Copo Meio Cheio e o Copo Meio Vazio...


A rua tem essa coisa boa de as vozes se espalharem por aqui e ali. Ou seja, são muitas vezes amigas de quem escreve (mesmo que seja apenas em blogues...), e está sem assunto. São elas que nos oferecem palavras e frases, que aparecem no ar e passam a ser de quem as quiser apanhar...

«O mundo é melhor do que aquilo que os nossos olhos vêem.» É uma frase daquelas... Até por parecer um pouco fantasiosa. 

Não consegui perceber se a senhora era religiosa, ou simplesmente optimista. 

Sei apenas que o copo meio cheio tem sempre mais umas gotas que o copo meio vazio...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

segunda-feira, março 11, 2019

As Farsas em que Entramos, quase Sempre sem Sabermos...


Embora seja cada vez menos surpreendido pelas coisas que se passam à nossa volta, às vezes descubro frases cuja pertinência me faz pensar, mais um pouco...

No meu trabalho de investigação descobri, por um mero acaso, uma frase da autoria de Jorge Calado, com mais de 15 anos (do suplemento "Actual" do Expresso, de 6 de Setembro de 2003), que é reveladora do nosso mundo demasiado curto, onde o "amiguismo" continua a ter um peso decisivo, especialmente quando falamos de nomeações, escolhas ou prémios. Mas vamos lá à frase:

«A exposição é suposta cobrir o século XX, mas o que descobre são os interesses promiscuos e nepóticos duma máfia internacional de conservadores, comissários, galeristas, artistas, críticos que se protegem, elogiam e rentabilizam uns aos outros.»

A exposição em causa era sobre fotografia, mas poderia ser de artes plásticas. Mas as palavras poderiam ser deslocadas para as ruas da literatura, do cinema ou do teatro (e nem vou aos "bairros" da política ou do futebol...).

Claro que acaba por ser um drama, percebermos que quando concorremos a qualquer concurso, o vencedor já poderá estar escolhido. E estamos apenas a participar numa farsa...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)