Mostrar mensagens com a etiqueta Bairros. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Bairros. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, junho 18, 2019

Lisboa, Uma Cidade (ainda) Diferente...


Lisboa é uma cidade muito diferente de das grandes capitais europeias.

Embora possua uma beleza muito própria - graças ao pitoresco que se cola aos bairros antigos, e também à luz que reflecte nas suas sete colinas e também nas águas calmas do Tejo -, está longe de ser uma cidade funcional e bem estruturada como Paris, Londres ou Berlim.

Felizmente tem vários milhões a menos de habitantes, quando comparada com as grandes cidades europeias, o que faz com que ainda seja possível circular com alguma tranquilidade pelas suas ruas, fora das chamadas horas de ponta...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

quinta-feira, junho 06, 2019

O Meu Amigo, Filho do "Belarmino"...


Estive com um amigo que não via há mais de uma dúzia de anos.

Acabámos por falar sobretudo da nossa juventude. Do nosso bairro, das nossas "patifarias" de adolescentes, dos nossos amigos e também da nossa família, dos nossos irmãos e pais. A Foz do Arelho também não faltou, não fosse ela a praia da nossa vida...

Ou seja, falámos sobretudo do passado. Não dissemos uma palavra sobre os nossos filhos e companheiras. Só quando vinha de cacilheiro para a Outra Banda é que pensei no assunto. 

Pois, o presente é outra coisa, onde só nos encontramos por acaso...

Os nossos pais já partiram, sobram as mães, que são amigas, apesar da distância geográfica que as separa (penso que continuam a falar ao telefone...). Quando lhe falei no pai e das confusões que gostava de armar quando bebia mais que a conta (o seu lado texano de gostar de virar homens e bares de pernas para o ar...), ele continuava a não se sentir nada orgulhoso, desse lado quase negro paterno. Recordei que na época nós delirávamos quando sabíamos o que acontecera na noite anterior na tasca do Alfredo, ele nem por isso... O pai só se "curou" destas aventuras (que chegavam a meter polícia e tudo...) quando conseguiu deixar de beber.

Mas a sua lenda continua viva. Não deve haver ninguém do nosso antigo bairro que não conheça o poder dos punhos do "Belarmino" (não fazemos ideia de quem lhe ofereceu esta alcunha, que deve ter tudo a ver com o filme de Fernando Lopes...). 

A componente mítica é de tal forma forte, que hoje até há quem associe todas estas aventuras ao "herói" do filme do bom do Lopes, e não ao pai do meu amigo, mesmo que Belarmino Fragoso nunca tenha passado pelas Caldas...

(Fotografia de Luís Eme - Foz do Arelho)

terça-feira, maio 14, 2019

Quando os "Passarões" da Rua da Cristina Foram Parar à "Gaiola"...


A história era simples, o Rui, o Jorge e o Zeca, os falsos "heróis" da Rua da Cristina tinham sido apanhados, em flagrante, por um casal de polícias que usara o disfarce de turistas, dos apetecíveis, com boas máquinas fotográficas, computadores e notas de euros com três algarismos, para os levar à certa.

"Pinóquio", o maior contador de histórias das redondezas, esqueceu por momentos as suas patranhas e resolveu usar os seus exemplos para aconselhar a rapaziada mais nova, a não tentar "voar alto demais".

Quem não conhecesse a história de vida das três "aves de arribação" - como era o meu caso -, que tinham sido engaioladas, por andarem demasiado descontraídos pelas ruas, esquecidos que nas profissões de risco  "a distracção é quase sempre a morte do artista"... não conseguia deixar de sorrir pela arte do "Pinóquio", que à medida que ia falando, ia arranjando um lugar no "cinema", para aqueles três rapazolas que adoravam dar nas vistas, quase sempre pelos piores motivos.

Nunca os tratou pelo nome próprio, mas sim pelos "nomes de guerra", que curiosamente também foram uma invenção sua. 

Só alguém com a sua imaginação era capaz de baptizar o Jorge de "Canário", que além de falar pelos três, adorava dar música aos "camones", aliás, às "camones". O Rui ficou o "Corvo", por ser o mais misterioso e também o mestre dos silêncios. E o Zeca só podia ser o "Melro", o finório e espertalhaço do trio, sempre cheio de ideias mirabolantes, roubadas das séries e dos filmes.

O mais curioso, foi perceber que a rapaziada jovem tinha percebido a lição do "Pinóquio", sem perder o sorriso...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

quarta-feira, janeiro 16, 2019

Viagens Só com Bilhete de Ida e Histórias de Amor Trocadas...


Há pessoas que partem, para não voltar.

Sei que são mais do que parecem... Porque só algumas cabem na nossa memória.

Se um amigo não começasse a falar da nossa rua de infância e das pessoas que cirandavam à nossa volta, não me recordaria da Dulce. 

Falámos dela por nunca mais termos tido qualquer notícia. Um amor tonto e uma gravidez inoportuna levaram-na para o Canadá e depois para a Austrália.  

Ele gostou dela... talvez por ela não gostar dele. O que não faltam por aí são histórias de amor trocadas.

Entretanto passaram trinta e alguns anos e um sem número de histórias com casamentos, divórcios, filhos, netos, amantes...  

Ele confidenciou-me que gostava de a voltar a ver. Disse-lhe que talvez fosse boa ideia comprar um bilhete para a Austrália, até porque  se ela alguma voltou ao nosso país, foi quase de forma clandestina, apenas para ver os pais e os irmãos.

A Dulce é apenas um exemplo de que os sítios onde vivemos e as pessoas com quem nos cruzamos todos os dias, nem sempre nos deixam felizes...

(Fotografia de Luís Eme - Cabo Espichel)

quarta-feira, dezembro 19, 2018

A Cantora de Cabaré da Rua Detrás


Durante anos não se sabia muito bem o que fazia, embora se percebesse à légua que era uma ave nocturna.

Era bonita, dona de uma beleza pouco comum, quase exótica. A brancura e as sombras no rosto não enganavam, o Sol não só não a entusiasmava como não a iluminava...

Lembro-me que durante muito tempo fez parte das nossas conversas de café, também elas nocturnas. A vulgaridade e a sujidade tomavam conta de nós, pouco satisfeitos com o seu mistério. Foi o Alípio que numa noite desvendou o seu quase "segredo", afirmando que ela cantava em bares, e bem, quase sempre coisas da américa, negras e brancas.

Depois descobrimos o seu nome artístico e soubemos mais coisas da sua outra vida como cantora.

Não se incomodava de cantar em lugares onde as mulheres se despiam, com e sem arte, depois da uma da manhã. Em nome da sobrevivência, aceitava todas as oportunidades para cantar, ora com os dois músicos que a acompanhavam, um pianista e um contrabaixista, ora em play back.

Outro dos seus mistérios, era não se conhecer nenhuma companhia masculina ou feminina, para além da mãe e irmã.

Foi também por isso que o poeta da nossa rua um dia  lhe escreveu um poema. Falava da sua solidão e também da sua beleza e maldita sina, de não conseguir sair da escuridão...

(Fotografia de Luís Eme)

segunda-feira, setembro 03, 2018

A Literatura é Mesmo Diferente...


Estava a ouvir uma jovem tocar viola numa roda de amigos e quando dei por ela, estava a viajar pelo passado, a percorrer as ruas dos sonhos da juventude...

Embora eu nunca tivesse grande jeito para a música, encontrei vários amigos dos tempos das "bandas de garagem" que ficaram pelo caminho, assim como o Rui "Pintor", que também abandonou esta vocação, quase apenas por que sim...

Quase que posso dizer que fui o único do bairro que continuou a caminhada pelo mundo das artes (neste caso mais letras...). E apenas por uma razão, a literatura é uma das poucas áreas da cultura que não exige uma formação específica. Se por um lado existem conservatórios para músicos, actores, encenadores, escolas de belas artes, não existe nenhuma escola que forme escritores (apesar de andarem por aí algumas pessoas a vender gato por lebre...).

E isso acontece porque para se ser escritor, a primeira qualidade que se exige é possuir-se um talento natural para a escrita, que se começa a notar desde cedo, nas redacções da primária. Talento que depois tem de ser alimentado, sobretudo com a leitura e com a prática diária dos jogos de palavras...

Ou seja,  podemos ser escritores "sem mestre". O mesmo não se pode dizer de um músico, ou de um pintor. Para "crescerem" eles precisam de alguém que os eduque, que lhes indique o caminho certo...

(Fotografia de Luís Eme)

domingo, setembro 02, 2018

O meu Interesse pela Vida dos Outros...


Às vezes penso nisso e reparo que o meu interesse pela vida dos outros é quase abstracto. 

Como é que vou explicar isto de uma forma simples?  Talvez até seja mais fácil do que parece... 

Raramente sinto um interesse particular pela vida dos vizinhos, do prédio ou da rua. Interessa-me sim, apanhar partes de vidas (através de uma notícia, uma conversa, um filme...) que possam entrar dentro das histórias dos livros, que  quase em simultâneo acabam por ser escritas em papel. 

Muitas acabam por perder logo a graça numa segunda leitura. Outras fingem que podem mesmo entrar no romance constantemente adiado...

(Fotografia de Luís Eme)

sexta-feira, junho 08, 2018

Coisas Perigosas (Quase Escondidas)...


Esta fotografia é apenas um exemplo das coisas dramáticas e perigosas, que quase não se vêem, porque estão ligeiramente distantes do "mundo", mas que existem "aos pontapés" neste nosso Portugal, de Norte a Sul.

Normalmente não são lugares de passagem. E por isso mesmo, não são assunto de conversa ou de crítica, não se fazem abaixo-assinados nem se faz "tremer o mundo" através do facebook...

Este cais completamente arruinado fica exactamente no Olho de Boi,  um quase "bairro" de antigos operários de Almada, à beira Tejo, rente às antigas instalações da Companhia Portuguesa de Pesca.

(Fotografia de Luís Eme)

terça-feira, maio 29, 2018

Aquela Gente, Parada no Tempo...


O mundo continua a ter mais que uma velocidade, tal como o nosso país... ainda tão desigual, apesar de todas as modernices. Achei curioso, que num tempo em que quase toda a gente se delicia com o facebook, mesmo em lugares quase remotos, haja algumas coisas que não mudam, provavelmente por conveniência de ambas as partes...

Senti aquela pequena cidade de província como quase uma aldeia. Claro que aqueles velhos hábitos podiam ser vividos só naquela rua, naquele bairro. Mas mesmo assim senti-me mais surpreendido que deslocado, ao perceber que naquele café, praticamente só com homens, que usavam todas as palavras,  com mais ou menos sujidade, animadamente, enquanto acalmavam o estômago com tremoços, amendoins  e minis. Só o tema de conversa era demasiado previsível, o Sporting, que era vivido com demasiada paixão por aqueles lados.

O meu "guia" ao perceber a minha surpresa por viajar no tempo, de regresso ao século XX, perguntou-me se queria visitar o salão de chá, onde estava a outra "metade" do bairro, Teve o cuidado de me informar que por lá a conversa era outra, não menos interessante. Sim, as mulheres falavam  dos episódios das telenovelas, e sobretudo, da vidinha interessante das "ausentes"...

Disse-lhe que não, enquanto também refrescava a garganta com uma imperial e ouvia os palpites sofridos daqueles homens, aparentemente com "corações de leão".

(Fotografia de Luís Eme)

quarta-feira, maio 23, 2018

A "Vida dos Outros" Continua a ser cá um "Filme"...


Passei para baixo e duas das minhas vizinhas estavam ali, na esquina, a falar em surdina sobre a vida "interessante" de alguém. Disse boa tarde e continuei a caminhada para o centro da cidade.

Quarenta e alguns minutos depois eu estava de regresso e elas continuavam no mesmo sítio, a conversar no mesmo tom de voz. Provavelmente a quererem guardar segredo de algumas das notas que "pintam" o quotidiano do nosso  "bairro"... 

Desta vez passei sem dizer nada, para não interromper nenhuma cena do "filme" cujo guião - "a vida dos outros" - desperta sempre grande curiosidade alheia...

(Fotografia de Marvin Newman)

domingo, abril 15, 2018

Culturas, há Mesmo Muitas...


A cultura geral de cada um de nós acaba por ser opcional. Ou seja, perdemos tempo sobretudo com o que nos interessa saber.

Pensei nisto ao perceber que um daqueles fulanos que achamos "limitados" e com quem não podemos falar de tudo, conhecia de fio a pavio as pessoas do seu "bairro", e não menos importante, as suas vidinhas, mesmo nas partes que poderiam interessar às revistas que gostam de inventar amores, aqui e ali.

Achei piada à quantidade de coisas que ele sabia sobre algumas pessoas que eu conhecia há anos (namoros, casamentos, adultérios, separações, etc). 

Afinal pensava que as conhecia...

(Fotografia de Luís Eme)

quarta-feira, janeiro 31, 2018

A Mulher que Conta as Estrelas...


Já ultrapassou há algum tempo os oitenta anos e posso dizer que faz parte do meu roteiro diário, pois a sua casa e a sua "varanda" ficam quase logo depois da esquina, assim que saio do prédio onde habito, em direcção a uma das duas cidades por onde me reparto.

Falamos sempre, nem que seja apenas um bom dia, uma boa tarde ou até uma boa noite (mais no Verão, quando o calor pede rua...), às vezes três, quatro vezes por dia.

Normalmente passo sempre apressado (por ser esta a minha forma de andar e também por querer chegar a horas, onde quer que seja...), mesmo assim ela ensaia o dialogo, tanto me pode perguntar pela "patroa e pelas crianças", que já não vê passar há uns dias... como falar do tempo, aqueles coisas que metem vento, chuva ou um belo dia de sol... E nunca me esqueço de lhe oferecer um sorriso.

Um dos seus passatempos é contar as estrelas, procurar a mais famosa, a do Norte, que até faz parte de canções. Às vezes fala-me delas, quando nos encontramos já ao cair da noite.

Ela é o espelho maior da solidão das cidades, mas em vez de se fechar em casa, vem para o seu varandim em busca do "calor humano". Como é simpática, todas lhe oferecem no mínimo um cumprimento, que a ajuda a suportar o tempo e o espaço de uma vida quase vazia de gente...

(Fotografia de Luís Eme)

quinta-feira, setembro 28, 2017

A Identidade (ou falta dela) dos Espaços...

O prédio onde moro tem menos de  20 condóminos, mas nos últimos tempos está a viver uma realidade nova. Depois de anos e anos em que os moradores eram os próprios donos das casas, agora vive o fenómeno do aluguer, da rotatividade das pessoas, ao ponto de termos a sensação de encontrar quase todos os dias gente nova a entrar e a sair do edifício, sem sabermos a  que fracção pertencem.

Esta nova identidade do prédio tem quase sempre mais contras que prós, porque a maneira de olhar para as pequenas coisas é completamente diferente. Por norma o dono de um apartamento tem um cuidado que os inquilinos normalmente não têm, desde o manter a porta da rua, aberta ou fechada, ao uso do elevador, passando pelo ruído nas escadas, há uma falta de sentido de posse que altera tudo... 

E claro, deixa de haver o tratamento de aldeia e de bairro, são quase todos "autómatos", que não conhecem palavras tão simples como o dom dia ou o boa tarde.

(Fotografia de Luís Eme)

segunda-feira, julho 03, 2017

Quase o Melhor Prédio do Mundo...


Quatro casas alugadas depois, sente que conseguiu o equilíbrio necessário entre um bom espaço físico e uma paisagem humana secundária, cumpridora da frase feita, "vive e deixa viver".

Quando lhe dizem que mora no "prédio dos velhinhos", sorri, mas o que lhe apetece dizer é que mora quase no melhor edifício do mundo.

Lembra-se vagamente de cães a ladrarem, de criancinhas a chorarem, mas sobretudo da gente bruta que entrava no prédio depois da uma da manhã quase aos gritos, e que quando entravam em casa, não dispensavam o bater com a porta, como se o eco desta fosse um "despertador" para a vizinhança.

Uma vez chamou a atenção ao casal de trintões que morava à sua frente. Responderam-lhe com maus modos e olharam-no de alto a baixo com olhares quase assassinos, oferecendo-lhe outra frase batida, "quem está mal muda-se". E ele assim que pôde, mudou-se mesmo. 

É por isso que em apenas dois anos já vai na quarta casa (bateu o recorde de permanência nesta última, sete meses), mas tudo indica que é para continuar, até por gostar das vistas, do bocadinho de Tejo que consegue ver se se colocar em cima de um escadote na janela da sala.  

(Fotografia de Luís Eme)

sexta-feira, maio 19, 2017

A Mulher que é Sempre Notícia no Bairro...

A tua janela nunca se abre.

É como o teu rosto, que já se deve ter esquecido do que é sorrir.

Quem pensa que te conhece, conta uma história. Fala de várias coisas que acabam sempre com um amor não correspondido.

Outras mulheres, do grupo raro que ainda conversa na mercearia, vão ainda mais longe, acrescentam à tua mágoa, um filho perdido.

Comentam também a tua magreza. Umas falam de fome, outras de ausência de apetite, e as que lêem revistas com ficções, de anorexia.

A única coisa que não consegues é ser invisível.

Seja pela janela que nunca se abre, pelo teu rosto fechado, por um amor não correspondido, pela mágoa de um filho perdido ou pela magreza, és sempre notícia no bairro...

(Fotografia de Judy Linn - Patti Smith)

segunda-feira, maio 15, 2017

A Velha Mouraria do Luís e do Modesto


Os meus amigos, Luís Bayó Veiga e Modesto Viegas vão apresentar na FNAC do Chiado mais uma das suas produções multimédia, desta vez, "Recordando a Velha Mouraria".

A não perder por quem gosta de imagens com história. 

quarta-feira, maio 10, 2017

Visita ao Café Gelo ( a propósito de um café com o O'Neill com visita guiada)

Nunca percebemos totalmente o quanto mudamos, o quanto nos deixamos transformar pelo tempo (quase um gigante, que está em todo o lado e se mete em tudo... mesmo sem o chamarem).

Claro que não falo de banalidades, do cabelo que se agarra aos cinzentos e se deixa levar pelo vento, ou ainda  do abdómen que descai, mesmo que se finja não beber imperiais e se frequente o ginásio da esquina.

Falo de já não conseguirmos ouvir as pessoas que dizem sempre a mesma coisa (sim há muitas pessoas iguais aos canais generalistas de televisão...). Levantamos-nos em silêncio, para não quebrar a "magia destes dias gémeos".

Quando me afasto gosto de viajar dentro da memória e de ter saudades do tempo em que podíamos dizer maluquices e éramos capazes de espremer a imaginação, como se fosse uma laranja sumarenta.

Ainda hoje me pergunto, porque razão não aceitei  de imediato o desafio de me tornar poeta, de ser mais um daqueles tipos que gostam de fintar rimas e de ver dançar as palavras, ao mesmo tempo que se esquecem de lavar demasiado o corpo, argumentando que a água e o sabão azul gastam a pele...

Foi numa dessas viagens interiores que tive uma memória com música e perguntei a uma nuvem, «o que será feito da Dulce "pianista"?» Essa mesmo, que tinha olhos multicolores e usava mini-saia, quando todas as miúdas da rua se pavoneavam à nossa frente dentro de calças de ganga apertadas. Além de gostar de contar anedotas que abriam muito a boca às meninas púdicas, ela era capaz de alegrar qualquer filme mudo com as suas improvisações de piano.

Hoje sei que fui um parvo, quando preferi namorar uma das tais miúdas que se fingiam esquisitas. Não fui o único. Todos nós tínhamos medo de amar a Dulce...

(Fotografia de Ami Strachan)

quinta-feira, março 16, 2017

Fábula ao Intendente

«Eu sabia que havia muita gente que achava que me vestia como as putas, foi por isso que ao descobrir o preço das rendas de casas, acabei por decidir morar no local onde elas trabalhavam. Sim, no Intendente.

Foi um desafio e pêras. Nos primeiros tempos houve espaço para tudo, puseram-me dentro de anedotas e ofereceram-me demasiadas frases de muito mau gosto. Mas o que poupei em dinheiro compensou...

Até que o actual primeiro-ministro, então "mayor" de Lisboa, decidiu instalar-se por lá e fazer daquela zona histórica em engates e facas na ligas, num bairro quase normal.

Uma das maiores mudanças que senti foi no olhar dos homens. Senti que começaram a lavar melhor a cara de manhã, pois tinham menos sujidade nos olhos, desde a estação do metro ao trajecto que costumava fazer até à universidade.»

(Fotografia de Luís Eme)

sexta-feira, dezembro 16, 2016

O Adeus da Cornucópia

O anúncio do adeus do Teatro da Cornucópia, ao fim de quarenta e três anos, só pode surpreender quem não conhece a realidade da grande parte das companhias teatrais do nosso país.

Mas dá que pensar que a este grupo, que sempre foi mais do Príncipe Real que do Bairro Alto (mesmo que fosse conhecido como parte integrante do bairro...), não tenha bastado o facto de ser reconhecido como uma das melhores escolas de teatro lisboetas (trabalhar com Luís Miguel Cintra sempre foi uma ambição natural para qualquer actor...). 

Sei que a qualidade e o rigor têm um preço demasiado alto e não se compadecem com os tempos longos de crise que vivemos, em que a Cultura tem sido a principal vitima dos cortes orçamentais do governo central e também dos governos locais.

E se juntarmos a tudo isto, o facto de muito boa gente achar natural e apoiar que se cortem os subsídios aos "malandros dos artistas que sempre viveram à conta do orçamento"... está tudo dito.

O argumento utilizado para o final desta aventura feliz de mais de quatro décadas, é o respeito pelo público. Não só compreendo, como sei que faz todo o sentido.  É muito bom não perdermos a dignidade, mesmo que os nosso sapatos comecem a ficar com uns buraquitos, aqui e ali....

(Fotografia de autor desconhecido)

quinta-feira, dezembro 01, 2016

Vale Tudo Menos Morder a Língua...

São quatro mulheres, todas com idade para serem minhas mães. Se as quiser encontrar basta passar de manhã pelo "meu café".

Cada uma delas continua a valer pelo menos três páginas de jornal, tais são as novidades que trocam sobre o que se passa nas suas ruas e  também na rua dos outros. Têm uma particularidade que as une e transforma quase em editoras: sabem mais da vida dos outros que da sua própria vida.

Infelizmente as suas páginas cada vez têm mais notícias de necrologia. Sei que preferiam o tempo em que ofereciam na primeira página a "fotografia" da amante de qualquer "bom rapaz" que viram crescer, porque como uma boa parte das mulheres antigas, acham que são sempre "elas" que fazem e desfazem lares.

Hoje lembrei-me que se ainda fossem a tempo de  ter "facebook", eram meninas para se tornarem-se rainhas dos "likes".

Foi também por isso que pensei que o género de conversa que sempre cultivaram, aproxima-se mais das "revistas cor de rosa" (coitadas no seu tempo só existiam a "Crónica Feminina" e a Plateia"...) e das "redes sociais", que do mundo dos jornais...

(Óleo de Armando Barrios)