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quarta-feira, agosto 23, 2017

«Não conheces críticos? Estás fodido...»

«Não conheces críticos? Estás fodido...»

Não, não conhecia críticos, pelo menos travestidos com a "farpela" que a Lília lhes oferecia, na nossa conversa. Conhecia um ou dois jornalistas que também escreviam sobre livros, mas aparentemente não tinham qualquer peso editorial ou institucional.

Ainda lhe expliquei que éramos um país demasiado pequeno e com um mercado curto. Ela insistiu que era nesses casos que se fazia mais "lobby", que se fechavam mais portas e janelas, para que as "prima-donas" não se sentissem ameaçadas.

Falámos de livros, de escritores, de jornais e de jornalistas. Como eu insistia em não a levar a sério, ela abriu a pasta e mostrou-me alguns recortes com notas de leitura e reportagens sobre dois ou três livros vulgares, que tinham recebido "estrelas cheias de baba" dos críticos dos semanários da nossa praça. 

Continuámos a sorrir porque o lado anedótico da situação era no mínimo inspirador. E também por sabermos que era difícil que as coisas na cultura fossem diferentes dos mundos da política ou do futebol, neste falso "paraíso" com muito de mar.

Depois de nos despedirmos, enquanto atravessava o rio, acabei por ficar a matutar no assunto.

Se por um lado, nunca tinha pensado na importância de quem escreve conhecer os  tais "críticos", sabia que as "capelinhas literárias" tinham lugares marcados...  E se eu conhecia livros e autores de qualidade que não tinham direito a uma simples nota de leitura na revista "Ler" ou no "Jornal de Letras"...

(Fotografia de Luís Eme)

segunda-feira, novembro 03, 2014

Viver... ou Resumir a Vida...


Não sei se é apenas a "velocidade" com que vivemos (ou nos obrigam a viver...), que faz com que cada vez mais se abrevie a vida.

Provavelmente não. Há um interesse crescente, ainda que velado, na superficialidade, na nossa perda de capacidade para analisarmos tudo o que nos rodeia com mais profundidade.

Não nos adaptámos (e talvez nunca o consigamos na totalidade) a este ritmo voraz, que entre outras coisas, aumenta as nossas dependências...

A linguagem dos tecnocratas ( já não são uma seita, são uma religião...) também não ajuda muito, uma boa parte deles limita-se a falar para dentro das suas "capelas", inventando palavras com pouco significado para o cidadão comum.

A informação também mudou e passou a ser partilhada em resumos, facilitando a sua manipulação. 

Mesmo as mensagens que trocamos na blogosfera e no "facebook", são cada vez mais curtas e superficiais.

Talvez estejamos a fazer, cada vez mais, resumos de tudo, até da vida...

O óleo é de Karin Jurick.

quarta-feira, outubro 22, 2014

Os Nossos Clássicos no Cinema


Apesar de termos uma história e uma literatura extremamente ricas, uma boa parte dos clássicos adaptados ao cinema, estão longe de ser grandes filmes.

Não escolhi por acaso o filme "Frei Luís de Sousa" (que é apenas uma peça de teatro...). 

E pergunto, porque razão nunca ninguém quis filmar a "Peregrinação" de Fernão Mendes Pinto? 

Mesmo os nossos grandes poetas aventurosos, Camões e Bocage, se têm nascido noutros países, imagino o que se poderia fazer sobre as suas vidas... Por cá fizeram-lhe filmes, mas falta, entre outras coisas, o sal das suas vidas. E nem vou falar dos descobrimentos.

A falta de meios não responde a tudo...

O giro é ver os filmes dos outros sobre os navegadores do século XVI, em que se mete a história debaixo do tapete e não aparece nada sobre a nossa epopeia dos descobrimentos. Quanto muito aparece um marinheiro português, misturado no meio da tripulação...

Lá vem mais uma pergunta: se não somos muito bons a gostar de nós, porque razão os outros iriam contar as histórias da nossa gente?

quinta-feira, agosto 07, 2014

O Comboio Descendente


As viagens de comboio são sempre um acontecimento, mesmo que nestes tempos modernos se tenha perdido a liberdade de abrir uma janela, de sentir o vento no rosto, ao mesmo tempo que nos esvoaçava os cabelos.

A única coisa que se mantém intacta, é o não cumprimento de horários. Continua a ser o comboio descendente dos poemas-canções, fazendo questão de chegar a horas incertas, para desespero de quem nos espera na estação e de quem utiliza com frequência este transporte que dança com os carris.

O último exemplo que tive foi quando fui para o Sul no "intercidades". E pior ainda quando tive de mudar de comboio e apanhar o regional na direcção do Sotavento, que até me pareceu andar devagar devagarinho, propositadamente, para que a viagem se prolongasse no tempo.

É por isso que bom bom, é não termos ninguém à nossa espera, aparecermos de surpresa, mesmo que isso aconteça quase fora de horas, tal como nos filmes pretos de homens solitários...

terça-feira, agosto 05, 2014

A Devolução (ou não) de uma Vida Banal


Desejou muitas vezes perder a vontade de escrever. Queria que lhe fosse devolvida a vida banal de qualquer habitante urbano, sem ter de andar com papeis e canetas nos bolsos...

Alguns anos depois começou a ficar aflito, começou a ver as ideias a fugirem e a perder a vontade de registar coisas tão simples como um sorriso ou um olhar alheio.

Embora ainda não tenha a certeza, talvez chegasse o tempo de se livrar do sonho de se tornar escritor, ainda antes de conseguir escapar do maldito anonimato.

Ainda não sabe se se sente aliviado ou se sente outra coisa...

O óleo é de Sérgio Turle.

segunda-feira, março 24, 2014

O Longe o Perto (e a Preguiça...)


Na sociedade de hoje está tudo mais próximo. As distâncias quase que se perderam no tempo, felizmente.

E nem vou falar das viagens pelo mundo fora...

Muito menos das viagens quase eternas para o interior, em estradas estreitas e cheias de curvas. Era quase um dia de viagem até à aldeia da Beira, onde viviam os meus avós paternos...

Quase todos ouvimos os nossos avós (e até os nossos pais...) contarem o tempo que demoravam a percorrer distâncias curtas, num tempo em que os carros eram uma raridade.

Nesse tempo a maior parte das pessoas andavam a pé. Quem trabalhava em lugares mais distantes, logo que lhes era possível, adquiria pelo menos uma bicicleta ou uma motorizada.

Toda esta conversa, porque por vezes a falta de vontade de aparecer aqui e ali, surge com desculpas que se agarram à distância, quando o que acontece é não nos apetecer sair do quentinho de casa...

Como eu percebi a Rita: «Quando queremos ir mesmo a um lugar, todas as distâncias se encurtam.»

segunda-feira, outubro 07, 2013

O Mar é a Única Estrada da Liberdade no Sonho...


O mar é a única estrada da liberdade no sonho de milhares de seres humanos que vivem abaixo do limiar da pobreza nas várias Áfricas e querem uma vida diferente, para melhor.

A Europa, apesar das crises, continua a ser um lugar onde os aventureiros que compram uma passagem para a outra margem, pensam, ser diferente. Onde se respeitam os direitos humanos. Tem dias...

É por isso que viajam atrás do sonho, o tal que lhe pode dar uma vida menos desigual.

A ilha de Lampedusa é apenas mais um sinal, um sinal que arrepia e que faz com que não apeteça nada escrever sobre a "morte" e sobre o seu negócio.

Egipto e Síria são dois retratos mais à mão de um mundo pintado de sangue, que nos dizem que o mundo caminha mesmo como o caranguejo.

O óleo é de Tomasz Setowski.

terça-feira, abril 09, 2013

Somos (pelo menos) Dois Países em Tantas Coisas...


Ultimamente ando calmo, nem sequer chamo nomes aos tipos que fingem ser "manéis céguinhos", mesmo quando quase que peço licença para passar em qualquer passadeira.

É mais uma das situações em que percebo que somos pelo menos dois países. 

Neste caso particular até encontro três tipos de condutores diferentes (sem distinção sexual...): os que param; os que aceleram; os que conduzem normalmente e que devem ter problemas de vista, pois para eles a estrada é apenas uma pista.

Isso levanta-me uma questão: será que o facto de se tirar a carta em escolas e cidades diferentes, tem influência na forma como se olha para as linhas brancas, que de vez enquanto surgem nas estradas?

Uma coisa é certa, não se podem desculpar com as regras de trânsito, porque lá está tudo bem explicito, por muita vontade (ou hábito...) que tenham de contornar a "lei"...

O óleo é de Daniel Del Orfano.

sábado, dezembro 01, 2012

Correr Contra a Corrente


Nunca fui o que se chama uma "ave nocturna", mesmo no período em que passava as quintas-feiras dentro das noites lisboetas e fazia quase directa, à espera do primeiro barco da manhã. Andava por ali a ver os brilhos da noite, ao mesmo tempo que descobria jogos de sedução diferentes, masculinos e femininos.

Muito menos era grande consumidor de álcool. Bebia quase sempre cerveja. Quando não o fazia, saboreava coca-cola com gelo e um cheirinho de whisky, de algum amigo com garrafa  no bar dos lugares onde se davam pulos ao som da música dos anos oitenta.

Um das coisas giras das noitadas era corrermos contra a corrente, no começo das manhãs. Pouco ou nada nos importava que as pessoas que iam trabalhar nos olhassem de lado, como se fossemos "aves nocturnas" a tempo inteiro, com alergia a uma vida normalizada...

Mas não era alergia (pelo menos no nosso caso), era apenas o gosto de termos uma noite para a "boa vai ela", antes da confusão de sexta e sábado, e que servia de escape à tal ideia, de termos uma vida demasiado certinha.

Depois alguns namoros tornaram-se mais sérios e o grupo acabou mesmo por ser derrotado pela "vida normal", telecomandada pelas mulheres que queriam ser donas da nossa vida. 

E lá se foram as "corridas" das quintas-feiras...

O óleo é de Yvonne Zomerdijk.