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sexta-feira, abril 14, 2017

A Clandestinidade...

Quando se entrava a sério na luta antifascista, dificilmente se escapava às garras da PIDE.

Para se evitar a prisão eminente, muita gente passava a viver outras vidas, na clandestinidade, saltando de terra em terra, de disfarce em disfarce... 

Era uma vida estranha, em que se tinha de abdicar de quase tudo, desde a família, aos amigos, passando pelos lugares que tanto amávamos...

Tinha de se possuir um espírito aventureiro, uma alma quase de vagabundo e ainda uma boa componente cénica, para se conseguir  mudar de vida de um momento para o outro, criando uma nova personagem...

(Fotografia de Herbert List)

segunda-feira, abril 10, 2017

A Procura dos Campos Abertos...

Era demasiado pequeno para perceber o porquê da procura de campos abertos, por parte dos tios e dos amigos que andavam quase sempre com as violas e as cantigas coladas ao corpo, naquele começo dos anos setenta do século passado...

Além de ser quase a "mascote" daquela juventude inquieta, já era livre por natureza. Foi por isso que só alguns anos depois, já no País de Abril, percebi aquela procura dos campos abertos, longe das árvores...

Eles não corriam riscos, era por isso que andavam quase sempre mais que a conta (enquanto eu saltitava de cavalitas em cavalitas) e falavam e cantavam, com a certeza que não havia qualquer "bufo" ou agente da PIDE nas imediações...

De vez em enquanto as conversas regressam  a esses tempos, onde também se ensaiaram algumas fugas, com cada um a escolher o seu caminho, porque qualquer estranho que aparecesse, era um potencial inimigo.

E eu confesso sempre, que pensava que tudo aquilo não passava de uma brincadeira, com miúdas e música...

(Óleo de Claude Monet)

Nota: Esta semana vai ser dedicada ao "Abril-Revolução", com pequenos relatos sobre o quotidiano de pessoas especiais, cuja simplicidade, por vezes, até faz doer...

quarta-feira, outubro 02, 2013

A Epopeia dos Bufos,Graxas e Outras "Aves de Arribação" - ou a Tal Proximidade da Ditadura


Quando trabalhamos por conta própria, vivemos num mundo à parte. Nem nos apercebemos do valor da liberdade que temos, apenas dos custos...

Dois amigos funcionários públicos confessaram-me que o ambiente nos seus trabalhos "fedia". Nunca tinham  reparado na existência de tantos bufos e graxas, cada vez mais descarados, nos seus serviços.

O Nuno tentou fugir dos totalitarismos: «A malta tem a mania de culpar o Salazar por tudo e por nada, mas não sei até que ponto ele tem culpa de sermos uns "bufos" e uns "lambe botas". Somos é uns "merdas", que fazemos tudo para ficarmos bem vistos.»

O João abanou a cabeça e empurrou todas as culpas para o ditador e para os que pensam como ele: «Claro que tem culpa. Ele e todos os que não convivem bem com a liberdade e a democracia. É por isso é que criam "papões" no trabalho e deixam bem expresso que a maneira mais fácil de subir na carreira é pertencer ao SIC (serviço de informações do chefe). É essa merda que estes filhos da puta chamam mérito, mas não passa de bufaria com fartura em todos os serviços.»

O João acalmou-se e acabámos por falar do clima de medo que se tinha instalado na função pública, com os despedimentos anunciados. Ninguém queria perder o emprego e mostravam que tinham um preço demasiado fácil aos chefes, que sempre adoraram cortes de bajuladores e informantes...

Felizmente ou infelizmente, é nos momentos dificeis que vem ao de cima o verdadeiro carácter de cada um de nós.

O óleo é de Max Liebermann.

quarta-feira, julho 17, 2013

Cartas Vermelhas


Este livro, logo que saiu, despertou-me a curiosidade, pela frase impressa na capa: «a história de uma militante comunista que se apaixona por um inspector da PIDE.»

Tem de ser uma aventura cheia de dramas, grandes e pequenos, pois este é um daqueles casos, em que a escolha de se amar e viver com o inimigo, só podia ser entendido como traição...

E é uma estreia, não conheço nenhuma obra de Ana Cristina Silva.

quarta-feira, janeiro 16, 2013

O Homem da Gabardine Preso à Esquina


Hoje estive à conversa com um velho comunista, que me contou vários episódios da sua vida de resistente, ao qual nem faltaram alguns anos de clandestinidade.

Não me soube dizer como foi que tudo começou, embora se tenha lembrado da razão de ter ganho um ódio terrível às gabardines (nunca teve nenhuma na vida...) e aos chapéus (também não...), por causa do homem que esteve estacionado durante dias na mesma esquina, numa atitude intimidatória e provocatória, rente à porta de um professor proibido de leccionar, inclusive em casa...

E aquele senhor que eles prenderam e soltaram dezenas de vezes, nunca deixou de ser o seu amigo professor.

O óleo é de Juan Luis Jardi.

quinta-feira, dezembro 18, 2008

A Primavera que Nunca Saiu do Outono...

A entrevista de Ana Maria Caetano à "Visão" merece-me vários comentários.

Embora compreenda a sua posição de filha, para quem o pai era uma das pessoas mais importantes do mundo, penso que não era preciso entrar em exageros, nem tão pouco tentar "fintar" a história.
Se por um lado é errado comparar os dois ditadores que nos governaram de 1932 a 1974, por outro, é perfeitamente natural. No essencial tiveram uma postura idêntica, governaram com um partido único e salvaguardados pela existência de uma polícia política capaz das maiores atrocidades, inclusive de matar. Polícia essa que ia a despacho a São Bento...
Quando a senhora diz que o pai era mais socialista que muitos socialistas, nem é uma grande descoberta, se olharmos para a política de Sócrates, mais protectora do grande capital que o próprio PSD. Embora deva acrescentar que estes governam, legitimados pelo povo, o que nunca aconteceu com Marcelo Caetano...

quarta-feira, dezembro 19, 2007

A Morte Traiçoeira de Um Grande Artista


Há exactamente quarenta e seis anos, a PIDE matou, cobardemente, José Dias Coelho, com vários tiros disparados nas suas costas, numa das ruas de Alcântara.
Na época Dias Coelho era um promissor artista plástico, militante do PCP, que decidiu abdicar dos seus sonhos pessoais e passar à clandestinidade, juntamente com a sua companheira de sempre, Margarida Tengarrinha, atrás de um sonho maior: o da Liberdade para todos os portugueses.
O desenho que escolhi, foi uma adaptação que fiz de um dos seus últimos desenhos, reproduzido no "Avante", a quando do assassinato de Cândido Pilé, em Almada, ocorrido um mês antes da sua morte, utilizado (com um filtro) para a capa do meu livro "Almada e a Resistência Antifascista".

segunda-feira, abril 30, 2007

Conversas de Abril (III)


Uma das coisas mais bonitas da nossa Revolução foi a grande lição de democracia e civismo, dada por todos aqueles que foram vitimas da PIDE. Não vimos ninguém aos tiros, a vingar a vida do pai, da mãe, do filho, da filha, do irmão, da irmã, do avô, da tia ou do tio.
Todos acreditaram na possibilidade de se fazer justiça pelos canais legais, através dos tribunais. Muitos ficaram desiludidos, por assistirem à impunidade de muitos dos carniceiros, que os torturaram de todas as formas possíveis, algumas das quais, nem nos passam pela cabeça. A maior parte passou apenas meia dúzia de meses na prisão, depois voltaram a ser cidadãos livres, como se fosse possível apagar o seu passado vergonhoso, com uma borracha...
Mais grave foi assistirem, quase duas décadas depois, à condecoração de dois inspectores da PIDE ou DGS, pelo governo do professor Cavaco Silva.
Estas palavras são dedicadas, inteiramente, aos resistentes antifascistas, quase todos do PCP, que cumpriram dezenas de anos nos presídios do regime, sem baixarem os braços na luta pela liberdade e pelo sonho da construção de uma sociedade mais justa.
Eles nunca desistiram de sonhar nem de lutar, nem mesmo quando começaram a ser empurrados pelos oportunistas de verbo fácil, que apareceram, apostados em agarrar as cadeiras confortáveis do poder.

Quando penso em homens como Alberto de Araújo, Bento Gonçalves, Alex Dinis, Militão Ribeiro, Dias Coelho, Soeiro Pereira Gomes, Pedro Matos Filipe, Mário Castelhano, Jacinto Vilaça, Joaquim Montes, entre tantos outros, que deram a vida pela Liberdade, esqueço tantas histórias e sinto-me, profundamente, comunista...

A ilustração que acompanha este texto foi pintada por Rogério Ribeiro, para o livro "Até Amanhã Camaradas", romance de Manuel Tiago (Álvaro Cunhal).

domingo, abril 15, 2007

Férias Forçadas em Abril


Quando voltava a casa Eduardo descobriu um movimento estranho à volta do prédio onde moravam, na Ajuda. Sem dar nas vistas continuou a caminhar e virou na próxima esquina. Andou perto de uma hora com a discrição possível. Já em Alcântara entrou num café, onde bebeu uma água e descansou um pouco, ainda sem saber muito bem o que fazer. Sabia que não podia voltar a casa. O aviso que lhe fizeram, da última vez que tinha sido interrogado, que da próxima vez que o vissem por ali não regressava a casa, soava na sua cabeça como se fosse quase um disco riscado.
Telefonou a um amigo de confiança, para que descansasse a companheira, de que continuava em liberdade. Depois apanhou o comboio para as Caldas. Apesar de estar a um passo da aldeia onde nasceu, não disse nada a ninguém da família, para não os colocar em risco. Refugiou-se na casa de um casal amigo, na Foz do Arelho.
Foi nesta localidade que soube da Revolução, dez dias depois, pela rádio, que esteve ligada dia e noite... com o evoluir da situação, acreditou que era desta, que se acabava, de vez, com a ditadura.
No dia 26 de Abril regressou a casa, felicíssimo, logo no primeiro comboio da manhã...

Só soube desta história, seis anos depois, quando fui convidado para jantar na casa do Eduardo e da Isabel, no dia 15 de Abril de 1981.