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quinta-feira, agosto 15, 2019

O 15 de Agosto...


O feriado de 15 de Agosto ainda continua associado à Feira Anual  das Caldas da Rainha (que ainda se realiza, apesar de ter perdido o brilho de outros tempos...), pelo menos na minha cabeça.

Feira que fez parte da minha meninice, com o circo, o poço da morte, os carrinhos de choque, os carroceis, 0 algodão doce, as barracas de farturas e até os vendedores de quinquilharias...

(Fotografia de Luís Eme - Manta Rota)

sábado, maio 11, 2019

«Eles levam é jeito para o teatro»


Dois rapazes sentados no interior da cacilheiro, acompanhados por uma senhora, que devia ser a avó, estavam longe de imaginar que eu iria escrever utilizando-os quase como "espelhos". Tudo porque uma outra senhora, sentada à sua frente, para combater o silêncio, disse que eles eram muito sossegados... 

A avó sorriu e abanou a cabeça, a dizer que não. Acrescentando de seguida, sem perder o ar alegre: «São o cão e o gato lá de casa. Eles levam é jeito para o teatro.»

Olhei-os e sorri. Eles desviaram a cara para a janela e para o rio e disseram alguma coisa um ao outro, como se aquele diálogo não tivesse nada que ver com eles.

E de repente, ali estava eu e o meu irmão. O "cão e o gato" das redondezas (passávamos o tempo a correr um atrás do outro...), mas sempre com grande compostura, quando estávamos num ambiente estranho. O que fazia com que as pessoas também dissessem que éramos muito sossegados. A mãe sorria, mas muitas vezes não respondia e fingia que sim... até por que gostava da nossa postura, de nunca a envergonharmos em público.

Pois é, nesse tempo, também devíamos "levar jeito para o teatro"...

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)

domingo, dezembro 09, 2018

Ir ao Circo e Sentir a Falta da Magia da Infância...


Hoje fui ao  circo, algo que não fazia há já alguns anos.

O mais curioso é sentir que aquilo que gostava mais na infância, é o que acabo por achar menos graça nos dias de hoje: os palhaços.

Na infância gostava de ir ao circo, com os meus pais e o meu mano, sobretudo por eles. Tudo o que faziam me fazia sorrir. Agora sinto que tudo o que transmitem no palco é demasiado vulgar e rabiscado...

Apesar de ter noção de que os animais deste espectáculo são retirados do seu habitat natural para serem explorados, e muitas vezes maltratados, também sei que foi graças ao "maior espectáculo do mundo", que muitas crianças viram pela primeira vez animais da selva...

(Fotografia de Luís Eme)

domingo, janeiro 07, 2018

A Educação do Olhar...


Nós somos o que nos deixaram ser, em quase todos os ângulos da vida, se esquecermos essa coisa que chamam "genes", que já herdámos de quem nos mandou "vir de frança" (de pais, avós, tios e até bisavós, que a maior parte das vezes não conhecemos...).

Toda esta introdução quase "biológica" porque o texto de ontem por estar ligado ao de hoje. Tive uma conversa que foi quase uma entrevista, sobre as coisas da cultura. Falámos muito de livros, de cinema e de teatro.

Parámos no cinema, e depois no teatro. A questão que ficou presa à "arte de talma", foi o facto de ela nunca ter chegado ao grande público, ao chamado "povo". As únicas excepções foram o teatro de revista (as peças chegavam a estar mais de um ano em cena, com lotações esgotadas, e era comum virem excursões da província assistir aos grandes êxitos) e o teatro de feira (quase sempre com a magia do manuseamento das marionetes...).

E lá apareceu o "umbigo" de alguns encenadores e autores (pseudo-intelectuais...), que adoram ser chatos e encenar peças que nem eles próprios percebem muito bem o sentido, deixando quase sempre a diversão de lado, que na minha opinião nunca devia estar distante dos palcos. Quando falo de diversão não estou de maneira nenhum a "exaltar" o teatro brejeiro e de riso fácil. É bom (para mim é o melhor...) quando saímos de uma sala de teatro ou de cinema, a pensar, porque voltámos a sentir algumas "dúvidas existenciais". Da mesma forma que é saboroso sairmos com um contentamento interior, que nem precisa de nos fazer sorrir. Basta que nos faça pensar: «Que grande peça!» «Que grande filme!»

Começo a escrever e depois esqueço-me do que queria dizer...

Eu sou da geração da televisão e do cinema. Cresci com a sétima arte, na infância vi quase todos os clássicos da Disney, assim como o burlesco mudo do Charlot e de Keaton, mas sem colocar os pés numa sala de teatro (isto de se viver na província é mais complicado do que parece...), pela sua ausência, especialmente de teatro infantil (onde tudo começa...).

E foi esta a educação do meu olhar...

sexta-feira, dezembro 22, 2017

O Natal é Sobretudo para as Crianças...


Embora todos gostemos de trocar presentes, as prendas encantam sobretudo os mais novos.

É por isso que à medida que os nossos filhos vão crescendo, esta quadra vai perdendo alguma da sua magia.

Claro que a "febre" do consumismo e a hipocrisia  destes tempos (ainda mais visível...), também contribuem para isso...

(Ilustração de autor desconhecido)

sexta-feira, maio 05, 2017

A Menina de Olhos Tristes...


Logo pela manhã descobri a menina de olhos tristes, sentada num banco, rente à paragem do autocarro. Estava de mochila, devia ir para a escola.

O nosso primeiro encontro deu-se no fim de semana passado, no interior do metro, quase vazio. Passou a viagem da Gil Vicente até Cacilhas a repreender o irmão, com menos três ou quatro anos que ela, como se fosse uma "mãe pequena".

E o pequenote, avesso às ordens da mana, fazia tudo ao contrário. Quando me olhou com ar traquina, disse-lhe que devia obedecer à irmã. Foram as minhas únicas palavras. Entretanto chegámos ao fim da linha e sai primeiro, para não se sentirem de alguma forma constrangidos.

Mas enquanto caminhava não deixei de pensar nas histórias que a minha mãe nos contava, mesmo pequena, como era a filha mais velha tinha de tomar conta dos irmãos, enquanto os pais trabalhavam nos campos...

Às vezes pensamos que o mundo mudou muito, que está tudo melhor, etc. O problema é esquecermos que não mudou para todos... Há por aí quem enfrente os desafios de outros tempos, há quem continue sem tempo para ser apenas criança...

(Óleo de Gaetano Chierici)

quarta-feira, abril 26, 2017

Sim. Porque não um Leão?


As crianças querem ser sempre muitas coisas. Desde astronauta a bombeiro, até que um dia crescem e são empurradas para a nem sempre agradável, realidade...

E às vezes também pedem coisas estranhas, como o Rui que gostava de ter um leão como animal de estimação...

Os pais um dia explicaram-lhe que os animais da selva eram perigosos e que só podiam viver no seu habitat natural ou nos jardins zoológicos.

Foi então que ele falou no cão de um dos vizinhos, que não só era mau, como também era feio. E ele  tinha toda a razão, um leão é muito mais bonito que qualquer pitbull ou rottweiller, que são notícia sempre pelos piores motivos e fazem a felicidade de tantos humanos.

E sem querer levantou uma questão, que devia no mínimo pôr os adultos a pensar. Eu pelo menos continuo a não perceber porque razão é que algumas pessoas têm algumas raças de cães em casa, que parecem ser tão ou mais ferozes que os bichos da selva.

(Fotografia de Eládio Begega)

sexta-feira, dezembro 23, 2016

«O Pai Natal não vem de barco.»


Apesar da cor, não é de facto, a barca do Pai Natal.

E a Anita (já quase que não se chama Anita às Anas...) tem razão, o homem das barbas brancas não vem mesmo de barco, apesar de ter muito espaço no porão, para as renas e para os presentes...

(Fotografia de Luís Eme)

terça-feira, setembro 27, 2016

«Passávamos o tempo na rua a jogar à bola.»

Hoje quando fui levar a minha filha à escola ela perguntou-me se tinha jogado futebol quando era pequeno.

Disse-lhe a sorrir que joguei quando era pequeno e quando era grande.

E depois voltei à minha infância e disse-lhe que no bairro onde cresci «passávamos o tempo na rua a jogar à bola.» Recordei os baldios que transformávamos em campos de futebol, como o campo de "terra preta" que nos pintava as pernas e que irritavam a avó, que ameaçava proibirmo-nos de ir brincar para a rua detrás...

Já de regresso pensei que em nome da "segurança" e da "especulação imobiliária" foram-nos roubando a rua e hoje é raro vermos crianças a brincar fora de casa (excepção para os espaços criados para esse efeito...).

(Fotografia de autor desconhecido)

quarta-feira, março 02, 2016

Viver no Reino da Estupidez

Só no reino da estupidez é que um avô volta para casa com os netos na mão porque o parque infantil foi ocupado por dois cães, com os seus donos regalados a verem os seus bichos a correrem e a saltarem, fechando os olhos às pequenas paragens para uma "mijinha" ou uma "cagadela".

O velho homem ainda chamou a atenção para uma placa de proibição, mas os dois convivas mandaram-no chamar a polícia.

Por ser uma pessoa educada apenas me disse, quando nos cruzámos, que estamos a viver no reino da estupidez, sem chamar os nomes próprios aos "ocupas" do parque infantil...

Acho que é muito pior que isso. Mas hoje não me apetece ser mau...

(Fotografia de autor desconhecido - do filme "Sinfonia para Hagen")

sexta-feira, agosto 28, 2015

A Praia dos Pobres


Os adultos nem sempre explicam as coisas como elas são às crianças. E se meter coisas mais complicadas, como por exemplo uma praia de nudismo há trinta e alguns anos, em que um rapaz com apenas cinco anos resolveu perguntar ao avô, porque razão as pessoas estavam naquela praia sem roupa, pode dar espaço a "coisas do arco da velha". Felizmente nesta caso nem podemos dizer que o sexagenário se tenha saído mal.

Disse ao neto que aquela era a praia dos pobres, das pessoas que não tinham dinheiro para comprar fatos de banho.

O pequenote ainda argumentou, dizendo que se calhar eram como ele, gostavam de tomar banho sem calções.

O avô com um sorriso disfarçado deu-lhe razão e disse-lhe que sim, que eram capazes de andar por ali pessoas a fingirem que eram pobres, só para tomarem banho sem qualquer peça de roupa.

O óleo é de Felix Valatton.

quarta-feira, junho 10, 2015

A Alice e a Avó Etelvina


«Falar nos meus avós fez com que a Alice confessasse que nunca teve avós, de e em qualquer lado. A única avó presente na infância, a Etelvina, nunca teve tempo para a ir buscar à escola e ainda menos para brincar com ela. E durante anos proibiu-a de a chamar de avó.

Na tentativa de esconder aquele drama, que ainda estava bem vivo num dos cantos da “caixa dos pirolitos”, desculpou a mãe da mãe, ciente de que deve ter sido um choque, ser avó tão cedo, ainda por cima com a vida de pernas para o ar. Sabia que havia uma idade para tudo e só os avós idosos podiam ser avós a quase tempo inteiro, sem fugas. A avó da Alice estava-se nas tintas para crianças. Não era única, por isso é que o mundo estava e está longe de ser fácil para a pequenada.»

A fotografia é de Elliot Erwitt.

sábado, março 21, 2015

A Poesia (da Catarina)...


Penso muitas vezes, que não há nada como a simplicidade.

Foi por isso que escolhi o bonito poema de uma menina chamada Catarina,  que com apenas dez anos foi capaz de definir a poesia de uma forma tão especial, e verdadeira...

Não encontrei melhor forma de festejar a Poesia, que partilhar convosco este poema que me foi oferecido por uma amiga especial.

A POESIA...

Era uma vez uma menina
de nome Poesia.
Brincava com as palavras...
o porquê, ninguém sabia.

Escrevia com o coração...
isso ninguém diria...
dizia palavras bonitas,
mas, havia, quem não as entendia...


O óleo é de Joan  Beltran  Bofil.

terça-feira, novembro 18, 2014

«Já percebi, os sonhos vivem num mundo à parte.»


Uma manhã destas a minha filha quis falar dos sonhos, esses "pilantras" que se escondem, mal ela abre os olhos, debaixo do travesseiro, do colchão ou noutro lugar qualquer.

Quase me me limitei a sorrir, por saber que os sonhos são um mistério para todos nós, independentemente da idade que possamos ter. E ainda bem que é assim, pois é sinal que ainda permanece alguma magia no ar...

Claro que depois fui obrigado a jogar ao seu jogo de palavras, ao ponto de chamarmos medrosos aos sonhos, que nos dão a sensação de fugir da realidade a sete pés, como se tivessem medo da "vidinha", essa mesmo, que fingimos que recomeça todas as manhãs, mas apenas se repete...

Até que ela resolveu acabar com a conversa, com esta frase lapidar: «já percebi, os sonhos vivem num mundo à parte.»

Acho que sim, ninguém melhor que ela para simplificar uma conversa que ameaçava complicar-se.

O óleo é de Henrik Uldalen.

terça-feira, novembro 11, 2014

Até a Chuva Pode ser Uma Diversão


Quando ainda habitamos no mundo das crianças, a vida é quase sempre uma diversão.

Até mesmo os dias chuvosos podem ser motivo para uma série de disparates, que nos obrigam a repreender os nossos filhos, mesmo que nos venha a memória o mesmo género de parvoeiras praticados na meninice.

Digo isto porque no regresso a casa, a minha filhota conseguiu meter as botas em mais de meia dúzia de poças de água. E de certeza que não foi apenas distracção...

O fascínio pela água é uma coisa terrível, até mesmo para nós, "crianças grandes", neste dias chuvosos que fingimos odiar...

A fotografia é de Bill Perlmutter.

domingo, novembro 02, 2014

Expressões Quase Tristes


O mundo está cheio de crianças que são obrigadas a crescer rápido demais, sem tempo e espaço para brincar ou receberem os mimos que deviam ter direito (e que as ajudam a ser mais amoráveis pela vida fora...).

Nós que colocamos os nossos filhos quase numa redoma, fingimos desconhecer as histórias de crianças que desde cedo têm de tomar conta dos irmãos (como faziam os nossos, pais e  avós, quando as famílias eram grandes...). De vez enquanto - talvez mais... - aparece num jornal (quase sempre no mesmo) a notícia de um acidente, em que os filhos estavam sozinhos em casa, ao cuidado da irmã ou irmão mais velho. Muitas vezes acabam por ser acidentes fatais, que vão marcar ainda mais as crianças, que estavam a fazer de pai e de mãe...

Depois esta gente cresce e noto que nunca perde as marcas que ficam no rosto (as da alma são menos visíveis...).  Há um peso, uma ausência de expressões e rugas ligadas ao sorriso, que faz que continuem pela vida fora, "velhas" antes de tempo...

São expressões quase tristes, de quem nunca teve grandes motivos para sorrir...

O desenho é de Florian Nicolle.

domingo, julho 06, 2014

Ainda Bem que a Infância Continua a ser um Mundo de Sonhos


Todos nós sabemos que na infância cabem quase todos os sonhos, mesmo quando nos tentam proibir de sonhar.

A última conversa que tive com a Rita foi sobre um trabalho colectivo em que colaborava, que entre outras coisas procurava saber o que as crianças queriam ser quando fossem gente grande. Trabalho que contou com a colaboração de mais de mil crianças de escolas de todos os distritos do país.

Não estranhou que a maior parte dos alunos quisessem ser actores, cantores, modelos, médicos (ainda resiste este sonho...) ou futebolistas.

Estranhou sim encontrar mais miúdos com vontade de serem bombeiros que políticos, astronautas, professores, aviadores ou pilotos de automóveis velozes.

Que a televisão não enche apenas o sonho dos adultos , já todos sabíamos. Até por nunca se ter cultivado tanto essa coisa de se ser "famoso" - há muito quem viva à sombra desta ideia -, que não tem uma tradução muito linear, até por não se reconhecerem grandes feitos desta gente, para além das festas onde lhe tiram retratos para revistas e os alimentam com "rissóis e croquetes"...

A  única coisa que fui capaz de lhe dizer foi que, apesar de tudo, deve ser mais fácil tornar real o sonho de ser bombeiro, que das outras profissões ou ocupações, destacadas.

O óleo é de Steven Christopher Seward.

quarta-feira, janeiro 22, 2014

A "Diabolização" dos Pais


Felizmente as primeiras notícias da manhã foram boas para os familiares da criança de dezoito meses desaparecida na Madeira, e para todos nós, claro.

Ontem ouvi uma série de comentários pouco abonatórios para os pais e para os familiares, para o seu descuido, ao ponto de algumas pessoas com uma imaginação mais mórbida, falarem de um novo caso "Maddie". Acrescentando inclusive que desta vez a "rainha da Inglaterra" não estava cá para os salvar.

Não fui capaz de tecer qualquer comentário. 

E hoje senti-me feliz e aliviado por o menino ter aparecido, por de alguma maneira colocar um ponto final nas muitas "telenovelas" que ganhavam vida dentro das cabecinhas da gente que se alimenta diariamente do quotidiano dos outros.

Mas há um aspecto que me deixou preocupado em todo este episódio: a crescente "diabolização" dos pais, mesmo sem qualquer tipo de prova, pelo menos na "praça pública", onde passam logo para o topo da lista dos suspeitos em qualquer caso de desaparecimento de crianças.

Felizmente continuo a acreditar que os pais são os primeiros guardiões dos filhos que colocam no mundo e que fazem tudo para que estes sejam felizes, mesmo num país que não é para crianças, para jovens ou para velhos, como é o nosso...

O óleo é de Jesus de Percival.

terça-feira, dezembro 31, 2013

O Mar e a Vida


O Mar pode ser uma metáfora para tudo.

Tal como os barcos de papel...

Ou a inocência de uma criança, para quem os dias têm sempre a beleza e o encanto, que nós já não conseguimos encontrar...

E a esperança, que todos devíamos ter, de um ano melhor que este, apesar de todos os "sinais vermelhos" que nos rodeiam.

O óleo é de Odysseas Oikonomou.

terça-feira, dezembro 18, 2012

«Esta gente tem de aprender a baixar a crista.»


Podia ser apenas um desabafo em relação aos pobres e necessitados mais rebeldes, mas não, era muito mais que isso. Eram as palavras de um católico que se julgava mais intimo e querido de deus, que qualquer um dos nós, porque ia à missa todos os domingos e tinha as orações todas na ponta da língua. 

Era o mesmo sujeito que tinha dito a um rapazinho que não podia participar na festa de natal com a roupa suja que vestia, quando eu estava a entrar. Embora sentisse vontade de facilitar a entrada à criança de sete, oito anos, fiquei em silêncio, até por ser uma simples visita.

Estava ali como representante de um colectivo que recolhera roupas e brinquedos para distribuir pelas crianças da comunidade, o que fazia com que tivesse de reduzir ao máximo a minha individualidade.

Embora ouvisse mais um ou outro comentário sarcástico do sujeito, a frase, «esta gente tem de aprender a baixar a crista», não me saia da cabeça. Até por pensar exactamente o contrário, se havia coisa que não devíamos fazer, era baixar a crista.

Achei todo aquele paternalismo insuportável. Tinha a certeza que aquela não era a minha sociedade, que aquele não era o meu mundo.

Percebi que uma boa parte daqueles "cristãos" se pudessem,  seleccionavam os pobrezinhos, só davam esmola aos que lhe deixassem fazer uma festinha na cabeça.

Liam da mesma cartilha da "Jonet" e de outros conservadores, que se sentiam como "peixes dentro de água", em sociedades como a nossa, cada vez mais desiguais e pobres, onde a caridade tentava (por todos os meios...) substituir a solidariedade, com a benção da igreja do Policarpo e do governo de Passos.

O óleo é de Jesus de Perceval.