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quarta-feira, agosto 21, 2019

«Como é que as pessoas se podem conhecer, se fazem sexo de luz apagada?»


Estava a deitar papeis fora quando descobri esta quase não pergunta. Fiquei na dúvida se era da minha autoria, se a tinha retirado das legendas de algum filme, ou se apanhei qualquer coisa parecida nas ruas.

Hoje de manhã, voltei a encontrá-la, aqui ao pé do computador. Pensei que ela por si só, já daria uma boa história, mesmo esquecendo o sexo (está aqui só para disfarçar)...

Antes de a escrever, li-a em voz alta: «Como é que as pessoas se podem conhecer, se fazem sexo de luz apagada?»

Eu sei que terá muitas respostas, mais ou mais óbvias, sem termos de nos deitar em qualquer divã do mobiliário dos sobrinhos do Freud. Mas mesmo assim, dá que pensar...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)

segunda-feira, agosto 19, 2019

Os Livros e a Flexibilidade do Corpo e da Mente...


A leitura  de uma história de ficção vulgar (os livros estão sempre a ensinar-me coisas, mesmo que sejam fraquitos...) fez com que olhasse para o meu dia-a-dia de um outro ângulo. 

Até concordei com a "teoria" de uma das personagens, que sentia que a perda de flexibilidade do corpo estava a ser equilibrada pelo aumento da flexibilidade da mente...

Sorria cada vez mais às "verdades absolutas" que lhe queriam impingir,  abraçado às suas queridas dúvidas... 

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

quinta-feira, julho 25, 2019

As Boas Histórias...


Há pessoas que sempre que falam contam histórias, das boas. 

Chamo boas às que gosto de ouvir, que soam a filmes ou que parecem ter saído dentro dos livros...

(Fotografia de Luís Eme - Ayamonte)

sexta-feira, maio 31, 2019

O Mundo Pode ser Outra Coisa...


Quando construo personagens gosto de lhes oferecer coisas que contrariam o que penso.

Exemplos? Ao escrever: «nunca leio os livros de que gostei, uma segunda vez», estou a mentir descaradamente. Já li vários livros uma segunda vez (e um ou outro, uma terceira, mais por obrigação que prazer...).

E quando o tento justificar, as coisas não melhoram: «não é medo de não voltar a gostar, é perceber que foi outra pessoa que leu aquilo. Quando tens 20, 30 ou 40 anos, não és a mesma pessoa com tem agora 50...» 

Continuo a discordar. Sei que não mudamos assim tanto...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)

sábado, maio 25, 2019

Um Vício de Outros Tempos...


Quando passa pelo quiosque, olha para todos os lados, assim como não quer a coisa. Se não descobrir ninguém conhecido por perto, tira algumas moedas do bolso e "compra um pacote"  de notícias em papel.

O passo seguinte é fingir-se distraído e enrolar o jornal, transportando-o de seguida, quase escondido, ao longo de um dos braços. 

Só se sente "a salvo" quando entra no café rente ao rio, que podia muito bem ser uma fronteira. Já nem estranha que as pessoas finjam não conhecer ninguém, como se aquele lugar estivesse condenado a ser apenas um ponto, onde se chega e parte, de preferência sem paragens...

Talvez seja isso que o descontrai, enquanto ocupa uma mesa e diz bom dia ao Tejo.

Depois pede uma água com bolhas, antes de começar a estender o "lençol de papel" pela mesa, à procura de palavras que o surpreendam, de preferência que não estejam sujas de sangue ou usem menos que mini-saia de roupagem.

(Fotografia de Luís Eme - Trafaria)

sábado, maio 18, 2019

«Imaginar, é outra forma de saber»


Claro que quem não tem o hábito de "imaginar", de saltitar, por exemplo, entre a Lua e o cais do Ginjal, dificilmente percebe o que a Beatriz tentou dizer à Laura.

Sentados quase à frente de pessoas de outras nações, que falavam francês, italiano, espanhol, alemão e inglês, reparámos num grupo animado, que falava com os cotovelos, com as mãos, com os olhos e com o sorriso.

A Laura, curiosa como a Eva (dizem...), queria muito saber que palavras despertavam toda aquela linguagem gestual. A Beatriz sorriu-lhe e preferiu contar o que via, à sua maneira (através da imaginação...). A Laura não achou muita piada. E disse que isso era outra coisa.

A Beatriz não se ficou e explicou-lhe que «imaginar é outra forma de saber.»

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)

terça-feira, maio 14, 2019

Quando os "Passarões" da Rua da Cristina Foram Parar à "Gaiola"...


A história era simples, o Rui, o Jorge e o Zeca, os falsos "heróis" da Rua da Cristina tinham sido apanhados, em flagrante, por um casal de polícias que usara o disfarce de turistas, dos apetecíveis, com boas máquinas fotográficas, computadores e notas de euros com três algarismos, para os levar à certa.

"Pinóquio", o maior contador de histórias das redondezas, esqueceu por momentos as suas patranhas e resolveu usar os seus exemplos para aconselhar a rapaziada mais nova, a não tentar "voar alto demais".

Quem não conhecesse a história de vida das três "aves de arribação" - como era o meu caso -, que tinham sido engaioladas, por andarem demasiado descontraídos pelas ruas, esquecidos que nas profissões de risco  "a distracção é quase sempre a morte do artista"... não conseguia deixar de sorrir pela arte do "Pinóquio", que à medida que ia falando, ia arranjando um lugar no "cinema", para aqueles três rapazolas que adoravam dar nas vistas, quase sempre pelos piores motivos.

Nunca os tratou pelo nome próprio, mas sim pelos "nomes de guerra", que curiosamente também foram uma invenção sua. 

Só alguém com a sua imaginação era capaz de baptizar o Jorge de "Canário", que além de falar pelos três, adorava dar música aos "camones", aliás, às "camones". O Rui ficou o "Corvo", por ser o mais misterioso e também o mestre dos silêncios. E o Zeca só podia ser o "Melro", o finório e espertalhaço do trio, sempre cheio de ideias mirabolantes, roubadas das séries e dos filmes.

O mais curioso, foi perceber que a rapaziada jovem tinha percebido a lição do "Pinóquio", sem perder o sorriso...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

quinta-feira, maio 09, 2019

A Ficção Dentro dos Sonhos...


Normalmente os meus sonhos não têm grande nexo, nem são muito fáceis de "colar" à realidade.

Curiosamente esta última noite aconteceu-me uma coisa inédita. Sonhei uma ficção, com uma nitidez que até me forçou a acordar, para a deixar registada em papel (não a queria perder por nada...).

Vou contar: vejo-me a entrar no portão da velha casa dos meus avós maternos e depois continuei a andar, pela casa dentro. Sou surpreendido por um homem, a quem me desculpo pela "invasão", dizendo que aquela era a casa dos meus avós... Foi quando resolvi acabar com o sonho.

O curioso é tratar-se de uma impossibilidade, pois a casa nunca foi habitada por ninguém, depois de a avó ter ido viver para a casa de um dos meus tios... E posteriormente foi destruída pelos novos proprietários (centro paroquial...) e hoje é um campo aberto.

(Fotografia de Luís Eme - Salir de Matos - a última vez que entrei na casa dos meus avós, em 2010. Já não nos pertencia e estava em ruínas. Mesmo assim acabei por entrar  para tirar as suas últimas fotografias...)

segunda-feira, maio 06, 2019

Os Livros Mudam, Tal como Nós...


Resolvi reler o "1984" de George Orwell, devido a um trabalho colectivo em que estou a participar. 

Já o tinha lido há quase trinta anos, mas nós quando temos 20 anos não temos o mesmo olhar, nem a mesma linha de pensamento, de quando temos 50... Isso explica que não me lembre da sua leitura me ter despertado tantas questões (especialmente sobre o autor e a época em que foi escrito...), como agora. 

Nessa época devo-o ter lido como uma obra de ficção científica e não me preocupei muito com as questões ideológicas que lança (apesar do mundo não ter evoluído tanto - e ainda bem - para o tal tempo quase de sombras e fotocópias humanas...).

Nem sabia que tinha sido escrito pouco tempo depois da Segunda Guerra Mundial e publicado em 1949 (algo que nem me deve ter preocupado nos anos 1990...). Sabia apenas que Orwell era um escritor estranho, ou que, pelo menos tinha escrito dois livros distantes da normalidade (o nosso "Triunfo dos Porcos" também tem muito que se lhe diga...).

Não é difícil concluir que o autor conheceu de perto algumas das práticas dos partidos totalitários (além do nazismo que fora derrotado pouco antes de começar a escrever "1984", Orwell também  foi militante comunista, tendo abandonado a ideologia socialista, assim que teve conhecimento das atrocidades e da falta de liberdade dos países comunistas...).

Aliás, percebe-se que esta obra crítica sobretudo o ideário comunista, inspirando-se num centralismo de estado levado ao exagero, com a presença de uma grande opressão física e mental (não nos permitir pensar pela nossa cabeça nem ter qualquer relacionamento amoroso, tem muito que se lhe diga, mesmo muito...).

Sei que a popularidade do "big brother" televisivo fez com que algumas pessoas lessem este livro. Mas devem ter-se sentido enganados, pois além da proliferação das "teletelas" por todo o lado, não existe mais nada em comum...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

terça-feira, abril 23, 2019

Fernando Ricardo José Pessoa Reis Saramago


Finalmente li, do princípio ao fim, "O Ano da Morte de Ricardo Reis" de José Saramago.

Ao chegar à última página, pergunto a mim próprio, porque razão interrompi duas vezes (praticamente no início...) a sua leitura...

Não é um livro com uma história empolgante, mas faz uma ligação extraordinária entre Fernando Pessoa, Lisboa e um dos seus heterónimos. E claro sobre o que se foi passando no mundo nesse ano de 1936 (como a Guerra Civil de Espanha e toda a sua envolvência, interna e externa) e também no nosso "burgo", com várias referências a acontecimentos e figuras, num tempo que corria de feição a Salazar. como foi o caso a Revolta dos Marinheiros em Setembro nas águas do Tejo (com várias referências a Almada...).

Gostei da Lídia, a criada do hotel, amante e mãe do futuro filho de Ricardo Reis, personagem pouco instruída, mas com nada de burra, como aconteceu com tantas pessoas que Saramago deve ter conhecido pela vida fora, não fosse ele de origens humildes (penso que surge no livro em sua homenagem...).

Percebo muito bem todos aqueles que acham "O Ano da Morte de Ricardo Reis", um dos grandes livros que leram. Especialmente os amantes de Fernando Pessoa, que está presente da primeira à última página (e não apenas quando faz as suas "aparições")...

Achei que a melhor maneira de festejar o Dia Mundial do Livro, foi fazer a referência a este livro especial, que tem dentro de si Lisboa, Fernando Pessoa, e sobretudo José Saramago, o nosso único Nobel da Literatura.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

quinta-feira, fevereiro 14, 2019

A Crueza da Vida que Vem Dentro dos Livros...


Muitos romancistas gostam de falar da ficção como algo tão rico, que consegue superar a própria realidade. 

Percebo que quem não escreva, tenha alguma dificuldade em perceber isso. Os mais cépticos até poderão pensar que se trata de mais uma "ficção". Mas não, quando se inventa uma história, podemos e devemos ir sempre mais longe que na "vidinha", penetrar pelas zonas escuras, abrir portas e janelas, ir ao mais fundo de cada um de nós...

Lembrei-me disto a propósito da última conversa que tive com um amigo, solteirão e bem parecido, já reformado que vive sozinho, se esquecer o seu querido cão.

Não lhe fiz perguntas, até por não andar à procura de nenhuma personagem parecida com ele. Foi ele que quis desabafar, ir à procura da vida que deixara para trás. Percebi que há muitas coisas que ele não sabe explicar, mas também não quer pedir ajuda ao Freud ou a outro estudioso das tais "áreas cinzentas", que tentamos fingir que não existem.

Falou-me do pai, que morreu novo. De ele ser desde muito cedo, o principal sustento da família. Do medo de ter a sua própria família, de nunca ter pensado a sério em ter filhos. Os irmãos mais novos tinham sido uma chatice... De nunca ter tido problemas em arranjar namoradas. De se ter apaixonado duas ou três vezes, sempre pelas mulheres erradas (já eram de outros...). Uma delas ainda o partilhou durante algum tempo, mas ele nunca se sentiu bem na pele do "outro". E acabou tudo quando ela ficou grávida do primeiro filho. Ainda hoje consegue "inventar" parecenças no tal rapaz, que hoje é um homem maduro... 

Antes de nos despedirmos disse-me, com um sorriso, que me contara coisas, que nunca dissera a ninguém.

Sem ele saber, ofereceu-me bastante "material" para compor uma personagem.

E sei que se escrever sobre alguém parecido com ele, posso ir ainda mais longe, porque não estarei a referir-me a ninguém em especial...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)

domingo, dezembro 23, 2018

«Não te preocupes, ninguém lê o Eça hoje em dia.»


A conversa começou a "ganhar velocidade" graças a mais  uma transcrição criativa do famoso Eça de Queirós (Ele, tal como Pessoa, Junqueiro, Ortigão, e outros, fartam-se de ser citados, com palavras dos outros...).

O Carlos quase que batia com o pé na calçada portuguesa, que aquilo já era invenção a mais, entre outras coisas mais profundas.

Só o Henrique é que o conseguiu calar com uma tirada actual, dita com a maior calma do mundo: «Não te preocupes, ninguém lê o Eça hoje em dia. Mesmo os alunos e os professores ficam-se pelos resumos que se vendem nas livrarias...»

E ainda foi mais longe: «Achas que alguém está preocupado em saber o que é que o Eça ou o Junqueiro disseram há cem anos? Ninguém. A malta gosta é das adaptações modernas colocadas no facebook

Fomos obrigados a sorrir e a aceitar os argumentos de uma das nossas "vozes da sabedoria".

(Fotografia de Luís Eme)

domingo, outubro 28, 2018

(Memórias & Invenções Sobre a Beira Baixa)


Deixo hoje mais algumas transcrições do conto que escrevi, para a antologia, "Contos do Portugal Profundo", onde as memórias abraçam a imaginação... E onde se descobrem pequenas coisas deste nosso Portugal, quase esquecido...

«[...] Quando olhou para o Olival, que quase se perdia de vista, recordou-se que o pai guardava sempre uma semana de férias no mês de Outubro para voltar à Beira. Antes da chegada do Inverno vinha ajudar os tios na apanha da azeitona. Nunca falaram sobre isso, nem sobre tantas outras coisas… Poderia gostar de sentir o tempo a arrefecer perto da Serra, como acontecia na sua meninice, ou então, de continuar preso à tradição familiar do fabrico do azeite. Provavelmente eram as duas coisas…
Tinha saudades dele. Dos seus silêncios, do seu sorriso suave e sobretudo da força que transmitia, apenas com o olhar. Nunca falara disso com ninguém, nem mesmo com o irmão, muito menos com a mãe.[...]»

«[...] Sentia que a pequena localidade tinha regredido muito, tal como acontecera com tantas terras do interior, nas últimas décadas. A taberna, que agora era apenas café, tinha perdido o atractivo de ter a seu lado a mercearia, onde se podia comprar um pouco de tudo, como ainda acontece nos bairros… O facto de antes ter dois mil habitantes e agora ter menos de quinhentos não pode explicar tudo. Até porque o meu milhar de pessoas que mantêm viva a aldeia, além de estar mais envelhecido e limitado de movimentos, continua a ter de comer todos os dias… [...]»

«[...] Quando voltou para dentro aproveitou para se espreguiçar, ao mesmo tempo que olhava à sua volta. A cozinha tinha apenas a mobilia indispensável, assim como a sala e os quartos. Gostava daquela ausência de inutilidades que vamos juntando ao longo da vida. Era bom a casa não ser de ninguém em especial, pertencer sobretudo a quem chegava, que trazia os seus livros, os seus discos e as suas roupas, que depois levava de volta… [...]»

«[...] As fotografias e os nomes foram lhe recordando pequenos episódios, quase sempre positivos. Percebeu que estavam por ali várias pessoas que tinham acabado os seus dias nas cidades, mas por tradição, ou por outra coisa qualquer, quiseram que os seus corpos desaparecessem no mesmo lugar onde tinham nascido, rente aos campos da Beira.
Havia tios e primos que nunca conhecera fisicamente, mas de quem sabia várias coisas das suas vidas, algumas de forma quase lendária, como o Tio Firmino, que morrera novo e diziam ser o maior jogador do pau das redondezas, um autêntico “malhadinhas” do Aquilino. Era comum virem à aldeia desafiá-lo e normalmente saiam de Alcobar, derrotados e cabisbaixos.
Recordou o tio João, um homem alto e bonito, o único que tinha olhos azuis da família, vá-se lá saber porquê. Tinha algo de imperial, como se tivesse existido na família qualquer mistura de “sangue azulado”.
A última morada do bisavô Francisco elevava-se um pouco acima das outras, provavelmente, como reconhecimento da aldeia pelo seu papel activo na defesa da comunidade, ao exteriorizar com tanta energia a importância da água para todos.
Estupidamente lembrava-se mais dos homens que das mulheres da família. Foi por isso que quando descobriu o retrato da tia Isabel, que lhe oferecia uns bolinhos secos deliciosos, reviu-a com gosto. Sorriu ao recordar a sua figura anafada, brejeira e com um andar quase dançante. Agora achava piada ela enchê-lo de beijos quando se víam, na altura nem por isso. Sorriu ao recordar que os beijos lambuzados, eram uma especialidade de quase todas as mulheres da aldeia, especialmente as de mais idade, que o abraçavam e chamavam “filho da minha alma”… [...]»

«[...] Sempre achou graça à diferenciação de sexos assumida na aldeia, até pelo padre e pela igreja. Elas iam rezar para a missa e eles beber do corpo de cristo na taberna do Alfredo.
As coisas não mudaram assim tanto, na actualidade o café continua a ser sobretudo dos homens. As mulheres passam por lá mas quase que não param. Bebem o café e vão para casa. São eles que passam ali as tardes de sábado e domingo a jogar às cartas e a beber minis. [...]»

(Fotografia de Luís Eme)

sábado, outubro 27, 2018

(A Segunda Despedida à Francesa)


E agora a segunda e última despedida à francesa, que coincide com o fim da história...

«[...] Ao olhar para a paragem da camioneta de carreira, houve algo que lhe chamou a atenção. Aproximou-se e descobriu um cartaz teatral no mínimo curioso, que disputava o espaço publicitário com o anúncio descolorido de uma tourada do ano passado. Sem saber explicar porquê achou piada ao título da peça de teatro, “A Mulher que Falava com os Morcegos”. Podia ser apenas uma piada, mas pensou que era capaz de não ser má ideia aparecer por lá no começo da noite e conhecer esta personagem curiosa.
As sete pancadas de Molière anteciparam a entrada de uma actriz no palco, que descobriu que ia andar por ali, quase uma hora, a falar com as sombras…
O mais engraçado foi descobrir que o monólogo era interpretado por uma cara conhecida. Nada mais nada menos que a Eva, a “conversadora do café”. Embora a personagem se chamasse Laura e a actriz do cartaz fosse identificada como Cristina Nunes...
Não morria de amores pelo género teatral que ficava entre o absurdo e o intelectual, mas sentiu-se bem na sala. A espaços encontrou aquela magia que de vez em quando surge nos palcos. Acabou por ficar agradado, por que havia por ali uma autenticidade diferente, virada do avesso, com várias nuances, com a Laura a movimentar-se muito bem, quase como se estivesse num baile de máscaras.
Percebeu ao longo da quase uma hora, que ela era uma boa actriz.
E até tiveram um momento só deles, quando ela parou de representar por breves segundos.
Aproximou-se da ponta do palco, olhou para ele por mais de um segundo e sorriu. Depois fez um pequeno silêncio e disse, completamente a despropósito, apontando para cima: “Ele veio”… Embora estremecesse com a surpresa, fingiu o melhor que pôde, que não tinha nada a ver com aquele assunto. Os espectadores da plateia, por distracção ou desatenção, também de comportaram como se aquela frase curta fizesse parte do acto. E ainda bem.
No final houve muitos aplausos, Laura veio três vezes ao palco agradecer a generosidade do público beirão, que acabou a bater palmas de pé.
Se fosse numa outra cidade e numa outra vida, tinha passado pelo camarim, para lhe deixar flores e oferecer um sorriso, agradado pelo espectáculo e até pela pequena referência.
Mas preferiu imitá-la e fazer o que ela lhe tinha feito no café, nada mais nada menos, que o que alguém, para os lados de Paris, popularizara como “despedida à francesa”…»

(Fotografia de Luís Eme)

sexta-feira, outubro 26, 2018

(A Primeira Despedida à Francesa)


Como expliquei na resposta a um comentário, o conto que escrevi para o livro, "Contos do Portugal Profundo", é grandito. Mesmo assim resolvi ir ao encontro de duas frequentadores dilectas do "Largo", que mostraram interesse em ler a história, publico aqui os dois momentos que acabaram por contribuir para o título da ficção ("Despedidas à Francesa num Outro Portugal"). Um hoje. E outro amanhã...

«[…] Na Vila perdeu-se um pouco pelas ruelas, quase desertas, até que entrou num café, decidido a petiscar qualquer coisa. Um dos pratos do dia era ervilhas com ovos escalfados, algo que não comia há muito tempo. Não pensou duas vezes na escolha da ementa.
No final, quando saboreava o café, foi surpreendido pelo olhar vivo de uma mulher da sua geração, cujas rugas indiciavam que poderia ter um ou dois anos a mais que ele. Mas ela não se limitou a olhar, foi-se aproximando e fez-se mesmo convidada para um café, como se estivessem numa daquelas casas onde os homens pagam bebidas às mulheres.
Ao perceber que ele não estava com muita vontade de falar, fingiu não se preocupar e fez quase todas as despesas da conversa. Esperta, começou por o provocar e fazer sorrir, quando tentou certificar se o gato da vizinha Aurora também lhe comera a língua.
Disse ser uma Eva e quis saber quem era ele. Ofereceu-lhe o segundo nome, Manel, o que foi aproveitado para ela misturar logo um pincel na conversa, em mais uma tentativa de deixar mais à vontade.
Naquele momento não sabia muito bem o que pensar da mulher, com o tal nome original que alguns homens fingem acreditar, que foi uma criação por Deus… Mas era impossível passar ao lado da sua lata…
E ela lá continuou a falar sem parar. Queria saber coisas do homem que se ia tornando um mistério, por não lhe dizer praticamente nada do que lhe apetecia ouvir. Foi quando Eva lhe explicou que podia mentir, inventar uma vida, acrescentando que às vezes era uma boa maneira de se sonhar acordado. E sem deixar que a interrompesse afirmou que todos mentimos, todos escondemos alguma coisa. Foi quando ele sorriu de novo, por ser verdade e também por ter à frente uma mulher que parecia não desistir às primeiras às segunda e às terceiras.
Talvez fosse professora de filosofia, ou então psicóloga, daquelas que fartas de ouvirem as histórias dos outros, se resolvem libertar nos lugares mais insólitos e oferecer quase todas as palavras do mundo a desconhecidos.
Ela insistiu e foi ainda mais longe na descodificação que fazia da natureza humana. Falou do medo, da impotência, da solidão, da perda… Metia-se com ele, talvez por sentir que ele fingia não ser grande adversário, E era verdade. Naquele momento estava ali sentado, com a mesma sensação de estar a assistir a uma peça de teatro ou a um filme. E como sabia que o silêncio era de ouro nos momentos em que a arte se confundia com a vida, não perturbava nem um pouco o “monólogo” da Eva…
Numa última tentativa de lhe arrancar alguma coisa dos bolsos de dentro, onde se escondem os sonhos e pesadelos, Eva contou algo que, segundo as suas palavras, nunca tinha dito a ninguém. Pensava cada vez mais vezes que talvez tivesse sido melhor ter uma vida calma, de ser apenas mãe e dona de casa. Ter uma vida mais parecida com a da avó que com a da mãe, que também teve de trabalhar a vida quase toda fora de casa… E foi ainda mais longe. Olhou para outra mesa mais distante, com dois adultos e duas crianças, e falou-lhe de uma família, que poderia muito bem ser a sua, se…
 Foi o único momento em que se sentiu quase obrigado a dizer alguma coisa. Com um sorriso leve afirmou que adoramos desculpas, quando todos estamos sempre a tempo de mudar. Sem se deixar interromper, disse que a vida tem o condão de nos oferecer mais que um caminho, tanto podemos dar um passo em frente, dois para o lado ou um para trás.
Depois das suas palavras apareceu o silêncio. Os segundos que se seguiram pareceram minutos. Foi como se ele quebrasse a magia do “monólogo” anterior.
Foi neste momento que Eva fingiu ir à casa de banho e desapareceu.
Só dez minutos depois é que percebeu que ela não ia voltar… Ainda ficou por ali a pensar, pelo menos outros dez minutos, novamente com a máquina do tempo a fazer marcha atrás, e sem grande esperança de a voltar a olhar.
O mais curioso foi ter gostado de a conhecer, mesmo que soubesse que era provável nunca mais se encontrarem, em qualquer parte incerta, porque como lhe confessou, quando ensaiou a despedida, estava ali apenas de passagem. Depois ela desculpou-se, quase à homem, que ia fazer uma “mija” e já voltava.
Mas desapareceu…
Talvez fossem as suas palavras que quebraram a magia da conversa, comandada pela mulher, do início ao fim.
Foi acordado nas suas deambulações pelo olhar de uma outra mulher, que entrou à procura de alguém e saiu. Sorriu novamente, mais pelo presente que pelo passado, porque há muito que não o olhavam de uma forma estranha, e muito menos se faziam convidados para a sua mesa. [...]»

 (Fotografia de Luís Eme)

quarta-feira, outubro 24, 2018

A Apropriação das Memórias...


Tenho lido algumas críticas (quase sempre de militares...) a António Lobo Antunes, por ele ficcionar demasiado a Guerra Colonial. Outros ainda vão mais longe, e duvidam mesmo que ele, que foi médico militar, alguma vez tenha pegado numa arma, ou até tenha estado em contacto directo com o fogo inimigo.

Acho todas estas críticas patéticas e mentirosas. Sem precisar de lhe perguntar, tenho a certeza de que pegou em armas, assim como esteve presente em situações de combate.

Mas mesmo que isso não tivesse acontecido, reconheço toda a legitimidade a Lobo Antunes para escrever sobre essa guerra estúpida (como são todas...). Ao tratar dos seus camaradas feridos em combate, sentia as suas dores e o feridas, um pouco como suas. É esse o espírito militar. E a união ainda se solidifica mais em situações dramáticas... 

E vou ainda mais longe, o escritor faz muito bem em se apropriar das memórias dos seus antigos camaradas, que sabem que têm nele, um extraordinário "porta-voz".

(Fotografia de Luís Eme)

domingo, outubro 21, 2018

Contos do Portugal Profundo


Escrevi assim na minha "Carroça":

«A blogosfera tem bastantes coisas boas. Uma delas é a interacção entre pessoas, que gostam das mesmas coisas que nós.
Alguns dos comentadores do blogue literário, "Horas Extraordinárias", de Maria do Rosário Pedreira (poeta e editora), pensaram (penso que a ideia inicial foi da Cristina Torrão...) na possibilidade de  se editar uma colectânea de contos, aberta a todos os "comentadores-escritores", interessados em fazer parte activa da obra.
O mote foi "Portugal Profundo", segundo a visão de cada um de nós.
Aceitaram o desafio: António Breda Carvalho, António Luiz Pacheco, Cláudia da Silva Tomazi, Cristina Torrão, João  J. A. Madeira, José C. Catarino, Luís Alves Milheiro, Maria do Rosário Pedreira e Pedro A. Sande.
E o livro já anda por aí e pode ser adquirido na Amazon.»

Posso acrescentar que o meu conto tem como título, "Despedidas à Francesa num Outro Portugal", onde misturo memórias reais da Beira Baixa com alguma ficção, como foram os dois encontros inesperados, que tiveram despedidas à francesa...

terça-feira, outubro 16, 2018

A Memória de um Amor Salgado...


«Esforçava-se e conseguia, mas sempre por pouco tempo.

Era por isso que tentava aproveitar da melhor maneira os escassos minutos em que conseguia recordar, muitas das partes boas da vida que partilhara com Helena... 

O que lhe surgia com mais cor e movimento eram os passeios que os levaram a tantos lugares. Fechava os olhos e voltava quase ao paraíso. Era como se a sua vida tivesse sido só viajar...

Uma dos sítios onde regressa quase sempre, é ao Mar, à primeira vez que a levou a ver o Oceano, em pleno Inverno. Foi uma surpresa boa porque Helena só conhecia o Mar do Verão, da praia cheia de barracas, chapéus de sol, toalhas, e claro, da imensidão de corpos, praticamente nus e bronzeados. 

Desconhecia por completo a sensação de ter uma praia só  para ela, a possibilidade de escutar aquele mar irritado e teatral, que gritava e barafustava de uma forma única. E se nos aproximássemos mais do que a conta, presenteava-nos com farripos de água, mais suaves e agradáveis que a chuva "molha-parvos", perfumados de sal.

Arrepia-se quando recorda aquele frio, que os abraçava de uma maneira única.»

(Fotografia de Luís Eme - pedaço de uma ficção pura para o conjunto de histórias, com gentes que nunca conheci...)

sexta-feira, outubro 12, 2018

Fugir da Biografia...


Embora se diga que tudo o que escrevemos é "autobiográfico", penso que só o é, por sair de dentro de nós.

Muitas vezes criamos personagens completamente opostas e diferentes daquilo que pensamos ser. Claro que fazemos a sua construção, a partir do nosso mundo interior. E por isso, mesmo, sem querermos, podem ficar com uma costela (pelo menos...) "autobiográfica".

Nos últimos tempos tenho aproveitado os momentos de lazer para construir histórias sobre pessoas, que têm um ponto em comum: são completamente desconhecidas para mim. Ou seja, não conheço ninguém com aquelas características (pelo menos é o que penso...). 

Estou a gostar, é bastante estimulante esta busca pelo desconhecido.

Ao fazer este exercício literário lembrei-me de Alberto Caeiro, o heterónimo de Fernando Pessoa mais afastado da sua biografia e um dos meus preferidos...

(Fotografia de Luís Eme)

domingo, setembro 02, 2018

O meu Interesse pela Vida dos Outros...


Às vezes penso nisso e reparo que o meu interesse pela vida dos outros é quase abstracto. 

Como é que vou explicar isto de uma forma simples?  Talvez até seja mais fácil do que parece... 

Raramente sinto um interesse particular pela vida dos vizinhos, do prédio ou da rua. Interessa-me sim, apanhar partes de vidas (através de uma notícia, uma conversa, um filme...) que possam entrar dentro das histórias dos livros, que  quase em simultâneo acabam por ser escritas em papel. 

Muitas acabam por perder logo a graça numa segunda leitura. Outras fingem que podem mesmo entrar no romance constantemente adiado...

(Fotografia de Luís Eme)