quarta-feira, julho 08, 2020

Excelentes Realizadores e Actores para um Cinema Quase Inexistente...


O cinema português sobrevive há décadas, sobretudo graças à "carolice", e amor à arte, de uma grande parte dos nossos realizadores, muitos deles premiados internacionalmente, mas que nunca receberam o apoio que mereciam (a excepção que confirma a regra foi Manoel de Oliveira, que "fintou" toda a gente com a sua longevidade, continuando a realizar filmes depois dos 100 anos..).

Há quarenta anos que oiço falar de "promiscuidade" e "falta de transparência", na atribuição de subsídios por parte do Estado. Praticamente todos os realizadores que, podemos chamar de "consagrados", de Fernando Lopes a José Fonseca e Costa (que já não estão entre nós), passando por António-Pedro Vasconcelos, Luís Filipe Rocha, João Botelho, Joaquim Leitão, todos se queixaram e se sentiram prejudicados nestas últimas quatro décadas.

Esta falta de apoio fez com que se inventasse excessivamente, que se fizessem demasiados filmes com o menor custo possível. E o mais curioso, é que muitos deles foram premiados internacionalmente. Pois é, Pedro Costa, Margarida Cardoso, Miguel Gomes, Teresa Villaverde, Edgar Pêra, Manuel Mozos, Marco Martins,  João Pedro Rodrigues, Miguel Gonçalves Mendes, João Salaviza, Sérgio Tréfaut, Cláudia Tomaz e Ligia Teles, têm conseguido autênticos "milagres".

E também não deixa de ser curioso, que mesmo sem a existência de uma indústria, sempre houve actores que demonstraram grande talento para a sétima arte: Isabel Ruth, Nicolau Breyner, Laura Soveral, Canto e Castro, Rogério Samora, José Pinto, Rita Blanco, Vitor Norte, Alexandra Lencastre, Pedro Hestner Ferreira e Ana Padrão (entraram em dezenas de filmes desde Abril...), tal como outros mais jovens como Beatriz Batarda, Nuno Lopes, Soraia Chaves, Albano Jerónimo, Vitória Guerra ou Afonso Pimentel, têm deixado a sua "impressão digital", nos filmes em que participam.

É caso para dizer: temos excelentes realizadores e actores para um cinema quase inexistente...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)

terça-feira, julho 07, 2020

O Poder de Síntese no Cinema


Esta imagem poderia indiciar que eu iria falar do tempo em que as salas de cinema eram "templos do silêncio", onde a  própria escuridão nos ajudava a visualizar o filme ao pormenor...

Mas não. Apetece-me falar sim, do poder de síntese do cinema. Mas para o fazer não posso falar do cinema dos nossos dias, porque ele é sobretudo espectáculo, a própria exploração dos efeitos especiais e o uso da tecnologia, acabam por banalizar o trabalho do actor...

Tenho de andar alguns anos para trás, quando os realizadores conseguiam contar a história da vida de alguém, em apenas hora e meia... Hoje talvez tal não seja possível, por isso é que muitos se viraram para as séries televisivas, onde têm muitos episódios, muitas temporadas, para contar a tal história, que acaba por se multiplicar, em nome do negócio...

É também por isso que me apetece louvar o Manoel de Oliveira, que nunca teve a pressa da maior parte dos fazedores de filmes, mesmo que tivesse apenas duas horas para contar uma história...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

segunda-feira, julho 06, 2020

Lisboetas (e vizinhança...) quase "Proscritos"...


Embora exista uma explicação sociológica (tal como existiu para o Norte, no início da pandemia, onde se continuou a trabalhar, até mais tarde...), os jornalistas adoram "rótulos", da mesma forma que os comentadores adoram "disparar com os dedos"... E agora somos nós, que vivemos na Área Metropolitana de Lisboa os "maus da fita".

Se as pessoas que dão notícias não começarem a ter um comportamento normal, somos quase proibidos de nos deslocar, para Sul ou para Norte, ficando "proscritos", até que apareça no horizonte noticioso, algo de novo para explorar...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

domingo, julho 05, 2020

Coisas que Tento Fixar...


Há muitas coisas que fotógrafo sempre que posso.

Para além dos candeeiros, bancos de jardim, janelas, dos jogos de cor (tenho centenas de fotografias com duas tonalidades, amarelo e azul... tal como dezenas de mulheres de vermelho), sempre que descubro alguém a ler (felizmente ainda há muita gente que gosta de ler livros...), aproveito para "disparar".

Mas há mais: sem saber explicar muito bem porquê, sempre que vejo alguém a fotografar alguma coisa, apetece-me fotografá-la...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)

sábado, julho 04, 2020

O Olhar dos Outros como "Espelho"...


Sei que é mais normal do que parece, dizermos coisas só por dizer.

Esse pormenor devia fazer com que eu não ligasse à senhora, que apesar de estar a alguma distância, mesmo sem dar por isso, falou para eu ouvir. 

Mas havia algo de cómico e de fatalista nas afirmações da mulher, quando disse que já não precisava de branquear os dentes, por causa do uso das máscaras. Máscaras que nunca mais nos iriam deixar em paz.

Apeteceu-me bater na mesa, apesar de não ser de madeira.

E depois fiquei a pensar que para muitas pessoas o olhar dos outros é mais importante que o seu próprio espelho, esse quase "ecrã", de vários tamanhos, para onde espreitam, mal se levantam... e que pode ser assustador.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

sexta-feira, julho 03, 2020

"O Pior Cego é Sempre Aquele que não Quer Ver"...


Todos nós já percebemos que o "covid 19" não é diferente das outras doenças. Quanto maiores forem as dificuldades económicas maior é a probabilidade de se ficar infectado por este vírus, mortal.

Quando um secretário de Estado (Duarte Cordeiro) não consegue dizer que o grosso do problema (aumento do número de infectados...) está nos bairros pobres, deve pensar que somos todos tolinhos.

São as pessoas mais pobres que vivem em casas sem as condições mínimas de habitabilidade (pequenas e sobrelotadas...), aumentando o risco de contágio junto da família e amigos; são as pessoas mais pobres que não possuem transporte próprio e têm de se deslocar diariamente para os seus trabalhos, em autocarros, comboios e metro, sem condições para respeitar o distanciamento; são as pessoas mais pobres, as mais atingidas com o desemprego, que se vêem obrigadas a aceitar qualquer ocupação, mesmo que não respeitem as normas da DGS... porque o "vírus", está longe de ser o seu problema maior...

Mas como nos diz a sabedoria popular: "O pior cego é sempre aquele que não quer ver"...

(Fotografia de Luís Eme - Trafaria)

quinta-feira, julho 02, 2020

Amália, Ontem e Hoje...


Iniciaram-se ontem as comemorações do centenário de Amália Rodrigues (dia em que nasceu...), que continua a ser nossa grande "diva" da música, e da cultura portuguesa, graças à sua capacidade vocal ímpar como fadista e cançonetista. 

Foi ela que deu a conhecer ao mundo o Fado, que continua a ser "a nossa canção", não só pela famosa saudade, mas também pela melancolia e pelo conjunto de sentimentos,  quase sempre tristes e solitários, que evocam a não menos famosa "alma lusitana".

Tive a felicidade de a entrevistar e perceber que era um ser humano demasiado simples, frágil, e até inseguro, para o peso mítico que o seu nome transportava (entrevistei-a para uma rubrica que tinha no "Record", aos domingos, chamada "Contra-Ponto", em que entrevistava uma pessoa do desporto e outra fora dele e tentava falar de coisas diferentes com eles. O outro entrevistado foi o Eusébio, que também era a simplicidade em pessoa, mas percebia-se que nunca se devia ter levado demasiado a sério e demonstrava conviver melhor com o "Mito Eusébio", que a Rainha do Fado com o "Mito Amália"...).

Pessoas como Amália, deviam poder ter "duas peles", "duas vidas", para se libertarem do peso (tantas vezes insuportável...) que o seu nome artístico transporta...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)

quarta-feira, julho 01, 2020

Singularidades da Cultura Nestes Tempos Estranhos...


Fiquei ali sentado a ouvir aquele piano de cauda, que me oferecia música, graças a um rapaz, que minutos depois vim a saber que tinha tanto de talentoso como de estranho.

O meu filho contou-me que ele era o Filipe, filho de um casal amigo que perdera de vista nos últimos anos. Sabia pouco dele. A única coisa que tinha sido assunto de conversa em casa, foi que saíra de casa aos dezoito anos, para ser músico profissional, e pouco mais...

Acabámos por ficar à conversa. Sei que fui demasiado indiscreto, propositadamente. Quando lhe perguntei onde vivia, respondeu-me com algum sarcasmo: «Onde vivo? Não se preocupe, que não vivo debaixo da ponte. Quando se tem pais que não prestam, há quase sempre uma avó ou uma tia caridosa, que olham por nós e nos ajudam a crescer.»

Estava a ser injusto. Um dia iria perceber isso...

Ele tocara qualquer coisa muito suave, próximo do blues, dando voz a uma ou outra melodia, como se cantasse apenas para ele. Quando quis saber o que tocara e cantara, porque uma ou outra coisa me tinham parecido familiares, explicou-me: «Toquei coisas minhas e também de outros. Cantei um pouco de Marvin Gaye, pouco mais que uma quadra... apeteceu-me. Continuo a gostar de músicas que me fazem sonhar e gosto de coisas suaves e lentas. Gosto por exemplo de João Gilberto e de Marvin Gaye porque não gritam a cantar, quase que sussurram...»

E foi ainda mais longe: «Quando toco a solo gosto de tocar coisas suaves. Deve ser por isso que, antes da pandemia, trabalhava como músico de um bar de hotel, duas vezes por semana. Só punha o piano a gritar quando era preciso acordar uma ou outra pessoa e convidá-las a irem para o quarto.»

E depois ofereceu-nos um sorriso.

Fiquei por ali a pensar, nesta coisa estranhas de se querer ser músico, actor, bailarino, escritor ou pintor,  enquanto os dois rapazolas foram à vida deles.

Com todas as dificuldades culturais que vieram à "superfície", graças à pandemia, é possível que muito jovem de talento, volte a uma segunda opção, prefira estudar engenharia, biologia ou história, ficando a arte com as horas mortas. 

A não ser que queiram muito, muito mesmo, fazer qualquer criativa e singular, como o Filipe...

(Fotografia de Luís Eme - Alentejo)

terça-feira, junho 30, 2020

Os Rótulos que nos Querem "Colar" à Pele...


É engraçado como os outros gostam de nos colocar "rótulos", mesmo sem nos conhecerem. 

Se forem "maluquinhos da bola", temos de ser do Benfica, do Sporting ou do Porto. Ser por exemplo do Belenenses, não vale. Muito menos ser do Boavista, do Vitória de Setúbal ou do Caldas.

E se for gente ligada aos partidos e dos poderes, pequeninos e grandes, também tentam colocar-nos uma cor, seja pela forma como nos vestimos, seja pela forma como pensamos, ou apenas porque sim...

Só que nós, muitas vezes, não somos aquilo que os outros pensam ou querem de nós. Somos uma coisa diferente. E ainda bem.

Sem sair do " jogo das cores políticas", eu por exemplo quando a CDU estava no poder em Almada era "socialista", agora que os socialistas estão no poder, sou "comunista"... E sei que amanhã ainda poderei ser outra coisa qualquer.

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)

domingo, junho 28, 2020

A "Caça aos Descontentes e aos Ignorantes"


Ontem, quando entrei na Rua Augusta, na minha viagem de regresso a casa, vi que era fácil manter o distanciamento das pessoas, as "multidões" ainda não tinham regressado...

Mesmo assim pude verificar que um acontecimento a que nunca dera importância, tinha-se realizado, pois o que sobrava da "marcha dos saudosistas e dos descontentes" pela Avenida da Liberdade abaixo dava vida a algumas esplanadas da Baixa.

Ao ver pessoas bem vestidas e apessoadas, a beberem imperiais, com bandeiras brancas enroladas junto ao corpo, fez-se luz.

Na Praça do Comércio aconteceu o mesmo. Ao olhar esta gente, a alguma distância, percebi pelos cabelos penteadinhos e pelas camisas brancas engomadas, que se tratavam sobretudo de "betos" saudosistas do salazarismo (conheci alguns no meu papel de investigador, as conversas que travámos deu para perceber que o seu sonho era voltar ao "país imperial", em que as suas famílias se sentiam, e eram, em parte, "donas de Portugal" (mesmo que se tratasse de um país atrasado e miserável...). Foi através destes contactos que me chamaram pela primeira vez, entre risinhos, "historiador comunista", por não ter nenhum tipo de adoração por Salazar, pela PIDE ou pelo Estado Novo.

Percebi também que entre esta gentes estavam vários "dissidentes" do CDS - que durante muitos anos andou disfarçado de partido democrático - que estavam a deixá-lo moribundo...

Já na Praça do Município, enquanto aproveito para fotografar um pormenor dos Paços do Concelho, sou ultrapassado por uma actriz pequenina, acompanhada pelo companheiro que trazia um "fifi" pela trela (não perdeu a oportunidade para aparecer na televisão, durante a manifestação...). Foi quando fiquei a pensar que os organizadores da manifestação, vão tentar apanhar todos os descontentes e ignorantes que encontrarem pelo caminho, tal como fez Bolsonaro no Brasil, com os resultados que sabemos... Ou seja, metem a ideologia fascista de "quarentena", ao mesmo tempo que aproveitam todos os deslizes e asneiras governativas, para espalharem, em frases curtas. a "doutrina populista do descontentamento"...

A mim não me assustam os "descontentes". Assustam-me sim, os "ignorantes"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa) 

sábado, junho 27, 2020

Entre Margens


Tive de me deslocar a Lisboa, de carro. Como estava com saudades da Cidade que gosto de percorrer a pé, consegui convencer o meu filho a regressar a casa, sozinho, ao mesmo tempo que eu aproveitava para fazer uma caminhada e regressar a Almada, pelo rio.


Além de o dia estar bastante quente, estava também muito límpido. Ao atravessar a ponte percebi que era possível avistar a margem norte até Cascais, assim como todas as localidades da Margem Sul, que ficam depois da Ponte Vasco da Gama...

(Fotografias de Luís Eme - Tejo)

sexta-feira, junho 26, 2020

O Último a Chegar que Feche a Porta, se Conseguir...


Eu que sou leitor confesso (em anos normais leio sempre mais de trinta livros, em anormais como o de 2019, posso ultrapassar os cinquenta...), nunca me revi na frase de que "são os livros que nos vão salvar".

Sei que há muitas mais coisas que nos podem salvar.

Talvez a mais importante seja aprender a amar a natureza, mesmo sem se ter de ler o poeta Alberto Caeiro. O cuidar, em vez de destruir, as plantas e os animais que nos acompanham nesta viagem quase louca.

Sei que há algum lirismo, neste "cuidar" e pouco realismo...

E olhar para o mundo não ajuda nada. Como é que nos podemos salvar, se a maior parte das pessoas não têm qualquer vontade de respeitar o espaço do outro? Podia falar neste momento particular do distanciamento, tão importante nesta altura, ou seja, das pessoas que ao verem-nos a afastar, se aproximam... Ou de todos aqueles que "plantam" nas ruas e nos carreiros as máscaras que já não utilizam, apesar de todas as recomendações...

Pois é, há tanta coisa que nos pode salvar, e que não vem apenas nos livros... e que dependem apenas de nós...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)

quinta-feira, junho 25, 2020

Regresso ao Oeste


Ontem voltei ao Oeste, sem perder a oportunidade de sentir o nevoeiro matinal da Foz do Arelho (que normalmente se prolonga até à hora de almoço...). Como eu gosto deste "microlina", especialmente quando os termómetros começam a ultrapassar os trinta graus, em quase todo o país...

Poderia ter ido mais cedo às Caldas, almoçar com a minha mãe e com o meu irmão, mas sempre os senti próximos. Íamos falando e sabendo que estava tudo bem.

Foi um regresso calmo. Talvez por o dia não estar bonito, cruzei-me com muito pouca gente, na praia e na cidade.

Fiquei a pensar que é mais fácil e seguro viver uma "pandemia" qualquer numa cidade pequena ou mediana na província, que num grande centro urbano, como é Almada. Embora às vezes se possam correr mais riscos, por se confiar mais no outro, que não precisa de apanhar transportes públicos para ir trabalhar, ou de contactar diariamente com os habituais colegas de profissão.

É por isso que quando ouço algumas palermas, que são autarcas, a quererem comparar o que não é comparável (eu sei que é o regresso da "política suja", em todo o seu esplendor...), ou seja, a sua terrinha com os dormitórios de Lisboa, podiam e deviam meter a "viola no saco". Parece que querem muito que as coisas corram mal, estão cheios de saudades de "sujar as mãos"...

(Fotografia de Luís Eme - Foz do Arelho)

quarta-feira, junho 24, 2020

«Os jogadores e o treinador do Benfica não querem nem merecem ser campeões»


Já disse por aqui, mais que uma vez, que gosto do Benfica (coisas de uma fotografia do José Águas com a Taça dos Campeões Europeus nas mãos bem erguida...).

Mesmo sem ser "doente da bola", não consigo perceber como é que é possível que a equipa de futebol do Benfica - desde que começou a perder os sete pontos que tinha de avanço... - tenha perdido completamente o "norte" e o "sul". 

Mas o pior de tudo é ver que os seus jogadores correm menos que os adversários e gostam de lhes oferecer brindes (começou muito antes da pandemia...). Quem vê os jogos não acredita que aqueles rapazes vestidos de vermelho sejam dos futebolistas mais bem pagos do país...

Acredito que se o Sporting e o Braga não têm começado tão mal o campeonato, o Benfica neste momento estava a lutar pelo quarto ou quinto lugar.

Mesmo que seja mentira, quem vê os jogos fica a pensar que: «Os jogadores e o treinador do Benfica não querem, nem merecem, ser campeões.»

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

terça-feira, junho 23, 2020

Teatros & Enigmas da Natureza Humana...


Há sempre duas ou três pessoas que me perguntam se tenho escrito muito, agora que estou por casa. A esse nível a minha vida não mudou assim tanto, pois já trabalhava em casa. Mas o mais fácil é dizer que não, sem estar com grandes justificações.

Mas por acaso comecei a escrever duas peças de teatro (gostava de conseguir acabar pelo menos uma delas, e mais importante, vê-la ser representada, nem que fosse por um dos vários grupos amadores da cidade...), que como convém nestas coisas, tem muita verdade e alguma imaginação.

Os títulos dizem quase tudo: "Catálogo de Cores" (sobre o racismo) e "Da Minha Janela vi o Mundo" (sobre a pandemia). 

Vou falar apenas da segunda, em que a personagem principal é um trabalhador precário da cultura (técnico de som e luzes), sem coragem para ir "pedir batatinhas" aos muitos bancos alimentares que existem por aí. Esse papel é feito pelo pai, que passa duas vezes pela sua rua, dá uma buzinadela de carro e deixa um saco com produtos essenciais (e meiguices da mãe... sim, escrevi isto), cá em baixo à porta.

Mais coisas? A namorada deixou-o, para ir fazer companhia aos pais, depois de ter feito uma "quarentena" de um mês com ele...

Quando as pessoas começam a sair a rua ele tem uma cena de pugilato com um tipo que se estava a gabar na mercearia que também fazia de tasca e vendia cerveja a tipos que nunca deixaram de trabalhar, quase todos da construção civil. Um deles disse que desde que tinham inventado as "caixas solidárias" nunca mais comprara arroz, massas, bolachas ou salsichas lá para casa, enquanto mostrava os dentes amarelos. Ele ficou fora de si, chamou "filho da puta" ao fulano e deu-lhe uma pêra (embora seja ficção, conhecendo a natureza humana, é normal que estas caixas sejam mais aproveitadas por quem não precisa do que por quem precisa...).

E só para terminar, ele também reparou, através da janela, que um dos vizinhos da frente (tem vivendas à frente do seu apartamento, tal como eu...), aproveitou a pandemia para trocar de Porsche...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

segunda-feira, junho 22, 2020

Coragem e Bom Senso


Depois de tudo o que se viu e disse sobre os jogos da fase final da Liga dos Campeões, que se disputam em Lisboa, sabe bem ler uma notícia, que é reveladora de alguma coragem - por ir em sentido contrário do que se vê por aí - e também de bom senso, num país que "perde o norte" com relativa facilidade...

Falo da Câmara Municipal de Viana do Castelo que desistiu de receber o final de uma etapa da Volta a Portugal em Ciclismo. Não quiseram dar sinais contraditórios aos vianenses, depois de terem cancelado as centenárias festas e peregrinação da Senhora da Agonia. E fizeram muito bem.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

domingo, junho 21, 2020

Domingo Quase no Campo...


Não sei se somos nós que estamos mais sensíveis aos apelos da natureza, a tudo o que nos rodeia, ou se existe mesmo mais "passarada" à nossa volta.

Talvez sejam os mesmos, mas sinto-os mais próximos. Quando fomos "obrigados" a ficar em casa e deixámos as ruas praticamente desertas, eles foram aproveitando o nosso silêncio para ocuparem alguns recantos urbanos, que até então lhes eram interditos (mais por medo que por outra coisa, porque o nosso dia-a-dia era bem mais violento e movimentado que agora...).

A pouco e pouco fomos voltando à nossa "vidinha" e eles foram ficando... 

(Fotografia de Luís Eme - Corroios)

sábado, junho 20, 2020

«Morre-se muito por amor...»


Não sou muito apreciador de frases curtas e enigmáticas. 

Embora nunca tenha experimentado, tenho a sensação de que não deveria ser bom em jogos como o "policiário", talvez por ser demasiado distraído.

Ela perguntou-me se estava tudo bem e depois quis saber se eu tinha visto as notícias. Disse que não. Raramente a televisão se liga à hora de almoço cá por casa, e rádio, quase que só a ouço no carro...

E depois disse-me: «Morre-se muito por amor...» Eu respondi-lhe com um lugar-comum deslavado, dizendo que para o ano ainda se morre mais...

Depois soube que o actor Pedro Lima tinha aparecido morto numa das praias de Cascais. Embora nunca tivéssemos falado, cruzei-me com ele duas ou três vezes, em Almada, quando ele participou numa das peças da companhia residente. Percebi que ele não era uma daquelas "vedetas"  que correm todos os corredores de supermercado, para verem se reparam nelas, preferia a descrição. Mas não posso, nem devo dizer mais nada... a não ser que era um bom actor (reparei nisso em duas ou três peças de teatro...).

Um dia destes ficarei a saber  o porquê da frase que misturou a morte com o amor, um clássico que é anterior ao "Romeu e Julieta" e pratica-se um pouco por todo o lado...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

sexta-feira, junho 19, 2020

No Reino da Hipocrisia...


Vou voltar a escrever sobre as questões raciais, não nos EUA, mas no nosso País.

Faz-me confusão que as pessoas estejam muito preocupadas em falar do que aconteceu há quatrocentos e quinhentos anos, com o comércio de escravos, cheios de desculpas, com a promessa da construção de "memoriais", que dos problemas actuais. Gostava de ver os governantes preocupados, sim, em acabar de vez com os "jamaicas" e as "covas da moura", que se encontram em quase todos os concelhos que rodeiam a Capital. 

Mas enquanto continuarmos a ser um dos países mais desiguais da Europa, pouca coisa mudará e a discriminação social continuará a ser uma marca da nossa sociedade (como já escrevi por aqui, é um problema que atinge sobretudo os pobres, sem se preocupar muito com a sua cor de pele...).

Claro que não é preciso iludirmo-nos e fingir que não há racismo. Os pretos continuam a não ser tratados da mesma forma que os brancos, ponto final. Poderia dar exemplos nas escolas, nos bairros ou nos empregos, mas prefiro focar-me na justiça, onde são quase sempre tratados como "cidadãos de segunda". 

Infelizmente as pessoas com a pele mais escura, se passarem à hora certa pelo local errado, são logo olhados como potenciais criminosos pelas forças de autoridade e pela justiça...

(Fotografia de Luís Eme - Monte de Caparica)

quinta-feira, junho 18, 2020

Quase o Todo...


"Depois do detalhe, quase o todo..."

Eu explico.

Passei dezenas de vezes pela estrada que nos leva do Laranjeiro a Corroios, ao lado da linha do Metro de Superfície e sempre pensei que um dia tinha de parar por ali, rente à Escola Francisco Simões e tirar retratos às "pinturas de guerra". Pinturas que me prendiam o olhar e são já uma imagem de marca da Margem Sul.

Foi ontem, o dia em que parei... e fotografei...

(Fotografia de Luís Eme - Laranjeiro)

quarta-feira, junho 17, 2020

O Detalhe...


É apenas um detalhe...

(Fotografia de Luís Eme - Laranjeiro)

terça-feira, junho 16, 2020

Quase que Estamos Proibidos de Chorar e de Sorrir...


A proibição dos festejos do Santo António, nos bairros lisboetas -  e um pouco por todo o país -, foram o primeiro grande sinal de que o regresso a uma vida normal, é uma grande incógnita.

E quando pensamos que todas as manifestações que eram animadas pela presença massiva de pessoas, estão proibidas, ou realizam-se com grandes limitações, experimentamos uma sensação estranha, é como se a vida ficasse quase parada.

Falo de casamentos, baptizados, aniversários, homenagens, procissões, mas também de festivais de música, de teatro, de cinema, além das festas populares (o exemplo do Santo António em Lisboa, diz tudo...), que alegravam os bairros e também as aldeias. E claro, dos jogos de futebol.

Mas até os funerais, que embora sejam manifestações com um sentido mais triste e introspectivo, não permitem que todos aqueles que se queriam despedir pela última vez de um amigo, o possam fazer...

Ou seja, quase que estamos proibidos de chorar e de sorrir...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)

segunda-feira, junho 15, 2020

A Arte Feminina de "Ver sem Olhar"


As mulheres continuam a ter a arte de nos "verem sem olhar" (é mesmo uma arte...).

Eu que gosto de olhar para tudo com "olhos de ver", sei que há muito treino nesta arte. São muitos anos a fingir que não nos vêm, pois ainda há muitas mulheres educadas a não olhar os homens desconhecidos, olhos nos olhos...

Em resumo: elas agem como se estivessem sempre a ser observadas e a nós cabe o papel de observadores.

Ou seja, há coisas que não mudaram assim tanto...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)

domingo, junho 14, 2020

Os Tempos da História


Faz-me muita confusão que algumas pessoas não queiram perceber que o mundo há quinhentos anos era completamente diferente do dos nossos dias. E que, o que hoje nos pode parecer errado e estranho, no século XVI era a coisa certa, para a sociedade de então.

Não quero voltar a falar de "ignorância", mas...

Continuo a pensar que olhar para trás, faz bem. É melhor que "fecharmos" os olhos ou só "repararmos" naquilo que nos interessa.

Não podemos mudar a história, apenas por que nos apetece ou nos dá jeito. Muitos menos escolher quem são os "bons" ou os "maus", através da nossa intuição ou vontade.

Só o desenvolvimento científico é que nos permite olhar para os factos de uma outra forma, "ler" os documentos com outra profundidade e conseguir chegar mais longe.

É por isso que devemos viver com as nossas histórias e estar cada vez mais atentos, às múltiplas tentativas de "branquear" e "manipular" os acontecimentos...

(Fotografia de Luís Eme - Idanha-a-Velha)

sábado, junho 13, 2020

Somos Mais Preconceituosos que Racistas


Continuo a pensar que somos mais preconceituosos que racistas.

Ou seja, invejamos os ricos e odiamos os pobres, e pouco importa se eles são amarelos, vermelhos, pretos ou azuis.

O exemplo maior no nosso país talvez seja o Eusébio, que apesar da sua cor de pele, foi tratado como um "Deus", pela generalidade dos portugueses (mesmo os que eram do Sporting e do Porto...).

Mas ao contrário de alguns políticos, não tenho dúvidas de que há racistas e racismo entre nós. E sei que os discursos populistas e nacionalistas dos últimos tempos, infelizmente, têm ajudado a "causa" (muito mais que as manifestações...).

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

sexta-feira, junho 12, 2020

Ignorância & Selvajaria


Os maus exemplos difundem-se, com cada vez mais velocidade, pelo mundo inteiro.

Já todos percebemos que uma mentira partilhada muitas vezes nas redes sociais, quase que é capaz de virar de pernas para o ar a história de um povo.

E quando à ignorância se junta a selvajaria, nem o Padre António Vieira escapa. E logo ele que escapou por um triz à inquisição, por ser demasiado humanista para o seu tempo.

O trajecto que alguns teimam em seguir, na direcção do "vale tudo", muitas vezes "apenas porque sim", não nos traz nada de bom. 

Continuo a acreditar que somos melhores que isto.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

quinta-feira, junho 11, 2020

«Já vi que aqui não "mascarados"»


Entrei num café numa aldeia remota na Beira Baixa, de máscara, juntamente com a minha companheira.

Num ambiente de grande serenidade, com meia-dúzia de clientes habituais, vimos que estava toda a gente sem máscara.

Apanhado de surpresa com toda aquela descontracção, tirei a máscara e disse, quase sem pensar: "Já vi que aqui não há "mascarados".»

De manhã também fiz algo que não devia fazer. Uma tia quando me viu aproximou-se para me dar dois beijinhos, que eu retribuí. Foi tudo tão espontâneo, que só minutos depois é que percebi que fui contra as regras destes tempos estranhos.

Apesar de poder parecer um contra-senso, fiquei feliz por ver que nos lugares onde não se registam casos de "covid 19", as pessoas tentam viver de uma forma normal.

(Fotografia de Luís Eme - Beira-Baixa)

quarta-feira, junho 10, 2020

Dia de Portugal (no Mundo inteiro) e de Camões


Hoje é Dia de Portugal, mas também Dia de Camões e das Comunidades.

As outras "invenções" de cariz fascistoide, não interessam.

E se há alguém que simbolize os portugueses espalhados pelo mundo, esse alguém é o nosso poeta maior - e também mais viajado -, Luís de Camões (também poderia ser Fernão Mendes Pinto...), por tudo o que viveu, conheceu e escreveu.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

terça-feira, junho 09, 2020

Este Mundo cada Vez mais Desigual e Distorcido...


Sempre que há qualquer crise, o capitalismo abana, mas não cai...

Com a ajuda do Estado, que tanto finge "abominar" (basta ouvir as palavras dos "liberais"...), não só reforça  o seu poder, como torna o mundo ainda mais desigual e desequilibrado.

É por isso que quem acaba por pagar sempre a factura são os trabalhadores, com a prática do costume: mais despedimentos e oferta de salários ainda mais baixos (o "lay-off" é uma mistura das duas coisas... é quase um teste, para ver quem é ou não dispensável, num futuro próximo).

Por muito que me esforce, não consigo perceber este "ódio" tão marcado à chamada classe operária, de um patronato sem princípios nem valores, que pouco se importa com o Planeta, onde também vive, ou com os outros, que lhes garantem "milhões"...

Talvez seja por tudo isto que acordo todos os dias, cada vez mais libertário...

(Fotografia de Luís Eme - Olho de Boi)

segunda-feira, junho 08, 2020

Olhar de "Fora para Dentro"


Tenho amigos que não suportam os chamados "estrangeirados", portugueses que "vivem lá fora" e gostam de falar sobre o que se passa "cá dentro". Dizem que eles fantasiam muito.

Discordo quase sempre deles, porque sei que se estivermos a alguma distância dos problemas e dos lugares, conseguimos ter um olhar diferente, mais largo, dando atenção ao que realmente interessa. Quando estamos muito dentro das questões, quase sem darmos por isso, acabamos por nos desviar do caminho certo, devido a pequenas insignificâncias que se vão colocando depois do virar das esquinas.

Não lhes digo que eles vêem melhor, digo-lhes antes que vêem as coisas de maneira diferente.

E gosto de lhes dar o exemplo das "janelas" e dos "filmes", onde temos todo o tempo do mundo para reparar em pormenores, que normalmente nos escapam, dentro do nosso quotidiano com "muitas velocidades"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)