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terça-feira, julho 16, 2019

A Gente "Bipolar" dos Hospitais...


Sempre que vou a consultas ao hospital público (quase sempre como acompanhante...), espero no mínimo uma hora, em relação à hora previamente marcada.

Como sei que muitos dos médicos (e enfermeiros) do serviço público trabalham também no privado, faz-me confusão esta sua "bipolaridade", ou seja a habitual falta de respeito pelos utentes do Serviço Nacional de Saúde, no não cumprimento de horários. Algo que curiosamente não se passa nas clínicas da CUF ou da Luz, onde muitas vezes nem cinco minutos tenho de esperar. 

Parece que esta gente quando está no serviço público, só têm direitos, os deveres são só para os outros...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)

quarta-feira, junho 26, 2019

Os Dias Grandes e os "Operários Europeus"...


Nestes dias grandes, em que às vinte e uma hora ainda é dia, sabe bem andar por aí pelas ruas. 

E por estes dias ainda temos a vantagem de o calor dos "quarenta" andar fugido um pouco mais para norte, ou seja, afastou-se ligeiramente dos povos do Sul do Mediterrâneo, que segundo os "operários europeus" (que passam o ano inteiro em férias no nosso país...), se escondem atrás do sol, para não fazerem nenhum.

Embora nós é que sejamos "alérgicos" ao trabalho, nunca percebi muito bem como é que milhões de pessoas por esse Mundo fora (e de todas as idades...) podem andar quase sempre de férias. Sei que a riqueza sempre esteve mal distribuída, mas mesmo assim, acho estranho ver tantos ingleses, alemães, holandeses, franceses, suecos e noruegueses (e fico-me por aqui), a quererem roubar-nos o nosso Sol, nas esplanadas ou nos degraus que se ergueram à beira Tejo...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

terça-feira, junho 25, 2019

As Patetices dos "Sabões"...


Só hoje é que li algumas notícias dos últimos dias, inclusive alguns artigos de opinião.

Embora saiba que Henrique Raposo de vez em quando escreve umas coisas parvas, ainda não tinha lido uma referência tão patética aos comunistas e aos concelhos onde têm sido poder (como são o caso de Almada, Seixal, Barreiro ou Loures) como a que ele escreveu no "Expresso", no passado sábado.

Quando alguém escreve: «E, já que estamos aqui, onde é que ficam os bairros de lata? Em concelhos ligados historicamente ao PCP. Porquê? Eu ajudo: o povo que vota PCP tem, digamos, uma relação complicada com ciganos e negros. Porque é que não se fala disto? O racismo, tal como o snobismo, é só da direita.»

Só alguém que desconhece a realidade - e que deve ter algum trauma de infância em relação ao comunismo e aos comunistas (talvez continue a pensar que eles "comem criancinhas"...) -, pode escrever uma barbaridade destas.

Estes bairros existem porque são a única possibilidade que muitas famílias - que vivem no limiar da pobreza -, têm de ter um tecto. Se têm crescido mais em concelhos comunistas, é por que os seus governantes entendem que só os devem destruir, quando conseguirem arranjar habitações suficientes para os realojar, com dignidade. 

Se por um lado as questões raciais não devem ser enquadradas apenas no "território" das ideologias, por que haverá gente racista, tanto na esquerda como na direita, por outro, quanto mais se apostar na justiça social, mais fácil será a integração das minorias, tanto nas escolas como nos bairros de concelhos como Almada, Seixal, Barreiro ou Loures. E eu não tenho dúvidas de que os habitantes destes concelhos fazem menos distinções sociais, que as gentes de outros concelhos, pequeno-burgueses.

(Fotografia de Luís Eme - Monte da Caparica)

quarta-feira, janeiro 30, 2019

A (Falsa) Superioridade Social...


A discussão em torno do "sermos ou não racistas", tem oferecido opiniões para todos os gostos.

Claro que somos um povo racista, e muito mais. Somos racistas, preconceituosos, machistas, feministas, classicistas, entre tantas outras coisas, pelo menos, sempre que nos dá jeito. Tal como os povos da maior parte dos países do mundo.

Mas o pior de todos os defeitos da nossa sociedade, é a pretensa superioridade social. Superioridade que assenta em coisas obtusas como o nome de família, o dinheiro que temos na carteira, a roupa que vestimos, o carro onde nos transportamos ou a casa onde vivemos. 

E somos tão pobres (até de espírito...), vítimas de tantas desigualdades, que a nossa grande aspiração (socialmente legítima...), é um dia sermos ricos...

Claro que esta "superioridade social" é quase sempre um artifício enganador, cuja aparência esconde as "misérias humanas" do costume, alimentadas sobretudo pelos jogos de mentiras e dívidas, que vão da mercearia do bairro aos bancos do costume.

Já vi um pouco de tudo isto, graças ao meu trabalho de investigador, entre o jornalismo e a história. Desde familiares falidos de antigos ministros de Salazar, que em pleno século XXI, ainda defendem uma espécie de "monarquia" (que infelizmente ainda se pratica em muitos sectores da nossa sociedade...), com a passagem dos cargos de pais para filhos, aos "novos ricos", preparados para comprar tudo o que lhes vem à cabeça - quase sempre com dinheiro sujo - menos carácter e dignidade (que além de não terem preço, são grandes empecilhos para os seus sonhos)...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)

segunda-feira, dezembro 17, 2018

O Nome do Pai (ou não)


O nome quase grande de uma deputada que também escreve em jornais, filha de um antigo dirigente do PS, já desaparecido, fez com que se falasse do uso (e abuso, segundo algumas opiniões...), ou não, do apelido dos nossos pais (quase sempre do pai, numa sociedade masculina como ainda é a nossa...).

Sem fugir do jornalismo, o mundo onde nos movimentamos melhor, conseguimos descobrir mais de uma dúzia de nomes de homens e mulheres, que escolheram o nome da mãe, para escaparem à "perseguição" do apelido familiar mais conhecido. E, naturalmente, também encontrámos outros tantos, que assumiram, sem qualquer problema, o nome do pai.

Como estava junto de nós alguém que escolhera o "nome da mãe", não foi preciso sairmos da mesa, para sabermos o porquê daquela opção. Confessou-nos que houve mais que uma razão. A tentativa de "fugir" do peso do apelido, no mundo dos jornais (o pai era um dos nossos bons jornalistas...), e também o não querer ser olhado como o filho de fulano, que só era jornalista por razões óbvias. E também quase como uma prova de emancipação, de querer caminhar pelos seus próprios pés (na época até pediu ao pai para não fazer publicidade...). Mas, curiosamente, a razão que teve mais peso na época, foi uma quase vingança. Naquele tempo ainda não tinha superado a separação dos pais, que aconteceu quando tinha apenas 13 anos (foi o pai que abandonou o lar e deixou de aparecer, com a regularidade que um filho precisa, praticamente todos os dias...). Quis muito ser o "filho da sua Mãe".

Hoje as coisas estão serenas. Mas não se arrepende nem um pouco da opção que tomou.

Soubemos por alguns exemplos dados que há quem decida ficar com o nome do pai, com orgulho e sem medos.

Percebemos que este tema será sempre pouco consensual. Porque quem escolhe o nome do pai, pode ser olhado como alguém que se está a colocar-se ao seu lado, não por uma questão de orgulho, mas sim de interesse profissional.  E quem não o escolhe, pode ser interpretado como alguém que se esconde e não assume as suas origens. E não como a tentativa  normal de querer caminhar pelos seus próprios pés...

(Fotografia de Luís Eme)

quinta-feira, julho 12, 2018

Somos Muitas Coisas que Escondemos...


Com os meus mais de cinquenta anos de idade, já vivi algumas coisas e observei outras mais, com as pessoas que vivem à minha volta, quer num círculo mais reduzido, quer num círculo mais largo.

É por isso que digo que somos preconceituosos, em relação a tudo o que é diferente de nós. Desde a opção sexual, à escolha religiosa, passando pela cor da pele... e por vezes, até com os nossos gostos políticos e desportivos...

É uma coisa histórica, sim. Há pequenas coisas que vêem de geração em geração. Ultimamente tenho-me lembrado bastante de que na infância, sempre que eu, o meu irmão, um primo ou um amigo se portava mal, uma das primeiras palavras que escutava em família ou na vizinhança, era "judeu". Palavra que comecei logo por interiorizar que era sinónimo de pessoa má...

Em relação à cor de pele, não senti tanto a "diferença", através de palavras. Provavelmente por viver numa cidade de província, em que os poucos negros que por lá viviam estavam integrados, normalmente jogavam bem futebol (uma das boas heranças sociais deixadas por um Espírito Santo, um Matateu, um Coluna e um Eusébio...). Ou seja, não existiam "guettos". E a palavra "preto" não tinha a carga negativa que mais tarde percebi ter...

Em relação à homossexualidade, havia um silêncio quase ensurdecedor, não era tema de conversa en casa, até por não existirem casos familiares conhecidos. No exterior, sim, os poucos assumidos que andavam pelas ruas (dois ou três), eram alvo de todo o género de piadas de mau gosto, e de muita risada.

É por isso que me faz confusão que colem aos portugueses o "selo" de não racistas, quando temos um historial tão feio, atrás de nós. E não é preciso ir aos tempos da escravatura, basta buscarmos exemplos ao nosso "império colonial", ainda tão próximo...

É por todas estas coisas, que não gosto nada desta mania que temos, de mostrar que somos umas "pessoas porreiras", escondendo, tantas vezes, o que  na realidade sentimos e pensamos.

(Fotografia de Luís Eme)

terça-feira, fevereiro 20, 2018

Quando Ser ou não Ser, Deixa de ser a Questão...


Uma das melhores respostas à entrevista de Adolfo Mesquita Nunes, no "Expresso", em que ele tenta dizer, com a maior naturalidade, e quase sem palavras, que é gay. foi a crónica de António Guerreiro publicada no "Ipsilon" de sexta-feira.

E António começa o seu texto da melhor maneira: «Se eu fosse paneleiro - na verdade, ninguém pode garantir que eu não seja, não tenha sido ou não venha a ser - e ocupasse um cargo político nunca aceitaria o protocolo da confissão, dizer o que é se é àqueles que não o são. Não para manter o "segredo", mas para não me submeter à regra da autenticação pelo discurso da verdade, tão aplaudido pelos que acham que a sua verdade é diariamente autenticada pelas evidências.»

No nosso país (e no mundo...) há três formas de se viver a sexualidade das minorias: esconder e fingir que gostamos das mesmas coisas que os outros (a norma, pelo menos das figuras públicas...); publicitar, algo de novo e "moderno", ideal para quem gosta de ser notícia de jornal; e por último aquela que eu acho que deveria ser a mais normal, aceitar e viver com naturalidade, sem ter de dar explicações ou justificar o que quer que seja, neste campo.

Quem gosta muito deste tipo de notícias é a comunicação social (e a gente que as lê avidamente, que têm menos de "metro e meio de altura"...), especialmente as revistas e jornais que gostam de dar informação ao jeito de folhetins de novelas. Não foi por acaso que na última semana tanto se escreveu sobre o casamento de uma directora de programas televisivos, quase balzaquiana, com uma actriz de telenovelas, quase menina... Claro que se falou porque elas quiseram ser notícia, quiseram publicitar a diferença (há pelo menos duas razões para isso acontecer; quererem acabar com os cochichos e com os olhares de lado dos outros, por onde quer que elas passam; ou querer ter um casamento badalado nos jornais e revistas...).

Sei o que é isso, porque embora não frequente os lugares da moda, tive conversas mais que suficientes com pessoas que sempre quer podiam apontavam o dedo e diziam: «fulano tal é paneleiro, vive com o Manuel daquela loja de roupa esquisita, mas é um gajo porreiro.»

Vou continuar com António Guerreiro para chegar ao ponto que quero discutir: «Se eu fosse paneleiro e político - malditos pês, que afluem como em hora de ponta, salvo seja - ficaria sempre calado para não ser transformado num estereótipo do homossexual de Estado, a não ser que aspirasse precisamente a esta condição.»

Como não acho que a classe política seja de confiança, esta modernice (especialmente por vir do nosso partido mais conservador...), pode também ser estratégica. O CDS pode querer dizer ao eleitorado do centro-direita, que já não é um partido conservador e tem as portas abertas a todos os liberais do PSD, que não gostam da social-democracia, que parece estar de regresso a este partido.

Claro que - excepto a meia-dúzia de amigos mais próximos do dirigente centrista - nunca iremos saber, até que ponto Adolfo foi genuíno, ou não. Foi também por isso que me apeteceu escrever este texto...

(Óleo de Laurits Tuxen)

sábado, fevereiro 17, 2018

"O Senhor Amadeo" (e um "Convite" Especial...)

Hoje é dia da poesia e da fotografia nos meus blogues e na sede da SCALA, em Almada (a partir das 16 horas).

É também por isso que publico, com todo o gosto, um poema do meu caderno, "Praça Miguel Bombarda", e uma fotografia da minha exposição, "Arte com História e com Gente", no "Largo", no "Casario, "Nas Viagens" e na "Carroça" (aqui a fotografia foi substituída pela capa).

Por este ser o meu blogue mais mediático, escolhi uma fotografia, que pode entrar com facilidade na lista da "arte proibida" feita por pessoas que usam saias abaixo do joelho e cuecas de gola alta (homens e mulheres...) e que felizmente embeleza os museus de quase toda a parte (esta está no exterior do Museu do Chiado).

E foi a pensar na onde de puritanismo que nos rodeia que lhe dei o nome, "Convite"... E tem a companhia do poema "O Senhor Amadeo", que é uma homenagem a todos os artistas plásticos, de todos os tempos.


o senhor amadeo

escreve versos com cores
diz que é poeta de mão cheia
e de uns tantos amores

alguns dos companheiros
olham para os seus quadros
quase sempre espantados
não conseguem perceber
muito bem a sua linguagem
o que ele lhes quer dizer

amadeo não fica incomodado
diz apenas que é modernista
prefere a cor as formas
às fotografias pintadas
e se quiserem até lhe podem
chamar fantasista
ou até ilusionista

(Fotografia de Luís Eme)


segunda-feira, outubro 23, 2017

Um Falso Estado Laico...


Podia falar da Constituição, da igualdade de género, do facto de sermos um Estado laico, etc...

Ou então da sentença (mais falada no dia de hoje, até mesmo nos telejornais...) produzida por um juiz, que se deve ter enganado no tempo e pensado que estava em 1973 e não em 2017.

Juiz que também dá sinais de ter a "testa bem enfeitada", pela forma como abomina o adultério, ao ponto de citar a Bíblia e focar as sociedades que continuam a tratar a mulher como um ser inferior e a condenam à morte, por alegadamente trocarem de homem...

Mas o que é mesmo grave, é sentir que esta sentença retrata com justeza a nossa justiça, cheia de equívocos, de penas suspensas e de bandidos que passam o tempo a sujar as ruas da liberdade...

(Óleo de Eliot Hpdgkin)

quarta-feira, outubro 18, 2017

A Disponibilidade (ou não) para e pelo Desconhecido...

Não sei se é a idade, se é o facto de termos uma família.

Sei apenas que raramente estamos disponíveis para conhecer alguém de quem gostámos do ar, sem precisarmos de tirar algo dos bolsos. Querer logo saber quem é... (as mulheres ainda são mais assim)

Mesmo sabendo que as melhores conversas que se podem ter é com "desconhecidos", gente que não nos interessa saber quem é ou o que fazem... só nos interessa aproveitar o momento (claro que não estou a falar de um episódio sexual...), e falar sobre o que nos apetece, sem qualquer tipo de amarras... 

(Fotografia de Luís Eme)

terça-feira, setembro 26, 2017

Uma Tragédia e a Recordação de um Olhar...


Ontem contaram-me uma história intensa, passada há muitos anos na Trafaria.

A personagem principal era um antigo futebolista do Belenenses, que depois de abandonar os estádios, voltou à sua antiga profissão, barbeiro, embora continuasse a treinar algumas equipas do Concelho, quando o convidavam.

Talvez por ser um homem educado, alguns pescadores da Vila começaram a insinuar que ele era homossexual e como devem calcular, a insinuação tornou-se boato e atingiu as proporções, que normalmente as coisas ligados ao sexo, atingem...

Como costuma acontecer nestes casos, a "insinuação" acabou por chegar aos ouvidos do protagonista, que atingido na sua honra, jurou vingança.

E foi o que aconteceu ao começo de uma das noites seguintes na Vila, quando munido de uma arma, bateu a uma porta, apareceu a esposa, a quem mandou chamar o marido. Assim que este se aproximou disparou a pistola à queima roupa e afastou-se, deixando o caído no soalho da casa. A segunda vitima foi um pescador que se preparava para ir para o mar, chamou-o e sem qualquer palavra, atingiu-o mortalmente. Houve ainda uma terceira vitima que encontrou na rua e deixou estendido no chão.

Depois regressou a casa, deitou-se na cama e deu o tiro final... 

Este episódio acabou por me recordar um homem com quem trabalhei, que me olhava de uma forma estranha e incómoda, tentando "despir-me com o olhar". Nunca se insinuou ou tentou alguma coisa. Simplesmente me mirava, como eu penso que miram, os homens que gostam de homens...

quarta-feira, maio 31, 2017

Mãos sem Pedras e Passos Trocados...

Nunca percebi muito bem o porquê, dos governantes do "bloco central" - mesmo sabendo que sempre foram bons a "destruir coisas" - decidirem acabar com serviço militar obrigatório, essa coisa chata, que "irritava" os meninos das juventudes partidárias, talvez por serem obrigados a sentir (pelo menos na recruta...), que eram quase iguais aos outros. Aliás, acho mesmo que aquele era o único sítio onde poderiam experimentar, muito suavemente, o que é ser cidadão da Coreia do Norte (pelo menos no corte de cabelo, no uso da farda e no tratamento pessoal...).

Graças a eles, agora os jovens passam de adolescentes a adultos sem experimentarem, pelo menos uma vez na vida, que têm de obedecer a horários e a regras, e que a graça de um espertinho pode dar direito a um castigo colectivo, reforçando mais uma coisa em desuso, que se chama "espírito de corpo", que na actualidade só poderá ser vivida na prática de desportos colectivos, onde a equipa é (ou pelo menos deve ser...) sempre mais importante que a "vedeta", que troca os olhos ao adversário.

E mais uma vez comecei a escrever e fui-me "perdendo"...

Quando pensei neste título queria escrever sobre a dignidade, o carácter, a sensibilidade e a honra (a autêntica, aquela que vive fora dos discursos...), que não são atributos da esquerda ou da direita, muito menos dos católicos ou dos muçulmanos. Está acima de todos os credos (ou pelo menos devia estar...).

O que eu queria mesmo era valorizar o exemplo militar, do tal espírito de corpo (mesmo que possa ser uma ilusão...), da importância que é darem-nos uma pedra, para sabermos qual é a nossa mão direita e a esquerda, para não andarmos de passo trocado. Era algo que nos iria servir para a vida toda. Só que nestes tempos, ninguém quer saber dessas coisas "chatas"...

(Fotografia de Johua Benoliel - o primeiro fotojornalista português)

domingo, maio 21, 2017

Jogos de Diferenças...


Um casal de meia idade que já não via há uns dias largos, quis saber coisas de mim e da minha família. Falei-lhes do último "pesadelo" cá de casa. O homem maduro disse: «O tamanho dos problemas revela-se sobretudo na forma com os enfrentamos.»

Eu sabia que era assim. Até por não ser muito melodramático em relação a tudo o que nos cerca.

A esposa argumentou que nem sempre era assim. Mas claro que era, e é. A forma de encararmos os problemas (sem fugir deles...) e de os tentar resolver da melhor maneira, ajuda sempre.

Quando vinha para casa pensei na minha capacidade de abstração (o que irrita muito boa gente...), do facto de raramente ficar a matutar nos problemas,  de tentar dar sempre um passo em frente.

Ao começo da tarde, antes do início da tertúlia em que estava envolvido, uma mulher veio-me com a história de que os homens só sabem fazer uma coisa de cada vez, dando como exemplo o marido. Respondi que por acaso eu consigo fazer duas ou três, mas nunca a dúzia das mulheres... deixando-a  em silêncio com cara de caso.

Mas acho que sim, temos várias características que nos distinguem. Esse facto de que tanto as orgulha, de fazerem muitas coisas ao mesmo tempo, também lhes altera completamente o sistema nervoso. E é por isso que não conseguem ultrapassar os problemas da mesma forma dos homens (sei que algumas dizem que isso acontece por irresponsabilidade, mas é muito mais que isso...).

Embora cada caso seja um caso, nestes "jogos de diferenças"...

(Fotografia de Robert Doisneau)

sexta-feira, março 24, 2017

As Penas das Galinhas e as Outras...


Muitas vezes é necessário escutarmos quem veio de fora, para olharmos  para a nossa realidade sem qualquer filtro: Mesmo que as suas palavras possam parecer "caricaturas", há por ali muitas coisas, mesmo pequeninas, que caracterizam essa coisa estranha que é ser-se português.

O Eric, cansado da mediocridade que o cercava, apontou a dedo a meia-dúzia de pessoas que fazia parte do "Coro dos Coitadinhos" e  andava com uma mão dada à "Senhora Inveja" e outra esticada, a ver se lá vai parar alguma coisa. Acabámos todos a sorrir, por conhecermos bem demais algumas daquelas "peças".

Por pudor ou cobardia,  nunca tínhamos feito um desenho tão aproximado daquela gente que andava sempre à espera que lhe fosse parar alguma coisa dos outros às suas mãos. Invejavam descaradamente o talento dos colegas, sem nunca se esquecerem de colocar a casca de ovo do Calimero na cabeça.

Aquela conversa foi despoletada pela utilização indevida de uma fotografia do Eric no "facebook", por uma "artista", que nem sequer se dignou a dar-lhe qualquer satisfação, como se não existissem direitos de autor nas redes sociais. O Eric não só a obrigou a retirar a fotografia, como lhe disse que roubar continuava a ser feio, mesmo que fosse um simples texto ou uma imagem, acrescentando que o que havia mais por aí eram cursos de escrita criativa e de fotografia. E era boa ideia inscrever-se, podia ser que aprendesse qualquer coisa.

A rapariga como era de choro fácil, em menos de nada fez o número da "coitadinha". Teve logo dois ou três colegas com lenços de papel a enxugarem-lhe os olhos e a destilarem "raiva" para cima do Eric, com vontade de o mandarem para a terra dele.

O Eric não foi em choros e disse que não estava a brincar. E quando ouviu os outros  falarem de pena, disse-lhes que não havia por ali nenhum galinheiro.

E eu, depois de toda aquela conversa, fiquei por ali a pensar na dificuldade que temos em chamar à razão quem não tem qualquer talento e se acha o "melhor do mundo" em qualquer coisa. Ou pior ainda, quem é capaz de usar o talento dos outros para proveito próprio, como foi o caso. Não sei se é do nosso sangue quente, sei que nos falta muitas vezes a frieza do Eric, para chamar alguns elementos do "Coro dos Coitadinhos" à razão...

(Óleo de Juan Gris)

segunda-feira, fevereiro 06, 2017

As Bonitas "Feias"...


Não gosto de ver mulheres com pestanas falsas. A primeira imagem que me vem à cabeça são os travestis, que normalmente são excessivos com toda a indumentária que usam.

Provavelmente elas pensam que ficam mais bonitas... e o espelho que têm lá por casa, brincalhão, também é capaz de lhes dizer que sim.

Talvez seja moda. 

Digo isto porque uma das empregadas do café que costumo frequentar, bastante simpática, aderiu à "moda" e durante algum tempo fazia-me confusão olhar-lhe para os olhos.  

Hoje acabei por reparar que uma das minhas vizinhas também aderiu à colagem das pestanas falsas. 

Lá acabei por dizer para os meus botões: «Mais uma que resolveu ficar mais feia...»

(Fotografia de Richard Avedon)

sexta-feira, janeiro 06, 2017

Sexo Com Serenidade e Distanciação...


Quase todos os dias me cruzo com ele, entre as oito e um quarto e as oito e meia. Aproxima-se dos oitenta e ainda não perdeu a jovialidade, tem sempre alguma coisa engraçada para contar. As aventuras do "prof. Martelo na República de Belém" são muitas vezes motivo de conversa, outras o futebol, embora o seu Porto ultimamente não lhe dê grandes alegrias. 

Hoje, por ser uma manhã mais fria que outras, perguntei-lhe porque razão não entrava no "emprego" depois das nove (sai de casa mais cedo que muita gente que trabalha e faz sempre o mesmo ritual: compra o jornal do povo e senta-se no café, a ler as "desgraças deste país" e a tomar o pequeno-almoço, enquanto os companheiros de tertúlia não chegam).

Ele sorriu e disse de uma forma natural (não notei que existisse qualquer malícia nas suas palavras, nem desencanto, apenas o reflexo da vida):
«Ficar na cama para quê? Já nem sequer como a carcaça que se deita comigo.»

Sorrimos ambos, sem nos lembrarmos que amanhã é sábado, dia de folga destes encontros quase diários...

Fiquei a pensar nesta - e noutras conversas que tenho com septagenários -, ciente de que a idade nos oferece serenidade para tudo, até para se falar de sexo (parece que nem o pudor se aguenta com a idade...).

(Fotografia de Robert Doisneau)

segunda-feira, setembro 12, 2016

A Liberdade não Tem Muros nem Gaiolas...

Há duas coisas que sempre me irritaram e que espero nunca ter ou fazer.

Falo de muros e de gaiolas.

Desce criança que sempre que incomodaram os muros altos (muitos ainda estavam revestidos na parte superior com pedaços de vidro...), que é algo que pouco resolve, já que normalmente desperta ainda mais a curiosidade de quem passa, pois fica-se sempre com a sensação de que alguém está a esconder alguma coisa...

Das gaiolas nem é bom falar... nunca gostei de ver pássaros presos (no Velho Continente é o mais usual, se esquecermos os jardins zoológicos...), sempre me apeteceu abrir-lhe a pequenina portada e convidá-los a voar, porque é para isso que têm asas.

Sei que o muro francês e inglês projectado para Calais não irá resolver nenhum problema humano, quando muito aguçará o engenho de quem não tem quase nada a perder, arriscando ainda mais a vida, fazendo do atlântico um "cemitério de gente", tal como acontece nos nossos dias no Mediterrâneo.

Como já perceberam os cravos da fotografia são só para disfarçar. Não é por usarmos um cravo na lapela que nos tornamos mais livres ou democratas...

(Fotografia de Luís Eme)

sábado, julho 02, 2016

Os Ideários não Transformam as Pessoas em Marcianos

Para aquele "camarada" de voz inflamada o médico do BMW e dos fatos de marca nunca podia ser comunista.

Todos aqueles que o podiam chamar à razão, olhavam para o ar e para os lados. Sabiam tal como eu que a ignorância nunca deixará de ser atrevida, e em muitas situações limite, até cega e ofensiva. Ninguém quis gastar um pouco de "latim", para trazer aquele homem à razão, tirá-lo, nem que fosse por momentos, do "mundo das sombras", libertando-o das suas certezas...

Até que houve uma mulher cheia de coragem, que foi capaz de lhe dizer que mais importante que o carro do médico e as roupas que vestia, era a sua prática diária, ser incapaz de levar dinheiro por uma consulta a todos aqueles que não tinham dinheiro para a pagar. E encaminhar os que precisavam para os hospitais públicos e não para as clínicas privadas.

Depois de um silêncio ensurdecedor que durou alguns segundos, ouviu-se um eco de apoio generalizado àquela mulher-coragem. O homem cheio de certezas, baixou a cabeça, só não sei se se apercebeu da facilidade com que nos deixamos levar pelo verbo e conseguimos ser injustos...

A realidade mostra-nos que o século XXI acabou com os proletários, somos todos "burgueses", quanto mais não seja pelos hábitos de vida que nos são impostos socialmente. 

Mas mesmo no passado sempre houve militantes e amigos do PCP com poder económico. Há tantas histórias por contar de doutores e engenheiros que esconderam militantes na clandestinidade nas suas casas e depois os transportaram nos seus carros até à fronteira...

Continuo a pensar que mais importante que qualquer ideário, é a prática com que vivemos o nosso dia-a-dia, não ignorarmos que esta sociedade que fabrica ricos muito ricos (cada vez menos) e pobres muito pobres (cada vez mais) não serve ninguém.

Até porque os ideários - mesmo que por vezes isso possa parecer possível - nunca transformaram pessoas em marcianos...

(Fotografia de Eduardo Gageiro)

terça-feira, junho 07, 2016

«Somos o que somos. Nem melhores nem piores que os outros, apenas diferentes»


Estava a conversar sobre escritores e editores antigos com um amigo e veio à baila o Luiz Pacheco e algumas das suas histórias mirabolantes. Confessei que foi uma personagem que nunca me despertou qualquer interesse em conhecer.

Quando disse isto reparei no seu ar de espanto. Expliquei-lhe que tenho dificuldade em lidar com pessoas que sobrevivem graças a "expedientes", que passam o tempo a servirem-se da sua esperteza para ludibriar os outros (que na maior parte das vezes fazem-se de parvos, por razões óbvias...), mesmo que isso aconteça por uma questão de sobrevivência e que sejam talentosos, como era o caso, etc.

Ele insistiu com a história do Pacheco ter vivido nas Caldas da Rainha, a minha "terra". E eu continuei a dizer-lhe que esse tempo foi péssimo para ele e para a família (foi quando lhe retiraram os filhos e ele escreveu a obra "O Caso das Criancinhas Desaparecidas"...).

Foi quando fui qualificado como moralista e mais algumas coisas que não dá muito jeito escrever.

E nem sequer falámos da sua vida pessoal, dos seus casos amorosos com irmãs ainda meninas. Ficámos-se pelos "vintes" que cravava a toda a gente conhecida com que se cruzava...

Talvez seja mesmo um "moralista". Mas somos o que somos. Nem melhores nem piores que os outros, apenas diferentes. Se os exemplos que recebemos em casa são completamente antagónicos destes estilos de vida, que agora até estão na moda, em que muita gente passa o tempo a tentar enganar o próximo, é mais difícil aceitar aquilo que para mim não passa de mais uma "deturpação social". Ou seja, algo que em vez de nos engrandecer, nos empobrece como pessoas. 

(E tens mesmo razão, sou muito mais moralista do que pensava, O escrever também nos ajuda a conhecermos-nos melhor, é mais um espelho...)

(Fotografia de Ann Mansolino)

sexta-feira, março 25, 2016

Achamos Sempre Mais Graça às Raparigas que aos Rapazes

Como observador do "mundo que me rodeia" sinto que se acha sempre mais graça às raparigas que aos rapazes.

Posso falar inclusive dos exemplos cá de casa, pois a minha filhota sempre foi mais mimada e elogiada que o meu filho - e não estou a falar dos pais. Ou ainda de outros casos próximos, como o exemplo de dois gémeos falsos em que as suas diferenças de comportamento (a "lata" dela e a "timidez" dele...) e a forma como foram acarinhados durante o seu crescimento determinaram os seus percursos na vida adulta (ela mais certinha e ele mais errático...).

Isto pode ser entendido como palavra de homem, mas sinto que estou a escrever sem qualquer tipo de amarras de género. Basta olhar para as avós, para quem as suas "meninas" são sempre diferentes dos seus "rapazes". Sei que isto também pode acontecer como forma de defesa e de protecção, por estas saberem que o mundo que as espera continua a ser mais masculino que feminino (para não lhe chamar outra coisa...), pelo menos fora de casa.

Como a maioria dos comentários do blogue são femininos, estou curioso por saber o que é que elas pensam deste quase "não assunto".

(Óleo de Dima Dmitriev)