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quinta-feira, junho 06, 2019

O Meu Amigo, Filho do "Belarmino"...


Estive com um amigo que não via há mais de uma dúzia de anos.

Acabámos por falar sobretudo da nossa juventude. Do nosso bairro, das nossas "patifarias" de adolescentes, dos nossos amigos e também da nossa família, dos nossos irmãos e pais. A Foz do Arelho também não faltou, não fosse ela a praia da nossa vida...

Ou seja, falámos sobretudo do passado. Não dissemos uma palavra sobre os nossos filhos e companheiras. Só quando vinha de cacilheiro para a Outra Banda é que pensei no assunto. 

Pois, o presente é outra coisa, onde só nos encontramos por acaso...

Os nossos pais já partiram, sobram as mães, que são amigas, apesar da distância geográfica que as separa (penso que continuam a falar ao telefone...). Quando lhe falei no pai e das confusões que gostava de armar quando bebia mais que a conta (o seu lado texano de gostar de virar homens e bares de pernas para o ar...), ele continuava a não se sentir nada orgulhoso, desse lado quase negro paterno. Recordei que na época nós delirávamos quando sabíamos o que acontecera na noite anterior na tasca do Alfredo, ele nem por isso... O pai só se "curou" destas aventuras (que chegavam a meter polícia e tudo...) quando conseguiu deixar de beber.

Mas a sua lenda continua viva. Não deve haver ninguém do nosso antigo bairro que não conheça o poder dos punhos do "Belarmino" (não fazemos ideia de quem lhe ofereceu esta alcunha, que deve ter tudo a ver com o filme de Fernando Lopes...). 

A componente mítica é de tal forma forte, que hoje até há quem associe todas estas aventuras ao "herói" do filme do bom do Lopes, e não ao pai do meu amigo, mesmo que Belarmino Fragoso nunca tenha passado pelas Caldas...

(Fotografia de Luís Eme - Foz do Arelho)

terça-feira, maio 21, 2019

«Dá uns chutos na bola e acha que pode comprar o mundo»


Um rapazola que não devia ter muito mais de vinte anos descia a avenida montado num descapotável vermelho, de matrícula inglesa, com o volante ao contrário.

Como todos os "deslumbrados", olhava para todos os lados, a dizer que estava por cá.

Um homem parado no passeio disse para quem o quis ouvir: «Dá uns chutos na bola e acha que pode comprar o mundo». Se era assim, devia conhecer um pouco mais da vida do rapaz que o comum dos mortais, que estava por ali, naquele momento.

Sabia que basta jogar na terceira ou quarta divisão inglesa, para ganhar mais dinheiro, que muitos jogadores da nossa Primeira Liga...

Mesmo assim desejei que o rapaz soubesse que a vida de jogador dura apenas um instante. E por isso mesmo, que não passasse demasiado tempo a passear-se de descapotável...

Quando estava a chegar a casa, agradeci à rua, por continuar a ser um bom "alimentador" do Largo...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

terça-feira, outubro 10, 2017

«E as conversas das mulheres? Eram iguais às cantigas do Quim Barreiros, mas em pior. Muito me ri.»

Não sei se é verdade, mas parece-me que as raparigas falam muito mais que os rapazes.

Claro que a minha "estatística" é falível, resume-se ao facto de passar todos os dias em frente a uma escola secundária e alguns passeios a caminho da minha casa serem aproveitado como recreio e espaços de evasão (e para fumar umas "brocas"...). Pode ser um problema de ouvidos, mas quase que só ouço vozes femininas a falar, para aqui e para ali.

Mesmo quando ouço um "foda-se" ou um "caralho" é quase sempre dito por uma miúda, que finjo ser parecido com um "bom dia" ou "boa tarde". 

Foi ainda neste registo, que acabei a escutar uma moçoila, divertida, a contar as suas aventuras da apanha da fruta no Oeste, na paragem do metro.

Quase que também me ria, quando ela se saiu com esta: «E as conversas das mulheres? Eram iguais às cantigas do Quim Barreiros, mas em pior. Muito me ri.»

(Fotografia de Luís Eme)

terça-feira, setembro 19, 2017

Os Muros da Romeira Voltaram a Sorrir...

Graças ao Festival Urbano, que se realizou no fim de semana de 9 e 10 de Setembro na Romeira (Cova da Piedade), os seus muros e ruas abandonadas voltaram a sorrir...


Embora seja um lugar cada vez mais abandonado, vale a pena visitar para ver a arte dos nossos artistas de rua.

(Fotografias de Luís Eme)

segunda-feira, abril 10, 2017

A Procura dos Campos Abertos...

Era demasiado pequeno para perceber o porquê da procura de campos abertos, por parte dos tios e dos amigos que andavam quase sempre com as violas e as cantigas coladas ao corpo, naquele começo dos anos setenta do século passado...

Além de ser quase a "mascote" daquela juventude inquieta, já era livre por natureza. Foi por isso que só alguns anos depois, já no País de Abril, percebi aquela procura dos campos abertos, longe das árvores...

Eles não corriam riscos, era por isso que andavam quase sempre mais que a conta (enquanto eu saltitava de cavalitas em cavalitas) e falavam e cantavam, com a certeza que não havia qualquer "bufo" ou agente da PIDE nas imediações...

De vez em enquanto as conversas regressam  a esses tempos, onde também se ensaiaram algumas fugas, com cada um a escolher o seu caminho, porque qualquer estranho que aparecesse, era um potencial inimigo.

E eu confesso sempre, que pensava que tudo aquilo não passava de uma brincadeira, com miúdas e música...

(Óleo de Claude Monet)

Nota: Esta semana vai ser dedicada ao "Abril-Revolução", com pequenos relatos sobre o quotidiano de pessoas especiais, cuja simplicidade, por vezes, até faz doer...

segunda-feira, janeiro 09, 2017

Não São os Jovens que Desenham o Mundo...

Muitas vezes olhamos o mundo, como se não fizéssemos parte dele e fossemos apenas meros espectadores de um filme demasiado real e com mais que três dimensões.

Esquecemos os nossos papeis de actores (quase sempre maus...), porque bom é vivermos a nossa vidinha sem grandes chatices. E se tivermos notas suficientes no bolso compramos silêncios lá por casa, com consolas, telemóveis, tablets e computadores. Já nos basta a barafunda dos dias quase sempre iguais.

O único problema, é que de repente os figurantes que temos em casa crescem e também querem ser actores. E se os deixarmos, também querem  ser realizadores e fazer os seus próprios filmes. E nós? Além da chatice de  termos a pagar  este "luxo" (para ver ou não, não é obrigatório), sempre pudemos continuar a ser meros espectadores, com ou sem pipocas...

Não sei se a prática do boxe é a solução, mas parece-me que precisamos de "levar umas peras na cabeça", para perceber que não foram os jovens que desenharam o mundo onde foram soltos. E mais importante ainda, descobrirmos, onde, e quando foi, que errámos...

A coisa mais fácil é culpar os jovens dos muitos excessos com que pintam os seus dias, esquecidos de que eles são as principais vítimas de sermos péssimos desenhadores da realidade...

(Fotografia de Luís Eme)

sábado, abril 23, 2016

Abraçar os Livros


Ontem, quase no final da minha intervenção, a professora de Português daqueles jovens, perguntou-me como é que ela poderia fazer com que eles lessem.

Voltei atrás na conversa (ela esteve a dar uma aula só apareceu depois...), ao meu sétimo ano de escolaridade, à minha excelente professora de Português e à "Biblioteca de Turma" que criámos ao longo do ano, em que nos quotizávamos e comprávamos os livros que queríamos ler (com algumas sugestões da professora...) e depois falávamos sobre eles (não sei se de quinze em quinze dias se mensalmente, havia uma aula só para a nossa "biblioteca" e os "nossos livros"), sobre o que tínhamos gostado mais, das personagens, dos lugares, estimulando o interesse dos que ainda não os tinham lido.

E claro, aconselhei a professora a sugerir livros bons (mas também de boa "digestão"...), com uma linguagem acessível, boas histórias e muita acção... Falei também do realismo mágico da "latina-américa", de Jorge Amado, de Ernest Hemingway, Luís Sepúveda ou até do nosso Camilo. Desaconselhei por completo José Saramago ou António Lobo Antunes...

Mas o importante é ler, ler, viajar dentro dos livros.

(Óleo de Gustave Caillebotte)

segunda-feira, janeiro 18, 2016

Entre a Surpresa e o Desafio da Fúria de um Olhar

Era difícil enfrentar aquele olhar que quase me fustigava, mas não me desviei um milímetro. Acho que o fiz mais pela surpresa que por outra coisa qualquer. 

Não passava de um jovem  com idade para ser meu filho, completamente desconhecido. Provavelmente travava uma "batalha" contra ele próprio, como é próprio destas idades, e pelo caminho tentava envolver quem lhe surgia pela frente. Ainda o tentei desculpar, dizendo para os meus botões que ele estava a olhar para o "mundo", que se encontrava logo ali, atrás de nós.

Antes do metro aparecer ele resolveu "entrar noutro filme", Baixou a cabeça e escondeu o olhar de mau rapaz.

Enquanto esperava não fui capaz de ficar indiferente ao jovem que estava agora de costas. Pensei que a vida raramente é aquilo que sonhamos. Embora pouco ou nada nos valha tentar culpar os outros pelas ondas de fracasso que nos rodeiam. 

Ele, mesmo que não tivesse dado por isso, ainda tinha todo o tempo do mundo para dar a volta por cima e aproximar-se do território dos sonhos.

O que não resolve nada, mesmo nada, é olharmos para os outros como se nos devessem alguma coisa, enquanto continuamos a caminhar sós na direcção do vazio...

(Óleo de Guy Troughton)

domingo, dezembro 15, 2013

«Escrevia muito pouco e não eram poemas.»


Perguntaram-me o que é que escrevia na infância e adolescência. Quase que tive vergonha de dizer que escrevia muito pouco. 

Ao olhar para trás penso que andava sempre de um lado para o outro, passava muito tempo na rua e não tinha muitos tempos mortos para pensar na "vidinha" (nem era tempo disso). O facto de ter um irmão mais velho que eu dois anos, fez com que crescesse mais depressa e fosse também amigo dos amigos dele.

Fazia muito desporto, das correrias às futeboladas.

Da escrita, lembro-me apenas dos professores elogiarem a minha criatividade e a facilidade de escrever histórias com princípio meio e fim (não imaginava que isso fosse uma coisa difícil, pensava que qualquer um conseguia e podia escrever histórias. Acho que só percebi que não era bem assim, quando no décimo ano fui o único aluno capaz de construir uma história, com o tal principio, meio e fim, a partir de um tema qualquer dado pela professora...). 

Poemas? Não. A poesia não fazia parte das minhas necessidades nem das amizades. 

Nem conhecia muitos poetas. Só conheci Pessoa no fim da adolescência. Sim, gostei logo do Alberto Caeiro...

O óleo é de Timothy Norman.

quarta-feira, outubro 16, 2013

Jorge "Atrasado" da Silva "Sinatra"


Uma das suas imagens de marca era partir e chegar atrasado. Nunca mudou, apesar dos dissabores que foi recolhendo, até ficar suficientemente maduro, para este defeito quase se transformar em qualidade.

Disse-me que quando era jovem, marcava encontros e normalmente apenas descobria o sítio. Sorria quase sempre de alívio, para não ter de inventar desculpas, com mais ou menos elaboração, por não obedecer às pequenas máquinas com ponteiros e números, que mandavam no tempo e nas pessoas.

Também me disse que às vezes o confundiam com Sinatra, pela sua magreza e pelos olhos  de cor azul.

O óleo é de Guy Wilga Lerat.

sábado, agosto 17, 2013

A Vida Nunca Avança em Linha Recta


A vida nunca avança em linha recta.

Além de nos fazer andar aos círculos, também nos obriga a percorrer uma série de rampas e descidas, por vezes vertiginosas, alimentando-se, sobretudo, dos nossos avanços e recuos.

É por isso que é fácil constatar que nem todos evoluímos, há mesmo quem regrida, e bastante...

Um dos piores exemplos que encontro nesta "regressão" são os fulanos com idade para serem meus filhos, que continuam a afirmar a sua "pequenez de machos", através da pancada que distribuem nas namoradas e mulheres, apesar dos exemplos quase diários, de mortes estúpidas e cobardes, que são provocadas por tudo, menos amor.

Não conseguiram aprender nada, nem mesmo com os maus exemplos à sua volta...

O óleo é de Marcos Rey.

quarta-feira, janeiro 02, 2013

A Minha Memória


Apesar de ser o dono deste "largo", sei que a minha memória não é das melhores.

Tenho sim essa coisa boa de conseguir passar para o papel muitas coisas que vivi e outras que ouvi dizer que vivi..

Descubro isso quando me contam alguns episódios da meninice, que estavam completamente esquecidos.

Alguns parecem mais absurdos que outros, como a história que me contaram de uma das muitas perseguições que sofremos, de donos de pomares ou vinhas, quando nos deliciávamos com a sua fruta, sem lhes pedirmos autorização.

Durante uma dessas fugas houve alguém que afirmou que ficou escondido dentro da roupa do espantalho que se metia com as aves, enquanto nós corríamos perseguidos por um homem furioso de forquilha em riste, com vontade de nos furar o que quer que fosse.

Embora achasse estranho, não lhe disse que não. Limitei-me a sorrir, até por saber que não tenho nenhum elefante na memória.

O óleo é de Sergei Aparin.

quarta-feira, abril 04, 2012

O Som Mágico do Corredor


Hoje aconteceu-me um daqueles acasos felizes, quando passava próximo do casario do Olho de Boi.
À medida que me aproximava comecei a escutar com mais intensidade o som mágico de um acordeão.
Fiquei na dúvida se seria um disco ou música ao vivo. Foi por isso que fui entrando sem ser convidado, até descobrir uma jovem a tocar, nas velhas escadas das traseiras da casa da família Santos.

Ela assim que me viu parou de tocar. O silêncio fez com o velho Orlando espreitasse e me acenasse, quase ao mesmo piscou o olho à moçoila, para que continuasse a tocar.
E ela tocou e encantou.
Quando ela resolveu fazer um intervalo o Orlando cheio de orgulho apresentou-ma como sua neta, a Rita, filha da Carla, que tem mais ou menos a minha idade.
Disse-lhes que há muito tempo que não escutava aquele som, quase mágico, acrescentando que ela tocava muito bem, mais perto de Paris que dos bailes das aldeias.

Ficámos por ali alguns minutos à conversa, na companhia de umas cervejolas, que a dona Aurora nos trouxe.
Antes de me despedir pedi à Rita para voltar a tocar, para partir em beleza. A moça sorriu e fez-me a vontade, enquanto me despedia dela e dos avós.

O óleo é de Jeanette Guichard Bunel.


domingo, agosto 21, 2011

Os Nossos Verdadeiros Campeões


Embora se diga que o segundo de qualquer competição, é o primeiro derrotado, essa frase não serve nem se ajusta à nossa equipa de juniores, finalista vencida no Campeonato do Mundo de sub-20, disputado na Colômbia, ganho pelo Brasil após prolongamento. Um Brasil recheado de vedetas (como um tal Danilo, defesa lateral, alvo de mais uma "guerra" entre Pinto de Costa e Filipe Viera, ganha pelos 13 milhões do FCPorto, segundo os jornais...).


De uma forma surpreendente estes jovens, muito bem comandados por Ilidio Vale, deram o seu grito de revolta, pelo que se vai passando no nosso campeonato de futebol, com muito mais sul americanos que portugueses.

Sei que daqui a uns dias está tudo esquecido e vai ficar tudo na mesma, para gáudio dos empresários e dirigentes do nosso futebol. Como benfiquista acho vergonhosas as dispensas de Sanã e de Danilo, que segundo os entendidos não serviram para os seniores do Benfica. E estou à espera de ver o que vão fazer com o Nelson Oliveira ou o Mika...

Provavelmente estes jovens para continuarem a ter sucesso, terão de emigrar, tal como fazem os nossos melhores investigadores.

Um país que trata desta forma os seus melhores cidadãos, não pode ter grandes aspirações a sair da cepa torta, como é óbvio...

Foto retirada do site de "A Bola".

segunda-feira, junho 06, 2011

Finalmente umas Eleições com Derrotados


Não me lembro de ouvir um discurso pós-eleitoral como o de Sócrates, a querer ficar com a derrota toda para ele, pedindo inclusive a demissão de secretário geral, mas daquelas a sério, que não admitem cortinas de fumo nem falsos unanimismos.


Sócrates conseguiu calar toda a gente, até os críticos. E esta?

Embora tenha admitido a derrota, o líder do partido em que votei, mesmo perdendo metade dos deputados foi incapaz de colocar o seu lugar à disposição...

Mas para mim os grandes derrotados destas eleições foram os abstencionistas (mesmo vencendo-as claramente...).

Embora seja difícil fazer um estudo "estatístico" sobre esta gente, incapaz de cumprir o seu dever cívico, não tenho dúvidas que estão lá muitos desempregados, muita gente que recebe o rendimento mínimo, e claro, a malta que anda à rasca (pelos vistos não devem estar assim tão à rasca, pois até se dão ao luxo de desperdiçar o seu voto, que pode ser de tudo, até de protesto).

E se pensarmos que serão estas pessoas que irão enfrentar tempos mais dificeis nos próximos anos, notamos que há aqui qualquer coisa que não bate certo...

sexta-feira, maio 27, 2011

«Posso entrar na vossa Revolução?»


Quando ouviram o velho, de boina basca na cabeça, camisa branca, calças de ganga e ténis, que se aproximara, perguntar: «posso entrar na vossa revolução?», pensaram que se tratava de uma brincadeira, de alguém já sem o tino todo.


Foi por isso que o olharam de alto a baixo, antes de lhe oferecerem um sim, mesmo sabendo que a vida estava bera para todos, especialmente para os jovens e para os idosos, uns desempregados e outros com reformas miseráveis.

O velho distribuiu-lhes um sorriso aberto e sem pedir licença sentou-se ao lado deles. E por ali ficou a assistir às conversas e a entrar na "revolução".

Cinco minutos foi tempo mais que suficiente para oferecer os melhores fascículos da sua vida, que já ultrapassara as oitenta primaveras, aos jovens ávidos de histórias libertárias.

Até pediu um cigarro emprestado, ele que deixara de fumar há mais de trinta anos. Olhou o céu azul e sorriu de felicidade. Há muito tempo que não se sentia assim, vivo e respeitado.

Percebeu que os jovens que cheiravam a operários, baptizados de mal educados e desordeiros por muito boa gente, escutavam-no e respeitavam-no mais que os seus filhos. Tratavam-no não como um velho mas como um companheiro com mais anos de vida.

Foi por isso que decidiu passar a noite por ali, com participação mais que garantida nas assembleias populares.

Pegou no telemóvel e ligou à filha. Disse que não ia dormir a casa, ficava em casa de amigos...

O óleo é de Francis Picabia.

sábado, maio 21, 2011

A Juventude Espanhola está na Rua


As praças espanholas estão cheias de jovens, que protestam contra o desemprego, a desigualdade social e um futuro sem perspectivas.


Foi por isso que deixei este comentário à Momo:

«Muitas vezes, mesmo sem se pegarem em armas, apenas com a solidariedade e companheirismo, fazem-se verdadeiras revoluções.
É preciso derrotar este capitalismo, cada vez mais selvagem, que está a dar cabo da vida de todos nós.»

Mas não creio que os protestos que se avizinham sejam todos pacíficos. Sei que a violência vai aumentar na nossa sociedade. Só não consigo entender que os "ladrões" continuem a preferir assaltar "velhinhos", em vez de assaltar banqueiros ou empresários milionários...

Escolhi esta escultura de Elise Seigel, porque o pior que podemos fazer é ficar sentados a aplaudir o que vem ai.

terça-feira, março 15, 2011

A Cor do Jazz

O rapaz de cor era o mais bem vestido da sala. Ninguém diria que ele estava ali, para uma simples audição, com aquele fato cinzento claro de cetim, que fazia conjunto com um colete e gravata creme.

Os outros jovens olhavam-no de lado, com ar de gozo, pela sua figura pitoresca. Ainda escutei um mais atrevido a perguntar ao colega de lado se não gostava de ter uma fatiota daquelas. Este limitou-se a sorrir.

Embora eu também sorrisse com o comentário, pensei noutras coisas: no orgulho do rapaz que estava ali para impressionar, com a música e com o estilo já de artista, por mais ultrapassado que parecesse. Percebi que ele, como africano que era, preferia o brilho de África, ao baço da Europa. E que belas cores nos oferece o continente africano...

O brilho exterior manteve-se intacto quando ele pegou no saxofone e nos deixou a todos boquiabertos. Além de vestir bem, o negro era mesmo bom músico. O melhor daquele grupo.

Durante o intervalo da audição o David confessou-me que já estava à espera de algo musical igual à roupa do jovem. E claro, contou-me uma das suas histórias de músico errante, a da excepção, que lhe dizia que todos os negros eram músicos. Nos anos setenta estava a actuar em Paris, num cine-teatro, com uma "big-band" e antes do espectáculo era costume fazerem horas no bar a trocarem aventuras. Foi então que perguntou a um jovem de cor que estava por ali, que instrumento tocava, ele disse em francês que "tocava cadeiras". David ficou sem perceber que instrumento era aquele, até que um colega da banda lhe disse com um sorriso de orelha a orelha, que o rapaz era um dos "arrumadores" da sala...
A vida continuou a ajudá-lo a ver em cada negro um músico e a perceber que a imprevisibilidade do jazz vive sobretudo da cor africana. Também não chegámos a nenhuma conclusão por os homens serem mais de tocar e as mulheres de cantar...

O óleo é de Tjarko Ten Have.

sábado, março 12, 2011

Um Sábado Diferente

«Estranhou toda a movimentação em casa, naquele final da manhã. O telefone tocou várias vezes e sempre para o filho ou a filha.

Foi então que se lembrou da manifestação da "geração à rasca", marcada para o começo da tarde.

Manteve-se em silêncio a ler o jornal. Silêncio que só foi interrompido quando a esposa o informou que iriam almoçar a horas decentes, contrariando a "regra" de fim de semana.

Há muito que criticava a quase ausência dos filhos no dia a dia do país, que nem sequer se davam ao trabalho de votar.

Dizia-lhes que nunca iriam mudar o que quer que fosse, se nem sequer usavam a sua principal arma, o voto.

Não sabia o que dizer nem o que pensar, foi por isso que resolveu ficar calado.
Embora tivesse estranhado os acontecimentos dos últimos dias, a polémica artificial criada à volta da canção dos "homens da luta", tal como o apoio do presidente da República à manifestação dos jovens, presente no seu discurso de tomada de posse, estava satisfeito com todas aquelas movimentações.
Sabia que era importante acordar, que era importante reestabelecer de novo a "democracia", que era importante sair para a rua e dizer não, mesmo que o primeiro-ministro lhes chamasse "comunistas", nas notícias da noite, como gosta de chamar a todos aqueles que se manifestam contra ele.

Salazar também tinha o velho hábito de acusar os comunistas de todos os males do mundo. Feitios...»
O óleo é de Nikias Skapinakis.

quinta-feira, março 10, 2011

A Invenção dos "Deolindos"

Das coisas que mais me irrita é ver gente a defender o que considero indefensável.

Não consigo perceber a "guerra" que a maltinha do costume, quase sempre afecta ao poder socrático (até usam estatísticas e tudo...), está a levar a cabo contra a juventude, ao ponto de os ter apelidado de "Deolindos".

Segundo estas "eminências pardas" está quase tudo bem e não encontram razões para a "geração à rasca" protestar, através de uma manifestação, marcada para sábado.

Talvez seja eu que viva noutro "país". Já não digo nada...

No país onde vivo, nunca os jovens tiveram tanta dificuldade em arranjar o primeiro emprego (depois de terem feito estágios gratuitos, um grande negócio para os empresários do costume...). Os que arranjam emprego, é em condições altamente precárias.

Esta precaridade está a ter reflexos extremamente negativos na sociedade, pois cada vez se casa mais tarde e ter filhos começa a ser um acto heróico. Pois ser mãe significa na maior parte das vezes, desemprego, porque ninguém quer pagar a licença e os direitos da maternidade.

Muitos destes jovens são forçados a viverem na casa dos pais, porque não têm rendimentos que lhes permitam alugar uma casa. E comprar então, nem se fala, muito dificilmente conseguirão obter um empréstimo.

Como tenho dois filhos, com doze e seis anos, só tenho de estar solidário com esta juventude, que está "mesmo à rasca", pois este país há muito que deixou de ser para todos, e ainda menos para eles...
O óleo é de Chris Bennett.