Ontem fui perseguido de uma forma ligeira por um cão, aparentemente vadio. Andou atrás, ao meu lado, à minha frente, uns bons mil metros.
Olhava-me como não quer a coisa, mas ia mantendo a distância, sem abrir a boca e sem me perder de vista.
Reparei nas cicatrizes no focinho e no lombo, feitas por gente como nós. Pensei que, nem mesmo assim, ele deixava de acreditar nos "humanos"...
Talvez fosse o cão que morou durante algum tempo no quintal paralelo ao da minha sogra, que várias vezes recebeu das minhas mãos alguns ossos, para "enganar" a aparente falta de alimentação. Mas se era, estava muito mais velho, marcado e feio...
Desta vez, como precisava de comprar pão, acabei por lhe trazer uma lata de um "paté" especial para caninos. Mas quando saí da loja já ele já se tinha feito à estrada. Tive de o perseguir. Quando me viu ficou na defensiva. Como todos nós, sente-se mais confortável a seguir que a ser perseguido...
Dei-lhe quase um grito, ele lá parou e ficou a olhar-me, na dúvida, a alguma distância. Abri a lata, mostrei-lha e coloquei-a rente aos contentores e virei costas...
Assim que me viu a ir à minha vida, quase que correu, para ver a surpresa que o esperava...
A caminho de casa, lá fui pensando nos muitos "amigos" de animais que andam por aí, que além de os abandonarem à sua sorte, gostam de os tratar como "sacos de pancada"...
(Fotografia de Luís Eme)