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quarta-feira, abril 24, 2019

O Dia que Ainda Não É...


O 24 de Abril na actualidade é sobretudo um dia de antecipações de festas por todo o País (entre nós joga-se muito na "antecipação", para ficarmos primeiro na fotografia que os outros...).

Mas há 45 anos a história era muito diferente...

Ao contrário do que por vezes se diz por aí, a preparação da Revolução foi um segredo muito bem guardado. Isso ficou a dever-se em grande parte ao facto de ter sido protagonizado por militares, que normalmente são disciplinados e têm um sentido de honra diferente do comum dos mortais. Por outro lado sabiam o que estava em risco, caso falhasse a tentativa de Golpe de Estado. Pelo que quanto menos pessoas soubessem e estivessem envolvidas melhor (especialmente para elas). 

Mesmo no dia 25 de Abril havia alguma desconfiança, pelo menos nos sectores mais politizados, pois não sabiam muito bem se o golpe era democrático ou da extrema direita (Kaúlza de Arriaga conseguia estar à direita do regime...). Foi por isso que houve quem se mantivesse na "clandestinidade" por mais alguns dias, e até meses...).

Ou seja, o dia 24 de Abril de 1974, para a maioria dos portugueses foi um dia igual aos outros. Tanto para quem ouvia as "conversas em família" como para quem conspirava contra a falsa "primavera marcelista".

A DGS continuou a perseguir e a querer prender "comunistas"... e os antifascistas continuaram a tentar antecipar os seus passos, fugindo sempre que podiam...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

quarta-feira, outubro 24, 2018

A Apropriação das Memórias...


Tenho lido algumas críticas (quase sempre de militares...) a António Lobo Antunes, por ele ficcionar demasiado a Guerra Colonial. Outros ainda vão mais longe, e duvidam mesmo que ele, que foi médico militar, alguma vez tenha pegado numa arma, ou até tenha estado em contacto directo com o fogo inimigo.

Acho todas estas críticas patéticas e mentirosas. Sem precisar de lhe perguntar, tenho a certeza de que pegou em armas, assim como esteve presente em situações de combate.

Mas mesmo que isso não tivesse acontecido, reconheço toda a legitimidade a Lobo Antunes para escrever sobre essa guerra estúpida (como são todas...). Ao tratar dos seus camaradas feridos em combate, sentia as suas dores e o feridas, um pouco como suas. É esse o espírito militar. E a união ainda se solidifica mais em situações dramáticas... 

E vou ainda mais longe, o escritor faz muito bem em se apropriar das memórias dos seus antigos camaradas, que sabem que têm nele, um extraordinário "porta-voz".

(Fotografia de Luís Eme)

sábado, outubro 13, 2018

As Vaidades e os Masoquismos dos Governantes


Desde o início que se percebeu que o ministro da Defesa, não tinha nada que ver com aquela pasta e com aquele mundo (provavelmente a escolha do primeiro-ministro já foi feita com esse sentido, para que se fingisse que se fazia alguma coisa, sem se fazer coisa nenhuma...).

Mas os imponderáveis, como o "roubo de Tancos", são tramados...

Só não percebo é porque razão as pessoas (muitas mesmo...) aceitam ser ministros, de matérias que desconhecem, e não demonstram grande interesse em conhecer, para lá dos "dossiers"... Se calhar até percebo: a vaidade de um dia se ser ministro de qualquer coisa, ultrapassa todas as lacunas, possíveis e imaginárias, especialmente num país que continua a viver sobretudo das aparências.

E quem normalmente acaba por ser prejudicado com todos estes "jogos políticos", somos nós, portugueses...

Também não entendo por que razão, os ministros não abandonam os cargos, quando toda a gente percebeu (até eles...), que estão ali a mais. Parece que preferem ser "queimados vivos", como é a vontade do primeiro-ministro, que só aceita demissões, depois dos seus "muchachos" estarem bem "chamuscados" (sim, que este caso, é apenas uma repetição do que se passou com a ministra da administração interna).

(Fotografia de Luís Eme)

quarta-feira, outubro 03, 2018

Medalhas & Tiros nos Pés...


O assalto a um dos paióis de armamento de Tancos, é de tal forma caricato e inverosímil - em todos os seus episódios - que a realidade ultrapassa mais uma vez a ficção.

Mesmo assim é importante perceber que nada disto aconteceu por acaso, que foi um dos "preços a pagar" pelos muitos anos de desinvestimento nas Forças Armadas e na degradação da condição militar (provavelmente chegou-se a um ponto em que já existem mais oficiais e sargentos que praças na Marinha, Força Aérea e Exército...). Os principais responsáveis por se ter chegado a este ponto, são os três partidos do "arco governativo", quase sempre com a complacência das chefias militares, mais preocupadas com as suas estrelas e louvores, que com os homens e mulheres que comandavam.

Mas o que ainda me deixa mais apreensivo em todo este "filme", é a falta de cooperação que existiu entre as polícias (neste caso particular entre a PJ e a PJM...), desde o começo de todo o processo. 

Parece que a "coroa de louros" é sempre mais importante que o trabalho em equipa, para a resolução rápida e séria dos vários casos de polícia, que envolvem mais que uma força de segurança ou polícia de investigação...

(Fotografia de Luís Eme)

quarta-feira, julho 05, 2017

Mais de Quarenta Anos de Desconfianças e Medos...

Os políticos do "bloco central" nunca se conseguiram relacionar de uma forma normal com os militares. 

Nunca lhes perdoaram o facto de terem sido os verdadeiros heróis da revolução, e muito menos da "contra-revolução".

Vingaram-se de várias maneiras. A mais visível é o facto de nenhuma das grandes figuras de Abril ter atingido o posto de general. Salgueiro Maia, Melo Antunes, Vitor Alves, Otelo Saraiva de Carvalho ou Vasco Lourenço,  marcaram e marcam passo como coronéis...

Muitos dos políticos que foram ministros e secretários de Estado, a partir de 1976, nem sequer cumpriram o serviço militar obrigatório (talvez por isso, tenham conseguido acabar com este desígnio patriótico, que em muitos casos era único na vida de milhares de jovens, pois só na instituição militar percebiam o verdadeiro significado de palavras como disciplina, respeito, ordem e espírito de corpo...), ou seja, eram contra a instituição sem sequer perceberem a lógica da sua existência.

Outros mais sabidos tinham "medo", até por saberem que as grandes revoluções do país tinham tido como principais actores os militares. Foi por isso que andaram anos anos a nomear para as suas chefias oficiais generais conservadores e pouco incómodos (na gíria militar "lambe botas"...).

A única coisa a que não podiam fugir era às obrigações que Portugal tinha com a Nato. Foi por isso que continuaram a gastar dinheiro em missões internacionais e em armamento (mesmo com exageros, como foi o caso dos submarinos do Portas...).

Alguns militares mais atentos foram lançando avisos ao longo dos anos, que eram desvalorizados tanto pelos políticos do costume como pelos jornalistas, que gostavam de os apelidar como a "brigada do reumático".

E agora somos notícia no mundo, por um daqueles acontecimentos, que quase parecem anedota (se puderem leiam a crónica de hoje do Ferreira Fernandes no "D. Notícias"...), mas aconteceu mesmo.

E como acontece sempre nestes casos, os políticos de direita da oposição - gente sem vergonha e sem memória -, "exigem" demissões, demitindo-se eles, como de costume, das suas responsabilidades (que não são menos que as do PS...) de mais de quarenta anos de governação contra a instituição militar.

(Fotografia de Luís Eme)

domingo, julho 02, 2017

O Lado "Vampiresco" da Política...


Há muitas coisas que me incomodam na política e no jornalismo especializado.

Uma das mais irritantes é o lado "vampiresco" dos seus múltiplos actores, sejam eles políticos, comentadores ou jornalistas.

Sempre que acontece uma desgraça, o que todos eles querem é "sangue", começam logo por pedir demissões (muitas vezes parece ser a sua única preocupação, como se elas por si só resolvessem alguma coisa...).

Gostava de os ver tão assertivos na assumpção de responsabilidades em matérias tão delicadas como as que continuam a fazer manchetes nos jornais, nas rádios e nas televisões, a tragédia dos incêndios e o recente roubo de material de guerra numa unidade militar. E fundamentalmente na procura de erros graves e dos seus culpados, e não na aposta do seu "esquecimento"... 

Sim, porque este assobiar para o lado constante, sem que se avance com as reformas tão necessárias, quer no planeamento e ordenamento do território  de um lado, quer das forças armadas de outro (há largos anos que se tenta gastar o mínimo possível com os militares, Portas e os submarinos, são a excepção nas últimas duas décadas...), só pode dar desgraça atrás de desgraça... 

quarta-feira, maio 31, 2017

Mãos sem Pedras e Passos Trocados...

Nunca percebi muito bem o porquê, dos governantes do "bloco central" - mesmo sabendo que sempre foram bons a "destruir coisas" - decidirem acabar com serviço militar obrigatório, essa coisa chata, que "irritava" os meninos das juventudes partidárias, talvez por serem obrigados a sentir (pelo menos na recruta...), que eram quase iguais aos outros. Aliás, acho mesmo que aquele era o único sítio onde poderiam experimentar, muito suavemente, o que é ser cidadão da Coreia do Norte (pelo menos no corte de cabelo, no uso da farda e no tratamento pessoal...).

Graças a eles, agora os jovens passam de adolescentes a adultos sem experimentarem, pelo menos uma vez na vida, que têm de obedecer a horários e a regras, e que a graça de um espertinho pode dar direito a um castigo colectivo, reforçando mais uma coisa em desuso, que se chama "espírito de corpo", que na actualidade só poderá ser vivida na prática de desportos colectivos, onde a equipa é (ou pelo menos deve ser...) sempre mais importante que a "vedeta", que troca os olhos ao adversário.

E mais uma vez comecei a escrever e fui-me "perdendo"...

Quando pensei neste título queria escrever sobre a dignidade, o carácter, a sensibilidade e a honra (a autêntica, aquela que vive fora dos discursos...), que não são atributos da esquerda ou da direita, muito menos dos católicos ou dos muçulmanos. Está acima de todos os credos (ou pelo menos devia estar...).

O que eu queria mesmo era valorizar o exemplo militar, do tal espírito de corpo (mesmo que possa ser uma ilusão...), da importância que é darem-nos uma pedra, para sabermos qual é a nossa mão direita e a esquerda, para não andarmos de passo trocado. Era algo que nos iria servir para a vida toda. Só que nestes tempos, ninguém quer saber dessas coisas "chatas"...

(Fotografia de Johua Benoliel - o primeiro fotojornalista português)

quinta-feira, outubro 08, 2015

Publicidade Especial


Descobrirmos coisas velhas com sabor a novas, foi o que mais nos aconteceu depois de Abril de 1974.

E não foi apenas a Coca Cola, até coisas mais simples e saudáveis com os cereais "Corn Flakes", só apareceram por cá com a feliz abrilada proporcionada pelos "Capitães da Malta", cansados de lutar contra um inimigo cada vez mais forte, até por a razão se aproximar cada vez mais da sua causa...

segunda-feira, dezembro 19, 2011

«Ó Escola!»


Há anos que não ouvia a expressão, «ó escola!». Quando me virei estava longe de pensar que era alguém a meter-se comigo. 

Quem passou pela Marinha conhece bem esta expressão, utilizada entre camaradas, normalmente dos mais antigos para os mais modernos.

Sim, camaradas. Por lá colegas eram as meninas oferecidas das ruelas viciosas e dos bares manhosos, que proliferavam por uma outra Lisboa, distante da dos nossos dias.

Era um antigo companheiro, que não via há mais de quinze anos. Falámos um pouco e despedimos-nos. Quando ele se afastou senti que aquele conhecimento era quase de outra vida, por termos actualmente tão pouca coisa em comum.

Às vezes pensamos que mudámos pouco, mas felizmente há sempre um ou outro episódio que nos prova o contrário...

O óleo é de Adam Pekalski.

sexta-feira, março 05, 2010

Lições de Vida

Gosto de receber lições de vida. Ontem foi dia (aliás, noite) de receber mais uma, de um dos "Capitães de Abril", mais genuinos, e mais importantes, de todo o processo revolucionário que pôs termo à ditadura e nos devolveu a democracia. Falo do coronel Vasco Lourenço, que foi o convidado das "Tertúlias do Dragão", organizadas pela SCALA, em Almada.

Vasco Lourenço além de ter desmontado alguns mitos, explicou-nos a verdadeira génese do "Movimento dos Capitães", num período em que quase todos os militares tinham consciência que a única solução para colocar fim à Guerra Colonial era política. A vontade colectiva de devolver a dignidade e o prestígio das Forças Armadas cresceu de tal forma, que era impossível recuar... e a Revolução saiu à rua no dia 25 de Abril de 1974.
Focou depois o desprendimento dos militares em relação ao Poder. Acrescentando que o grande objectivo do MFA foi criar condições para a realização de eleições livres, para que o poder pudesse ser entregue aos partidos políticos escolhidos pelos portugueses.
E foi isso que aconteceu. Quase trinta e seis anos depois, podemos dizer que se há alguém que não tem qualquer culpa da situação actual do nosso país, são os "Capitães de Abril".
E vou mais longe, não houve ninguém na nossa História de Portugal, que desse uma prova tão grande de generosidade e de desapego ao poder, como os "Capitães de Abril".
Basta olharmos com olhos de ver para todas as revoluções, desde a independência de então Condado Portucalense, em 1143, ao 28 de Maio de 1926.
É também por isso que irei ler com todo o interesse o livro-entrevista, "Do Interior da Revolução", de Maria Manuela Cruzeiro e Vasco Lourenço.

domingo, fevereiro 07, 2010

Diário do Meu Tio (três)

«Às vezes penso que nenhum de nós conseguiu ser feliz.

Perdemos o brilho dos olhos, lá, e sei lá que mais.
Só muitos anos depois de ter voltado, já com cabelos brancos e com os teus primos grandes, é que consegui chorar a ver um filme.
Acho que passamos tempo demais a fugir das emoções. Temos medo de fraquejar, como se as lágrimas fossem a arma dos fracos. Mas é tudo mentira, as lágrimas libertam-nos de tantas coisas.»

Nota: O meu tio um dia resolveu falar-me da guerra, depois de eu o ter questionado várias vezes sobre alguns pormenores e receber sempre respostas evasivas.
Seleccionei algumas das coisas que me disse, que coloquei aqui, sem saber muito bem porquê.
Sei que são poucas as pessoas que falam dos momentos que viveram a combater os inimigos, falam apenas da copofonia das cidades, do clima, das mulatinhas e pouco mais. É compreensível, nenhum de nós gosta de falar de coisas sobre as quais não sente qualquer orgulho. Acho que quem viveu a guerra com alguma intensidade, não fala nisso porque sente que deixou por lá um pedaço da alma, regressou sem a capacidade de sorrir e viver, que tinha antes...
E nem vale a pena falar dos pesadelos...

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

Diário do Meu Tio (dois)

«Sentir-me culpado? Na altura não. Hoje sim. Mas é impossível alterar o passado...

Sermos muito novos e pouco politizados era uma desvantagem para nós e uma vantagem para os nossos comandantes. Qualquer lavagem ao cérebro fazia com que sentíssemos que nós éramos os bons e os pretos os maus.
Nem sequer me lembro de alguma vez me questionar que aquela terra era deles.
Até isso era compreensível, se passeasses por qualquer cidade moderna, eram os brancos que mandavam e eram donos de tudo.»

domingo, janeiro 31, 2010

Uma Revolta Decisiva

O 31 de Janeiro de 1891 foi um dia decisivo para a República.

Embora a revolta militar republicana que teve lugar no Porto não tenha tido sucesso, as pessoas com um conhecimento mais profundo da realidade portuguesa, perceberam que a monarquia tinha os dias contados. Algumas pela primeira vez...

sexta-feira, abril 04, 2008

Grito de Revolta na Madeira

Hoje comemora-se o 77º aniversário da Revolta da Madeira, que teve como principal protagonista o general Sousa Dias, exilado na Ilha e durou 28 dias, enervando, e de que maneira, os ditadores do Continente...
Muitas vezes fala-se do povo madeirense, como se ele não fosse muito personalizado, graças ao que nos vai chegando de Alberto João Jardim. Só que a nossa visão, não é exactamente a mesma dos habitantes da Ilha. E eles é que sabem com que linhas se cosem...
Esta "memória" serve também para falar de um livro evocativo da efeméride, "Lenços Brancos", uma narrativa escrita por Berta Helena, uma jornalista madeirense que resolveu "juntar bocadinhos" que ouviu aqui e ali (além da pesquisa histórica, claro...) e contar a história do avô, o sargento Firmino Camacho, oferecendo-nos um relato pessoal de como terá sido acolhida a Revolução na Ilha, que é uma agradável surpresa...

domingo, novembro 25, 2007

A Reposição da Democracia

Há trinta e dois anos deu-se o 25 de Novembro, um golpe militar que teve como principal objectivo acabar com os "avanços" esquerdistas, que começavam a colocar em perigo o regime democrático de Abril.
O sucesso desta acção militar só foi possível graças à passividade de algumas das pessoas que tinham mais poder no nosso país (Otelo Saraiva de Carvalho e Álvaro Cunhal, por exemplo), que perceberam que a reacção ao golpe colocaria Portugal numa mais que provável guerra civil.
O general Costa Gomes foi um excelente "fiel da balança" em todo este processo, que entre outras coisas, conseguiu que os fuzileiros e os pára-quedistas - ao lado dos sectores mais revolucionários - não saíssem dos quartéis, evitando os confrontos armados...

domingo, junho 10, 2007

A Medalha que o Pai e o Filho não Receberam...


Não sei se houve mais, acredito que sim...
Eu só tive conhecimento de um homem que se recusou a receber, a título póstumo, a cruz de guerra que quiseram oferecer ao filho, morto na Guiné.
Esta recusa foi mal vista na vila onde morava, ao ponto de começarem a espalhar pela vizinhança que ele era comunista.
Estávamos a 10 de Junho de 1970.
Era um país muito pequenino, ainda mais pequeno que este dos nossos dias, o que existia antes de Abril. O senhor, mal por mal, preferiu ser conhecido como comunista que como fascista. E nunca lhes perdoou, por lhes terem roubado o único filho que teve, numa guerra sem qualquer sentido...

domingo, maio 20, 2007

Tropa: Memória e Fábula


Este fim de semana vai realizar-se o almoço anual da nossa tropa, ao longo de todo o dia, como se o estômago fosse o mesmo de então e, entretanto, não tivéssemos mudado de dentição.
- Lembras-te, pá ? - Claro que me lembro, então eu podia lá esquecer-me !
E ainda que as memórias já não confiram, é preciso entrar no jogo e dizer que sim, mesmo sabendo que muita coisa foi sendo ajeitada ao longo da vida, para melhorar a nota, para retocar a foto, para espantar o medo.
Só valem as memórias boas, é a primeira regra deste jogo; a segunda é que ninguém se “chiba” à frente da família e vamos pedindo fôlego para jogar o dia inteiro, com um empate no final. A família não estava lá e às más memórias sempre podemos dizer:
- Olha que não, camarada, não foi bem assim e mostraremos um ângulo mais favorável.
Fizemos a tropa em Moçambique, entre 1963 e 1966, uma tropa de paz e de guerra, de riso e choro, de bebedeira e lucidez, de coragem e medo, de vida e morte, e é das suas memórias que falaremos ao longo do dia, com a algazarra de putos felizes na parada do quartel. Se exagerarmos aqui ou ali, não será por mal, nem para prejudicar ninguém, mas quem ouvir de fora há-de ter a generosidade de dar-nos uma razoável taxa de desconto.
- Estás na mesma, pá, parece que não passou um ano por ti ! O “tanas” é que não passou, se me permitem esta moderada linguagem de caserna, claro que passaram, mais por uns do que por outros, que a vida não trata todos da mesma maneira. Então onde ficou o meu cabelo preto e farto ? Onde está a minha resistência antiga ? Onde deixei a minha cintura fina, os meus sessenta e sete quilos de peso, a minha pele lisa, os meus olhos de águia? Onde guardei os meu sonhos desse tempo ?
Mas é bom acreditar e, a esta distância, quem não namorou a rapariga mais linda da vila, quem não os teve no sítio naquela operação difícil, quem não esteve quase a “lerpar” e deu a volta por cima, quem não era o mais “vivaço”, o mais desenrascado, o mais corajoso, o galã da companhia ?
- Claro que eras tu, camarada, mas eu também não te ficava atrás!
Este fim de semana vai realizar-se o almoço anual da nossa tropa e, vencida a inibição inicial de quem passou um ano ou mais sem se ver, voltaremos a ter vinte e dois anos e uma vida inteira à nossa frente.
Se tivermos sorte e o vinho for bom, até podemos terminar o dia em Inhaminga, com uma cerveja no Simões, ou em Vila Cabral, com um churrasco no Planalto e, num lado ou noutro, com uma moça muito bela a nosso lado.

Mais um texto de Joaquim Nascimento...

terça-feira, abril 24, 2007

A Madrugada Esperada



Não estejas assustado
Esta guerra é diferente das outras.

Acredita em mim,
Desta vez vale mesmo a pena
Entrarmos neste combate.

Porquê?
Oh rapaz, nós vamos libertar o país.
Já pensaste nisso? Não?
Então pensa,
Amanhã podes ser um herói,
Vivo ou morto, tanto faz!

Não me olhes com essa cara,
Esta estrada tem um só sentido.


É isso mesmo que estás a pensar
Já não podemos voltar atrás
Estão todos à nossa espera...
Quando é que partimos?

No começo da madrugada.
Sinto que vai ser uma hora boa...
Estamos cada vez mais perto do sonho.
A Revolução chama-nos em Lisboa.
Esta fotografia é do golpe militar de 28 de Maio de 1926, quase quarenta e oito anos antes de Abril. Simboliza a longa espera.
O poema é meu...

sexta-feira, março 16, 2007

O 16 de Março de 1974


A tentativa de golpe de estado de 16 de Março de 1974, protagonizada pelo Regimento de Infantaria 5 de Caldas da Rainha, ainda não está completamente explicada...
O que foi que falhou? Para uns nada, para outros tudo.
Será que a antecipação do golpe foi propositada, para apalpar o pulso à velha e caduca ditadura?
Talvez sim, talvez não...
De qualquer forma o 16 de Março tornou a Revolução irreversível...
Felizmente Abril estava à porta...

quinta-feira, janeiro 04, 2007

O Soldado Desconhecido

A existência de monumentos de homenagem ao “Soldado Desconhecido”, de quase todas as guerras, faz confusão a muito boa gente. Especialmente a quem nunca vestiu uma farda militar e só conhece a palavra guerra de filmes e reportagens televisivas.
Às vezes sou metido ao barulho, por ter sido militar, perante falsos “objectores de consciência” que além de nunca terem acordado ao sou do toque de alvorada, gostam de brincar com a “promessa” de se defender da pátria com a própria vida, prometida em qualquer juramento de bandeira, por soldados de carne e osso.
Sinto o quanto é complicado ajuizar sobre termos militares, num país que até parece (ou finge...) que não conviveu com um cenário de guerra, relativamente recente, nas nossas antigas colónias.
O nosso passado, acaba por influenciar de uma forma decisiva a nossa opinião.
Surge quase de imediato uma divisão natural: o facto de termos sido ou não militares. Entre os que não assentaram praça, surgem outras sub-divisões, como por exemplo: os que ficaram livres naturalmente; os que “compraram” a passagem à disponibilidade; e por fim, os que “fugiram” do seu dever (era habitual durante a guerra colonial) emigrando a salto para o estrangeiro.
Depois há o tempo e a situação em que vestimos fardas. Como é normal, quem conviveu com a guerra, tem uma visão diferente de quem apenas conheceu a vida militar em tempo de paz.
Com tantos cenários diferentes, existem pontos de vista quase para todos os gostos...
Mas quando falo da morte em combate, dos corpos que ficam irreconhecíveis, dos soldados que não se conseguem recuperar (é dever dos militares não deixar ninguém para trás, nem mesmo os mortos, mas às vezes é impossível resgatar os corpos dos companheiros de jornada), a conversa muda de tom. Percebem que, goste-se ou não de militares, estamos a falar de seres humanos, quase sempre empurrados para os campos de batalha de uma forma involuntária.
Só desta maneira crua é que descobrem a essência da homenagem que é feita ao “Soldado Desconhecido”, porque ele existe e é a principal vitima de todas as guerras...