terça-feira, novembro 21, 2017

A Falsa Fábrica de Sonhos....

No fim do descampado lá surgiu o velho barracão, ainda com alguma imponência, mas sem portas ou janelas. Ainda era visível a chapa ferrugenta com o nome da segunda vida, como "casa de sonhos", sem esconder que no passado fora uma fábrica de tijolos. 

Os donos fartos de saber que as discotecas passavam de moda rapidamente, fizeram um investimento quase curto. Depois de ser discoteca, ainda foi quase um "templo de rock alternativo", com música ao vivo às sextas.

Foi lá que o Rui e a malta da sua banda fizeram a estreia em concertos ao vivo. Quem os ouviu diz que tocavam bem, com o Rui a cantar em português (foi lá que cantou uma letra da minha autoria,  a "Viagem"...). Gostavam de tocar, de se juntar e criar. Não pensavam em discos, muito menos em ganhar camiões de dinheiro. Pelo exemplo do Rui, penso que nunca se levaram a sério, foi por isso que nem sequer pensarem em abandonar os seus empregos tristes. 

Pouco tempo depois o barracão foi obrigado a fechar por estar completamente "fora da lei". Não foi difícil de perceberem que o "fim" estava um pouco à frente, depois da esquina.

Não se chatearam, simplesmente acharam que aquela brincadeira musical foi perdendo a graça, provavelmente por não terem encontrado qualquer estrada com setas para o futuro. Começaram a vender o material da banda e prometeram deixar de sonhar por uns tempos... pelo menos sonhos com som.

Lembrei-me desta história por ter passado ao pé da velha fábrica e por saber que o Rui não voltou a tocar e a cantar, nem mesmo no banho (pelo menos é o que ele diz)...

(Fotografia de Luís Eme)

segunda-feira, novembro 20, 2017

Quase Cenário de Filme...

A "Outra Banda", outrora tão procurada por gente que vinha a esta margem com o intuito de pintar o Tejo e Lisboa, continua a oferecer a beleza de sempre, do alto dos seus miradouros, que surgem de uma forma natural, nos planos superiores das suas encostas.

Embora esta fotografia seja de Outubro, quando ainda parecia ser "Verão"... podia ter sido tirada hoje, à hora de almoço, em que a temperatura esteve amena, nos jardins da Casa da Cerca, com uma "varanda" virada para o melhor rio do mundo, que bem poderia passar por um cenário de filme, onde nem sequer falta um cacilheiro a navegar...

(Fotografia de Luís Eme)

domingo, novembro 19, 2017

Estes Tempos Cheios de Nada...

Estes nossos tempos, tão cheios de nada, fazem com que seja cada vez mais fácil ler em diagonal e perceber as coisas de uma forma distorcida. E o pior, é que isso acontece quase sem nos apercebermos.

Toda esta maquinação que nos permite viajar sem dar um passo, ir ao Japão e voltar em meia dúzia de segundos, está a roubar-nos a "atenção" e a "concentração", entre outras coisas, afundando-nos com demasiada informação "inútil", ao mesmo tempo que nos afasta de coisas que realmente nos deviam interessar...

Todo este uso e abuso de informação faz-me pensar que nunca foi tão fácil enganar tanta gente em tão pouco tempo...

(Fotografia de autor desconhecido das bibliotecas itinerantes da Gulbenkian de um tempo com muito mais minutos...)

sábado, novembro 18, 2017

«Qual casa, quais livros, quais quadros?»

As pessoas mais próximas ainda não perceberam até que ponto o António ficou afectado com a fogueira grande que deixou a casa de campo apenas com as paredes.

A Ana anda preocupada e diz a todos os amigos que o companheiro não anda bem. Tudo porque quando alguém lhe "quer medir o pulso", para saber coisas que ele desistiu de quer saber e lhe faz perguntas sobre tudo o que aconteceu, ele com um sorriso nos lábios diz: «Qual casa, quais livros, quais quadros?»

Com os amigos mais próximos vai mais longe nas explicações: «Há muito que a casa precisava de uma remodelação. Nos últimos anos foi tratada como "depósito de lixo", levávamos para lá o que não nos fazia falta. Os móveis que não queríamos, as roupas que não usávamos, os livros que não líamos e os quadros que não cabiam nas paredes. Agora voltou tudo ao início. Vai voltar a ser a casa dos primeiros tempos, quando acabarem as obras.»

E vai ainda mais longe no seu sorriso: «Talvez volte a ter tempo de pegar na viola no quintal e tocar para os pássaros.»

Mesmo assim desconfiam da sinceridade das suas palavras. Não compreendem que ele seja capaz de dizer, «Voltar atrás para quê?», um lugar comum que é título de livros e de filmes, mas que é a melhor solução para se conseguir continuar a andar em frente, sem andar com os bolsos cheios de "fatalidades". 

Não sei se é o facto de ser homem (com um bom poder de abstracção - que há quem chame capacidade de "fugir dos problemas"...), que me leva a compreender o António. Sei que o que ele quer dizer é que há coisas mais importantes que os objectos que vamos guardando pela vida fora, por muito que façam parte das nossas memórias...

(Fotografia de Tarlé Dominique)

sexta-feira, novembro 17, 2017

Os Meus Passeios Mágicos com Romeu Correia...


Quando pensei em escrever o meu último livro, "Passeio Mágico com Romeu Correia", tinha como principal objectivo, homenagear, e dar a conhecer, quem foi realmente Romeu Correia, que por vezes é "criticado" por quem nunca leu um livro da sua autoria nem assistiu a uma peça sua.

Mas não pensei nestes "amigos da onça" (que também aprendiam alguma coisa com a sua leitura...), pensei sobretudo nas gerações mais novas, que apenas conhecem Romeu Correia por ser o patrono da grande sala da Cultura de Almada. Com o meu livro ficam a conhecer o Romeu em todas as suas vertentes, especialmente nas que mais se destacou (literatura, teatro e desporto).

Recordo sobretudo os nossos passeios pelo Almada, que foram a fonte de inspiração para o título deste livro. E vou transcrever o que escrevi na "Apresentação", neste dia que é de Romeu Correia:

[…] O uso da palavra “mágico”, dentro de um “passeio”, fez-me recuar no tempo, voltar às nossas “piscinas” que começavam na esplanada do senhor Manuel, na Praça da Renovação. Depois avançávamos pela rua Fernão Lopes, atravessávamos o Largo do Tribunal subíamos as escadas até ao Jardim, e quase sem darmos por isso, estávamos na Rua Direita... Íamos parando aqui e ali, para que o meu querido “cicerone” me explicasse melhor, quem eram as personagens que se iam misturando na nossa conversa, dando vida a uma Almada que continua a existir na memória do Romeu e das Gentes que se orgulham de viver numa Terra solidária e fraterna, que não deita fora o passado (o Orlando e o Chico permanecem na primeira fila...).[…]

quarta-feira, novembro 15, 2017

A Famosa Folha Branca...

Eles falavam de folhas em branco, de inspirações e transpirações, da "espera" que se faz às histórias, e que mesmo assim elas escapam-se por entre os dedos.

Mas as coisas mudaram muito, já quase ninguém escreve em papel (o António é um dos poucos resistentes, com a sua letra pequenina que se cola às folhas como lapas...), fingem tocar piano nos teclados, que a única coisa que sabem é soltar letras que querem ser palavras, frases, capítulos, contos, novelas, romances... entre outras coisas.

Eu estava ali em silêncio, com vontade de fingir que ia fumar um cigarro à varanda, porque já estou tão habituado a escrever por escrever, que nem sequer me lembro de "vacilar" perante a famosa folha em branco.

Ou então fazia "voar" as ditas folhas, transformando-as em aviões de papel...

(Fotografia de Ann Mansolino)

terça-feira, novembro 14, 2017

O Começo e o Fim do Amor têm Sempre Muitas Nuances...


Às vezes as pessoas contam-nos coisas, demasiado fortes, que podiam ser de livros ou de filmes, mas são mesmo da "vidinha"...

Um amigo que já vive há muito uma "segunda vida", contou-me o que lhe fizeram num dos momentos de maior fragilidade da sua vida. Naquilo que hoje considera um acto frio, de pura vingança, não por ser um mau rapaz, mas apenas por ter sido sempre dono do seu nariz.

Acabado de chegar do hospital, após uma operação delicada, foi "depositado" na cama cheio de dores. A companheira saiu para ir à farmácia para lhe comprar medicamentos que precisava com urgência. Mas esta deve-se ter olhado ao espelho e sentido mal com o seu aspecto e pelo caminho resolveu passar pelo cabeleireiro. 

Quatro horas depois, quando chegou a casa, ele quase que agonizava, na cama, com dores infindáveis...

O recado fora transmitido. O começo e o fim do amor têm sempre muitas nuances...

(Fotografia de Luís Eme)

segunda-feira, novembro 13, 2017

"Duplicidades" (era o título...)


Descobri hoje o começo de qualquer coisa... um texto ainda do século passado que queria ser uma história qualquer. O jornalismo estava presente, na pele de Pedro Gama, o protagonista do meu primeiro (e único...) romance, "Bilhete para a Violência". Sem perceber bem porquê, pelo menos hoje, é uma história de perdas:

«Ao entrar na redacção do jornal, Pedro experimentou uma sensação nova, estava tudo silencioso. Sempre pensara que os jornalistas, habituados a conviver com os dramas do dia a dia, nunca fechavam para balanço.
Aproximou-se da secretária arrumada de Patrícia, recordou a colega bonita e inteligente, revoltada com um mundo que ainda não aprendera a conviver com esses atributos. Pedro olhou durante alguns segundos para os jovens redactores que escreviam como se estivessem dentro do cinema a ver um filme. Foi quando um toque ligeiro no ombro o trouxe de regresso ao mundo dos vivos. Era a Helena, boa jornalista e companheira. Fora ela que lhe comunicara em primeira mão a morte da Patrícia.»

Percebi que era um policial, que a jornalista aparentemente se tinha suicidado, mas apenas, aparentemente...

(Fotografia de Cecil Beaton)

domingo, novembro 12, 2017

A Dualidade da Amizade e a Santa Bárbara...

A vida vai-nos ensinando sempre a separar o trigo do joio. As pessoas podem-nos enganar algum tempo, mas nunca para sempre.

É também por isso que não devemos usar demasiado a palavra "amigo", ao ponto de a banalizar.

Hoje estive a ler um caderno de palavras datado de 2006. Uma das coisas que me chamou a atenção foram as palavras que escrevi sobre a amizade, que transcrevo (continuo a pensar da mesma maneira). 

«Um verdadeiro amigo não se preocupa com as coisas pequenas, não nos chama a atenção por nos termos esquecido de uma vírgula numa crónica, nem tão pouco diz que estamos mais gordos ou usamos o cabelo demasiado curto ou grande.
Um verdadeiro amigo preocupa-se com o nosso bem-estar, além de falar das coisas que realmente importam, se perceber que estamos num dia mau, é capaz de nos oferecer uma história divertida, só para afastar o tédio e todas as coisas com pouco sentido.»

Claro que não escrevi isto por acaso. Foi por perceber que esta definição não era igual para todos. Há por exemplo quem pense que um amigo é aquele que tem uma paciência infinita para nos aturar, embora este princípio só se aplique a ele e nunca a nós...

Ou seja, há muito quem só seja "amigo" para receber e nunca para dar.

Mas eu sei que estou diferente. Sei que em 2006 não era capaz de dizer a alguém que me telefona a pedir ajuda, «Já sei que me está a telefonar para pedir alguma coisa. E ainda não é hoje que me telefona para me dar alguma coisa...» Hoje sou. E de alguma forma acabo por desarmar pessoas que só se lembram de "Santa Bárbara quando chove"...

(Fotografia de Luís Eme)

sábado, novembro 11, 2017

O Assédio Quase Permanente ao Nosso Olhar nas Ruas...


Sei que as mulheres têm demasiadas razões para se queixarem de assédio sexual, tanto no trabalho como nas ruas. Já senti nojo, e até vergonha,  de alguns homens (sempre mais velhos que eu...), pelo que eram capazes de dizer às moçoilas, de várias idades, com quem se cruzavam nas ruas.

Mudando de avenida, também me faz alguma confusão a forma como algumas mulheres "desfilam nas ruas", com decotes que nos puxam os olhos para as suas "explendorosas" e saias curtas que prometem mais do o que escondem, quase sempre em cima de sapatos de meio-metro que as fazem andar quase num "samba urbano".

É aqui que, mesmo que os olhos não digam qualquer palavra, todos nós, homens, sentimos que eles "falam" demoradamente com todas estas paisagens humanas que decoram os caminhos das cidades...

Sem querer misturar as águas, talvez também seja boa ideia, falar um pouco sobre este caso pouco escandaloso, do assédio quase permanente ao nosso olhar nas ruas...

(Fotografia de Philippe Halsman)

quinta-feira, novembro 09, 2017

Recomeçar (ou não) de Novo...

Encontrei um rapaz que de vez enquanto desaparece do mapa e estou anos sem o ver.

Ao contrário de mim, já viveu muitas vidas no mundo que nos espera à porta de casa, todos os dias. Só casamentos foram três, todos eles de curta duração (o que durou mais ficou-se pelos quatro anos...). Já morou em várias cidades e países, mas acaba por voltar sempre à casa dos pais, os únicos que nunca lhe fecham a porta...

Está mais desiludido que nunca, por saber que já não vai para novo e que cada vez há menos empregos para quem se aproxima dos cinquenta. A primeira vez que o vi sorrir durante a nossa conversa foi por causa das histórias de assédio, que estão na moda, ao ponto de ele pensar que sempre deve ter sido um "assediador" militante, pelo menos nos trabalhos onde havia gajas boas. Disse isso como se o "atiranço" fizesse parte da nossa condição de "macho".

E a partir de aqui a conversa melhorou bastante. Foi delicioso vê-lo a "despir e a vestir" as mulheres que foi conhecendo e despachando, e também das outras, que o despacharam... Debitou lugares-comuns a uma velocidade incrível. Afirmou saber, por experiência própria, que todo o amor tem prazo de validade, mesmo que exista por aí muita boa gente que se finge feliz, por ter um casamento com cinquenta anos e mais.

Quando nos despedimos percebi que não é só a vida que nos quer correr mal... nós também nos esforçamos para que ela caminhe (ou não...) para os lados errados, do dia ou da noite...

Somos todos diferentes e todos iguais. É por isso que há quem consiga viver a vida inteira no mesmo lugar e também quem precise de andar a saltitar de terra em terra, à procura daquilo que parece não existir...

(Fotografia de Ruth Orkin)

quarta-feira, novembro 08, 2017

A Gente Pequenina do Meu País...

Já nem me apetece dizer que estou farto da "gente pequenina do meu país", porque são "muitos mais que as mães" (e nem sequer posso dizer que elas não têm culpas no cartório)...

Mas incomoda-me que passem a vida preocupados com o vizinho que comprou um carro melhor que o deles, e continuem a ser benevolentes para com os "sócrates" e "salgados" que faziam aviões de papel com cheques de milhões e quase passaram a ferro o país... ao ponto de lhe chamarem "coitadinhos"... E o juiz é que é um malvado, assim como o procurador. E da cambada dos jornalistas, nem se fala...

Claro que não me apetece abanar os ombros e entrar no coro que passa o tempo a dizer que as "pessoas são o que são". É neste momento que devia meter aqui um daqueles palavrões grandes.

Deve ter sido por causa desta gente que houve alguém que resolveu fazer em Coimbra o "Portugal dos Pequenitos"...

É por isso que escrever é também sobreviver, sem passar ao lado...

(Fotografia de Luís Eme)

terça-feira, novembro 07, 2017

O Desabafo do Artista...

Hoje cruzei-me com o Louro Artur, um artista plástico almadense que é o autor  do bonito painel em azulejos que retrata a vida literária de Romeu Correia, mas que foi colocado num lugar quase escondido (rente às piscinas da Academia Almadense que estão fechadas há já mais de meia-dúzia de anos e são cada vez mais poiso de gente que gosta de destruir por destruir...).

Com todo este abandono, o painel acaba por sofrer nos azulejos algumas "pinturas de guerra" de quem é incapaz de respeitar a Arte.

Ouvi os seus lamentos, porque ele detesta (e com toda a razão...) ver a sua obra vandalizada, e apesar de ter feito chegar a quem de direito, o que aconteceu, sente que ninguém se preocupa....

Como eu o compreendo, quando ele diz que aquela obra devia estar num lugar mais visível... E até diz onde o gostava de ver (no muro junto à Casa da Cerca, rente à Boca do Vento...), num lugar de passagem, e a espreitar o Tejo...

(Fotografia de Luís Eme)

segunda-feira, novembro 06, 2017

Não São só os Poetas que São uns Fingidores...


Hoje ainda vou falar dos meus livros, ainda que muito levemente, por causa de algo que eu já li em várias entrevistas, dito por mais que um escritor.

Um dos que mais vinca essa ideia é o António, o nosso eterno candidato ao Nobel.

Ele diz que assim que acaba o livro este deixa de lhe pertencer e que nunca mais o volta a abrir (menos ler). Embora eu seja um escritor de "terceira divisão", esta coisa de fazer de conta que os livros que escrevemos deixam de ser nossos (a não ser para continuar a receber os direitos de autor, os poucos que os recebem, claro...), sempre me fez confusão e me soou a "treta". Mas como somos todos diferentes, até é possível que seja mesmo assim...

O meu amigo Pereira (uso este nome que só usamos na "nossa rua" para despistar...), que é um escritor famoso do nosso burgo, também faz como eu, visita os seus antigos livros, muitas vezes com medo de se estar a repetir, porque isto de escrever livros tem muito mais que se lhe diga, que o que o senhor Rodrigues dos Santos pensa. 

E lá vou eu falar novamente do António, que também diz que está sempre a escrever o mesmo livro. Outra coisa que me deixa algumas dúvidas. Só concordo que escrevemos "o mesmo livro", por ele nascer e crescer dentro de nós, Embora escrevamos normalmente completamente "nus", as motivações, os temas, as personagens, os tempos, são sempre muito diferentes (só assim faz sentido continuar a escrever...).

Começo a divagar e depois não digo o essencial, aquilo que queria mesmo escrever: por esta ou aquela razão, volto muitas vezes aos livros antigos (mais aos ensaios que as obras de ficção), e sinto-me sempre confortável com o que escrevi, mesmo descobrindo pequenos erros aqui e ali...

(Óleo de Ludwig Von Hofmann)

domingo, novembro 05, 2017

O Dia Seguinte...


Por muitos lançamentos de livros que façamos, cada um tem a sua história.

A apresentação  do meu "Passeio Mágico com Romeu Correia" acabou por ter um significado ainda mais especial, por neste dia se realizar em Almada, praticamente em simultâneo, e organizado pela SCALA, associação da qual sou dirigente, a "Festa do Associativismo Almadense" (espectáculo de música, poesia e dança).

Isso fez com que ainda acabasse por ser mais marcante ter a Sala Pablo Neruda do Fórum Romeu Correia, cheia de amigos.

Outro aspecto não menos agradável é sentir que este livro a partir de ontem deixou de ser apenas meu (felizmente).

Agora só é preciso que ele cumpra o seu principal objectivo: apresentar o Romeu Correia, na primeira pessoa, especialmente a todos aqueles que não tiveram a possibilidade de conhecer pessoalmente o grande contador de histórias de Almada...

(Fotografia de Fernando Lemos)

sexta-feira, novembro 03, 2017

A Forma como nos Relacionamos com os Livros...


Já cheguei há muito tempo à fase de ter livros que sei que nunca irei ler. Mesmo assim, não resisto ao "olhar" que me lançam, aqui e ali e lá vou trazendo mais um ou outro amigo (para onde já não existem lugares vagos)...

Foi o que aconteceu com o famoso "Bom Dia, Tristeza", de Françoise Sagan, que era mais um livro perdido numa montanha de livros, desarrumados, com tinham o preço fixo de um euro.

Como nunca o tinha lido (nunca tinha calhado...), fiquei com ele, com o objectivo de o ler (até por ser um livro estreito, tal como a autora quando o escreveu nos anos 1950) e de não o deixar escapar para qualquer "labirinto" cá de casa.

Acabou por ser uma agradável surpresa, não que tenha uma história por ali além, mas sim por estar bem escrito (e bem traduzido...).

Fiquei a pensar que há duas coisas que me fazem fazer uma vénia aos escritores: escreverem de uma forma irrepreensível; contarem uma história daquelas, que nos prendem da primeira à última página (sem terem no interior "música de serrote").

E "Bom Dia, Tristeza", merece uma vénia. A história hoje já não provoca inquietações a ninguém, mas está muito bem escrita.

quinta-feira, novembro 02, 2017

Uma Comparação Leve e Eficaz...

Pode não ter sido feliz a comparação que a Rita fez, entre o tabaco e o facebook, mas pelo menos foi eficaz.

A primeira pessoa que se manifestou foi o "Carlinhos Batata", que entre sorrisos, disse que o facebook era a melhor coisa do mundo, e sem qualquer ironia.

Quase que nos roubou as palavras, mas mesmo assim lá fomos tentando desmontar aquele "mar de maravilhas"...

O Ruca foi o primeiro a manifestar-se e acha perfeitamente normal que num país em que Toni Carreira e José Rodrigues dos Santos são o músico e escritor de maior sucesso (e este último até já colocou na contracapa do seu último livro a pérola: "É considerado pelos portugueses o melhor escritor nacional"), em que as pessoas prefiram ver os programas do Goucha e do Baião ao "Governo Sombra" (ambos de divertimento), que o facebook seja o máximo.

Eu não quis falar muito, até por não conhecer muito bem o "funcionamento da coisa". Disse apenas que me desagradava a interacção quase instantânea entre as pessoas, algo que nos leva tantas vezes a dizer coisas sem pensar (e o Carlinhos disse logo que isso era uma das coisas que mais gostava...).

A Rita continuou a brincar com a malta e disse que aquilo ainda era mais viciante que o tabaco, e que infelizmente ainda não vendiam pastilhas para "matar o vício".

O Jorge explicou este  sucesso por outro ângulo, pelo interesse especial que dedicamos à vida dos outros, ali podemos espreitar a "janela da vizinha", sem sermos apanhados a mexer nos cortinados. Mesmo que de vez enquanto os apanhemos numa mentirinha (afinal não foram a Londres no outro fim de semana, ele cruzou-se com eles meia-dúzia de vezes na rua...).

Não queríamos chegar a conclusão nenhuma. Queríamos apenas "atirar umas bocas para o ar". Ficámos surpreendidos pela sinceridade do Carlinhos e pelo silêncio da Sara (outra fã...). Até por sabermos, que como quase tudo na vida, o gostar e o não gostar depende muito do que somos, um  pouco do que gostávamos de ser, e outro pouco do que andamos à procura e queremos da vidinha...

(Fotografia de Irving Penn)

quarta-feira, novembro 01, 2017

Não é a Mesma Coisa...


É possível que exista algum preconceito nesta minha análise (e até algum machismo...), mas continuo a pensar que as mulheres jovens têm uma atracção maior por homens mais velhos (assim como estes, que gostam de se sentir "jovens"...) que o inverso. O presidente francês é a excepção que quer confirmar a regra.

Mas isso também pode revelar alguma inteligência por parte das mulheres mais maduras, que são capazes de sentir que já tiveram "filhos" suficientes... ao contrário de muitos homens que exibem as suas jovens namoradas como se fossem "ferraris"...

Tudo isto porque me cruzei com um desses casais quase "contra-natura", cuja moçoila que pensava ser filha, foi beijada na boca pelo "avô" babado. E depois de ter perdido as dúvidas, vi-os arrancar de descapotável. As mulheres jovens e os "balzaquianos" sempre combinaram bem com carros desportivos velozes...

(Fotografia de Zoltan Glass)

terça-feira, outubro 31, 2017

O Meu "Passeio Mágico com Romeu Correia"


Sei que devo estar a ser um pouco repetitivo, pelo menos para quem visita todos os meus blogues.

Mas a hora é mesmo do Romeu Correia e do livro que escrevi em sua homenagem, que será apresentado no próximo sábado na Biblioteca Municipal de Almada (Sala Pablo Neruda).

Livro que está escrito em forma de entrevista e dividido em 15 capítulos temáticos. Não estavam previstos tantos. Mas surgiram algumas frases do Romeu, que pediram para ter algum realce. Vou dar apenas um exemplo.

Criei um capítulo sobre o "Contador de Histórias" apenas por encontrar uma verdadeira "pérola", numa entrevista que ele deu ao "Diário de Lisboa" em 1982:

«Se tivesse nascido há mil anos, não teria sido cobrador no banco, seria um contador de histórias.
E sentir-me-ia muito honrado em andar de terra em terra, de povo em povo.»

(Fotografia -  Romeu Correia na "Almada Velha", durante uma das muitas visitas guiadas que fez - de autor desconhecido)

segunda-feira, outubro 30, 2017

Uma "Tribo" Especial do Tejo...

No domingo de manhã o Ginjal estava cheio de pescadores (sem contar com o concurso de pesca do "Liberdade"...). Mesmo o Rio estava com mais pequenas embarcações do que é normal, lá para o meio. Provavelmente era dia de "peixe"...

Fui andando e já no cais do Olho de Boi deparei com uma cena digna de ser filmada. Um casal de meia idade estava à pesca e quando passei o homem estava entretido a "limpar" a beira do cais. Ia chamando nomes aos colegas que deixavam por ali bocados de trapos velhos, garrafas e sapos de plástico, ao mesmo tempo que ia empurrando lixo com as botas, para as águas do Tejo.

Estive quase tentado a chamar-lhe a atenção, mas não quis estragar o passeio da manhã. Limitei-me a abanar a cabeça, sem deixar de sentir o olhar desconfiado da mulher do pescador cravado no meu rosto (não sei quem são, nem se pagam alguma renda para estarem ali, sei apenas que agem como se as imediações da antiga fábrica da Companhia Portuguesa de Pesca fossem sua propriedade).

Embora esteja longe de ser inédito, não gostei nada de ver mais um elemento da "tribo" - que devia estar na primeira fila para proteger o Rio -, a contribuir para a sua transformação em "esgoto"...

(Fotografia de Luís Eme)

domingo, outubro 29, 2017

Raramente Escolhemos as Melhores Pessoas que Gostam de Nós...

Raramente namoramos e casamos com as melhores pessoas que gostam de nós.

Queremos sempre o difícil, o diferente, o misterioso... e muitas vezes acabamos por nos dar mal com as nossas escolhas.

Às vezes penso numa moçoila dessas (porque hoje sei que fazemos doer, sem nos apercebermos...). E o que ela gostou de mim. Somos tão complicados...

Casou algum tempo antes de mim, teve uma filha também cedo (que provavelmente já deve ter casado... terá perto de trinta anos), separou-se... e talvez continue a viver no Oeste (talvez entre Alcobaça e as Caldas...).

Há uns vinte anos que não nos encontramos. É uma pessoa divertida. talvez seja por isso que gostava de a ver, de beber um café e falarmos da vida que passou por nós...

Talvez a vida nos queira manter a alguma distância...

(Fotografia de Bert Hardy)

sábado, outubro 28, 2017

Os "Benficas-Sporting" da Vida...

Eu sei que não tenho culpa de gostar das coisas "sem doença". Até gosto. Quase muito. E não tenho vergonha de o dizer, o que deve ser ainda pior...

Às vezes penso que isso poderá ter a ver com o jornalismo, mesmo sem que tivesse feito qualquer "juramento" como o que os médicos, os os militares (sim ainda juram defender a pátria com a própria vida...)  fazem, por exemplo. Com a luta que devemos fazer para nos colocarmos fora das notícias, relatando apenas o que aconteceu e não o que queríamos (ou não) que tivesse acontecido...

Mas eu nunca fiquei "doente", não jantei mal, nem insultei a minha mulher ou os meus filhos, por o Benfica perder ou empatar. Muito menos chamo nomes "pornográficos" aos árbitros (obrigado pai...).

E só pode ter a ver com a educação que tive em casa, onde o futebol e a política, entravam e saiam, sem cachecóis e discussões acaloradas, porque sabíamos que havia quinhentas coisas mais importantes  nas nossas vidas, que as camisolas às cores dos clubes ou as falsas promessas dos políticos...

Ou seja, posso dizer que o Luisão já não "tem pernas" para ser central do Benfica, que o Jesus, sempre foi avançado no tempo (sempre teve "cabelo de salão de cabeleireira"), que a "betinha" do CDS está numa lufa-lufa para ser a melhor da rua dela, que o Santana continua a acreditar que a política tem "gel"...mas não vou muito mais longe que isso.

E por outro lado, nós somos o que somos. Há traços na nossa personalidade e no nosso carácter que nunca mudam, para o bem e para o mal. Ponto final.

(Fotografia de Luís Eme)

sexta-feira, outubro 27, 2017

Curiosamente, as Uniões não Vivem só de Amor (e ainda bem)...

São um homem e uma mulher, tanto um como o outro com quase meio século de vida.

Ainda não sabem muito bem se foram salvos... sabem apenas que a filha de nove anos foi, e continua ser, a sua aparente salvação.

Toxicodependentes, uniram-se pela droga, sem pensar em histórias de amor, ou de outra coisa qualquer. Sentiam-se mais seguros juntos. Mas numa noite mais fria que as outras, embrulharam-se um no outro. E distraídos, fizeram a Catarina.

Quando a mulher soube que estava grávida, ficou surpreendida e também contente, embora o escondesse. O companheiro de aventuras, quando soube da novidade, não quis acreditar, eles conseguiam lá fazer um filho... Mas conseguiram. Também gostou da ideia. As famílias com medo que eles trouxessem ao mundo mais uma criança deformada, a primeira coisa em que falaram foi de abortos. 

Ela desolada preferiu desaparecer de circulação. Entretanto foi ao centro de saúde e contou com a solidariedade e a amizade de uma enfermeira, que lhe pediu que aparecesse por lá todas as semanas. A muito custo deixou de consumir, porque, sabe-se lá porquê (claro que se sabe, por amor...), quis muito ter um filho, que seria uma filha quase nove meses depois.

O companheiro também fez um esforço para deixar de consumir e começou a trabalhar. Entre meia dúzia de recaídas, lá se conseguiu recompor, talvez também a querer ser um bom pai.

A Catarina nasceu um pouco antes do tempo, perfeitinha. Os únicos problemas que teve foram a nível respiratório (a asma permanece, mas já se habituou à tosse e aos espirros...), de resto tem dois pais que a amam, que se tornaram um casal por um desses acasos que às vezes aparecem nos livros e nos filmes, mas que não fazem mais que retratar a vida...

(Fotografia de Ferdinando Scianna)

quarta-feira, outubro 25, 2017

«Às vezes penso que conseguia ser feliz apenas com livros e um gira-discos.»

Estávamos a falar de coisas do quotidiano (há notícias para todos os gostos, para os entendidos de política, de protecção civil, de leis e juízes e até para aqueles como Necas, que  estão cansados do brilhantismo do Marcelo, que está a fazer o papel da sua vida....), quando a Rita virou tudo de pernas para o ar e me fez uma confidência: «às vezes penso que conseguia ser feliz apenas com livros e um gira-discos.»

Eu percebi o que ela quis dizer, éramos os únicos na mesa que tínhamos as mãos soltas. 

Talvez fossemos uns ineptos, por não conseguirmos falar e trocar mensagens ou ir aos e-mails em simultâneo.

(Fotografia de Luís Eme)

terça-feira, outubro 24, 2017

Olhar e Retratar...

Mesmo que não tenham sido tantos dias como isso, fiquei com a sensação de que há muito tempo que não saia de casa apenas para passear e retratar o que me apetecesse.

Foi o que aconteceu hoje de manhã. E foi uma boa ideia, apesar de andar pelos mesmos sítios, consegui encontrar uma ou outra coisa diferente...

Andei bastante (mais do que tinha pensado...) e quando cheguei a casa, senti-me reconfortado. Faz bem ter um tempito apenas para olhar para o nada e depois descobrir uma ou outra coisa, das que querem ficar para a "posteridade"...

(Fotografia de Luís Eme)

segunda-feira, outubro 23, 2017

Um Falso Estado Laico...


Podia falar da Constituição, da igualdade de género, do facto de sermos um Estado laico, etc...

Ou então da sentença (mais falada no dia de hoje, até mesmo nos telejornais...) produzida por um juiz, que se deve ter enganado no tempo e pensado que estava em 1973 e não em 2017.

Juiz que também dá sinais de ter a "testa bem enfeitada", pela forma como abomina o adultério, ao ponto de citar a Bíblia e focar as sociedades que continuam a tratar a mulher como um ser inferior e a condenam à morte, por alegadamente trocarem de homem...

Mas o que é mesmo grave, é sentir que esta sentença retrata com justeza a nossa justiça, cheia de equívocos, de penas suspensas e de bandidos que passam o tempo a sujar as ruas da liberdade...

(Óleo de Eliot Hpdgkin)

domingo, outubro 22, 2017

Um Festival de Bandas Almadense (e Centenário)...


Há já alguns anos que a Incrível Almadense organiza o seu Festival de Bandas Filarmónicas, que é sempre uma boa oportunidade para quem gosta deste género musical e também para recordar memórias, de quando esta era a única música possível em muitos lugares deste país...

O Festival que está quase a começar (estou a escrever antes de passar por lá...), este ano tem uma particularidade bastante importante e singular. As três bandas que a Incrível convidou são as suas congéneres do Concelho de Almada, S.F.U.A. Piedense, Academia Almadense, e Musical Trafariense, todas elas centenárias, tal como a "Mãe" do Associativismo Almadense...

(Fotografia de Luís Eme)

sexta-feira, outubro 20, 2017

O Poder pelo Poder (apenas isso)...


Hoje percebi - mais uma vez -, ainda que num universo menor, o que o poder faz às pessoas. A forma como as pessoas se agarram a qualquer pedacinho de notoriedade, mesmo que seja a presidir o clube da rua, é uma coisa quase surrealista.

Não vi nenhum interesse em querer melhorar, ou mudar as coisas, vi sim uma vontade férrea em continuar, até à "derrota final"...

Infelizmente os pequenos exemplos podem facilmente serem transpostos para as governações mais importantes, seja no governo central, local, ou até na própria junta... cuja governação é mais complexa do que o que parece, especialmente para quem não percebe a importância da proximidade para as gentes.

Claro que a culpa é de todos nós, que aceitamos que quem tem mais lata e lábia, "trepe muros e paredes", a seu belo prazer, para chegar ao lugar ambicionado. Mas apenas por isso, pelo cargo e pelas possíveis benesses, nunca para servir os outros, ou fazer algo que contribua para a melhoria da sua qualidade de vida...

(Fotografia de Luís Eme)

quinta-feira, outubro 19, 2017

Quando a "Vingança" se Serve Quente...

As declarações dos líderes do PSD e do CDS (a pedirem a "cabeça" do primeiro-ministro, depois da ministra da Administração Interna se demitir...) são o retrato dos políticos do nosso país. Em vez de se unirem para combaterem um mal comum, do qual os governantes que foram poder no país ( nacional e local), pelo menos nos últimos trinta anos, tem grandes responsabilidades (para não recuar mais no tempo...), tentam sempre retirar dividendos políticos da desgraça alheia. 

Além de demonstrar falta de sentido de Estado e de carácter (tanto à esquerda como à direita), é apenas mais um indicador de que as "tricas políticas" são mais importantes que a resolução dos problemas graves que o país atravessa, como é o caso do ordenamento do território...

Um português da Marinha Grande explica muito bem as razões da tragédia do Pinhal do Rei, no distrito de Leiria (que podem ser generalizadas...), na reportagem publicada hoje no DN e assinada por Paula Sofia Luz: 
«Gabriel Roldão estabelece uma relação direta entre "a entrada de Durão Barroso no governo e o momento em que começou a deteriorar-se a administração dos serviços florestais". Mas a verdade é que as oficinas de carpintaria, de mecânica, estaleiros de reparação das estradas, serração de madeiras, entre outros serviços, foram sendo paulatinamente encerrados. "Nessa altura [2001] estava projetado fazer-se a recuperação das casas da mata. Houve um concurso nacional, o prazo era muito curto, a câmara não se apercebeu, e eu mesmo fui ter com o presidente de então Álvaro Órfão para concorrer à aquisição das casas que foram dos guardas-florestais", conta Roldão. Nessa altura já aposentado, ajudou a fazer os projetos, que deveriam ter sido entregues até 28 de fevereiro de 2001. Mas a 26 desse mês, dois dias antes, Durão Barroso revoga a portaria anterior. Os projetos nunca saíram da gaveta. As casas ficaram abandonadas, algumas arderam no incêndio de domingo. "Foi todo um descalabro que acabou com o Pinhal de Leiria. A direção dos serviços florestais foi descapitalizada. Deixou de funcionar o que existia: escola de guardas-florestais, escola de resinagem." A machadada final dá-se em 2008, quando os guardas-florestais são integrados na GNR, "uma organização militar onde estavam desenquadrados", sustenta Roldão, certo de que "a responsabilidade de vigilância e policiamento terminou aí. Até hoje nunca vi uma única brigada da GNR a policiar a mata".»

(Fotografia de Luís Barra - Lusa)

quarta-feira, outubro 18, 2017

A Disponibilidade (ou não) para e pelo Desconhecido...

Não sei se é a idade, se é o facto de termos uma família.

Sei apenas que raramente estamos disponíveis para conhecer alguém de quem gostámos do ar, sem precisarmos de tirar algo dos bolsos. Querer logo saber quem é... (as mulheres ainda são mais assim)

Mesmo sabendo que as melhores conversas que se podem ter é com "desconhecidos", gente que não nos interessa saber quem é ou o que fazem... só nos interessa aproveitar o momento (claro que não estou a falar de um episódio sexual...), e falar sobre o que nos apetece, sem qualquer tipo de amarras... 

(Fotografia de Luís Eme)

terça-feira, outubro 17, 2017

Morre-se um Pouco Todos os Dias...

Vamos morrendo um pouco todos os dias, mas há dias em que "morremos" vários anos seguidos...

Foi mais ou menos isto que a mulher de mais de setenta anos disse, quando à hora das telenovelas começou a chover, e todos voltámos a sorrir na esplanada coberta...

Ninguém lhe respondeu. Fingimos todos estar mais interessados na chuva que estava a lavar as ruas e a disfarçar o nosso sentimento de culpa, por não conseguirmos fazer nada, para alterar o rumo de um país que gosta de aproximações ao abismo.

Mas a mulher precisava de desabafar. E continuou a falar, a dizer o que quase todos sentíamos: «Agora não foram só duas ou três terras queimadas, foi o país quase todo. Todos conhecemos uma aldeia ou uma vila que ficou destruída, ou alguém que tem um familiar ou amigo que perdeu tudo...» 

E continuou, agora mais enraivecida: «E nenhum destes bandidos que governa se vai embora.» Nós continuámos a fingir-nos entretidos com os fios de água que caíam e já formavam poças.

A mulher que falava por nós todos ainda foi capaz de dizer: «Só espero que não desate a chover sem parar. Só faltava virem as cheias a seguir...»

(Fotografia de Rui Oliveira - N.Magazine)

segunda-feira, outubro 16, 2017

Mais um Dia para (não) Esquecer...

Embora o dia tenha estado cinzento, a temperatura não desceu, nem a chuva apareceu...

A tragédia de ontem continuou pela noite e pelo dia fora...

O número de mortos também foi aumentando e tudo indica que ultrapassará as quatro dezenas, assim como o número de incêndios que deverá ter batido todos os recordes...

Embora sejam  poucos os concelhos sem fogos, a norte do Tejo, há uma zona que me é mais especial que as outras, refiro-me ao Pinhal de Leiria, o tal que a história nos diz que foi plantado por El Rei Dom Dinis (uma Mata Nacional que ficou por limpar durante todo o Verão...), que ocupava quilómetros e quilómetros da costa, nos concelhos da Marinha Grande e de Leiria.

Era um lugar extremamente agradável de férias, que permitia conjugar o campo e a praia. Era o sítio ideal para a habitual pausa de mar, em que se aproveitava para almoçar e para fazer a sesta...

Espero que os políticos não continuem a encolher os ombros e a culpar o tempo e os privados. 

(Fotografia de Luís Lobo  - retirada do blogue da Graça)

Um Domingo para Esquecer (ou para Lembrar...)

Dizem que a partir de hoje as temperaturas vão baixar, de uma forma significativa. Espero que sim.

Ontem assistimos à pior despedida possível deste "Verão", que conseguiu chegar até meio de Outubro, com o domingo a ser classificado como o pior dia do ano em matéria de incêndios.

Já todos descobrimos que o tamanho do nosso país não é proporcional à maldade, à inveja e à estupidez dos imensos portugueses que se "maravilham" a pegar fogo ao país...

A minha filha, do alto da sua sapiência de 13 anos, perguntava-nos ontem, como era possível existirem num só dia mais de 440 fogos (que provocaram dez mortos e mais de três dezenas de feridos), num país tão pequeno como o nosso. Portugal devia estar todo a arder, concluiu ela.

Expliquei-lhe que muitas vezes existiam dois e três incêndios na mesma mata, que se iniciavam em lugares diferentes, provocados por bandidos, que adoravam tornar a vida dos bombeiros e das pessoas, ainda mais difícil e complicada...

Doa a quem doer, a partir de 2018, tem de haver uma solução para a nossa floresta, e também para esta gente difícil de classificar, que no mínimo são demasiados "pobres e tristes"...

(Fotografia de Arménio Belo - Lusa)