segunda-feira, abril 24, 2017

O Porco, o Presunto e a Linguiça...

Embora possa ter a sua graça, esta história do "Porto, do Presunto e da Linguiça" não tem quase nada que ver com a história do "Rapaz, do Velho e do Burro".

Se exceptuarmos o facto da natureza humana ser sempre mais estranha do que parece... não existem outros pontos em comum.

Claro que falta uma boa dose de equilíbrio em todas estas coisas que glosam o nosso comportamento, o chamado bom senso, que parece estar afastar-se cada vez mais do nosso quotidiano.

Mas vamos lá deixar-nos de generalizações e escrever sobre o que de facto interessa. Nas histórias de partilhas há sempre quem ache o outro estúpido, é por isso que quando se propõe fazer qualquer troca, avança com uma "linguiça" na mão, na esperança de conseguir alcançar "um porco" nas contas finais.

No sábado de manhã e de tarde, tive duas conversas com dois amigos distintos, sobre a mesma personagem, hábil em andar por aí a acenar com "linguiças" para depois montar lá por casa uma "vara de porcos". A velha questão que nos surgiu tem que ver com a forma  como se diz não a alguém que nos aparece sempre sorridente e simpático. Acabámos por concluir todos os mesmo. Talvez por termos todos já mais de cinquenta anos, sabemos que não há nada melhor que uma boa dose de cinismo e de hipocrisia para responder a quem em vez de "lata" usa um "bidon" no relacionamento com os outros...

(Fotografia de Luís Eme)

domingo, abril 23, 2017

Festejar o Livro Todos os Dias (com ou sem Pessoa)

Sei que hoje não é dia para falar de livros, para quem os abre, afaga, lê, sorri, faz cara séria e viaja com eles diariamente. Normalmente os "dias mundiais" são para os não praticantes, para lembrar que existem algumas coisas a que eles normalmente não ligam. Mas mesmo assim, talvez por ser Abril, apetece-me falar de livros.

Falar daquilo que estou a escrever, não me apetece muito. Até por um desses livros estar "quase parado", ao ponto de até já me ter surgido uma ideia que combate a inicial...

É por causa dele que estou a reler "Vida e Obra de Fernando Pessoa" de João Gaspar Simões, cuja primeira edição data de 1950, e que para mim continua a ser a biografia mais completa do nosso poeta genial, embora tenha algumas coisas discutíveis, como acontece normalmente com as histórias de pessoas (e quando uma pessoa é várias, ainda torna tudo mais complicado...).

Por mais inovações que façam, penso que o livro nunca deixará de ser livro. Talvez seja cada vez mais um objecto de luxo (sei que me estou a repetir, por ser o que penso...), com alguns editores (como o Manuel S. Fonseca) a fazerem cada vez mais coisas mirabolantes, utilizando novos materiais e novas técnicas, para nos fazer sorrir com o seu engenho e imaginação...

(Fotografia de autor desconhecido)

sábado, abril 22, 2017

O Nosso Olhar Selectivo...

Não sei se esta será a melhor expressão, dizer que o nosso olhar é quase sempre bastante selectivo em relação a tudo o que nos rodeia.

Talvez seja por isso que somos capazes de descobrir um pormenor "novo" que antes nunca tínhamos reparado, na rua por onde passamos quase diariamente há vinte anos...

(Fotografia de Luís Eme)

sexta-feira, abril 21, 2017

Uma Descoberta ao Café (sobre o Romeu)...


Hoje acabei por parar uns bons minutos na esplanada da "Rifera", do bom do Fernando, para beber um café e ficar a conversar com o Carlos Durão, que tem uma peculiaridade especial, quando lhe fazemos uma pergunta ele oferece-nos quase sempre várias respostas, indo buscar sempre mais pessoas e lugares, graças à sua "memória de elefante". 

Falámos sobre Cacilhas e o Romeu Correia acabou por vir à baila, porque sabia que o Carlos me podia dizer algo que desconhecia... E disse mesmo. Primeiro começou por me falar do Arrobas do seu seu filho Gregório, grande futebolista do Sporting e do Atlético, depois lá veio a surpresa...

Quando o Carlos resolveu transformar a "Fonte da Alegria" (que pertencia à família) no restaurante e snack-bar mais moderno de Cacilhas, "O Farol" (que continua bem vivo e a manter o mesmo nome, logo à saída dos cacilheiros, na esquina, entre o Largo de Cacilhas e o começo do Cais do Ginjal), em Abril de 1961, recordou que nos dias de nevoeiro passou a ter um cliente habitual logo pela manhã, que aproveitava a quase paragem da circulação dos transportes fluviais, devido à falta de visibilidade no Tejo, para ficar numa das mesas de "O Farol", a escrever as suas histórias, provavelmente desejoso de que o nevoeiro se mantivesse pela manhã fora...

E esta? Acabei por descobrir mais um café onde o Romeu escreveu...

(Fotografia de autor desconhecido)

quinta-feira, abril 20, 2017

Romeu, um Escritor de Café...


Hoje voltei ao Museu da Cidade de Almada para consultar alguma documentação sobre Romeu Correia (graças a uma amiga especial...), e depois acabei por visitar a exposição, "Um Homem Chamado Romeu Correia".

E aquilo que me chamou mais a atenção nesta segunda visita foi a velha mesa de café (pelo que ouvi comentar do "Café Central" de Almada...).

Na tarde da inauguração aquele espaço (no final da exposição rente ao elevador...) estava sempre cheio de gente e não pude apreciar ao pormenor tudo aquilo que estava em cima da mesa e ao seu redor...


É uma excelente forma de terminar uma exposição, com uma mesa que simboliza muito bem o que o Romeu sempre foi, um escritor de café, tanto em Lisboa como em Almada. Não de um, mas de muitos cafés...

(Fotografias de Luís Eme)

quarta-feira, abril 19, 2017

Uma Europa que Empobrece e Apodrece Todos os Dias...

Sei por que razão evito escrever sobre por aqui coisas demasiado tristes, por cobardia, e também para não cair no "lamechismo".

Mas hoje, não consegui fugir de uma reportagem, talvez por ser mais profunda que outras. A espaços coloquei-me no lugar dos milhões de pessoas, de todas as idades, que perderam tudo, até a esperança. Tudo em nome de uma guerra igual a todas as outras, em que se luta pelo poder até à exaustão, esquecendo aquilo que temos de mais importante e nos devia diferenciar dos animais... 

Claro que esta "cobardia" não nasce do nada, transmite-se quase como se fosse uma praga, na Europa dita civilizada. Europa essa cada vez mais carregada de preconceitos, e que em vez de ajudar esta gente que apenas luta pela sobrevivência, de uma forma digna, prefere fazer acordos com os turcos e alimentar a "febre" dos populistas, que confundem refugiados com terroristas.

É também por isto que não sei se haverá alguma possibilidade de se inverter esta caminhada, que "empobrece" e "apodrece" a Europa, diariamente...

E nós no nosso cantinho mostramo-nos solidários com a "Europa" e esfregamos as mãos de satisfação, com a invasão de turistas que descobriram que afinal até somos parecidos com o norte de África...

(Fotografia de António Passaporte)

segunda-feira, abril 17, 2017

A Primavera e os Relógios que Ganham Mais Minutos...

Cheguei há poucas horas de um dos lugares onde sinto mais a Primavera... São as cores, os cheiros, e sobretudo, o canto das aves, que são cada vez mais rainhas dos campos, até por serem quase inexistentes nas nossas aldeias, os rapazolas que se entretinham a "inventar" armadilhas para as apanhar...

Mas o melhor de tudo é sentir que as horas têm mais minutos, que há tempo para fazer quase tudo...

(Fotografia de Luís Eme)

domingo, abril 16, 2017

Os Ares da Beira Baixa...

Na Páscoa vou sempre até à Beira Baixa.

Não existe qualquer sentimento de religiosidade nesta opção, embora o concelho onde estou (Idanha-a-Nova) tenha recriado algumas tradições da religião católica, nos últimos anos.

Há sim o aproveitar os três ou quatro dias para fazer coisas diferentes e para descansar do bulício da Cidade grande...

(Fotografia de Luís Eme)

sexta-feira, abril 14, 2017

A Clandestinidade...

Quando se entrava a sério na luta antifascista, dificilmente se escapava às garras da PIDE.

Para se evitar a prisão eminente, muita gente passava a viver outras vidas, na clandestinidade, saltando de terra em terra, de disfarce em disfarce... 

Era uma vida estranha, em que se tinha de abdicar de quase tudo, desde a família, aos amigos, passando pelos lugares que tanto amávamos...

Tinha de se possuir um espírito aventureiro, uma alma quase de vagabundo e ainda uma boa componente cénica, para se conseguir  mudar de vida de um momento para o outro, criando uma nova personagem...

(Fotografia de Herbert List)

quinta-feira, abril 13, 2017

As Mulheres e as Greves dos Anos Quarenta


Ao fim da tarde de terça-feira assisti a um colóquio em Almada em que se falou nos movimentos grevistas que decorreram durante a Grande Guerra e a Segunda Guerra Mundial.

Embora tenha saído um pouco antes do final, penso que não se falou de um dos aspectos mais importantes das manifestações grevistas que decorreram entre os anos 1942 e 1947, pelo menos as que decorreram no Concelho de Almada: a participação activa das mulheres operárias nestes movimentos. De uma forma estratégica passaram a ocupar as primeiras filas de luta, à espera que os guardas e os polícias tivessem vergonha na cara e não levantassem as mãos e os cassetetes para as agredirem.

Claro que as forças policiais tinham tudo menos vergonha na cara, e as mulheres foram muitas vezes agredidas, ofendidas e feitas prisioneiras. Nada que as abalasse ou retirasse das primeiras filas das manifestações...

Até porque as mulheres tinham mais que razões para protestar, pois recebiam um terço do ordenado dos homens, muitas vezes para funções de trabalho semelhantes. E nem vale a pena falar das crianças, as maiores vitimas desse tempo, em que não tiveram "tempo" para ser meninos e meninas e até para irem à escola...

(Óleo de Joan Rodriguez)

quarta-feira, abril 12, 2017

O Homem que Nunca foi Preso...


O António nunca se sentiu diminuído pela ausência de anos de prisão no seu passado antifascista. Muito pelo contrário, sorri de contentamento quando recorda as muitas vezes que esteve "quase, quase", mas que sempre conseguiu escapar. Foram inúmeras as vezes que teve de se ausentar para parte incerta, durante algum tempo (a sua profissão ligada ao comércio ajudava nessas "fugas"), até que recebesse a informação de que as coisas tinham acalmado e já não havia ninguém a cirandar a sua rua.

Sente um orgulho secreto por ter escapado a mil e uma armadilhas, por ter sido quase sempre extremamente cuidadoso (ainda hoje há quem lhe chame picuinhas, esquecidos que foi isso que tantas vezes o salvou...).

Sorri quando se metem com ele e lhe dizem que é menos "herói" que outros, cujo passado conhece de fio a pavio, e por isso mesmo sabe, que a única coisa de relevante que fizeram foi andarem demasiado distraídos, ao ponto de serem feitos prisioneiros, colocando outros camaradas e o  próprio Partido em risco.

Tem mil e uma histórias rocambolescas, que ainda estão por contar, além de outras mais que batidas, como as da tipografia portátil que funcionou em vários lugares, onde imprimiu juntamente com outro companheiro milhares de "avantes" e de outros folhetos, que foram distribuídos nas fábricas e nas colectividades da então vila de Almada...

O António é o melhor exemplo que conheço de que é um erro analisar a capacidade de luta e de intervenção antifascista, pelos anos que se têm de prisão.

(Óleo de Leon Mathieu Cochereau)

terça-feira, abril 11, 2017

A Dúvida está Sempre em Crescimento...

Os anos passam e a dúvida cresce, ao ponto de colocar quase toda uma vida em causa...

Já lhes chamaram muita coisa, até egoístas. Podem ter sido tudo, menos isso... 

A mulher fica com os olhos húmidos quando revive o que sofreu na prisão, na clandestinidade, no exílio... mas sobretudo, por não ter visto o seu filho crescer. O homem afaga-lhe o cabelo, com o carinho de quem nunca deixou de amar.

Sabe que não foi a mãe que devia ter sido. É por isso que percebe a ausência do seu Carlos, que teve de abandonar com menos de um ano e deixar ao cuidado dos pais.

O homem tenta desculpá-los com as incidências da própria vida, com a dificuldade que sempre tiveram em conviver com a injustiça nos locais de trabalho, com as perseguições, o desemprego, e a luta colectiva, que alguém tinha de travar...

Mas a solidão passa o tempo todo a pregar-lhes partidas. Pensam demasiado na vida.

Olham para o país com desconsolo, porque já não sabem se tudo o que sofreram valeu a pena. Não sabem explicar as razões, mas a verdade é que os patrões continuaram, e continuam, a roubar o povo, cada vez com mais descaramento.

Olham para o filho com orgulho por ter conseguido ter uma vida melhor que eles, mas sentem muito, muito, a sua ausência...

(Fotografia de Sena da Silva)

segunda-feira, abril 10, 2017

A Procura dos Campos Abertos...

Era demasiado pequeno para perceber o porquê da procura de campos abertos, por parte dos tios e dos amigos que andavam quase sempre com as violas e as cantigas coladas ao corpo, naquele começo dos anos setenta do século passado...

Além de ser quase a "mascote" daquela juventude inquieta, já era livre por natureza. Foi por isso que só alguns anos depois, já no País de Abril, percebi aquela procura dos campos abertos, longe das árvores...

Eles não corriam riscos, era por isso que andavam quase sempre mais que a conta (enquanto eu saltitava de cavalitas em cavalitas) e falavam e cantavam, com a certeza que não havia qualquer "bufo" ou agente da PIDE nas imediações...

De vez em enquanto as conversas regressam  a esses tempos, onde também se ensaiaram algumas fugas, com cada um a escolher o seu caminho, porque qualquer estranho que aparecesse, era um potencial inimigo.

E eu confesso sempre, que pensava que tudo aquilo não passava de uma brincadeira, com miúdas e música...

(Óleo de Claude Monet)

Nota: Esta semana vai ser dedicada ao "Abril-Revolução", com pequenos relatos sobre o quotidiano de pessoas especiais, cuja simplicidade, por vezes, até faz doer...

domingo, abril 09, 2017

A Exposição do Romeu no Museu da Cidade


A exposição, "Um Homem Chamado Romeu Correia", inaugurada ontem no Museu da Cidade, rompe com os modelos tradicionais de qualquer mostra biográfica, porque os seus mentores e organizadores quiseram oferecer também um objecto artístico.

Durante a inauguração de ontem, toda a gente dizia maravilhas do que estava a ver, mas sei que os "velhos de Almada" não vão ficar calados, a partir de hoje... E isso vai acontecer sobretudo por ignorância, por incapacidade de perceber que uma exposição deve ter sempre uma componente artística e um toque de originalidade, mesmo que tenha de fugir aos parâmetros tidos como normais do que é uma mostra biográfica (se é que isso ainda existe hoje..).

Notei que além do mostrar, também há a preocupação do sentir... e é isso que faz com que o trabalho de encenação (com o dedo do cenógrafo José Manuel Castanheira), que gira à volta dos livros,  das peças de teatro, do percurso de vida de Romeu, e sobretudo, da palavra, do acto de criar, seja único.

(Fotografia de Luís Eme)

sábado, abril 08, 2017

A Tentativa de Reduçao do Espaço Público

Numa época em que somos controlados por muitas das máquinas que inventámos (computadores, telemóveis, caixas de multibanco, câmara de segurança, portagens, etc), é estranho verificar que há cada vez mais "limitações" no espaço público.

Como gosto de tirar fotografias, reparo que há cada vez mais sítios onde existe a tentação de nos proibirem de fotografar...  nem os cacilheiros e os respectivos cais de embarque escapam a esta "sanha" (felizmente os funcionários da Transtejo têm mais que se preocupar e nunca vi nenhum a chamar a atenção a um turista que fixava as vistas do Tejo...).

O simples gesto de se tirar uma fotografia ao exterior de um edifício público pode merecer reparos dos seguranças, que nos fazem-nos sinais de que não se pode tirar retratos... 

Como eu só gosto de fotografar pessoas distraídas ou de costas junto das paisagens, nunca levei nenhuma reprimenda de ninguém, mas com todas estas restrições, qualquer dia as máquinas só servem para fotografias de família. Ou então só se podem tirar retratos a lugares sem gente e sem instituições públicas por perto...

(Fotografia de Luís Eme)

sexta-feira, abril 07, 2017

Contar (ou não) Mais do que Se Deve...


Uma das pessoas que me lê todos os dias aqui no "Largo" disse-me em jeito de graça que me ficou a conhecer melhor nos últimos dias. Quando lhe perguntei porquê, disse-me o óbvio, porque tinha escrito mais sobre mim.

Ainda lhe disse para não acreditar em tudo o que lê... Mas ela abanou a cabeça e disse que não, que era eu que estava ali.

Já escrevi mais que uma vez que um blogue é sobretudo um diário. Podemos fazer desvios para os lados, escrever sobre livros, poemas, pessoas, lugares... mas nós estamos sempre lá, é impossível sairmos do interior das nossas palavras.

É como na ficção. Embora eu não vá muito na conversa que um escritor está sempre a escrever o mesmo livro (cada livro ganha uma identidade própria...), sei que estamos sempre a escrever sobre nós, mesmo que escrevamos sobre coisas que não vivemos. É a nossa opinião, são os nossos pensamentos e a nossa maneira de olhar o mundo que estão lá, por mais voltas que demos.

Voltando ao tema inicial (começo a fugir e é um problema...), às vezes precisamos de falar mais de nós, de desabafar, porque somos quase sempre mais frágeis do que aquilo deixamos transparecer. Embora esta seja a época das "máquinas inteligentes", nós continuamos a ser apenas humanos...

(Fotografia de Luís Eme)

quinta-feira, abril 06, 2017

O que Nos Dizem e o que Queremos Saber...


Um dos maiores desafios dos jornalistas é conseguirem que lhes digam o que eles querem saber e não apenas o que lhes querem dizer...

Isto tanto serve para a reportagem, o perfil, a entrevista ou para uma simples notícia.

Felizmente enquanto entrevistador nunca tive grandes problemas de obter as respostas que queria.

Ao longo de mais de três centenas de entrevistas que fiz, só enfrentei dois casos estranhos. Um deles aconteceu com o Álvaro Cunhal, que só dava entrevistas por escrito, não possibilitando a conversa directa, que quase sempre suscita mais questões. Acabei por aceitar as regras do jogo e depois recebi as respostas às minhas perguntas na Soeiro Pereira Gomes, pelas mãos de Álvaro Cunhal, com quem  tive o prazer de conversar durante alguns minutos.

O outro caso é que foi mesmo estranho. Não divulgo o nome da pessoa em questão por ainda estar vivo e ser um afamado professor universitário. Quando cheguei à sua casa, tinha uma entrevista feita, com perguntas e respostas dele... Lá consegui contornar a questão, fui-lhe fazendo as perguntas que já tinha planeado e a conversa acabou por correr relativamente bem. Mas nunca esqueci a "lata" (para não lhe chamar outra coisa...) do professor...

Mas é mesmo um desafio, conseguir que nos respondam ao que queremos saber... 

(Óleo de Renné Magritte)

quarta-feira, abril 05, 2017

O Nosso Sentido Prático das Coisas...


As pessoas de quem gostamos  fazem-nos falta sempre por mais que uma coisa. É por isso que quando partem não fica apenas um vazio, ficam vários vazios...

O mais curioso é não sentir a falta da Gena quando estou com o Américo. Talvez isso aconteça porque sempre fizemos coisas, apenas os dois, desde a montagem de exposições a pequenas reparações das instalações dos espaços onde fazíamos e fazemos cultura.

Penso nela por pequenas coisas. Por exemplo, quando olho para a nossa biblioteca, onde ela passou várias horas a fazer o seu registo informático e que agora corre o risco de não ter continuidade... Vejo-a a sorrir sentada ao computador (felizmente passou uma boa parte da vida a sorrir e é sempre assim que a maior parte das pessoas a recorda, mesmo quem apenas a conhecia de vista...).

Ontem foi inaugurada a minha exposição de fotografia, "Passeio dos Tristes" e aconteceu algo "insólito", não fiquei em nenhuma fotografia (fui o único que tirei fotografias). Pois foi, faltou ali a nossa "fotógrafa oficial do social", a nossa querida Gena...

Pensei nisto quando vinha para casa. O nosso sentido prático das coisas está sempre a funcionar...

(Fotografia da máquina da Gena, disparada por um amigo que registou o momento, durante a oferta de um dos trabalhos do Américo, quando fiz anos em Setembro...)

terça-feira, abril 04, 2017

Flores para a Isabel...


Esta fotografia faz parte da minha exposição, "Passeio dos Tristes", que será inaugurada logo à tarde, às 17 horas, na Galeria-Sede da SCALA, em Almada.

O título que escolhi para ela foi, "Primavera no Ginjal" e é a fotografia mais recente desta mostra.

As flores são para a Isabel, porque lembro-me dela ter dado pela falta das flores na bicicleta, num dos seus comentários aqui no "Largo". A malta do "Ponto Final" aceitou o repto e escolheu malmequeres...

(Fotografia de Luís Eme)

segunda-feira, abril 03, 2017

Um Livro (Pouco) Profético...


Embora esteja hoje mais fora, do que quando escrevi o meu primeiro romance (e único...), em que "matei um árbitro", penso que a violência no futebol não tem aumentado, como nos tentam fazer crer. O que tem aumentado, sim, é o sentimento de impunidade. Mas é algo que tem alastrado por todos os sectores da sociedade...

E acaba por ser esse "sentimento" que pode levar tudo a perder, tal como a ausência de policiamento em jogos regionais (algo completamente irresponsável e absurdo).

O caso do "Canelas" (nome mesmo apropriado para aqueles rapazes...) é sintomático, pois desde o começo da época que 12 clubes do distrital do Porto se recusaram jogar com esta equipa, por tudo o que rodeava este grupo de "gentalha", habituada a fazer as suas próprias leis, dentro e fora dos estádios e na noite portista. Como de costume, quem poderia (e deveria) fazer alguma coisa, limitou-se a olhar para o lado e a assobiar para o ar.

E é provável que não existam responsáveis (para além do agressor), apesar da gravidade da situação. Talvez ainda sejam capazes de culpar os árbitros por não escreverem o que viam nos campos onde apitavam, nem as ameaças de que eram vítimas. Eles que continuam a ser os "parentes pobres" deste negócio, se esquecermos as "prima-donas" que apitam os jogos profissionais...

Mas não cabe na cabeça de ninguém que se deixe que um grupo de "arruaceiros", habituados a esgrimir argumentos nas bancadas dos estádios, também o possam fazer dentro dos estádios como atletas, e com a mesma impunidade com que o fazem por onde quer que passam...

domingo, abril 02, 2017

Viver é Isso...

A vida está sempre a desafiar-nos, com pequenas e grandes coisas.

Basta olharmos à nossa volta, para percebermos, que viver é isso.

(Fotografia de Luís Eme - "Passeio dos Tristes")

sábado, abril 01, 2017

As Primeiras Impressões...


Às vezes fazemos perguntas que sabemos que não irão ter resposta, porque há sempre razões que a razão desconhece...

Na sexta a Rita estava irritada porque tinha tido uma manhã daquelas. Foi por isso que me perguntou porque razão gostávamos de algumas pessoas mal as conhecíamos, e outras, nunca lhe dávamos sequer espaço para uma conversa, quanto mais oportunidade para algum dia sermos amigos.

Pois é, não se explica mesmo (pelo menos de uma forma racional) a empatia que sentimos por algumas pessoas, ou o contrário, com outras...

(Óleo de Nikolai Chernyshev)

sexta-feira, março 31, 2017

As Vozes Amigas da Televisão

Embora não conseguisse olhar para a televisão como aquela senhora que vivia sozinha, compreendia-a muito bem. A "caixa mágica" era o único espaço que ela conhecia capaz de lhe oferecer vozes e rostos amigos, sempre prontos para oferecer sorrisos e palavras simpáticas a milhões de pessoas solitárias como ela.

Foi por isso que guardei as palavras "alienação" e "manipulação" no bolso.

Sei que é sempre mais fácil criticar que dizer bem, faz parte da nossa natureza...

Claro que me incomodava que ela pensasse que tudo aquilo que saía da "caixa" era verdadeiro e genuíno, mas não seria eu que lhe iria dar cabo dos seus sonhos tardios.

quinta-feira, março 30, 2017

A Teimosia, Essa Minha Força Motriz...


Ainda ontem falei nisso com amigos. Se não fosse ser teimoso e gostar de contrariar alguns pessimistas, não teria feito mais de metade das coisas que fiz nos últimos anos.

Alguns "fantoches" que passaram por mim ao longo dos últimos vinte anos, bem arrependidos devem estar por de certa forma terem sido a "força motriz" de toda esta minha vontade de fazer coisas...

O mais curioso é saber exactamente como tudo começou, quando alimentei a ideia de se fazer uma exposição de homenagem a um grande pintor almadense, que falecera um ano antes e era fundador da SCALA, uma associação que continua a ser minha - juntamente com a Incrível. 

Um dos elementos que devia fazer a ideia avançar, pelas suas funções directivas, decidiu começar a colocar obstáculos, quase sempre coisas pequeninas de gente miudinha. Enquanto ele pedia ajuda aos "profetas da desgraça" eu quase que corria, por outras ruas, porque era preciso andar para a frente e fazer coisas. E as coisas que que eu fiz, desde ir a galerias de arte lisboetas buscar quadros emprestados a fazer um folheto, uma gravura, um boletim especial...

Claro que tive muitas ajudas, mas esta foi a minha primeira vitória no mundo do associativismo, contra os "velhos de Almada"...

(Aguarela de Arménio Reis - o tal grande Pintor Almadense que mereceu todas as batalhas vencidas...)

quarta-feira, março 29, 2017

A Mesa do Café das Avós...


Estava à espera de um amigo e quase sem querer fui ouvindo a conversa de uma mesa de quatro avós, que viajavam pelo passado, sem qualquer preconceito em recordar a sua infância e adolescência difíceis.

Não as ouvi utilizaram a palavra exploração por parte das mães, que as obrigavam a lavar e passar a roupa de toda a família, a esfregar o soalho com o famoso sabão amarelo e depois a espalhar cera...

O mais curioso foi só ouvir recriminações para as raparigas de hoje, que não sabem fazer nada. Segundo elas, além de não saberem cozinhar e de não saberem coser um simples botão, eram umas desmazeladas, não limpavam nada em casa, preferiam pagar a empregadas... 

Entretanto chegou o meu companheiro de café elas passaram para terceiro plano. Mas não achei a coisa mais normal do mundo terem as filhas e netas em tão má conta...

(Óleo de Henri Matisse)

segunda-feira, março 27, 2017

Hoje Festeja-se o Teatro...


Quando a actriz francesa, Isabelle Hupert diz que «O teatro é muito forte» e que «resiste a tudo, à guerra, à censura, à penúria.», fala verdade.

O teatro é também um dos espectáculos mais versáteis e que pode ter menos custos. Muitas vezes basta a vontade das pessoas... e o palco pode ser a rua, uma pequena casa, uma sala de amigos... sem precisar de ser o grande auditório.

Mas falando mais a sério, o desejável é que existam realmente condições para que os grandes criadores possam ver encenadas as suas peças, que os verdadeiros actores não tenham de ter segundos empregos para sobreviverem. 

Sou completamente contra todo o tipo de subsidio-dependência, mas sei que o teatro em Portugal não tem público (penso que se excluirmos a revista dos bons tempos e algumas peças comerciais, nunca foi uma actividade lucrativa...). As boas companhias devem ter apoio do Estado e das Autarquias, mas com a assinatura de protocolos, em que os seus elementos tenham de ir às escolas, tenham de participar activamente na educação e formação de novos públicos.

E também têm de deixar de encenar alguns textos estrangeiros, que além de não terem nada a ver com a nossa realidade, são medíocres, vivem de uma "fama"  fabricada por críticos que se acham donos do gosto de todos nós.

(A escolha desta capa não foi nada inocente. Além do teatro ser um "Amor de Perdição", estamos no ano do nascimento de Romeu Correia, grande escritor e dramaturgo almadense)

domingo, março 26, 2017

Domingo de Manhã...


Chovia mas era preciso ir à rua, pois faltava o bacon para o peixe no forno para o almoço.

E lá fui eu, passear à chuva. Desde que bem vestido, bem calçado e com chapéu de chuva, gosto de andar por ai a deambular pelas ruas, com menos gente que o habitual para um domingo de manhã, com a companhia da água que vai lavando as ruas.

Sei que enquanto caminho surge sempre alguma coisa que me faz pensar, mesmo que seja só um pouco, como aconteceu quando passei rente ao restaurante mexicano, que descubro quase sempre vazio. Desta vez olhei lá para dentro e os meus olhos esbateram nos das menina solitária que estava ao balcão. Pela forma fixa como olhava percebi que não estava ali...

Pensei que nunca ali tinha entrado para comer ou beber o que quer que fosse. Nunca fui grande adepto dos molhos picantes, mas eles deviam ter pensado nisso quando abriram a casa e a ementa também devia ter pratos mais suaves, com toda a certeza.

Muitas vezes nem sequer damos uma oportunidade aos donos... de pelo menos experimentarmos o seu serviço uma vez, para termos uma opinião formada. E é assim que muitas casas de comércio acabam por fechar...

Não vale a pena falarmos ou pensarmos nas famosas "penas", depois de terem fechado as portas... Mas não há nada a fazer, nós somos assim,  umas vezes ligeiramente, outras muito distraídos. Tantas vezes que acordamos tarde demais...

Um pouco mais à frente comprei o jornal, apenas porque sim. Sei que é um vício que ainda permanece, talvez por ter medo de um dia chegar ali e ver que só existem raspadinhas, lotarias, cigarros e outras bugigangas que as pessoas compram... e nada de jornais.

(Óleo de Suzanne Lalique)

sábado, março 25, 2017

A Magia de Cinco Efabuladoras...

Hoje assisti a uma iniciativa cultural extraordinária, intitulada, "Partilhar um Monte de Histórias", com cinco professoras que estão apostadas no regresso à tradição oral e contaram cada uma delas uma história, do género das que os nossos avós nos contavam à lareira (fui um sortudo, pois o meu avô materno era um excelente contador de histórias...).

Parabéns a todas elas, especialmente à Joaninha Duarte, a dinamizadora do projecto.

(Fotografia de Luís Eme)

sexta-feira, março 24, 2017

As Penas das Galinhas e as Outras...


Muitas vezes é necessário escutarmos quem veio de fora, para olharmos  para a nossa realidade sem qualquer filtro: Mesmo que as suas palavras possam parecer "caricaturas", há por ali muitas coisas, mesmo pequeninas, que caracterizam essa coisa estranha que é ser-se português.

O Eric, cansado da mediocridade que o cercava, apontou a dedo a meia-dúzia de pessoas que fazia parte do "Coro dos Coitadinhos" e  andava com uma mão dada à "Senhora Inveja" e outra esticada, a ver se lá vai parar alguma coisa. Acabámos todos a sorrir, por conhecermos bem demais algumas daquelas "peças".

Por pudor ou cobardia,  nunca tínhamos feito um desenho tão aproximado daquela gente que andava sempre à espera que lhe fosse parar alguma coisa dos outros às suas mãos. Invejavam descaradamente o talento dos colegas, sem nunca se esquecerem de colocar a casca de ovo do Calimero na cabeça.

Aquela conversa foi despoletada pela utilização indevida de uma fotografia do Eric no "facebook", por uma "artista", que nem sequer se dignou a dar-lhe qualquer satisfação, como se não existissem direitos de autor nas redes sociais. O Eric não só a obrigou a retirar a fotografia, como lhe disse que roubar continuava a ser feio, mesmo que fosse um simples texto ou uma imagem, acrescentando que o que havia mais por aí eram cursos de escrita criativa e de fotografia. E era boa ideia inscrever-se, podia ser que aprendesse qualquer coisa.

A rapariga como era de choro fácil, em menos de nada fez o número da "coitadinha". Teve logo dois ou três colegas com lenços de papel a enxugarem-lhe os olhos e a destilarem "raiva" para cima do Eric, com vontade de o mandarem para a terra dele.

O Eric não foi em choros e disse que não estava a brincar. E quando ouviu os outros  falarem de pena, disse-lhes que não havia por ali nenhum galinheiro.

E eu, depois de toda aquela conversa, fiquei por ali a pensar na dificuldade que temos em chamar à razão quem não tem qualquer talento e se acha o "melhor do mundo" em qualquer coisa. Ou pior ainda, quem é capaz de usar o talento dos outros para proveito próprio, como foi o caso. Não sei se é do nosso sangue quente, sei que nos falta muitas vezes a frieza do Eric, para chamar alguns elementos do "Coro dos Coitadinhos" à razão...

(Óleo de Juan Gris)

quinta-feira, março 23, 2017

Temos Forçosamente de Viver com as nossas Fragilidades...

O dia a dia encarrega-se sempre de expor as nossas fragilidades, de nos lembrar de que massa somos feitos, das nossas contradições (por mais pequenas que sejam). Isso acontece tanto no ambiente de trabalho como no seio da família, embora aqui as coisas sejam sempre vividas de uma forma mais emocional...

Quando os problemas surgem em casa é tão fácil pensarmos que o mais fácil era não termos casado ou ter filhos (a opção de cada vez mais pessoas...). Provavelmente num misto de comodismo e de egoísmo, ainda que nem sempre o queiramos aceitar. 

Depois, mais serenos, sentimos que iríamos perder tanta coisa... Não tenho qualquer dúvida que uma vida sem família e sem filhos é uma vida incompleta (até na tal exposição das nossas fragilidades, pois eles muitas vezes são o nosso "calcanhar de aquiles"...).

Mas a vida funciona quase como um "sorteio" em muitas coisas. É por isso que não somos nós que escolhemos os nossos filhos, quanto muito moldamos-os e educamos-os pelos princípios que achamos correctos (ou pelo menos tentamos...). Mas eles também não escolhem os pais, e normalmente são os filhos que têm mais dificuldade em aceitar os pais... 

Nem sempre nos lembramos que vivemos situações diferentes, e que também temos funções muito diferentes. 

É também por isso que nunca tive pretensões de "ser o melhor amigo" dos meus filhos. Sei que ser pai é outra coisa, muito mais complicada e menos simpática...

(Fotografia de Luís Eme)

terça-feira, março 21, 2017

A Poesia num Mundo Pouco Poético...


Hoje festeja-se a poesia, a natureza, dentro da estação com mais cores do mundo.

Mesmo assim, ao folhear o quase livro onde guardo "quase todos os meus poemas", parei  no "Palhaço sem Circo", porque a realidade amarga muito mais do que parece...

Palhaço sem Circo
  
Ninguém acreditava
Que o circo tivesse voado com o vento
E que ao palhaço pobre,
Velho, cansado e sem companhia,
só lhe restasse a rua
Para vaguear e sonhar
Com a cumplicidade
E os aplausos da lua...

Assim que começava a anoitecer
Vestia a roupa gasta e colorida,
Pintava-se ao espelho do seu quarto
E depois partia de viagem
Sem destino e sem palco.

Quem parava para ver o espectáculo
Ficava quase sempre encantado
Com a magia com que pintava a avenida
Despertando pombos e vagabundos
Com a sua graça e fantasia.
  
As pessoas que passavam na rua
Voltavam a sorrir por momentos
Enquanto fazia vénias aos candeeiros,
Que iluminavam o palco da sua vida,
Pulava bancos de jardim e cantava
Extasiado com os aplausos da lua...

Ninguém acreditava
Que o circo tivesse voado com o vento
E que ao palhaço pobre,
só lhe restasse a rua
E os aplausos da lua...


(poema de Luís Alves Milheiro, óleo de Luís de Souza) 

segunda-feira, março 20, 2017

«Não gosto de terras que se escondem debaixo de telhados.»

«Não gosto de terras que se escondem debaixo de telhados.

Muito menos da gente que as habita  e que gosta de espreitar à janela, do lado de lá dos cortinados, mesmo que depois me ofereça sorrisos, metidos dentro do bom dia ou boa tarde.»

Eu olhei-a com um sorriso e disse:

«É por isso que vives numa grandes metrópole, sem bairros e sem gente que se preocupa um bocadinho mais que a conta com a tua vida.»

«Provavelmente...» Foi a tua resposta.

(Fotografia de Luís Eme - estes telhados do Olho de Boi não têm nada que ver com a terra em questão)

domingo, março 19, 2017

A Estreia dos "Bonecos de Luz" do Romeu

Entramos no auditório Lopes Graça do Fórum Romeu Correia e descobrimos a sala a média luz, os actores estão entretidos a jogar à bola no palco, acompanhados pelo som de uma bateria e de uma viola baixo.

Ficamos a pensar que talvez seja o "aquecimento", para os actores e para o público...

Depois iniciou-se o verdadeiro espectáculo teatral, um misto entre o musical e a comédia, mas distante do romance adaptado. Senti-me meio perdido e experimentei um sentimento de frustração no meu olhar de espectador, porque aquilo não eram os "Bonecos de Luz" do Romeu...

Mas depois do quarto de hora inicial, em que todos andámos a "apanhar bonés", a peça começou a ganhar o jeito do romance, as personagens encarnaram os seus verdadeiros papeis e além do Zé Pardal e do Biganga, apareceu o Ti Paulino, a filha, Miquelina, e os homens que levavam os "bonecos de luz" de terra em terra, o patrão Nicolau e o Lopes, o projeccionista da máquina cheia de manhas...


E ai sim, o romance passou a ser descrito com graça. Depois o Zé Pardal despiu a farpela de futebolista de rua de gosto duvidoso (com a camisola do Ronaldo que se vende nas feiras...) e encarnou a personagem do Charlot, ao vestir as roupas da viúva rica e ao calçar as botas enormes do falecido marido. E o musical e a comédia transformaram-se em drama..

Felizmente a peça acabou bem, para mim e para todos os espectadores, e a Companhia de Teatro de Almada está de parabéns pelo trabalho realizado. 

Até porque o mundo não mudou assim tanto, se olharmos apenas para as pessoas e esquecermos as "máquinas"...

(Fotografias de Luís Eme)