quinta-feira, junho 22, 2017

Publicidade Obscena

Quando vi esta página de publicidade (paga) no maior jornal português ("Expresso"), pensei logo em guardá-la. Achei-a tão pertinente como polémica, por ser notoriamente mais um produto da "pós-verdade".

Compreendo que a Celpa (Associação da Indústria Papeleira) faça o seu papel e defenda os interesses dos seus associados. Já não compreendo que ninguém questione o conteúdo da publicidade, até por ser "enganosa", para não lhe chamar outra coisa. Muito menos que eles se assumam como "a economia portuguesa"...

Nem vou sequer abordar o facto da indústria da celulose ser o sector que retira mais dividendos dos incêndios (a par dos vendedores de equipamentos para bombeiros e das empresas que alugam helicópteros e aviões...). Vou sim questionar: como é possível um país pequeno e sem grandes recursos, gastar todos os anos milhões de euros no combate aos incêndios (muitas vezes mais do que gastaria em prevenção...), com a complacência de todos os partidos com assento parlamentar e até da Europa.

É por isso que espero que o que aconteceu às 64 vítimas do maior incêndio de que se tem memória no nosso país, signifique finalmente um ponto de viragem na política seguida pelos nossos governos, quer no ordenamento do território, quer num melhor aproveitamento dos solos agrícolas e florestais de Norte a Sul.

quarta-feira, junho 21, 2017

Um Homem Maior que o País (mesmo assim não é ouvido por quem de direito...)


Se há coisa que me faz confusão é o facto de nos últimos 40 anos, quase ninguém ter dado ouvidos à pessoa que melhor tem defendido o país em termos ambientais, sempre com propostas e respostas assertivas. Falo do arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles, que o site da "Visão" recuperou com grande sentido de oportunidade, uma sua entrevista realizada no Verão de 2003, em que ele diz coisas como:

«(incêndios) A grande causa é um mau ordenamento do território, ou seja, a florestação extensiva com pinheiros e eucaliptos, de madeira para as celuloses e para a construção civil. O problema foi uma má ideia para o País, a de que Portugal é um país florestal. Lançou-se a ideia de que, tirando 12% de solos férteis, tudo o resto só tem possibilidades económicas em termos de povoamentos florestais industriais.»

«Houve toda uma política de desprestígio do mundo rural tendo por base a ideia de que era inferior ao mundo urbano. Despovoámos os campos e essa gente toda veio para a cidade. Hoje, enfrenta o desemprego. Esqueceram-se que o homem do futuro vai ser cada vez mais o homem das duas culturas, da urbana e da rural. Hoje, 30% das pessoas que praticam a agricultura económica na Europa não são agricultores. É gente que vive na cidade, tem lá o seu escritório e tem uma herdade no campo onde vai aos fins-de-semana. A expansão urbana aumenta e não podemos viver sem a agricultura senão morremos à fome.»

«Defendi uma regionalização há muito tempo, que deu origem a um documento de que os grandes partidos fizeram muita troça. Dividia o País em cerca de 30 regiões naturais, áreas de paisagem ordenada, que estavam já organizadas histórica e geograficamente.
São as terras de Basto, as terras de Santa Maria, as terras de Sousa, a Bord'água do Tejo, etc. O País é isso e não é outra coisa. Esta regionalização podia contribuir para a efectivação dos planos de ordenação da paisagem, com uma participação democrática das respectivas populações.»

Muito do que Ribeiro Telles diz quase todos sabemos, mas nunca se viu um único ministro ou secretário de Estado, a seguir as suas palavras... - alguns até são capazes de mudarem de passeio se o encontrarem na rua. Ou seja, andamos há décadas a destruir o nosso país, sem que quem exerce o poder, faça o que lhe compete: defender a natureza e o ambiente.

(Fotografia de autor desconhecido)
                                            

terça-feira, junho 20, 2017

Somos Quase Sempre Mais Esquecidos do que Devemos...


Não foi só agora que reparei, que o tempo passou por ele, e nunca foi bafejado por nenhuma homenagem, apesar de possuir qualidades humanas pouco comuns, mesmo numa cidade que se diz solidária. 

Faltou-lhe ser "camarada" (mesmo que fosse desses fingidos...), para ser olhado com olhos de ver pelo "poder". Nada que o incomode ou incomodasse...

Faltou-lhe ser "lambe-botas", andar por aí de sorriso aberto para tudo e para todos. Mas o pior foi dizer sempre tudo o que lhe ia na alma, sem se preocupar com os que o olhavam de lado, por detestarem a verdade.

O mais curioso tem sido a sua participação activa em inúmeras homenagens aos "outros" (vários deles nunca lhe chegaram aos calcanhares...). "Outros" que nunca se lembram dele..
.
É também por isso que quando olha à sua volta, sente que a sua maior medalha foi nunca ter recebido qualquer insígnia do Município.

Olho para ele e sinto que o "mundo" nunca se preparou para lhe agradecer. Sempre  gostou mais do homens agradáveis, de sorriso e palavra fácil, mas que fogem sempre que podem das  "nuvens" que aparecem no ar e cheiram a problemas...

Este mundo quase de fantasia (hipocrisia é mais real...) não gosta de quem prefere o anonimato e a sombra, quem é incapaz de distribuir sorrisos na rua, apenas por que sim, nem de quem ajuda quem necessita com discrição, ao ponto de ser capaz de fazer uma cara feia ou dizer uma frase de mau gosto, só para que não o encham de agradecimentos.

Eu sei que este é o "mundo" que temos, mas não precisava de ser tão injusto...

(Fotografia de Xavier Miserachs)

segunda-feira, junho 19, 2017

As Reacções à Tragédia do Distrito de Leiria

Sem poder dizer se isso é bom ou mau (pelo menos parece-me positivo), estou surpreendido com algumas das reacções à grande tragédia que atingiu os concelhos de Pedrogão Grande, Castanheira de Pera e Figueiró dos Vinhos.  

O que mais estranhei até ao momento foi a contenção da "direita" que foi governo antes da "gerigonça", por normalmente serem bons a "jogar baixo", ao ponto de culparem os sucessores  por erros próprios (cometidos quando governavam). Provavelmente fizeram-no a pensar nas últimas sondagens (cada vez mais baixas...) e não por qualquer coisa parecida com sentido de estado ou respeito pelas vitimas.

Mesmo os comentadores ultra liberais não trouxeram muitas achas para a fogueira. Criticaram as palavras "conciliadoras" e quase "conclusivas"  do Presidente da República - com razão, até por se saber muito pouco sobre o que aconteceu... -, que mais uma vez falou demais... E também questionaram - mais uma vez, bem - o não fecho atempadamente das vias rodoviárias atingidas pelo incêndio, com os resultados que todos sabemos... 

Sem se apontar dedos, a quem quer que seja, acho que é importante abordar tudo aquilo que não correu bem (neste e noutros incêndios), e fazer-se mesmo alguma coisa, para que uma tragédia destas dimensões não volte a acontecer. Se nos limitarmos a culpar a "trovoada seca" e a "assobiar para o lado", um dia destes já não há árvores para arderem (nem mesmo eucaliptos...) neste nosso canto, demasiado quente para o meu gosto. 

Sem querer ser "moralista", sei que todos temos de mudar de atitude. Vivermos melhor ou pior, depende cada vez mais da forma como nos relacionamos com a Natureza. E é já hoje, não temos tempo para esperar por amanhã... 

(Fotografia de Miguel A. Lopes - retirada do site do "D. Notícias")

domingo, junho 18, 2017

Do Paraíso ao Inferno em Poucas Horas...

O estado de graça do nosso país abanou no dia de ontem, com um dos incêndios mais mortíferos que se conhecem, no nosso território.

Sempre que acontece uma desgraça, uma das palavras que mais se utiliza para justificar o injustificável é Destino. É uma palavra quase com capacidade para "embrulhar" todas as desgraças do nosso dia a dia, pelo seu sentido quase divino, capaz de ultrapassar a vontade dos "mortais".

Embora não existam muitas palavras para dizer ou escrever o que quer que seja, sobre o que aconteceu ontem, incomoda-me que se utilize no nosso país, vezes demais, as palavras destino e saudade (fora das letras do fado...), para "fecho de contas".

Neste caso particular, se fosse utilizada com um carácter prático (fora dos discursos de Verão dos políticos...), a palavra Prevenção, sei que não se estariam a chorar todos estes mortos...

(Fotografia retirada do site do "D. Notícias")

sexta-feira, junho 16, 2017

«A mulher ideal é a mulher que não existe.»


Há muito tempo que não escutava um homem a falar com tanta sapiência das mulheres. Provavelmente ele pensa que os cabelos brancos de quem já passou os sessenta e o ar de galã de telenovela mexicana que faz questão de manter, lhe dão autoridade para nos oferecer tantas generalidades.

Houve um momento que não consegui conter o riso, quando ele disse que continuava a ser tão fácil apaixonar-se como desapaixonar-se. Pensei no bom do Vinicius de Moraes, que também tinha uma grande facilidade em saltitar de amor em amor. Mas ele era quase um "deus", graças ao bom uso que dava às palavras e, que depois oferecia às suas musas...

No meio da conversa o nosso homem ia olhando com alguma galhardia para as mulheres bonitas que passavam por nós.

Quando começámos a olhar para o relógio, quis ir ainda mais longe, quando disse: «Quanto mais mulheres conheço, mais fácil é apaixonar-me. Há sempre uma mulher capaz de me surpreender e de me ensinar coisas novas. É por isso que digo que a mulher ideal é a mulher que não existe. Existem dúzias e dúzias, todas diferentes, e ainda bem.»

A caminho da sala de reuniões, fomos conversando sobre o "charmoso" que nos tinham oferecido numa "rifa" (era dono de uma das empresas que nos "pagavam"...), fazendo aparecer vários animais no diálogo, desde o "tigre", ao "papagaio" passando pelo "leão" e acabando no "galo".

Antes de entrarmos, ainda olhamos uns para os outros, meio tristes, por sermos quase naturalmente, homens de uma só mulher, e cada vez mais distantes das histórias de mulheres ideais. Encarámos a realidade com desportivismo, pois se por um lado ainda estávamos a vários anos da idade do "balzaquiano", por outro também estávamos a vários zeros de distância da sua conta bancária...

(Fotografia de Tony Vaccaro)

quinta-feira, junho 15, 2017

Ai que Saudades da Frescura do Oeste...

Não há muitos sítios que nos permitam escapar a esta "febre marroquina", que quer transformar a Península Ibérica quase numa espécie de "áfrica europeia", por muito que isso possa agradar a alguns turistas que adoram torrar a pele, sem precisar de visitar as praias de mar.

Tenho saudades do meu Oeste, do microclima que faz das Caldas da Rainha um lugar um pouco mais ameno e de a Foz do Arelho uma praia fresca, mesmo no Verão...

E sem precisar de ir tão longe, nas redondezas de Sintra também é possível escapar das temperaturas altas...

É caso para dizer: benditas Serras de Sintra e de Montejunto.

(Fotografia de Luís Eme - se o tempo continuar assim, vai haver mais moçoilas de biquini pela cidade...)

terça-feira, junho 13, 2017

O Calor e o Frio, a Escrita e a Leitura...

Com estes dias "marroquinos" acabo por constatar o óbvio. Escrevo mais com o frio, leio mais com o calor...

Acho que este calor, além de me "toldar" as ideias... amolece-me quase tudo, até os dedos que são de escrever...

É por isso que procuro uma sombra, sento-me num soalho fresco e leio as folhas dos livros...

Não sou como ela, que lê à beira Tejo, ao mesmo tempo que espera que o Sol lhe pinte a pele...

(Fotografia de Luís Eme)

segunda-feira, junho 12, 2017

Nunca leves a televisão demasiado a sério. Mesmo a própria realidade é encenada.»


Não sei porquê, mas começou-se a falar de televisão. Sabia que era chover no molhado, porque quando conversamos sobre a programação dos canais da televisão, dificilmente chegamos a alguma  conclusão. E o único consenso que aparece, deve-se à qualidade, porque muito poucas coisas parecem fazer sentido dentro e fora da "caixa mágica".

E eu lá me lembrei de um amigo que andou pela televisão pública mais de 30 anos e que me dizia meio a sério meio a brincar: «Nunca leves a televisão demasiado a sério. Mesmo a própria realidade é encenada.»

Eu sei que a RTP tenta fazer a diferença (nota-se mais nos últimos tempos...), mas acaba quase sempre por apanhar os mesmos atalhos dos outros, em nome das audiências... Aliás tudo o que se faz em televisão tem como desculpa, as famosas audiências...

Durante uns tempos as gentes das televisões diziam que andavam atrás do gosto das pessoas. Talvez ainda mantenham o mesmo discurso, embora gostem mais de estar à frente dos "consumidores", porque fingem que são "mágicos" e conseguem adivinhar o que o pessoal quer ver.

Hoje é tudo mais descarado, no condicionamento do gosto e na manipulação de notícias. Os censores das ditaduras eram uns "anjinhos" em relação aos programadores do nosso tempo...

domingo, junho 11, 2017

A Língua, o Estilo e a Escrita...

Estou a ler um livro que tem tanto de curioso como de estimulante ("A Sétima Função da Linguagem - Quem matou Roland Barthes?", de Laurent Binet), que me tem feito pensar sobre várias coisas, inclusive sobre esta coisa que é o escrever. 

Vou transcrever essa parte:

«Roland Barthes mostrou é que no fundo uma obra literária tem três níveis; há a língua - Racine escreve em francês, Shakespeare escreve em inglês, essa é a língua - há o estilo; esse é o resultado da sua técnica, do seu talento, mas entre o estilo - voluntário, pois controlamo-lo - e a língua! Há um terceiro nível que é; a escrita. E a escrita, dizia ele, é o lugar... do politico, no sentido lato, ou seja, a escrita é aquilo mediante a qual ele se exprime, mesmo se o escritor não é disso consciente, o que ele é socialmente, a sua cultura, a sua origem, a sua classe social, a sociedade que o rodeia...»

Concordo com Barthes, penso que estas três divisões definem o essencial do que deve ser um fazedor de livros.

(Óleo de Costa Pinheiro)

sábado, junho 10, 2017

A Arte com Imagens e Palavras...

Participei  hoje à tarde numa sessão cultural que me deu a sensação de ter sido extremamente enriquecedora e agradável para todos aqueles que apareceram na sede-galeria da SCALA.

Não se tratava apenas da inauguração de uma exposição de artes plásticas, havia também o atractivo da projecção de seis pequenos filmes sobre a vida e obra do autor,  Mártio, um artista plástico almadense, que depois seria seguida de uma conversa informal sobre, e com, o pintor e ceramista possuidor de uma obra bastante vasta e diversificada.

E foi esta conversa que se revelou de grande interesse para todos, graças à disponibilidade do Mártio para falar abertamente do seu percurso artístico, dos seus dois principais interlocutores, que o ladearam, mas sobretudo pela interacção que se proporcionou com todos aqueles que quiseram saber mais qualquer coisa sobre a arte, ou ainda, de oferecerem o testemunho da sua experiência pessoal no mundo das artes.

(Óleo de Mártio - as "Banhistas" de Mártio, glosando as "Banhistas" de Cezanne...)

sexta-feira, junho 09, 2017

O Cacilheiro e os Dois Amigos do Sul...

Estava a olhar o Rio da janela do cacilheiro quando duas vozes maduras atrás de mim me chamaram a atenção.

Pelo jeito de falar percebi que eram alentejanos e falavam de uma mulher qualquer como se fossem dois adolescentes. Não tinha um nome, era apenas a "magana", como às vezes escutamos em anedotas.

Um deles gabou-se de dançar com ela numa festa, acrescentando que foi cá uma esfrega, ao mesmo tempo que o marido emborcava copos de vinho no bar. O outro para não ficar atrás contou um episódio romanesco que aconteceu num café, em que ela se ofereceu quase toda.

A conversa só acabou quando a barca laranja chegou a Cacilhas e os dois sessentões desapareceram no meio da multidão que se deslocava na direcção das paragens dos autocarros.

Não me lembro de ver dois homens de cabelo esbranquiçado a conversar com tanto entusiasmo de uma "magana", que era do clube das  "frescas" (foi outra das palavras mais batidas no diálogo quase quente), pelos exemplos relatados...

(Fotografia de Luís Eme)

quarta-feira, junho 07, 2017

O que Uma Crónica nos Faz...


Hoje ao ler uma crónica de revista, voltei a experimentar a sensação que conhecia a autora, mesmo sem nunca a ter visto.

O pai era meu amigo e costumava falar-me dela, há quase trinta anos. A vida era tudo menos fácil para eles. Sabia-o pelos desabafos deste meu companheiro do mundo dos jornais e dos livros, que não só me contava alguns episódios do seu quotidiano, como até era capaz de me pedir conselhos, a mim, que era praticamente da geração da filhota (hoje percebo que isso devia acontecer por isso mesmo, talvez ele achasse que eu a poderia "descodificar" e tornar a sua relação mais próxima...).

Voltei a estar sentado no café com ele, a fumar os seus cigarros, enquanto falávamos das coisas de que gostávamos, como o futebol ou o cinema. Mas também das outras, que nos trocavam as voltas...

Voltando à rapariga, gostei das suas palavras e lembrei-me que o pai nunca me mostrara uma fotografia dela. Não sei muito bem porquê, mas ela para mim era pequena e usava cabelo à rapazinho... Provavelmente tive uma ou outra pista para fazer este "boneco"...

O que uma crónica nos faz...

(Óleo de Paul Swan)

terça-feira, junho 06, 2017

«Ainda bem que já não há "banha da cobra" para todos»

Apesar de se terem escondido debaixo do tapete valores que a minha geração e anteriores, consideravam essenciais (eu bem sei que para muitos era apenas teoria, não foi por um mero acaso que os políticos dos últimos quarenta anos, pertencem todos à minha e às gerações anteriores...), a mentira (e a "pós-verdade") continua a ter a perna curta.

Ou seja, percebe-se à légua que hoje já não há "banha da cobra" para todos...

Cada vez tenho menos dúvidas de que a qualidade - e hoje somos um país, onde cada vez mais se aposta na qualidade - dá cabo de todos os negócios dos espertalhaços que ainda continuam a querer "vender gato por lebre", em várias esquinas. 

E é aqui que entra o turismo, que tanta "porrada" tem levado nos últimos tempos. Tem sido ele que tem empurrado muitos jovens a fazerem pela vida e a serem inovadores,  ao perceberem que só terão hipótese de crescer, e de ter sucesso, com a aposta na diferença e na qualidade.

É por isso que eu digo: «Ainda bem que já não há banha da cobra para todos.»

(Fotografia de Luís Eme)

segunda-feira, junho 05, 2017

Setenta e Nove...

Porque é que alguém começa a fumar aos setenta e nove anos?

Por uma razão demasiado óbvia: acredita na publicidade impressa nos maços.

Todos eles dizem que os cigarros matam. E é normal que alguma gente com uma idade já quase avançada,  um pouco farta de viver, faça também um manguito à vida quase saudável. 

Quando se está farto de andar para trás e para a frente e não se tem coragem de acabar tudo em segundos, com um tiro na carola ou com a suspensão do corpo, preso pelo pescoço a uma corda, fumar pode ser uma boa alternativa...

E com um pouco de sorte aprende-se a gostar de fabricar nuvens de fumo e a ter um hálito apropriado para quem já não faz linguados... 

(Fotografia de Luís Eme)

domingo, junho 04, 2017

O Turismo não Pode ser Maior que o País...

Esta semana foi pródiga em gente a opinar sobre o turismo, mesmo que fossem capazes de dizerem e escreverem o contrário do que disseram ontem... 

De repente toda a gente "acordou"  e "descobriu" que há demasiada gente a alugar quartos e casas a quem se quer perder de amores por Lisboa.

Todos sabemos que os políticos ainda vão a tempo de perceber que uma urbe precisa de gente que viva no seu espaço a tempo inteiro, caso contrário corre o risco de ser uma "cidade fantasma" (e isso já foi uma realidade na Baixa lisboeta, há pouco mais de meia-dúzia de anos...).

Talvez o "artista" que fez este boneco nas paredes dos armazéns abandonados do Ginjal, tenha alguma razão...

O que eu sei é que o turismo não pode (aliás, não deve...), nunca, ser maior que o país.

(Fotografia de Luís Eme)

sábado, junho 03, 2017

A Feira do Livro (Rainha dos Campeonatos Literários...)


A Feira do Livro está de novo aí, e segundo a publicidade, com novo recorde de editoras, livrarias e alfarrábios.

Dizem também que está mais bonita e agradável, para todos.

E claro, continua a ser a melhor altura para se falar com os livros e olhar de alto a baixo para os escritores e pedir-lhes autógrafos.

Embora nem todos participem nesta festança, pois ainda há gente do século passado que se recusa a ser "promoção" de super-mercado.

Alguns dias antes da feira, telefonema para aqui telefonema para ali, deixaram o velho António cansado de tanta intromissão. Foi por isso que disse à menina que lhe arrastava a asa e prometia ir buscá-lo e trazê-lo da festa dos livros, sempre que ele fosse "livro do dia": «Há um engano qualquer, minha jovem, o escritor não é o que vende, é o que escreve. Esse tipo que anda à procura para vender livros é o livreiro.» E desligou-lhe o telefone.

(Óleo de Lesser Ury)

sexta-feira, junho 02, 2017

Olha Para Mim...

Há animais com dono. Há animais sem dono. Há animais com vários donos...

Aparentemente os primeiros são mais felizes. Aparentemente...

O "preguiças" da fotografia (dupla...) mora no Ginjal e tem muito mais que um dono. Além das duas senhoras que se passeiam ao longo do cais com um carrinho de compras cheio de mantimentos para os vários felinos, há outros anónimos que lhe oferecem uns miminhos, dentro de latas.

De mim leva um olá, sempre que nos cruzamos. Às vezes faz algumas avarias, a pedir-me que lhe tire uma fotografia. E eu digo-lhe que sim...

(Fotografia de Luís Eme)

quinta-feira, junho 01, 2017

Os Esquecimentos sem Inocência...

Embora os tempos pareçam fartos, graças ao optimismo exagerado do Presidente da República (campeão de tantas coisas banais para um chefe de Estado, embrulhadas em sorrisos, beijos, "selfies", etc) e dos governantes, que abraçam todos os turistas, especialmente os que compram "vistos dourados", a vida dos portugueses continua a ser outra coisa...

Ontem estive com um amigo das escritas (quase todas, do jornalismo à poesia...), que desancou no maldito capitalismo que tanto lhe inferniza a "vidinha", sem se esquecer de apontar a dedo dois ou três amigos, que deixaram de lhe atender o telefone, quando ele mais precisava. Já conseguiu equilibrar novamente as coisas, mas voltou mais uma vez para casa dos pais. E com o preço das rendas na Capital, não sabe quando poderá voltar a ter um espaço só para ele em Lisboa...

Deu-me exemplos da tal meia-dúzia de falsos amigos que lhe pediam colaborações para jornais e revistas, que o riscaram da lista de colaboradores, sem qualquer explicação ou desentendimento. Foi esquecido e pronto. O pior de tudo foi isto acontecer quando mais precisava.

Eu escutei-o pacientemente e em silêncio. Porque nestas alturas não há nada que possamos dizer ou fazer, que mude o que se sente. Limitei-me a dizer o que todos já sabemos, não é por acaso que dizem que este é um "mundo-cão"... 

Apenas lhe dei um exemplo. Durante meia-dúzia de anos colaborei numa revista, número a número, sem nunca receber qualquer dinheiro. Fazia-o essencialmente para que o projecto não acabasse. Quando decidiram fazer um número especial, convidaram várias "sumidades", e eu acabei, naturalmente, esquecido...

Embora ele seja mais novo que eu, sabe bem demais que este mundo está cheio de gente mal agradecida, capaz de nos encher de sorrisos prometedores, mas que nunca se esquece de trazer de casa uma "faca de cozinha" escondida na meia...

(Fotografia de Luís Eme)

quarta-feira, maio 31, 2017

Mãos sem Pedras e Passos Trocados...

Nunca percebi muito bem o porquê, dos governantes do "bloco central" - mesmo sabendo que sempre foram bons a "destruir coisas" - decidirem acabar com serviço militar obrigatório, essa coisa chata, que "irritava" os meninos das juventudes partidárias, talvez por serem obrigados a sentir (pelo menos na recruta...), que eram quase iguais aos outros. Aliás, acho mesmo que aquele era o único sítio onde poderiam experimentar, muito suavemente, o que é ser cidadão da Coreia do Norte (pelo menos no corte de cabelo, no uso da farda e no tratamento pessoal...).

Graças a eles, agora os jovens passam de adolescentes a adultos sem experimentarem, pelo menos uma vez na vida, que têm de obedecer a horários e a regras, e que a graça de um espertinho pode dar direito a um castigo colectivo, reforçando mais uma coisa em desuso, que se chama "espírito de corpo", que na actualidade só poderá ser vivida na prática de desportos colectivos, onde a equipa é (ou pelo menos deve ser...) sempre mais importante que a "vedeta", que troca os olhos ao adversário.

E mais uma vez comecei a escrever e fui-me "perdendo"...

Quando pensei neste título queria escrever sobre a dignidade, o carácter, a sensibilidade e a honra (a autêntica, aquela que vive fora dos discursos...), que não são atributos da esquerda ou da direita, muito menos dos católicos ou dos muçulmanos. Está acima de todos os credos (ou pelo menos devia estar...).

O que eu queria mesmo era valorizar o exemplo militar, do tal espírito de corpo (mesmo que possa ser uma ilusão...), da importância que é darem-nos uma pedra, para sabermos qual é a nossa mão direita e a esquerda, para não andarmos de passo trocado. Era algo que nos iria servir para a vida toda. Só que nestes tempos, ninguém quer saber dessas coisas "chatas"...

(Fotografia de Johua Benoliel - o primeiro fotojornalista português)

terça-feira, maio 30, 2017

Uma Aproximação (mas és mais gira)...


Hoje resolvi voltar a escrever sobre ti. Não, não são saudades, ainda há poucas horas falámos ao telemóvel. Acho que é mais o tentar satisfazer a curiosidade, de todos os que me perguntam coisas de ti.

Até porque ainda na sexta-feira foste confundida com a Isabel.

Talvez a culpa seja minha, pela forma como te "desenho", mesmo sem ser capaz de dizer que és a mais bela e a mais perfeita das mulheres (és demasiado humana para caber nesse quadro...).

(Óleo de Louis Buisseret)

segunda-feira, maio 29, 2017

Hoje é o Dia...

Sim, hoje é o dia em que John F. Kennedy faria cem anos, se não tivesse criado tantos inimigos, enquanto político, e também se tivesse a saúde quase de ferro do nosso Manoel de Oliveira.

Tinha eu um ano e dois meses quando ele foi alvejado em Dallas, ao passar dentro de uma limusina e acenar à multidão entusiasmada de Dallas, que queria ver o Presidente e a Primeira Dama.  Ou seja, só descobri o mito alguns anos depois. Mas não foram muitos. Percebi que era difícil não gostar deste homem, que tinha algo de diferente no olhar.

Talvez fosse isso, aliado à sua juventude (os EUA não voltaram a ter um presidente tão jovem...) que conseguiu fazer a América sonhar ainda em maior escala. E mesmo o próprio mundo sentiu que JFK era muito mais que o presidente de um país. Foi também por isso que o mataram novo - um assassínio que tem gerado várias "teorias de conspiração" -, tornando-o uma figura ainda mais próxima dos mitos e das lendas... 

(Óleo de Jamie Wyeth - que segundo a viúva, Jackie, é uma das imagens que melhor o retrata...)

domingo, maio 28, 2017

Totti, "O César de Roma"


Normalmente não falo muito de futebol nos meus blogues, apesar de gostar deste jogo desde a minha meninice, como jogador e como espectador.

Mas é impossível passar ao lado de Francesco Totti, uma das lendas vivas do futebol mundial, que aos 40 anos continua a jogar ao mais alto nível no seu Roma, onde se estreou na equipa principal com apenas 16 e onde joga há 25 épocas (no começo da Maio tinha disputado 782 jogos e marcado 306 golos...).

Tudo isto é anormal, numa época em que o dinheiro "mata" o amor que possa existir entre um atleta e um clube.


Bonito foi o que o jornal, "Il Tempo", da Capital de Itália fez, ao mudar o título para "Il Tempo di Totti", neste domingo, em que veste pela última vez a camisola do Roma...

(Fotografia de autor desconhecido)

sábado, maio 27, 2017

O Poder, um Povo e um Relógio...


Ao ler a notícia publicada no "Diário de Notícias" sobre um dos filhos do presidente de Angola, Danilo dos Santos, que  arrematou esta quinta-feira, num leilão em Cannes, um relógio Franck Muller por 500 mil euros, que provocou a reacção do actor Will Smith que disse: «Ele é demasiado novo para ter 500 mil euros», pensei noutras coisas.

A mim não me preocupa nada a idade de Danilo, o rebento mais novo do mais que tudo de Angola. Preocupam-me sim os milhões que passam fome e vivem ao "deus dará", especialmente rente a Luanda…

Ou seja, a ausência de tudo aquilo que deveria ser importante para um futuro líder. E o Danilo, deve ter tido uma educação esmerada, mas infelizmente para os angolanos aprendeu muito pouco sobre ética, justiça ou humanismo, seguindo os péssimos exemplos de "novo-riquismo" da gente que ocupa o poder nos países africanos…

(Ilustração de Chichorro)

sexta-feira, maio 26, 2017

Os Daltonismos Crónicos e a Liberdade...


Há pelo menos um ponto comum entre a maior parte dos "seguidistas militantes" - políticos, futebolísticos ou religiosos -, no seu limitado mundo "cromático" todos têm de ter um partido um clube ou um credo. Ou estão com eles ou contra eles.

Não acreditam que existam pessoas livres e independentes, que se estão borrifando para tudo aquilo que rodeia a política, o futebol ou a religião.

No tempo da inquisição havia uma solução para eles, as fogueiras. Nos regimes que se fingem democráticos, há o olhar de lado, o apontar o dedo, o fechar portas, a agressão gratuita (verbal e física), os muitos sinais de proibição, com o objectivo claro de criar uma barreira invisível, para onde possam empurrar os "outros"...

Tenho a sensação que é cada mais complicado pensarmos apenas pela nossa cabeça e seguirmos as estradas que queremos...

Mas a liberdade nunca foi uma utopia, sempre foi um desígnio do homem e de quase todos os outros animais...

(Óleo de John Woodrow Kelley)

quinta-feira, maio 25, 2017

Uns Dias de Secura e Outros de Grandes Bebedeiras...

Hoje faço como alguns jornais, coloco um título que pode ser tudo, mesmo que depois de espremido, seja quase nada.

Estes meus dias de secura ( e de grandes bebedeiras...), não têm nada a ver com bebidas, com mais ou menos álcool. É apenas mais uma metáfora da vidinha...

Falo sim desta "doença" que é o escrever. Nos últimos tempos tenho escrito pouco.  Claro que não estou a falar da quase ligeireza diaristica com que vou escrevendo na blogosfera. Falo sim das ideias mirabolantes que surgem do nada e que são capazes de encher uma folha A4 em menos de cinco minutos, como me aconteceu hoje, ainda antes das oito da manhã. Muito por culpa das personagens, que devem entrar pela janela, que já estava ligeiramente aberta, para que o Verão não ficasse apenas pela rua...

Depois de tudo o que escrevi logo no começo do dia, fiquei a pensar que o  normal era não me apetecer escrever. Ainda por cima as minhas palavras estavam cheio de moralismos... 

Talvez fosse boa ideia deixar de "beber", mas há coisas que não controlamos mesmo.

(Fotografia de Luís Eme)

quarta-feira, maio 24, 2017

O Amor é Outra Coisa...


É no mínimo estranho o que as pessoas inventam em nome do amor. Não só dizem que amam, mais vezes do que deviam, como são capazes de fazer as maiores loucuras em seu nome.

Pensar que a maior parte dos crimes de violência doméstica são feitos em nome do tal amor, que é sempre outra coisa, posse, medo, ilusão, mentira, e sobretudo, loucura... Sim, a maior parte destas pessoas, que são capazes de tudo em nome do amor, era desejável que habitassem apenas dentro dos livros e dos filmes. E todas as que circulam por aí, à solta, deviam, no mínimo, ser internadas num hospício. 

Embora perceba, que nestes tempos ainda de austeridade, não existam quartos para todos...

(Fotografia de Yousuf Karsh - crónica a pedido, sobre "amores estranhos".  E como vês, consegui fugir da "moda" de amar os animais como gente, e ainda me sobraram duas linhas...)

terça-feira, maio 23, 2017

Um Mundo Sem Conserto...

Nada do que possa dizer faz muito sentido, neste mundo farto em lugares onde se vive um dia de cada vez...

E se há coisa que não quero hoje, é armar-me em moralista, até por saber que cada vez devemos esperar menos dos "animais inteligentes", que sempre preferiram o lado errado da vida, mesmo quando saiam à rua com uma auréola em cima da cabeça e enchiam a boca de palavras bonitas.

Bem diz o povo sábio, que de bons intenções está o inferno cheio.

Alguns portugueses continuam a assobiar para o ar, fingem acreditar na Senhora dos milagres de Fátima e esquecem-se que o "cerco a Lisboa" também há-de chegar, mais tarde ou mais cedo...

(Óleo de John Bowen)

segunda-feira, maio 22, 2017

Os Ganhos e as Perdas na Cultura


O Zé disse-me, com um sorriso nos olhos, que a ausência de dinheiro fácil está a expulsar os oportunistas do mundo da cultura. Não sei se é bem assim.

Ele pode ter razão quando diz que nunca se ganhou tão pouco dinheiro a cantar, a tocar, a pintar, a filmar, a fotografar ou a escrever. É ligeiramente mais novo que eu, ou seja ainda é do tempo em que se vendiam discos pequenos e a internet era uma incógnita, olhada de lado por uns e quase um sonho para outros.

Mas também se devia lembrar que nunca houve tanta gente a acotovelar-se e a querer ser alguém nas culturas...

Claro que ele conhece melhor o meio que eu. Fez parte de boas bandas da Margem Sul graças ao seu talento como guitarrista. Depois começou a produzir, onde ainda continua... 

Consumidor cultural e companheiro de uma realizadora de filmes (cada vez mais de publicidade...), conhece muita gente e oferece-me exemplos. Artistas plásticos que trabalham quase exclusivamente com os computadores, porque não lhes apetece sujar as mãos e andar a gastar dinheiro em telas e tintas. Poetas que escrevem em blogues e oferecem os poemas em folhas soltas aos amigos. Músicos que são vendedores de qualquer banha da cobra, empregados de bares e até seguranças em jogos de futebol. Fotógrafos que circulam à volta das estrelas das telenovelas e do futebol, trabalhando à peça. Dos filmes tem o exemplo da Catarina lá em casa.

Eu limitei-me a recordar-lhe que quando o dinheiro voltar, eles regressam (se é que se estão a afastar)...

(Fotografia de Alberto Galducci)

domingo, maio 21, 2017

Jogos de Diferenças...


Um casal de meia idade que já não via há uns dias largos, quis saber coisas de mim e da minha família. Falei-lhes do último "pesadelo" cá de casa. O homem maduro disse: «O tamanho dos problemas revela-se sobretudo na forma com os enfrentamos.»

Eu sabia que era assim. Até por não ser muito melodramático em relação a tudo o que nos cerca.

A esposa argumentou que nem sempre era assim. Mas claro que era, e é. A forma de encararmos os problemas (sem fugir deles...) e de os tentar resolver da melhor maneira, ajuda sempre.

Quando vinha para casa pensei na minha capacidade de abstração (o que irrita muito boa gente...), do facto de raramente ficar a matutar nos problemas,  de tentar dar sempre um passo em frente.

Ao começo da tarde, antes do início da tertúlia em que estava envolvido, uma mulher veio-me com a história de que os homens só sabem fazer uma coisa de cada vez, dando como exemplo o marido. Respondi que por acaso eu consigo fazer duas ou três, mas nunca a dúzia das mulheres... deixando-a  em silêncio com cara de caso.

Mas acho que sim, temos várias características que nos distinguem. Esse facto de que tanto as orgulha, de fazerem muitas coisas ao mesmo tempo, também lhes altera completamente o sistema nervoso. E é por isso que não conseguem ultrapassar os problemas da mesma forma dos homens (sei que algumas dizem que isso acontece por irresponsabilidade, mas é muito mais que isso...).

Embora cada caso seja um caso, nestes "jogos de diferenças"...

(Fotografia de Robert Doisneau)

sábado, maio 20, 2017

A Arte Enquanto Espaço Criativo e Espaço de Sobrevivência...

A meio da semana encontrei-me com um amigo pintor, que já leva muitos anos de pinturas e de exposições. Um dos traços mais marcantes da sua personalidade é a exigência que tem para cada obra, basta não gostar de um pormenor do que está a pintar, para rasgar o que faz e colocar no lixo (tenho algumas obras dele, que salvei do "caixote"...).

Falámos de muitas coisas, inclusive do mercado de arte, que mudou muito nos últimos anos (há cada vez mais dificuldade em vender obras de arte... a excepção devem ser os grandes artistas, cujas obras continuam a atingir valores recordes em leilões).

Foi nesta altura da conversa que falei dos muitos artistas de rua, que enchem as ruas de Lisboa de "cópias" de eléctricos, ruas de Alfama, que vendem a presos irrisórios. Achei curioso ele não ter utilizado nenhum adjectivo negativo para qualificar estes vendedores de pinturas, que são outra coisa, que passa um pouco ao lado da arte.

Até me falou do exemplo de um pintor amigo, que pintava os quadros quase todos iguais (isto ainda antes de Abril...). Quando lhe disse que isso o reduzia como artista, este argumentou que antes de ser artista era chefe de família. Ou seja, como se dedicava exclusivamente à pintura, pintava o que lhe encomendavam das galerias, ou seja o que era mais procurado e se vendia (as ruas típicas de Lisboa). Porque sem este dinheiro não conseguia sobreviver. O artista das obras originais aparecia depois...

Com este argumento  o meu amigo ficou sem palavras.

Óleo de Ralph Hedley)

sexta-feira, maio 19, 2017

A Mulher que é Sempre Notícia no Bairro...

A tua janela nunca se abre.

É como o teu rosto, que já se deve ter esquecido do que é sorrir.

Quem pensa que te conhece, conta uma história. Fala de várias coisas que acabam sempre com um amor não correspondido.

Outras mulheres, do grupo raro que ainda conversa na mercearia, vão ainda mais longe, acrescentam à tua mágoa, um filho perdido.

Comentam também a tua magreza. Umas falam de fome, outras de ausência de apetite, e as que lêem revistas com ficções, de anorexia.

A única coisa que não consegues é ser invisível.

Seja pela janela que nunca se abre, pelo teu rosto fechado, por um amor não correspondido, pela mágoa de um filho perdido ou pela magreza, és sempre notícia no bairro...

(Fotografia de Judy Linn - Patti Smith)

quinta-feira, maio 18, 2017

Coisas da Poesia e dos Poetas do Nosso Contentamento...

Podíamos estar a tarde toda a falar de poesia e de poetas, não apenas do que escrevem, mas também do que nos fazem sentir. Embora um dos momentos mais pitorescos da conversa tenha acontecido quando contámos pequenos nadas, curiosos, daqueles que fazem sorrir...

Eu também tinha um, passado com o Zé Gomes Ferreira, no qual tive a ousadia de confundir a sua arte, na primeira vez que nos cruzámos ao vivo, num Primeiro de Maio das culturas. Quando me perguntaram se conhecia o homem com ar feliz, de cabeleira branca farta e quase despenteada, que passou por nós e me piscou o olho, fiquei a pensar. E a primeira pessoas em quem pensei foi no Leonard Bernstein, que era visita assídua na televisão (quando o nosso mundo era só RTP e a preto e branco, a "caixa mágica" oferecia-nos música da boa, mesmo que nessa altura não morresse de amores pela arte sinfónica, ao contrário do pai, que escutava deliciado, o homem que não conseguia estar quieto e também usava uma excêntrica cabeleira branca...). Foi por isso que disse que ele não me era estranho, perguntando de seguida se era maestro.

Não, era poeta, e dos militantes, disse-me a Teresa com um sorriso rasgado. E eu nessa altura até já tinha lido "O Mundo dos Outros" e até tinha gostado daquela linguagem de quem finge que anda por aí distraído, mas vê tudo.

Ainda nos encontrámos uma ou outra vez, a última foi no Chiado, talvez em 1981 ou 82. Apeteceu-me mesmo dizer-lhe um «olá Poeta», mas senti que ele estava completamente absorvido por algo que se passava a metros (ou quilómetros...) dali. Já nesse tempo evitava ser inconveniente.

Talvez o grande Zé Gomes estivesse naquele preciso momento dentro de um poema...

(Fotografia de autor desconhecido, com Zé Gomes Ferreira bem acompanhado, na festa do Avante de 1977, com Mário Viegas, outro grande amante da poesia e dos poetas e com a actriz Fernanda Lapa, digo eu...)