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quarta-feira, julho 03, 2019

A Tentação de "Usar o Chinelo" para Fazer Festas...


Devo começar por vos dizer, para não ligarem muito ao título, e muito menos à imagem. Até por que as metáforas valem o que valem (depende sempre do uso que lhe damos...).

Embora gostasse que a justiça tivesse a arte de "desmontar" todos os "castelos de papel" que giram à volta de Joe Berardo, com mais ou menos budas, não acho muita piada que alguns políticos, jornalistas e até gente comum, troque o Joe por José, sempre que falam da personagem.

Até porque isso pode fazer confusão a pessoas menos avisadas, que até poderão pensar que se está a falar de um irmão ou de um primo deste nosso "artista pop".

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)

segunda-feira, julho 01, 2019

Lugares-Comuns e Relações Profissionais e Humanas (dentro dos nossos "Largos"...)


Já há tempos que pensei em escrever por aqui algumas linhas sobre as relações duradouras que se estabelecem com algumas pessoas, que nos prestam serviços. Lembrei-me por exemplo do meu barbeiro e do meu dentista, que visito há largos anos. Eu sei que eles não são os "melhores técnicos do mundo", da mesma forma que sei que são boas pessoas, com quem foi possível estabelecer uma relação humana e falarmos de nós e do mundo que nos cerca, para além da "conversa gasta" sobre futebol ou política.

Sei que há quem dê primazia à parte técnica, pague para ter os "melhores", sem querer ter qualquer tipo de ligação pessoal. E se souber que há alguém no "mercado" melhor, muda de "barbeiro" ou "dentista", sem qualquer hesitação. 

Penso que são estas pequenas diferenças que nos definem como seres humanos...

Estas questões também me fizeram pensar que quando partilhamos coisas neste "mundo virtual", mostramos sempre mais de nós, do que o que julgamos. E acabamos, inevitavelmente, por encher os blogues de "lugares-comuns" (aliás, eu encho... principalmente aqui o "Largo"), porque quando escrevemos coisas, quase todos os dias, o blogue  também acaba por ter uma função "diaristíca".

Mas os "Largos" das nossas vidas não pretendem ser mais que simples "lugares-comuns", por onde passamos todos os dias...

(Fotografia de Luís Eme - Alcochete)

sexta-feira, junho 07, 2019

A Ligação de Belarmino a Almada


Ainda a propósito do Belarmino (o original...) Fragoso, descobri há pouco tempo que uma das suas últimas ocupações foi carregar e descarregar as mercadorias dos vendedores do Mercado de Almada, na Rua da Olivença.

Descobri-o por um mero acaso. Estávamos a almoçar o nosso bacalhau com grão da Olivença das segundas-feiras quando passou um fulano rente à nossa mesa, que cumprimentou o Carlos. Quando ele se afastou o Carlos confidenciou-nos que o salvara uma vez de levar pancada, ao puxá-lo para longe, depois deste insultar o antigo "boxeur", sem saber com quem se estava a meter...

Depois acrescentou que ele morrera de uma forma completamente estúpida, que tinha sido atropelado próximo do mercado, quando trabalhava...

Baptista Bastos, que entrevistou o Belarmino no excelente filme do Fernando Lopes dedicou-lhe um bonito obituário no "Diário Popular": «No corpo debilitado do velho campeão de meios-leves emergiram todas as doenças que a fome e a miséria arrastam. “Não passo de um campeão deitado” – dissera, há dias, a um de nós, que o fora ouvir, para narrar, seguidamente, a história resplandescente de um homem comum que se guindara às galáxias das grandes estrelas, para tombar na noite medonha como um cometa transviado do rumo certo.»

O mais curioso, é que a primeira vez que ouvi falar da ligação de Belarmino a Almada, foi de uma forma negativa. Além de o retratarem da pior forma possível, acrescentaram que morara numa barraca, entre o Pragal e a Caparica e que tinha morrido na miséria (sem especificarem...). Contaram-me esta história no começo dos anos 1990. Não sei se alguma vez morou neste local, sei sim, que quando faleceu morava num anexo da Praceta Francisco Noronha, na cidade de Almada...

(Fotografia de Luís Eme - Pragal)

sexta-feira, maio 31, 2019

O Mundo Pode ser Outra Coisa...


Quando construo personagens gosto de lhes oferecer coisas que contrariam o que penso.

Exemplos? Ao escrever: «nunca leio os livros de que gostei, uma segunda vez», estou a mentir descaradamente. Já li vários livros uma segunda vez (e um ou outro, uma terceira, mais por obrigação que prazer...).

E quando o tento justificar, as coisas não melhoram: «não é medo de não voltar a gostar, é perceber que foi outra pessoa que leu aquilo. Quando tens 20, 30 ou 40 anos, não és a mesma pessoa com tem agora 50...» 

Continuo a discordar. Sei que não mudamos assim tanto...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)

terça-feira, maio 14, 2019

Quando os "Passarões" da Rua da Cristina Foram Parar à "Gaiola"...


A história era simples, o Rui, o Jorge e o Zeca, os falsos "heróis" da Rua da Cristina tinham sido apanhados, em flagrante, por um casal de polícias que usara o disfarce de turistas, dos apetecíveis, com boas máquinas fotográficas, computadores e notas de euros com três algarismos, para os levar à certa.

"Pinóquio", o maior contador de histórias das redondezas, esqueceu por momentos as suas patranhas e resolveu usar os seus exemplos para aconselhar a rapaziada mais nova, a não tentar "voar alto demais".

Quem não conhecesse a história de vida das três "aves de arribação" - como era o meu caso -, que tinham sido engaioladas, por andarem demasiado descontraídos pelas ruas, esquecidos que nas profissões de risco  "a distracção é quase sempre a morte do artista"... não conseguia deixar de sorrir pela arte do "Pinóquio", que à medida que ia falando, ia arranjando um lugar no "cinema", para aqueles três rapazolas que adoravam dar nas vistas, quase sempre pelos piores motivos.

Nunca os tratou pelo nome próprio, mas sim pelos "nomes de guerra", que curiosamente também foram uma invenção sua. 

Só alguém com a sua imaginação era capaz de baptizar o Jorge de "Canário", que além de falar pelos três, adorava dar música aos "camones", aliás, às "camones". O Rui ficou o "Corvo", por ser o mais misterioso e também o mestre dos silêncios. E o Zeca só podia ser o "Melro", o finório e espertalhaço do trio, sempre cheio de ideias mirabolantes, roubadas das séries e dos filmes.

O mais curioso, foi perceber que a rapaziada jovem tinha percebido a lição do "Pinóquio", sem perder o sorriso...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

sábado, março 09, 2019

Descobrir a Careca à Falsa Sapiência...


Quando ele me disse, «o gajo que vem aí, é daqueles que tem a mania que sabe mais do o que sabe», mal me deu tempo para me virar... o fulano já estava a um metro de nós.

Depois, pelo andar da conversa, percebi o que o João me quis dizer.

O "metediço" falava de coisas que tinham acontecido, não apenas como se lá estivesse, mas também, como se conhecesse todas as pessoas que lá estavam. Achei aquele espectáculo, uma imitação manhosa do "teatro do absurdo". Ele iniciava as conversas, depois mudava de assunto, voltava a falar de outra coisa, e depois outra, e outra e outra, quase sem parar.

Há muito tempo que não assistia a uma conversa tão estranha. Claro que o meu amigo era o principal culpado, porque nunca dizia o que o outro queria ouvir, nunca lhe dava corda. E ele ia mudando de disco...

Quando o fulano nos deixou, demos uma gargalhada quase grande.

Coitado, saiu mais pobre do que quando começou a conversa. Que grande desperdício de palavras...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

quarta-feira, fevereiro 06, 2019

«A inteligência é uma chatice do caraças»


Ele ali estava, com um café e um cálice com uma aguardente velha à sua frente, preparado para defender, mais uma das suas causas perdidas.

Começou por dizer que «a inteligência é uma chatice do caraças.»

E depois continuou o monólogo, enquanto acompanhava com o olhar uma mulher bonita. «As gajas é que são espertas, quando querem namorar com um pássaro qualquer, preferem alguém para partilhar a futilidade, a diversão e o prazer. A inteligência é uma das coisas que ficam sempre à entrada da porta, tal como os chapéus de chuva.»

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

terça-feira, janeiro 29, 2019

«Afinal, ele é como nós!»


A expressão que escolhi como título deste texto, é dita vezes sem conta, quando políticos como o nosso Presidente da Republica, andam por aí, misturados com o povo, oferecendo-lhe a melhor da atenções na passagem em revista dos seus anseios e problemas. E se eles forem de "prometer", são capazes de dizer que irão até ao "fim do mundo", para tentar resolver os ditos problemas.

Lembrei-me de escrever sobre isto ao ver o bom do Santana Lopes na televisão a visitar o Bairro da Jamaica, no Seixal, naquela que terá sido uma das suas primeiras saída para o terreno,  em pré-campanha eleitoral, pelo seu Aliança.

Neste caso particular, os moradores do bairro, só não devem ter dito que ele era como eles, por causa da diferença da cor de pele...

Mas atenção, este "menino guerreiro", é dos melhores em campanhas eleitorais. Os partidos da direita que se cuidem (e até o próprio PS). Diz o que as pessoas gostam de ouvir, de uma forma clara e concisa, sem se perder em abraços, beijinhos e selfies. Ou seja, a palavra da moda (que parece assustar tanta gente...), há muito que faz parte do seu vocabulário político.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)

sábado, janeiro 26, 2019

A Estupidez Crescente do Comentário Televisivo e a Banalização da Memória


Se há coisa que me incomoda ouvir nas ruas e nos cafés são as discussões doentias sobre futebol, quase sempre distantes do jogo em si, pois fala-se sobretudo de clubes e de árbitros. 

Sim, raramente ouço falar da beleza do jogo, da qualidade técnica dos jogadores ou da sabedoria dos treinadores (ou da falta de ambas as coisas...). 

O amor e o desamor pelos clubes torna impossível a existência de uma conversa normal sobre um jogo de futebol. A "cegueira" e a desconfiança (sempre que uma equipa é beneficiada a primeira coisa que se diz é que "o árbitro estava comprado"...) são mais fortes que tudo o resto.

O mais curioso, é que estas "discussões de café" são alimentadas diariamente em programas transmitidos nos canais de notícias dos principais operadores televisivos, com comentadores que são capazes de dizer hoje uma coisa e amanhã o seu contrário, sem qualquer pudor.

O grave da questão é que esta "clubite", também é, cada vez mais, praticada na política, e pelos próprios dirigentes  partidários (muitos deles também comentadores televisivos, que têm o mesmo comportamento dos seus colegas do desporto, dizem uma coisa hoje e amanhã outra, completamente diferente, como se não existisse memória...

Só assim é que se percebe que quando o líder do maior partido de oposição apoia a existência de "pactos de regime", em áreas sensíveis como a justiça ou a  saúde, defendidas pelo Presidente da República, tenha a oposição de gente do seu partido, que prefere o "bota abaixo", a "intriga" e a "mentira", à defesa dos interesses e das condições de vida dos portugueses e de todos cidadãos que vivem no nosso país.

(Fotografia de Luís Eme - Cova da Piedade)

quarta-feira, janeiro 09, 2019

O Triunfo (cada vez mais evidente) da Mediocridade


Este começo do ano tem sido pródigo em factos, que julgávamos difíceis de acontecer. No entanto aconteceram. E sempre com a televisão a querer fazer o pino (talvez estejam a fazer tudo para sobreviver a este tempo, em que podemos escolher o que queremos ver, e onde já se vê a internet na esquina, a querer tomar conta do "pequeno ecrã", que é cada vez maior e mais versátil...).

Desde a escolha para conversa, num programa matinal de entretenimento, do pior exemplo de um nacionalista (um nazi e bandido confesso...), ao telefonema do Presidente da República, para a apresentadora de um outro programa da manhã que se estreava - concorrente do referido anteriormente -, misturando os gostos do cidadão com os do representante máximo do Estado português. Ou seja, vale tudo na "conquista das audiências" e da "popularidade"...

E como tem acontecido nos últimos anos, a tendência é sempre de descer, de nivelar por baixo, com a desculpa mais que esfarrapada, de que "é disto que o povo gosta"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

sábado, janeiro 05, 2019

Não Sei se Foi um Teste, Mas...


Depois da tentativa de "branqueamento" do ideário fascista, através da figura de um nazista confesso, num dos programas televisivos mais populares, fico com a sensação que há mais gente do que o que parece, interessada (sabe-se lá porquê...) em forçar o aparecimento dos "populismos" que invadem a Europa, neste nosso canto.

Como já perceberam que não vão lá com "coletes amarelos",  utilizam outras "armas", com a conivência de alguns canais de televisão, amantes e defensores da "ideologia", debaixo da largura imensa da liberdade de expressão...

(Fotografia de Luís Eme)

quarta-feira, dezembro 19, 2018

A Cantora de Cabaré da Rua Detrás


Durante anos não se sabia muito bem o que fazia, embora se percebesse à légua que era uma ave nocturna.

Era bonita, dona de uma beleza pouco comum, quase exótica. A brancura e as sombras no rosto não enganavam, o Sol não só não a entusiasmava como não a iluminava...

Lembro-me que durante muito tempo fez parte das nossas conversas de café, também elas nocturnas. A vulgaridade e a sujidade tomavam conta de nós, pouco satisfeitos com o seu mistério. Foi o Alípio que numa noite desvendou o seu quase "segredo", afirmando que ela cantava em bares, e bem, quase sempre coisas da américa, negras e brancas.

Depois descobrimos o seu nome artístico e soubemos mais coisas da sua outra vida como cantora.

Não se incomodava de cantar em lugares onde as mulheres se despiam, com e sem arte, depois da uma da manhã. Em nome da sobrevivência, aceitava todas as oportunidades para cantar, ora com os dois músicos que a acompanhavam, um pianista e um contrabaixista, ora em play back.

Outro dos seus mistérios, era não se conhecer nenhuma companhia masculina ou feminina, para além da mãe e irmã.

Foi também por isso que o poeta da nossa rua um dia  lhe escreveu um poema. Falava da sua solidão e também da sua beleza e maldita sina, de não conseguir sair da escuridão...

(Fotografia de Luís Eme)

sexta-feira, novembro 30, 2018

Um Triângulo Humano que Começa a ser Perigoso...


Como simpatizante do Benfica incomoda-me o triângulo formado entre Luís Filipe Vieira, Rui Vitória e Jorge Jesus.

Muito menos aceito que depois de demitir o treinador, o presidente tenha voltado com a palavra atrás. Até porque Rui Vitória não é o Jorge Jesus...

Ou seja, neste momento não acredito que as coisas melhorem com Rui Vitória. Mas também não acredito que Jorge Jesus seja a solução para o futuro do Benfica (embora goste do futebol praticado pelas suas equipas...).

Começo a acreditar que a solução para os problemas do Benfica passe por uma "terceira via", fora deste triângulo. Um presidente que não seja o "único dono do clube" (nem esteja envolvido em suspeitas de corrupção...) e um treinador que goste de jovens, de ganhar, e não menos importante: que a sua equipa jogue um futebol empolgante, que gostamos de chamar "à Benfica"...

(Fotografia de Luís Eme)

quarta-feira, novembro 28, 2018

Somos o que Somos...


Somos mais de falar que de agir.

Por vezes este comportamento revela-se trágico, como sucedeu há poucos dias em Borba.

No calor da tragédia, fala-se do assunto com gravidade,  procuram-se culpados, enumeram-se mudanças, para  no fim voltar tudo a ficar na mesma.

Além do exemplo da fotografia (gostava de saber porque razão ninguém retira as manilhas dos rios, se já não tem qualquer utilidade...), encontram-se com facilidade coisas mais graves para todos nós. Por exemplo, a "estrada da morte" de Pedrogão já foi esquecida. Todos sabemos que o não falta, de norte a sul, são estradas rodeadas de árvores assim que acaba o alcatrão, mesmo das "perigosas", os famosos eucaliptos (com muita publicidade "positiva" paga...) e pinheiros...

Somos o que somos, infelizmente (devia dizer, tristemente ou miseravelmente...).

(Fotografia de Luís Eme)

quinta-feira, novembro 22, 2018

A "Fabricação Gratuita de Personagens"...


Depois de falar alguns minutos com uma pessoa que apenas conhecia de vista, sobre um episódio da história de Almada, ela antes de se despedir, disse-me que eu não era a pessoa de quem lhe tinham falado, uns dias antes. E com alguma lata ainda me piscou o olho e ofereceu-me um sorriso, dentro de uma despedida com até um dia destes.

Hoje telefonou-me e disse que precisava de saber mais umas coisas para a sua tese, misturadas com um café.

Disse-lhe que sim. Amanhã.

E depois fiquei a pensar em alguns "inimigos de estimação" que vou tendo por aqui, a quem não passo qualquer cartão. E segundo o Orlando, é das coisas mais parecidas com "sarna", faz uma comichão do caraças.

(Fotografia de Luís Eme)

sexta-feira, novembro 09, 2018

«Lembrem-se sempre, que a cultura faz bem à alma»


As culturas e as artes quando se discutem, quase como o futebol, são mais problemáticas do que o que parece, por vezes só falta mesmo voarem as "cadeiras do costume".

Há quem pareça ter saudades do século XIX e da primeira metade do século XX, em que o mundo das artes estava ao alcance apenas de uma minoria instruída e cultivada, como o Rui.

Não valeu de nada dizer que o teatro amador já existia no século XIX, muitas vezes interpretado por homens e mulheres analfabetos, que decoravam os textos oralmente... Muito menos que as coisas da cultura sempre foram apelativas e que não foi agora que se "inventou" gente sem jeito, a querer ser o que não é...

O Ricardo falou do futebol do tempo do avô, que quase não tinha espectadores, porque o que toda a gente queria era jogar... e acrescentou, que daqui a uns tempos os "saramagos, os "pomares" e os "cintras" se iam cansar, de escrever, de pintar ou de teatrar.

Nenhum de nós acreditou muito nisso. 

Percebe-se que estamos a passar por um retrocesso civilizacional na sociedade, além da falta de sentido estético e crítico, há sobretudo falta de rigor e de pudor.  Foi por isso que o Gui disse, que nunca se viveu tanto na "mentira" como hoje (sem  falar em "trumpadas"...). E foi ainda mais longe que qualquer um de nós: «já repararam que nunca foi tão fácil copiar e roubar o trabalho dos outros? Vai-se à internet e rouba-se um texto alheio e finge-se que é nosso com a maior das descontracções. Sem sequer ter de se escrever nada, é só copiar e colar.»

Foi quando o João acalmou a mesa: «lembrem-se sempre, que a cultura faz bem à alma.»

O mais curioso, é que depois desta conversa, atravessei o rio e já no centro de Almada, descobri a exposição de que falei ontem. 

E todos aqueles trabalhos artísticos, feitos por pessoas com deficiência, têm de ser entendidos como uma coisa boa (sem pensar em ética e estética...). O João tem toda a razão: a Cultura faz bem à Alma...

(Fotografia de Luís Eme)

sábado, outubro 27, 2018

(A Segunda Despedida à Francesa)


E agora a segunda e última despedida à francesa, que coincide com o fim da história...

«[...] Ao olhar para a paragem da camioneta de carreira, houve algo que lhe chamou a atenção. Aproximou-se e descobriu um cartaz teatral no mínimo curioso, que disputava o espaço publicitário com o anúncio descolorido de uma tourada do ano passado. Sem saber explicar porquê achou piada ao título da peça de teatro, “A Mulher que Falava com os Morcegos”. Podia ser apenas uma piada, mas pensou que era capaz de não ser má ideia aparecer por lá no começo da noite e conhecer esta personagem curiosa.
As sete pancadas de Molière anteciparam a entrada de uma actriz no palco, que descobriu que ia andar por ali, quase uma hora, a falar com as sombras…
O mais engraçado foi descobrir que o monólogo era interpretado por uma cara conhecida. Nada mais nada menos que a Eva, a “conversadora do café”. Embora a personagem se chamasse Laura e a actriz do cartaz fosse identificada como Cristina Nunes...
Não morria de amores pelo género teatral que ficava entre o absurdo e o intelectual, mas sentiu-se bem na sala. A espaços encontrou aquela magia que de vez em quando surge nos palcos. Acabou por ficar agradado, por que havia por ali uma autenticidade diferente, virada do avesso, com várias nuances, com a Laura a movimentar-se muito bem, quase como se estivesse num baile de máscaras.
Percebeu ao longo da quase uma hora, que ela era uma boa actriz.
E até tiveram um momento só deles, quando ela parou de representar por breves segundos.
Aproximou-se da ponta do palco, olhou para ele por mais de um segundo e sorriu. Depois fez um pequeno silêncio e disse, completamente a despropósito, apontando para cima: “Ele veio”… Embora estremecesse com a surpresa, fingiu o melhor que pôde, que não tinha nada a ver com aquele assunto. Os espectadores da plateia, por distracção ou desatenção, também de comportaram como se aquela frase curta fizesse parte do acto. E ainda bem.
No final houve muitos aplausos, Laura veio três vezes ao palco agradecer a generosidade do público beirão, que acabou a bater palmas de pé.
Se fosse numa outra cidade e numa outra vida, tinha passado pelo camarim, para lhe deixar flores e oferecer um sorriso, agradado pelo espectáculo e até pela pequena referência.
Mas preferiu imitá-la e fazer o que ela lhe tinha feito no café, nada mais nada menos, que o que alguém, para os lados de Paris, popularizara como “despedida à francesa”…»

(Fotografia de Luís Eme)

sexta-feira, outubro 26, 2018

(A Primeira Despedida à Francesa)


Como expliquei na resposta a um comentário, o conto que escrevi para o livro, "Contos do Portugal Profundo", é grandito. Mesmo assim resolvi ir ao encontro de duas frequentadores dilectas do "Largo", que mostraram interesse em ler a história, publico aqui os dois momentos que acabaram por contribuir para o título da ficção ("Despedidas à Francesa num Outro Portugal"). Um hoje. E outro amanhã...

«[…] Na Vila perdeu-se um pouco pelas ruelas, quase desertas, até que entrou num café, decidido a petiscar qualquer coisa. Um dos pratos do dia era ervilhas com ovos escalfados, algo que não comia há muito tempo. Não pensou duas vezes na escolha da ementa.
No final, quando saboreava o café, foi surpreendido pelo olhar vivo de uma mulher da sua geração, cujas rugas indiciavam que poderia ter um ou dois anos a mais que ele. Mas ela não se limitou a olhar, foi-se aproximando e fez-se mesmo convidada para um café, como se estivessem numa daquelas casas onde os homens pagam bebidas às mulheres.
Ao perceber que ele não estava com muita vontade de falar, fingiu não se preocupar e fez quase todas as despesas da conversa. Esperta, começou por o provocar e fazer sorrir, quando tentou certificar se o gato da vizinha Aurora também lhe comera a língua.
Disse ser uma Eva e quis saber quem era ele. Ofereceu-lhe o segundo nome, Manel, o que foi aproveitado para ela misturar logo um pincel na conversa, em mais uma tentativa de deixar mais à vontade.
Naquele momento não sabia muito bem o que pensar da mulher, com o tal nome original que alguns homens fingem acreditar, que foi uma criação por Deus… Mas era impossível passar ao lado da sua lata…
E ela lá continuou a falar sem parar. Queria saber coisas do homem que se ia tornando um mistério, por não lhe dizer praticamente nada do que lhe apetecia ouvir. Foi quando Eva lhe explicou que podia mentir, inventar uma vida, acrescentando que às vezes era uma boa maneira de se sonhar acordado. E sem deixar que a interrompesse afirmou que todos mentimos, todos escondemos alguma coisa. Foi quando ele sorriu de novo, por ser verdade e também por ter à frente uma mulher que parecia não desistir às primeiras às segunda e às terceiras.
Talvez fosse professora de filosofia, ou então psicóloga, daquelas que fartas de ouvirem as histórias dos outros, se resolvem libertar nos lugares mais insólitos e oferecer quase todas as palavras do mundo a desconhecidos.
Ela insistiu e foi ainda mais longe na descodificação que fazia da natureza humana. Falou do medo, da impotência, da solidão, da perda… Metia-se com ele, talvez por sentir que ele fingia não ser grande adversário, E era verdade. Naquele momento estava ali sentado, com a mesma sensação de estar a assistir a uma peça de teatro ou a um filme. E como sabia que o silêncio era de ouro nos momentos em que a arte se confundia com a vida, não perturbava nem um pouco o “monólogo” da Eva…
Numa última tentativa de lhe arrancar alguma coisa dos bolsos de dentro, onde se escondem os sonhos e pesadelos, Eva contou algo que, segundo as suas palavras, nunca tinha dito a ninguém. Pensava cada vez mais vezes que talvez tivesse sido melhor ter uma vida calma, de ser apenas mãe e dona de casa. Ter uma vida mais parecida com a da avó que com a da mãe, que também teve de trabalhar a vida quase toda fora de casa… E foi ainda mais longe. Olhou para outra mesa mais distante, com dois adultos e duas crianças, e falou-lhe de uma família, que poderia muito bem ser a sua, se…
 Foi o único momento em que se sentiu quase obrigado a dizer alguma coisa. Com um sorriso leve afirmou que adoramos desculpas, quando todos estamos sempre a tempo de mudar. Sem se deixar interromper, disse que a vida tem o condão de nos oferecer mais que um caminho, tanto podemos dar um passo em frente, dois para o lado ou um para trás.
Depois das suas palavras apareceu o silêncio. Os segundos que se seguiram pareceram minutos. Foi como se ele quebrasse a magia do “monólogo” anterior.
Foi neste momento que Eva fingiu ir à casa de banho e desapareceu.
Só dez minutos depois é que percebeu que ela não ia voltar… Ainda ficou por ali a pensar, pelo menos outros dez minutos, novamente com a máquina do tempo a fazer marcha atrás, e sem grande esperança de a voltar a olhar.
O mais curioso foi ter gostado de a conhecer, mesmo que soubesse que era provável nunca mais se encontrarem, em qualquer parte incerta, porque como lhe confessou, quando ensaiou a despedida, estava ali apenas de passagem. Depois ela desculpou-se, quase à homem, que ia fazer uma “mija” e já voltava.
Mas desapareceu…
Talvez fossem as suas palavras que quebraram a magia da conversa, comandada pela mulher, do início ao fim.
Foi acordado nas suas deambulações pelo olhar de uma outra mulher, que entrou à procura de alguém e saiu. Sorriu novamente, mais pelo presente que pelo passado, porque há muito que não o olhavam de uma forma estranha, e muito menos se faziam convidados para a sua mesa. [...]»

 (Fotografia de Luís Eme)

terça-feira, outubro 16, 2018

A Memória de um Amor Salgado...


«Esforçava-se e conseguia, mas sempre por pouco tempo.

Era por isso que tentava aproveitar da melhor maneira os escassos minutos em que conseguia recordar, muitas das partes boas da vida que partilhara com Helena... 

O que lhe surgia com mais cor e movimento eram os passeios que os levaram a tantos lugares. Fechava os olhos e voltava quase ao paraíso. Era como se a sua vida tivesse sido só viajar...

Uma dos sítios onde regressa quase sempre, é ao Mar, à primeira vez que a levou a ver o Oceano, em pleno Inverno. Foi uma surpresa boa porque Helena só conhecia o Mar do Verão, da praia cheia de barracas, chapéus de sol, toalhas, e claro, da imensidão de corpos, praticamente nus e bronzeados. 

Desconhecia por completo a sensação de ter uma praia só  para ela, a possibilidade de escutar aquele mar irritado e teatral, que gritava e barafustava de uma forma única. E se nos aproximássemos mais do que a conta, presenteava-nos com farripos de água, mais suaves e agradáveis que a chuva "molha-parvos", perfumados de sal.

Arrepia-se quando recorda aquele frio, que os abraçava de uma maneira única.»

(Fotografia de Luís Eme - pedaço de uma ficção pura para o conjunto de histórias, com gentes que nunca conheci...)

sábado, outubro 13, 2018

As Vaidades e os Masoquismos dos Governantes


Desde o início que se percebeu que o ministro da Defesa, não tinha nada que ver com aquela pasta e com aquele mundo (provavelmente a escolha do primeiro-ministro já foi feita com esse sentido, para que se fingisse que se fazia alguma coisa, sem se fazer coisa nenhuma...).

Mas os imponderáveis, como o "roubo de Tancos", são tramados...

Só não percebo é porque razão as pessoas (muitas mesmo...) aceitam ser ministros, de matérias que desconhecem, e não demonstram grande interesse em conhecer, para lá dos "dossiers"... Se calhar até percebo: a vaidade de um dia se ser ministro de qualquer coisa, ultrapassa todas as lacunas, possíveis e imaginárias, especialmente num país que continua a viver sobretudo das aparências.

E quem normalmente acaba por ser prejudicado com todos estes "jogos políticos", somos nós, portugueses...

Também não entendo por que razão, os ministros não abandonam os cargos, quando toda a gente percebeu (até eles...), que estão ali a mais. Parece que preferem ser "queimados vivos", como é a vontade do primeiro-ministro, que só aceita demissões, depois dos seus "muchachos" estarem bem "chamuscados" (sim, que este caso, é apenas uma repetição do que se passou com a ministra da administração interna).

(Fotografia de Luís Eme)