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quinta-feira, agosto 15, 2019

O 15 de Agosto...


O feriado de 15 de Agosto ainda continua associado à Feira Anual  das Caldas da Rainha (que ainda se realiza, apesar de ter perdido o brilho de outros tempos...), pelo menos na minha cabeça.

Feira que fez parte da minha meninice, com o circo, o poço da morte, os carrinhos de choque, os carroceis, 0 algodão doce, as barracas de farturas e até os vendedores de quinquilharias...

(Fotografia de Luís Eme - Manta Rota)

quarta-feira, agosto 07, 2019

«Mau mau é quando as coisas, pequenas e grandes, deixam de nos incomodar.»


Eu sentia que ela combatia a indiferença com quase todas as forças que lhe restavam.

Ainda não perdera o hábito de viver os "problemas dos outros como seus". Mas pelo menos já não tentava resolvê-los... claro que falo dos que lhe eram quase distantes.

Estranhamente gostei de a ouvir dizer: «Mau mau é quando as coisas, pequenas e grandes, deixam de nos incomodar.»

Sim, ela queria dizer, entre outras coisas, que continuava tudo bem arrumado na sua "caixa dos pirolitos" (sempre achei graça a esta expressão). 

E com tantas primaveras em cima do corpo, ainda não se cansara de dizer, que nós não somos ilhas isoladas...

(Fotografia de Luís Eme - Alcafozes)

segunda-feira, agosto 05, 2019

A Criatividade e a Influência Musical do Zeca e do Pedro


Zeca Afonso fez noventa anos no dia dois deste mês. 

Falou-se e escreveu-se muito do seu património discográfico (para uns tantos perdido, para outros esquecido ou abandonado, mas eu acho que não, deve ser sim, um daqueles "tesouros" muito bem guardados no cofre de alguém...), até se fizeram as petições do costume, para que a obra do Zeca fosse classificada de interesse nacional. Algo que me parece um pouco inconsequente, pois se há obra musical que sempre teve e tem interesse nacional, será a de Zeca Afonso.

Como continuamos a não saber o que se passa no "lado de lá do mundo", talvez até seja possível que o Zeca, escreva e cante, sobre aquilo que lhe querem dar agora (e "panteão" rima com tanta coisa...) que ele não está por cá, para receber... E também já deviam saber que o Zeca não gosta nada dessas coisas. 

Para o conhecermos bem basta escutarmos atentamente as letras das suas canções. Fazia-nos melhor escutar os seus poemas que pedem revoluções, que assinar petições.

Mas nem era sobre isso que queria escrever...

Três dias antes do dia de aniversário do Zeca, Pedro Ayres Magalhães fez sessenta anos.

Continuo a pensar que o Zeca e o Pedro são as pessoas mais importantes do panorama musical dos últimos cinquenta anos, não só pelo que criaram, mas muito pelo que influenciaram. Curiosamente, ou não, exerceram a sua influência em espaços musicais completamente diferentes.

Se o Zeca aos noventa anos de idade, já está próximo de ter conquistado a "unanimidade" (o que quer que isso seja...), o Pedro ainda está muito longe desse patamar. Mas eu sei que ele irá lá chegar. Deixo aqui algumas das suas palavras, ditas numa entrevista ao jornal "I" (que falam um pouco do que escrevi):

«Eu senti a solidão de ser português quando era adolescente, nos anos 70. E o que me fazia impressão em Portugal era ninguém se relacionar com esse problema. Por isto sentia falta de pensar, de teorizar. Encontrei a resposta a escrever canções sobre a saudade, sobre o que somos como portugueses, tanto nos Heróis do Mar como nos Madredeus. Os Madredeus não foram bem entendidos, mas amanhã, quando as pessoas estiverem ainda mais insatisfeitas com o presente, irão pesquisar e nessas pesquisas vão encontrar a história, muito bonita, de uma banda que cantava sobre o ser português e que foi tocar essas palavras a todo o mundo.»

Há ainda outra coisa que une o Pedro ao Zeca, bastante importante: nunca se "venderam", nem cederam à nossa maneira pequenina de se estar na cultura (e nas outras coisas, claro), sempre que podiam passavam ao largo das "capelinhas" do costume.

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)

quinta-feira, junho 13, 2019

A Fotografia é Muito Mais que uma Simples "Fábrica de Nostalgia"...


Embora tenha gostado de ler a crónica de António Araújo no "Diário de Notícias" (8 de Junho...) sobre fotografia, com o bonito titulo, "Fábrica de Nostalgia", sei que a fotografia, felizmente, é muito mais (ou pelo menos quer ser...) que a fábrica de nostalgia "pintada" pelo António - graças a um livro -, que todos os que gostamos de imagens, conhecemos. Porque a fotografia não nos oferece apenas olhares humanos, também nos oferece lugares...

Digo isto porque no domingo passado estava sentado numa esplanada a beber café com a minha companheira (almadense de gema, ao contrário de mim...) e perguntei-lhe se ela se lembrava de como era aquela praça, antes as obras profundas de beneficiação, já com umas duas décadas.

Eu não tinha uma ideia precisa do local. Lembrei-me que uma das primeiras vezes que passei por ali (ainda não morava em Almada...), a praça estava diferente do "formato" habitual, porque era palco de um dos bailes dos santos populares. E também porque era de noite, o que limita sempre bastante as vistas...

Mas a pouco a pouco fomos recordando pequenas coisas, o piso anterior, as escadas que nos levavam ao jardim... E depois começaram as dúvidas. Antes da construção das galerias comerciais existia apenas um muro e arbustos? O espaço seria todo amplo?

Foi quando disse que não há nada como as fotografias para nos trazerem o passado de volta, para nos ajudarem a "reconstruir" os lugares que conhecemos, tal qual como eles eram, com ou sem nostalgia...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)

quinta-feira, junho 06, 2019

O Meu Amigo, Filho do "Belarmino"...


Estive com um amigo que não via há mais de uma dúzia de anos.

Acabámos por falar sobretudo da nossa juventude. Do nosso bairro, das nossas "patifarias" de adolescentes, dos nossos amigos e também da nossa família, dos nossos irmãos e pais. A Foz do Arelho também não faltou, não fosse ela a praia da nossa vida...

Ou seja, falámos sobretudo do passado. Não dissemos uma palavra sobre os nossos filhos e companheiras. Só quando vinha de cacilheiro para a Outra Banda é que pensei no assunto. 

Pois, o presente é outra coisa, onde só nos encontramos por acaso...

Os nossos pais já partiram, sobram as mães, que são amigas, apesar da distância geográfica que as separa (penso que continuam a falar ao telefone...). Quando lhe falei no pai e das confusões que gostava de armar quando bebia mais que a conta (o seu lado texano de gostar de virar homens e bares de pernas para o ar...), ele continuava a não se sentir nada orgulhoso, desse lado quase negro paterno. Recordei que na época nós delirávamos quando sabíamos o que acontecera na noite anterior na tasca do Alfredo, ele nem por isso... O pai só se "curou" destas aventuras (que chegavam a meter polícia e tudo...) quando conseguiu deixar de beber.

Mas a sua lenda continua viva. Não deve haver ninguém do nosso antigo bairro que não conheça o poder dos punhos do "Belarmino" (não fazemos ideia de quem lhe ofereceu esta alcunha, que deve ter tudo a ver com o filme de Fernando Lopes...). 

A componente mítica é de tal forma forte, que hoje até há quem associe todas estas aventuras ao "herói" do filme do bom do Lopes, e não ao pai do meu amigo, mesmo que Belarmino Fragoso nunca tenha passado pelas Caldas...

(Fotografia de Luís Eme - Foz do Arelho)

sábado, maio 11, 2019

«Eles levam é jeito para o teatro»


Dois rapazes sentados no interior da cacilheiro, acompanhados por uma senhora, que devia ser a avó, estavam longe de imaginar que eu iria escrever utilizando-os quase como "espelhos". Tudo porque uma outra senhora, sentada à sua frente, para combater o silêncio, disse que eles eram muito sossegados... 

A avó sorriu e abanou a cabeça, a dizer que não. Acrescentando de seguida, sem perder o ar alegre: «São o cão e o gato lá de casa. Eles levam é jeito para o teatro.»

Olhei-os e sorri. Eles desviaram a cara para a janela e para o rio e disseram alguma coisa um ao outro, como se aquele diálogo não tivesse nada que ver com eles.

E de repente, ali estava eu e o meu irmão. O "cão e o gato" das redondezas (passávamos o tempo a correr um atrás do outro...), mas sempre com grande compostura, quando estávamos num ambiente estranho. O que fazia com que as pessoas também dissessem que éramos muito sossegados. A mãe sorria, mas muitas vezes não respondia e fingia que sim... até por que gostava da nossa postura, de nunca a envergonharmos em público.

Pois é, nesse tempo, também devíamos "levar jeito para o teatro"...

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)

quinta-feira, maio 09, 2019

A Ficção Dentro dos Sonhos...


Normalmente os meus sonhos não têm grande nexo, nem são muito fáceis de "colar" à realidade.

Curiosamente esta última noite aconteceu-me uma coisa inédita. Sonhei uma ficção, com uma nitidez que até me forçou a acordar, para a deixar registada em papel (não a queria perder por nada...).

Vou contar: vejo-me a entrar no portão da velha casa dos meus avós maternos e depois continuei a andar, pela casa dentro. Sou surpreendido por um homem, a quem me desculpo pela "invasão", dizendo que aquela era a casa dos meus avós... Foi quando resolvi acabar com o sonho.

O curioso é tratar-se de uma impossibilidade, pois a casa nunca foi habitada por ninguém, depois de a avó ter ido viver para a casa de um dos meus tios... E posteriormente foi destruída pelos novos proprietários (centro paroquial...) e hoje é um campo aberto.

(Fotografia de Luís Eme - Salir de Matos - a última vez que entrei na casa dos meus avós, em 2010. Já não nos pertencia e estava em ruínas. Mesmo assim acabei por entrar  para tirar as suas últimas fotografias...)

domingo, maio 05, 2019

"Por Teu Livre Pensamento"


Hoje não visitei o Oeste apenas por ser "Dia da Mãe".


Antes de almoçar com a minha Mãe e com o meu Irmão, nas Caldas, passei por Peniche, onde visitei o agora Museu Nacional da Resistência e Liberdade. 

Museu que combina muito melhor com o velho Forte de Peniche, que uma qualquer Pousada de luxo... 

E de alguma forma também homenageei o meu avô paterno,  neste visita, pois ele é um dos 2510 prisioneiros que são evocados no paredão metálico, com a gravação dos seus nomes...

(Fotografias de Luís Eme - Peniche)

quinta-feira, abril 25, 2019

O Dia que Começa a Ser Apenas uma Boa Memória...


Tudo arrefece, até as comemorações dos dias bonitos e felizes, como foi o memorável 25 de Abril, magnificamente caracterizado pela nossa poeta maior, Sophia de Mello Breyner Andresen.

Claro que me faz confusão que este dia ainda não seja de todos (claro que não estou a falar da gente que fugiu para Espanha e para o Brasil...), que 45 anos depois ainda existam manobras divisionistas, quase sempre partidárias. Algo que se nota mais do que devia, um desses exemplos é Almada.

Apesar destas pequenas coisas continua a saber bem dizer, em conjunto, com gritos ou não, "25 de Abril Sempre!", ou desejar feliz dia da Liberdade, como desejei à minutos aos meus cunhados...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)

quarta-feira, abril 24, 2019

O Dia que Ainda Não É...


O 24 de Abril na actualidade é sobretudo um dia de antecipações de festas por todo o País (entre nós joga-se muito na "antecipação", para ficarmos primeiro na fotografia que os outros...).

Mas há 45 anos a história era muito diferente...

Ao contrário do que por vezes se diz por aí, a preparação da Revolução foi um segredo muito bem guardado. Isso ficou a dever-se em grande parte ao facto de ter sido protagonizado por militares, que normalmente são disciplinados e têm um sentido de honra diferente do comum dos mortais. Por outro lado sabiam o que estava em risco, caso falhasse a tentativa de Golpe de Estado. Pelo que quanto menos pessoas soubessem e estivessem envolvidas melhor (especialmente para elas). 

Mesmo no dia 25 de Abril havia alguma desconfiança, pelo menos nos sectores mais politizados, pois não sabiam muito bem se o golpe era democrático ou da extrema direita (Kaúlza de Arriaga conseguia estar à direita do regime...). Foi por isso que houve quem se mantivesse na "clandestinidade" por mais alguns dias, e até meses...).

Ou seja, o dia 24 de Abril de 1974, para a maioria dos portugueses foi um dia igual aos outros. Tanto para quem ouvia as "conversas em família" como para quem conspirava contra a falsa "primavera marcelista".

A DGS continuou a perseguir e a querer prender "comunistas"... e os antifascistas continuaram a tentar antecipar os seus passos, fugindo sempre que podiam...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

sábado, abril 13, 2019

«Não. Não esqueceram. Só não gostam é de recordar»


Quase na continuação da conversa de que falei ontem, também falámos da "memória", da forma como seleccionamos as coisas que fazem parte do nosso passado.

Penso que se trata de uma selecção natural, muitas vezes feita de forma inconsciente.

Mas mesmo se for consciente, não deixa de ser normal. Todos nós sabemos que nos faz sempre melhor, recordar as coisa boas, que os episódios negros da nossa vida.

Quando lhe perguntei se os "tempos difíceis" estavam esquecidos, ele disse-me o óbvio: «Não. Não esqueceram. Só não gostam é de recordar.» Acrescentando ainda, que fazem muito bem.

(Fotografia de Luís Eme - Sobreda)

sexta-feira, abril 12, 2019

Cinquenta Anos são Pouco Tempo...


Uma das pessoas com quem gosto de conversar é um professor-poeta, que embora esteja reformado há já bastante tempo, sempre que nos encontramos, oferece-me lições de qualquer coisa, e sem perder o gosto de ouvir o outro, o que começa a rarear nestes tempos de "surdez colectiva"...

Normalmente falamos das pessoas, tentamos justificar comportamentos. E nunca é difícil encontrar explicações, mesmo que por vezes passem um pouco ao lado deste mundo, com tanta gente tonta (prefere chamar tontos aos loucos...).

Foi nesta viagem pelo tempo, que ele me fez um esboço do nosso país antes da Revolução de Abril. Falou-me das pessoas que nasciam, cresciam e viviam de uma forma completamente miserável. Das aldeias pobres, onde não havia electricidade, água canalizada, esgotos (a maior parte das casas nem sequer tinham casas de banho...), escolas ou centros de saúde. Dos "bairros de lata", sem condições mínimas de habitabilidade, que cresciam nos subúrbios das grandes cidades, principalmente em Lisboa.

E depois disse-me que cinquenta anos são muito pouco tempo para que pessoas, que viveram em condições tão difíceis, possam ter evoluído, ter cultivado o gosto pelas coisas que realmente interessam na vida. E ainda se torna pior se viverem num tempo em que o dinheiro está no começo e no fim de tudo...

Respondi-lhe que a minha geração e as seguintes já cresceram em liberdade, e por isso, devíamos ser diferentes.

Pois, mas nada é perfeito, disse-me ele. Acrescentando que continuam a nascer demasiadas coisas tortas à nossa volta. E como diz o povo, muito bem, o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)

terça-feira, abril 02, 2019

Uma Notícia de Jornal Amarelecida Levou-nos de Viagem pelas Nossas Memórias...


Quem diria, que um artigo de jornal quase antigo, nos iria levar de viagem, dentro da nossa infância...

Falaste da feira popular, do "comboio-fantasma", da "casa dos espelhos", que nos transfigurava. Em relação ao comboio, quando "viajei" nele, já devia ser quase adolescente, pois não senti medo nem me assustei com as "aparições" (ligeiramente manhosas...) de esqueletos e de outros adereços.

Falaste-me de uma mulher cheia de pelos. Eu nunca vi nenhuma "mulher-barbuda" ou um "homem-elefante", nas feiras que percorri de mão dada com os meus pais ou em correrias, com o meu irmão.

As únicas excentricidades humanas que me lembro de ver foram o homem mais alto do mundo, que estava acompanhado por uma trupe de anões (um deles diziam ser o mais pequeno do mundo). Ao contrário dos "pequenotes", demasiado "eléctricos", o gigante mexia-se com dificuldade, como se estivesse preso com arames. Era negro, de Moçambique (não me apeteceu ir à procura do seu nome na "nova enciclopédia"...) tinha uns sapatos que pareciam dois caiaques, achatados, e uns braços caídos, que quase lhe chegavam aos joelhos. Recordo-me que não era nada assustador. Até tinha cara de boa pessoa...

(Fotografia de Luís Eme - Corroios)

terça-feira, março 19, 2019

Querer Trocar um Olhar e um Sorriso...


Acho que nunca falei aqui do meu Pai, ou se falei, foi de uma forma quase invisível.

E aqui há três ou quatro dias, escrevi algumas frases no meu bloco de todas as horas, num daqueles períodos, em que estamos a olhar para essa coisa gigantesca, que é o "nada". Pensei que num dia de mais inspiração, podia transformar estas palavras num poema...

«Lembro-me de ti. 
Tenho saudades.
Apetecia-me ver-te, poder dizer-te, olá!
Não precisávamos de falar, Pai.
Só precisávamos de trocar um olhar e um sorriso...»

No domingo fomos passear em família. A fotografia que publico é do meu filho, que tem uma relação com as alturas parecida com o avô. Até lhe contei um episódio, em que eu o meu irmão e ele fomos às pinhas (das boas, as que têm pinhões...). Nós tínhamos vinte e muito poucos anos e ele cinquenta e qualquer coisa. O que é certo é que foi ele que se descalçou e trepou até quase ao cruto do pinheiro enorme, deixando-nos  cá em baixo, quase de boca aberta. 

Nós que fazíamos desporto e gostávamos de aventuras...

(Fotografia de Luís Eme - Alcácer do Sal)

quarta-feira, março 06, 2019

A Descoberta das Linhas do Horizonte...


Devia ter uns cinco, ou seis anos, quando consegui agarrar uma das minhas primeiras memórias do encantamento, graças às linhas do horizonte, que era possível descobrir na parte superior da Ambrósia, a maior, e melhor, fazenda do meu avó materno.

Naquele dia olhei pela primeira vez com olhos de ver os montes, que se sobrepunham, quase como se fossem escadas, ao longe. Nas suas cotas era possível descobrir vários moinhos de vento, que eu me entretinha a contar, de uma ponta a outra (sei que eram mais de meia-dúzia e segundo o avô ficavam na Serra do Bouro...).

Mas havia ainda outro pormenor, quase nos limites do horizonte, que descobri mais tarde, com a ajuda do meu irmão. Se o dia estivesse inteiro e limpo, havia um lugar (tínhamos de descobrir o sítio certo...) que nos permitia ver o azul do mar, quase por uma nesga, da bela baía de São Martinho do Porto.

Lembrei-me deste episódio, quando estava a escrever ontem, sobre a quase "incapacidade" de olhar para o que nos rodeia, com encantamento...

(Fotografia de Luís Eme - Côto)

quarta-feira, fevereiro 27, 2019

Quando era Tudo a Brincar...


Embora nunca tenha ganho o totobola, quando os boletins tinham 13 jogos, nunca me dei mal com este número, que dizem ser do azar, nem deixei de gostar de me cruzar com gatos pretos, aqui e ali.

O que é mais curioso, é dizerem-se tantas coisas, tal como o seu contrário, nesta espécie de "corredor místico", ao ponto de tornarem a vida um tanto ou quanto difícil para os supersticiosos. 

Acho piada aos desportistas, que não só se benzem, como fazem questão de entrar nos estádios, nas pistas e nos pavilhões, com o pé direito. Quando fazia desporto nunca liguei a esse pormenor... Nem me lembro de ver companheiros a benzerem-se, antes dos jogos ou das corridas. Talvez fosse tudo demasiado a brincar, que nem sequer sentíamos necessidade (e vontade) de "apelar aos deuses", esses eternos distraídos.

Pois foi, encontrei um amigo que não via há mais de duas décadas. Recordámos algumas aventuras desportivas, e pessoas... Tanta gente amiga que resolveu passar na nossa mesa e dar-nos um olá.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

segunda-feira, fevereiro 18, 2019

Os Tempos em que Não Existimos...


«São mais, muito mais do que pensamos, os tempos em que não existimos.»

Ainda repliquei que existimos sempre, apenas fingimos que não estamos cá. Nada que convencesse a Rita, que hoje estava diferente, demasiado melancólica para o meu gosto.

Esperava que ela fosse mais longe, mas não. Não lhe apeteceu falar dos seus problemas. Podiam ser coisas de casa, coisa do trabalho... ou deste tempo, do céu cinzento, que nunca fez bem a ninguém.

Depois, já no cacilheiro, senti que ela tinha razão. Há períodos das nossas vidas que estão pintados de branco, onde parece que não se passou nada... pelo menos, marcante, algo que permanecesse na "arca das memórias"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

quinta-feira, fevereiro 14, 2019

A Crueza da Vida que Vem Dentro dos Livros...


Muitos romancistas gostam de falar da ficção como algo tão rico, que consegue superar a própria realidade. 

Percebo que quem não escreva, tenha alguma dificuldade em perceber isso. Os mais cépticos até poderão pensar que se trata de mais uma "ficção". Mas não, quando se inventa uma história, podemos e devemos ir sempre mais longe que na "vidinha", penetrar pelas zonas escuras, abrir portas e janelas, ir ao mais fundo de cada um de nós...

Lembrei-me disto a propósito da última conversa que tive com um amigo, solteirão e bem parecido, já reformado que vive sozinho, se esquecer o seu querido cão.

Não lhe fiz perguntas, até por não andar à procura de nenhuma personagem parecida com ele. Foi ele que quis desabafar, ir à procura da vida que deixara para trás. Percebi que há muitas coisas que ele não sabe explicar, mas também não quer pedir ajuda ao Freud ou a outro estudioso das tais "áreas cinzentas", que tentamos fingir que não existem.

Falou-me do pai, que morreu novo. De ele ser desde muito cedo, o principal sustento da família. Do medo de ter a sua própria família, de nunca ter pensado a sério em ter filhos. Os irmãos mais novos tinham sido uma chatice... De nunca ter tido problemas em arranjar namoradas. De se ter apaixonado duas ou três vezes, sempre pelas mulheres erradas (já eram de outros...). Uma delas ainda o partilhou durante algum tempo, mas ele nunca se sentiu bem na pele do "outro". E acabou tudo quando ela ficou grávida do primeiro filho. Ainda hoje consegue "inventar" parecenças no tal rapaz, que hoje é um homem maduro... 

Antes de nos despedirmos disse-me, com um sorriso, que me contara coisas, que nunca dissera a ninguém.

Sem ele saber, ofereceu-me bastante "material" para compor uma personagem.

E sei que se escrever sobre alguém parecido com ele, posso ir ainda mais longe, porque não estarei a referir-me a ninguém em especial...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)

domingo, janeiro 27, 2019

Olhar para Dentro e para Fora dos Estádios...


Os campos de futebol sempre foram lugares especiais. Antes da Revolução de Abril, eram os únicos lugares onde se podia insultar quem quer que seja, sem sofrer qualquer tipo de represália.

Sei do que falo, porque visitei o velho Campo da Mata, das Caldas da Rainha com seis anos, de mão dada com o meu pai (1968, 1969...). Nunca antes tinha assistido a um espectáculo do género. Algumas pessoas até eram capazes de pensar que fazia parte do bilhete de ingresso, encher o campo de insultos e palavras feias, a partir das bancadas, dirigidas quase sempre para o árbitro, fiscais de linha e os jogadores adversários.

Felizmente o meu pai fazia parte de outro filme, talvez por ser mais de interiorizar que de exteriorizar as emoções. E eu segui o seu exemplo. Posso dizer com algum orgulho, que nunca fui a um estádio para insultar quem quer que fosse...

Quando ia ao futebol, ia à procura de algo que raramente encontrava, o chamado "futebol espectáculo", com beleza e emoção. Senti essa emoção sobretudo durante a adolescência (o período em que acompanhei mais os jogos de futebol do Caldas e fazia quase "claque" com os meus amigos...) e nos chamados jogos grandes no Estádio da Luz, em que o Terceiro Anel tanto abanava como tremia (abanava mesmo com o bater de pés dos sócios e também  ficava mais pequeno quando o Benfica perdia...).

O jornalismo desportivo roubou o adepto  fez com que assistisse aos jogos com outro olhar (o mais curioso, é que isto aconteceu naturalmente...). E depois deixei mesmo de visitar os estádios (nos últimos vinte anos devo ter assistido ao vivo a três ou quatro jogos de futebol, o último dos quais foi muito bom, quando na época passada voltei ao Campo da Mata, na companhia do meu irmão, para ver o meu Caldas passar às meias-finais da Taça de Portugal...). Embora também deva confessar, que não consigo estar muito atento aos jogos de futebol nos estádios. As reacções das pessoas (até mesmo as insultuosas...) distraem-me com grande facilidade e perco-me mais pelas bancadas que pelo relvado...

Mas não é apenas por isto que não vou aos estádios. Embora reconheça que os jogos do campeonato português são demasiado pobres, tanto em jogo jogado como em emoção. Foi o jornalismo que fez com que conhecesse o pior lado do futebol. O lado da "vigarice", da "batota" e da "violência". Escrevia no "Record" no tempo do famoso "Guarda Abel", que existiu mesmo, assim como as histórias que ainda se contam, aqui e ali,  sobre a figura e o bando armado que comandava, que infelizmente está ligado - da pior maneira - ao "reinado" do FC Porto no futebol dos anos noventa do século passado...

Acho que foi por conhecer este "lado negro" que, ao contrário do meu pai, não levei os meus filhos ao futebol pela mão. O meu filhote já devia ter uns dez anos quando entrou num estádio para ver um jogo de futebol. Foi a família toda, mais para satisfazer a sua curiosidade, que por outra coisa. Talvez por não ter muito jeito para jogar, nunca se deixou impressionar por tudo o que rodeia o futebol. E ainda bem. Ele a a irmã gostam do Sporting, porque a mãe fez alguma "publicidade enganosa" cá por casa, mas sem qualquer tipo de "doença".

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)

segunda-feira, janeiro 21, 2019

Quando a História e a Dignidade Valem Muito Pouco...


Alguns amigos chegaram-me a falar da possibilidade de a Incrível Almadense vir a ter problemas no futuro, com o edifício onde está instalada a sua sede social, após a morte do seu principal proprietário. Porque os herdeiros poderiam pensar apenas no prédio e não em toda a história que este encerra. Uma história que já terá mais de 118 anos, como edifício-sede, da Colectividade mais antiga de Almada, que comemorou em Outubro de 2018, 170 anos de vida associativa, ininterrupta.

Infelizmente foi isso acabou por acontecer. E a Incrível Almadense foi notificada que a sua renda ia ser actualizada (para valores obscenos...), porque há muitos anos que não sofria qualquer aumento...

Claro que todos sabemos que a lei não contempla questões morais ou éticas. Mas devia. Pois no caso particular do prédio onde está instalada a sede social da Incrível, sabemos que seu senhorio não realizou qualquer obra de beneficiação, pelo menos nos últimos cinquenta anos (provavelmente o número real está mais próximo dos 100 que dos 50...).

Poderia enumerar dezenas de obras, algumas avultadas, como foi a substituição do telhado, da canalização, da instalação eléctrica, das janelas e portas, das múltiplas reparações de paredes, das pinturas, interiores e exteriores, etc. Ou seja, a Incrível gastou milhares de euros em benefício de umas instalações, que sempre considerou suas (é importante referir que a Colectividade tentou comprar o prédio várias vezes, mas o  principal dono, disse para não nos preocuparmos com isso, por que era um processo complicado, havia muitos herdeiros, etc), com o apoio dos associados e também do Município e da Junta de Freguesia.

Nada que incomode os novos senhorios. Eles querem lá saber dos 170 anos de Incrível, de todo o seu passado histórico, que tanto dignifica a Cidade de Almada. Querem sim, dinheiro, quanto mais melhor. 

Claro que não alugarão o prédio a ninguém, pelo valor que que estão a pedir à Incrível. Mas vão conseguir ficar "famosos" em Almada, por retirarem a Incrível no espaço que funciona como sua sede social, há mais de 100 anos (118, segundo os relatos dos antigos...).

(Fotografia de Luís Eme - Almada)