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segunda-feira, agosto 19, 2019

Os Livros e a Flexibilidade do Corpo e da Mente...


A leitura  de uma história de ficção vulgar (os livros estão sempre a ensinar-me coisas, mesmo que sejam fraquitos...) fez com que olhasse para o meu dia-a-dia de um outro ângulo. 

Até concordei com a "teoria" de uma das personagens, que sentia que a perda de flexibilidade do corpo estava a ser equilibrada pelo aumento da flexibilidade da mente...

Sorria cada vez mais às "verdades absolutas" que lhe queriam impingir,  abraçado às suas queridas dúvidas... 

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

quarta-feira, agosto 14, 2019

coligação de avulsos...


Estou a acabar de ler "Coligação de Avulsos - ensaios de crítica literária", de Abel Barros Baptista.

Nem todos os ensaios me despertaram o interesse, mas há um ou outro, cuja pertinência acabou por me fazer pensar, muitas vezes até fora das palavras do autor.

É por isso que vou apenas realçar um ensaio, O Surto da Ficção e a Capitulação da Crítica, com aquele que o autor considera "melhor representante" da tal capitulação. Mas vamos lá às palavras de Abel Barros Baptista:

«O atrás referido Grande Prémio do Romance e Novela (APE) constitui-se o melhor representante da capitulação da crítica. José Saramago, por exemplo, o mesmo que viria a ganhar o Nobel em 1998, foi quatro vezes preterido nesse prémio: viria a ganhá-lo apenas em 1991, com o Evangelho Segundo Jesus Cristo, numa altura em que o seu êxito internacional era irreversível, sobre esmagador. É irrelevante debater se os romances que venceram Memorial do Convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis, A Jangada de Pedra ou História do Cerco de Lisboa eram melhores ou piores romances que estes: interessa sim, sublinhar que, durante toda a década de 80, a crítica, com pouquíssimas excepções, paralisada perante o sucesso de um escritor relançado inusitadamente, não encontrou meios de lhe entender os livros, como se precisasse de mais tempo para assimilar uma radical novidade, o que até nem era o caso.»

Eu não falaria em falta de "entendimento", preferia a palavra "preconceito". Neste caso particular o preconceito que existe em termos ideológicos, sobre o homem - que neste caso particular foi José Saramago -, ao ponto de se ser capaz de colocar o escritor num plano secundário...

sábado, agosto 03, 2019

O Velho Hábito de Encolher o Mundo...


Folheio o último número do "Jornal de Letras" e penso nas pessoas que me dizem, «Ainda lês isso? São sempre os mesmos a escrever sobre os mesmos. A literatura é muito mais que isso.»

Lembrei-me  também de uma frase da Rita, que disse que o mundo era outra coisa, maior que os jornais e as televisões. 

Embora em saiba que ela tem razão, não é essa a lógica de quem exerce qualquer poder, por mais insignificante que seja. O exemplo mais visível é a prática do mundo partidário, que escolhe os seus dirigentes e governantes tendo como base o cartão de militante, o grau de amizade e até o parentesco (não deve haver nenhum governo local de Norte a Sul que não tenha a sua dose de primos, tios, cunhados - por ter mais vergonha que eles, "excluo" neste texto esposas, irmãos e pais...). A competência e o conhecimento técnico, estão quase sempre distantes das três ou quatro primeiras premissas, para qualquer escolha. 

É por isso que todos temos a sensação de que é tão difícil deixarmos de "plantar cepas tortas", do Algarve ao Minho (e estava eu a pensar escrever sobre livros e escritores...).

É uma pena não nos conseguirmos libertar deste velho hábito de "encolher o mundo"...

(Fotografia de Luís Eme - Vila Real de Santo António)

sexta-feira, agosto 02, 2019

Vinte Metros Quadrados (com livros)...


A minha praia não é exemplo, muito menos aqueles vinte metros quadrados, com oito pessoas.

Talvez seja mesmo, uma ilusão...

Pois, vamos lá então a este meu resumo do olhar:  três liam livros, duas jogavam às cartas, duas fingiam dormir enquanto o Sol lhes pintava a pele e só uma andava a navegar pelo mundo fora com o seu "smartphone"...

(Fotografia de Luís Eme - Praia do Cabeço)

domingo, junho 16, 2019

«Hoje, mais que os livros, premeiam-se os autores»


Os prémios literários raramente são temas de conversa (pelo menos nas conversas que mantenho com as pessoas que escrevem...) E quando se fala dos ditos prémios, é quase sempre para dizer mal de alguém (e tanto pode ser o vencedor como um membro do júri...).

Foi por isso que foi bom escutar o Zé a dizer: «Hoje, mais que os livros, premeiam-se os autores.» E nem teve qualquer problema em falar de si próprio: «Por acaso, o único prémio literário que recebi, foi dado a um dos livros com que menos me identifico.»

Mas quis ir mais longe e acrescentou: «Embora esteja na moda, é uma parvoíce entregar "prémios de carreira" a quem tem menos de 80 anos...»

Quando lhe perguntei por que não recusavam este tipo de prémios ele foi taxativo: «De uma maneira geral as pessoas que escrevem não vivem muito à vontade. Pelo que todo o dinheiro é bem vindo...»

Foi quando o Rui resolveu um ar da sua graça e disse: «Ainda bem que o Herberto era milionário, pôde recusar uma data de prémios, E alguns até eram chorudos.»

Acabámos todos por sorrir, usando várias cores.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

quarta-feira, junho 05, 2019

A Feira com Livros...


A meio da tarde lá me resolvi a ir dar uma volta pela Feira do Livro.

Desta vez até fiz uma lista com nove livros... Lista que não saiu do bolso.

A bem do comércio livreiro fabricaram mais "praças" (continuo a não achar muita piada a esta moda...). 

Mesmo assim acabei por comprar quase uma dúzia de livros, graças a algumas "pechinchas" da "Cotovia" e a dois livros ou três livros da "Quetzal", que também estavam com um bom preço.

O mais curioso, é que com esta invenção das "praças" e de ter de olhar para todo o lado, acabei por nem sequer ver os livros da "Don Quixote" (e havia dois na tal lista)...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

terça-feira, junho 04, 2019

A Utilização das Palavras "Maior" e "Melhor" na Literatura...


Pensei se devia, ou não, escrever algo sobre a escritora Agustina Bessa-Luís, que nos deixou ontem, fisicamente. Isso acontece por que sinto pela Agustina o mesmo que muito boa gente sente por José Saramago, sou incapaz de a olhar como a "melhor romancista do século XX".

Li apenas três livros da sua autoria ("Os Meninos de Ouro", "Sibila"  e "Aquário e Sagitário"), o último dos quais há quase vinte anos. Provavelmente li-os na altura errada, cedo demais, especialmente a "Sibila", que recordo apenas como um livro de leitura difícil...

E também tenho dificuldade em compreender a Agustina, mulher pública, não pelas suas opções políticas, mas sim por ter aceitado ser directora, primeiro do diário "Primeiro de Janeiro" e depois do "Teatro D. Maria II". Digo isto por que não lhe encontrar qualidades para o desempenho destas funções (o que ficou comprovado no seu exercício...). 

Embora saiba que nestas alturas de despedida é muito fácil usar as palavras "maior" ou "melhor", continuo a ter dificuldade em utilizá-las na literatura, na música ou nas artes plásticas, cuja análise é muito mais complexa que a escolha do "melhor futebolista do mundo", por exemplo.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

sexta-feira, maio 31, 2019

O Mundo Pode ser Outra Coisa...


Quando construo personagens gosto de lhes oferecer coisas que contrariam o que penso.

Exemplos? Ao escrever: «nunca leio os livros de que gostei, uma segunda vez», estou a mentir descaradamente. Já li vários livros uma segunda vez (e um ou outro, uma terceira, mais por obrigação que prazer...).

E quando o tento justificar, as coisas não melhoram: «não é medo de não voltar a gostar, é perceber que foi outra pessoa que leu aquilo. Quando tens 20, 30 ou 40 anos, não és a mesma pessoa com tem agora 50...» 

Continuo a discordar. Sei que não mudamos assim tanto...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)

sexta-feira, maio 10, 2019

Escreve-se Porque Sim e Também Porque Não...


Herberto Helder cruzou-se hoje comigo, em dois textos e uma conversa. A única ligação entre estes três acontecimentos foi a sua vocação de recusa, a sua caminhada livre e solitária, para bem longe das capelinhas e dos "capelistas"...

Ou seja, ele foi o que mais ninguém consegue (e quer) ser...

Pelo meio ainda assisti, em silêncio, a uma discussão quase parva, entre dois meninos que dizem ser poetas, dos bons. O com menos cabelo disse que logo que publicassem 10 linhas sobre um livro do outro, no "Jornal de Letras" ou na revista "Ler", ele em vez de destilar ódio e inveja pela "dúzia" de escritores que eram cortejados, mesmo quando os seus livros eram péssimos (a palavra dita cheirava pior...), passava a lamber os "cus" (já tinha reparado que as "botas" tinham sido substituídas nesta velha expressão...) dos críticos.

Quando vinha para casa, voltei a pensar em Herberto e questionei-me por que razão escrevo. Até que me lembrei, que era por que gostava (e também por que precisava, poupando-me dinheiro em qualquer médico de "maluquinhos"...). ponto final.

(Fotografia de Luís Eme)

segunda-feira, maio 06, 2019

Os Livros Mudam, Tal como Nós...


Resolvi reler o "1984" de George Orwell, devido a um trabalho colectivo em que estou a participar. 

Já o tinha lido há quase trinta anos, mas nós quando temos 20 anos não temos o mesmo olhar, nem a mesma linha de pensamento, de quando temos 50... Isso explica que não me lembre da sua leitura me ter despertado tantas questões (especialmente sobre o autor e a época em que foi escrito...), como agora. 

Nessa época devo-o ter lido como uma obra de ficção científica e não me preocupei muito com as questões ideológicas que lança (apesar do mundo não ter evoluído tanto - e ainda bem - para o tal tempo quase de sombras e fotocópias humanas...).

Nem sabia que tinha sido escrito pouco tempo depois da Segunda Guerra Mundial e publicado em 1949 (algo que nem me deve ter preocupado nos anos 1990...). Sabia apenas que Orwell era um escritor estranho, ou que, pelo menos tinha escrito dois livros distantes da normalidade (o nosso "Triunfo dos Porcos" também tem muito que se lhe diga...).

Não é difícil concluir que o autor conheceu de perto algumas das práticas dos partidos totalitários (além do nazismo que fora derrotado pouco antes de começar a escrever "1984", Orwell também  foi militante comunista, tendo abandonado a ideologia socialista, assim que teve conhecimento das atrocidades e da falta de liberdade dos países comunistas...).

Aliás, percebe-se que esta obra crítica sobretudo o ideário comunista, inspirando-se num centralismo de estado levado ao exagero, com a presença de uma grande opressão física e mental (não nos permitir pensar pela nossa cabeça nem ter qualquer relacionamento amoroso, tem muito que se lhe diga, mesmo muito...).

Sei que a popularidade do "big brother" televisivo fez com que algumas pessoas lessem este livro. Mas devem ter-se sentido enganados, pois além da proliferação das "teletelas" por todo o lado, não existe mais nada em comum...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

terça-feira, abril 23, 2019

Fernando Ricardo José Pessoa Reis Saramago


Finalmente li, do princípio ao fim, "O Ano da Morte de Ricardo Reis" de José Saramago.

Ao chegar à última página, pergunto a mim próprio, porque razão interrompi duas vezes (praticamente no início...) a sua leitura...

Não é um livro com uma história empolgante, mas faz uma ligação extraordinária entre Fernando Pessoa, Lisboa e um dos seus heterónimos. E claro sobre o que se foi passando no mundo nesse ano de 1936 (como a Guerra Civil de Espanha e toda a sua envolvência, interna e externa) e também no nosso "burgo", com várias referências a acontecimentos e figuras, num tempo que corria de feição a Salazar. como foi o caso a Revolta dos Marinheiros em Setembro nas águas do Tejo (com várias referências a Almada...).

Gostei da Lídia, a criada do hotel, amante e mãe do futuro filho de Ricardo Reis, personagem pouco instruída, mas com nada de burra, como aconteceu com tantas pessoas que Saramago deve ter conhecido pela vida fora, não fosse ele de origens humildes (penso que surge no livro em sua homenagem...).

Percebo muito bem todos aqueles que acham "O Ano da Morte de Ricardo Reis", um dos grandes livros que leram. Especialmente os amantes de Fernando Pessoa, que está presente da primeira à última página (e não apenas quando faz as suas "aparições")...

Achei que a melhor maneira de festejar o Dia Mundial do Livro, foi fazer a referência a este livro especial, que tem dentro de si Lisboa, Fernando Pessoa, e sobretudo José Saramago, o nosso único Nobel da Literatura.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

quarta-feira, abril 03, 2019

O Amor aos Livros é Outra Coisa...


Li há poucos minutos que a "Bertand" vai fazer algo que já foi feito há uns anitos pela cooperativa  "Bairro dos Livros", do Porto. Pelo conteúdo da notícia acredito que já tenha alimentado um programa de "raios e coriscos" (também já existiu na televisão, isto de se ser original está pelas "horas da morte"...) nas redes sociais. 

Claro que o "Bairro dos Livros" tem todo o direito de tornar pública a sua indignação, até por já ter proposto esta iniciativa à editora, que foi rejeitada...

Trata-se de uma coisa que eles chamam Speed Dating, que são nada mais nada menos que encontros rápidos dos leitores com os escritores.

O curioso é que até falam do "amor aos livros". Mas eu vou mais pelo "amor ao negócio dos livros".  Sim, os escritores funcionam sobretudo como "chamariz" para se venderem mais livros, até por existir a possibilidade de estes serem autografados. Só não acredito é que os cinco minutos cheguem...

(Fotografia de Luís Eme - Corroios)

sábado, março 23, 2019

A Tal Amizade, sem Medida...


Ao longo dos últimos vinte anos participei em dezenas de lançamentos de livros. Quase sempre de amigos. 

Em mais de uma dúzia escrevi prefácios e fiz a sua apresentação. Mas também aconteceu, mesmo sem ser o apresentador da obra, os autores, amigos, fazerem questão que eu estivesse presente na mesa de honra, para lhes oferecer algumas palavras. É quase sempre uma forma de agradecerem a amizade (mesmo que esta não se agradeça...) e também o apoio que oferecemos à edição.

Nos últimos tempos recusei esta "honra" meia-dúzia de vezes. Não só achei que não fazia sentido (não devemos nos repetir  e mostrar em demasia...), como também senti que faltava a "chama da amizade", que nos faz fazermos, até o que não nos apetece, pelos amigos... 

É, a algumas pessoas quase nunca somos capazes de dizer não. E ainda bem que isso acontece (como hoje, por exemplo...). É sinal de que a amizade que sentimos por elas é tão grande, que não nos dá espaço para pensarmos em coisas pequenas...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)

sábado, março 16, 2019

Mané Garrincha, Uma Estrela Solitária...


Acabei de ler, "Estrela Solitária, um Brasileiro Chamado Garrincha", a biografia de um dos maiores futebolistas do Brasil e do Mundo, escrita por Ruy Castro.

Aconteceu-me uma coisa que nunca me tinha acontecido.

À medida que me ia aproximando do fim, ia perdendo a vontade de ler, não pela falta de qualidade da escrita do Ruy, mas pelo seu conteúdo, cada vez mais dramático (chega a ser arrepiante a sua teimosia e cegueira, ao não aceitar tantas ajudas para mudar de vida...). Embora seja um retrato fiel da vida de Mané Garrincha. Uma vida "sem concerto"...

Nasceu quase ao deus dará, sempre com liberdade a mais, que se agravou, quando todos perceberam que ele era um "anjo de pernas tortas com magia nos pés", capaz de deixar sentados nos pelados e relvados os adversários, como se o futebol fosse um número de circo.

Começou a beber muito cedo e a sua vida resumiu-se durante anos a futebol, sexo e álcool. Fez mais de uma dezena de filhos a pelo menos quatro mulheres. Mas o grande amor da sua vida foi a cantora Elza Soares, tão mal amada pelo povo, e a quem quase todos apontavam o dedo, como a grande causa dos seus dramas - Ruy Castro presta-lhe justiça, demonstrando que ela foi muito mais "anjo que demónio" na sua vida... prejudicando a sua carreira musical, por amor.

Escravo do álcool foi quase perdendo tudo. Sobraram meia-dúzia de amigos que lutaram com todas as suas forças para o ajudar a mudar de vida. Mas não o conseguiram, porque ele nunca levou a sério esta coisa que se chama "vida".

A sua  decadência humana e desportiva fez com que aumentassem os episódios dramáticos... e quando nos deixou, tinha o seu corpo completamente destruído pelo vício da bebida, que escolhera como companheiro de todas as horas.

Deixou-se explorar pelo futebol, jogando muitas vezes sem estar em condições físicas, mas também "usou e abusou" do seu estatuto de "deus dos estádios", enganando as multidões que se deslocavam aos estádios para ver a "magia", que desaparecera, há anos, dos seus pés...

O seu exemplo, tal como o de Vitor Baptista (entre nós...), e de tantos ídolos do mundo inteiro, continuam a não ser levados muito a sério. É por isso que o futebol continua a ser uma "fábrica de dramas humanos"...

quarta-feira, março 13, 2019

Tempos Mornos & Máquinas Controladoras...


Estava vento, quase desagradável, e tu tiveste a lata de falar destes "tempos mornos que vivemos", em que as máquinas roubam-nos cada vez mais espaço, até para se pensar na vidinha.

Falei-te do António, que me disse ontem que há mais de ano que anda sem telemóvel (desde que o que usava se avariou...). Sorriu ao dizer que cada vez gosta mais de se sentir um "et", quando pega num livro e começa a ler.

Respondeste com um sorriso. Depois disseste que o António finge que é "maluquinho da silva" e que  gosta de fazer de conta que não tem família. 

Luxos de quem ainda pode ser "vagabundo", acrescentei eu.

Fomos interrompidos pela tua filha, que te piscou o olho dentro da "máquina controladora", precisava de jantar mais cedo e queria que não chegasses muito tarde a casa...

Com razão, disseste que este era o tipo de telefonema que só se faziam para as mães.

E depois despedimo-nos com um abraço e cada um foi para a sua rua.

(Fotografia de Luís Eme - Cova da Piedade)

domingo, fevereiro 17, 2019

Lucidez no Verão Quente...


Numa leitura quase de relance pelos diários de Vergílio Ferreira ("Conta-Corrente"), descobri pormenores deliciosos, sobre pessoas, acontecimentos e também, claro, sobre o próprio escritor.

No período pós revolução sentiu na pele o facto de ser um desalinhado, alguém que, tal como Zeca Afonso (não foram muito mais...), preferiu ser ele próprio, o seu "comité central"...

Esta independência teve o seu preço (tem sempre...).

A 5 de Setembro de 1974 ele escreveu algo que diz muito do nosso país, em que temos de ter um clube (Benfica, Porto ou Sporting, os outros não contam...) ou um partido (se não tivermos corremos o risco de passar por "fascistas", ele passou...):

«Na terra-de-ninguém leva-se caqueirada dos dois lados. E todavia que vontade enorme de desmascarar a hipocrísia.»

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

sexta-feira, fevereiro 15, 2019

O Teatro Continua a ser Único


Sempre ouvi dizer que o teatro vive permanentemente em crise.

Talvez seja essa "crise" a chave para o facto de a arte de talma ter muito mais vidas que um bando de gatos juntos.

Fico feliz por as peças não terem mudado assim tanto nos últimos quinhentos anos, mesmo que não ache piada a que Shakespeare continua a ser um dos autores da moda.

A literatura e o cinema, por exemplo, mesmo sem terem passado por esta "crise permanente" ao longo dos anos, não deixam de viver com mais apreensão o presente.

Será que os livros num futuro próximo vão voltar a ser imagens e palavras, como a banda desenhada que devorada na infância? E as salas de cinema, continuarão a ser sobretudo pipocas e efeitos especiais?

Não sei... A única coisa que sei, é que o Teatro vai permanecer igual a ele próprio, único.

(Fotografia de Luís Eme - a memória do grande Mário Viegas em Lisboa)

quinta-feira, fevereiro 14, 2019

A Crueza da Vida que Vem Dentro dos Livros...


Muitos romancistas gostam de falar da ficção como algo tão rico, que consegue superar a própria realidade. 

Percebo que quem não escreva, tenha alguma dificuldade em perceber isso. Os mais cépticos até poderão pensar que se trata de mais uma "ficção". Mas não, quando se inventa uma história, podemos e devemos ir sempre mais longe que na "vidinha", penetrar pelas zonas escuras, abrir portas e janelas, ir ao mais fundo de cada um de nós...

Lembrei-me disto a propósito da última conversa que tive com um amigo, solteirão e bem parecido, já reformado que vive sozinho, se esquecer o seu querido cão.

Não lhe fiz perguntas, até por não andar à procura de nenhuma personagem parecida com ele. Foi ele que quis desabafar, ir à procura da vida que deixara para trás. Percebi que há muitas coisas que ele não sabe explicar, mas também não quer pedir ajuda ao Freud ou a outro estudioso das tais "áreas cinzentas", que tentamos fingir que não existem.

Falou-me do pai, que morreu novo. De ele ser desde muito cedo, o principal sustento da família. Do medo de ter a sua própria família, de nunca ter pensado a sério em ter filhos. Os irmãos mais novos tinham sido uma chatice... De nunca ter tido problemas em arranjar namoradas. De se ter apaixonado duas ou três vezes, sempre pelas mulheres erradas (já eram de outros...). Uma delas ainda o partilhou durante algum tempo, mas ele nunca se sentiu bem na pele do "outro". E acabou tudo quando ela ficou grávida do primeiro filho. Ainda hoje consegue "inventar" parecenças no tal rapaz, que hoje é um homem maduro... 

Antes de nos despedirmos disse-me, com um sorriso, que me contara coisas, que nunca dissera a ninguém.

Sem ele saber, ofereceu-me bastante "material" para compor uma personagem.

E sei que se escrever sobre alguém parecido com ele, posso ir ainda mais longe, porque não estarei a referir-me a ninguém em especial...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)

segunda-feira, janeiro 28, 2019

O Tempo dos Livros e dos Escritores...


Já percebi, mais que uma vez, que todos os livros têm um "tempo" para serem lidos. Claro que esta é uma daquelas coisas que nem sempre dominamos, porque os livros aparecem-nos nas mãos, por variadíssimos motivos, que não têm necessariamente que corresponder ao "tempo certo".

Pensei em escrever isto, porque estou a acabar de ler "Sunset Park" de Paul Auster (um bom livro, que aborda os desencontros familiares deste nosso tempo, de tantas crises, assim como as dificuldades que temos em nos relacionarmos, e de nos compreendermos uns aos outros, entre outras coisas...).

Paul Auster é um grande escritor. Mas a minha primeira experiência com um dos seus livros, não correu muito bem. Neste caso particular não diria que foi feita antes de tempo, foi sim, feita com a obra errada (sim, acontece muitas vezes lermos um dos livros mais fracos de um autor e ficarmos com uma impressão errada, ao ponto de não voltarmos a ele... foi o que me aconteceu, ainda no século passado, com Paul Auster). 

Felizmente em 2016 uma Amiga, leitora fiel deste blogue, ofereceu-me "O Livro das Ilusões", que gostei muito de ler (e que recomendo, claro...). 

Foi o "O Livro das Ilusões" que fez com que sentisse o "Sunset Park" a "piscar-me o olho", numa das bancas desarrumadas com promoções da FNAC. E foi o "Sunset Park" que me levou a escrever sobre o "tempo dos livros e dos escritores" (isto está mesmo tudo ligado)...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)

sexta-feira, janeiro 25, 2019

Um Escritor Único...


Acabei de ler o romance, "Andam Faunos pelos Bosques", do grande Aquilino Ribeiro, requisitado na Biblioteca da Incrível Almadense.

Foi uma sugestão de um amigo, durante uma conversa, em que por qualquer motivo, falámos da influência da religião católica junto das comunidades, especialmente no Interior Norte, durante a ditadura e o PREC. A meio da conversa perguntou-me se já tinha lido o livro. Como disse que não aconselhou-me a sua leitura, sem se esquecer de referir a riqueza vocabular única.

E sim, mais importante que a história do livro (o aproveitamento da mitologia por parte das jovens, bonitas e casadoiras, que "inventaram" um demónio que as atacava e violava, metade bicho, metade homem, conseguindo dar vida aos "faunos", para justificar os seus devaneios... que também é um bom retrato de época, especialmente da vida dos padres, ao ponto de percebermos que a maioria achava estranho que um deles, o padre Dâmaso, não tivesse mulher, não fumasse nem bebesse...), é a utilização primorosa da linguagem regional (ou popular).

Percebi também que Ricardo Araújo Pereira, foi buscar algumas palavras ao Aquilino, misturando-as nas frases de humor inteligente, que é uma das suas imagens de marca  (já o ouvi mais que uma vez a falar de "éguas rabonas" ou de "fúfias de cócoras" ou ainda de "marmanjos amolecidos"... ou referir-se a "safardanas", coisa que nunca faltou por aqui).

Foi bom voltar a ler Aquilino (talvez não o lesse há mais de vinte anos...).

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)