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quarta-feira, dezembro 19, 2018

A Cantora de Cabaré da Rua Detrás


Durante anos não se sabia muito bem o que fazia, embora se percebesse à légua que era uma ave nocturna.

Era bonita, dona de uma beleza pouco comum, quase exótica. A brancura e as sombras no rosto não enganavam, o Sol não só não a entusiasmava como não a iluminava...

Lembro-me que durante muito tempo fez parte das nossas conversas de café, também elas nocturnas. A vulgaridade e a sujidade tomavam conta de nós, pouco satisfeitos com o seu mistério. Foi o Alípio que numa noite desvendou o seu quase "segredo", afirmando que ela cantava em bares, e bem, quase sempre coisas da américa, negras e brancas.

Depois descobrimos o seu nome artístico e soubemos mais coisas da sua outra vida como cantora.

Não se incomodava de cantar em lugares onde as mulheres se despiam, com e sem arte, depois da uma da manhã. Em nome da sobrevivência, aceitava todas as oportunidades para cantar, ora com os dois músicos que a acompanhavam, um pianista e um contrabaixista, ora em play back.

Outro dos seus mistérios, era não se conhecer nenhuma companhia masculina ou feminina, para além da mãe e irmã.

Foi também por isso que o poeta da nossa rua um dia  lhe escreveu um poema. Falava da sua solidão e também da sua beleza e maldita sina, de não conseguir sair da escuridão...

(Fotografia de Luís Eme)

segunda-feira, março 26, 2018

Manuel Reis e a (sua) Modernidade


Nem mesmo durante a adolescência e o começo da idade adulta, fui uma "ave nocturna". Nessa altura a "desculpa" era a prática desportiva, pouco compatível com a "borga".

Mesmo assim, durante pelo menos três anos (1984 a 1986), era frequente andar pela noite dentro às quintas-feiras (evitando as confusões de sexta e sábado...), com três ou quatro amigos. Fazia-o em nome da amizade e também pelo prazer da descoberta e da curiosidade, dentro de uma noite entre o castiço e o vicioso. Na época nenhum de nós tinha carro o que nos fazia esperar pela primeira barca que nos levava para o outro lado do rio (quase às seis da manhã). E como a partir das quatro da manhã só se encontravam abertos dois tipos de bares na noite lisboeta, frequentados por uma clientela específica, de um lado as prostitutas e os seus "donos", em lugares normalmente decadentes, noutro os homossexuais, em lugares diferentes do usual. Sem nos apercebermos, percorremos geografias humanas extremamente ricas, pelo menos para quem gosta de palavras e de histórias...

Como de costume, começo a escrever, vou buscar memórias, e afasto-me do tema principal, o desaparecimento de Manuel Reis, um antiquário moderno, que conseguiu cultivar a diferença da noite lisboeta, primeiro com o "Frágil" no Bairro Alto e depois com o "Lux" em Santa Apolónia. Se no primeiro entrei, umas três vezes, no segundo, nenhuma.

Estive com Manuel Reis uma única vez, por um mero acaso, sem saber quem era aquele homem, diferente. Estava num café com um amigo escultor e ele chegou e depois de trocar algumas palavras, ficou na nossa mesa, a convite do António. Isto aconteceu no começo da década de noventa e recordo que, entre outras coisas, falámos do movimento modernista, porque aquele café onde nos encontrávamos, apesar de muito menos badalado que "A Brasileira", era poiso habitual daquela gente "louca", mal vestida e mal lavada, quase sempre com pouco dinheiro nesses longínquos anos vinte. 

O mais curioso, foi ele ter-nos oferecido alguns pontos de vista completamente diferentes dos nossos, sobre a arte e alguns artistas desses gloriosos tempos, o que nos fez sorrir. 

Só depois dele se despedir de nós, é que soube quem era o homem do chapéu... que agora partiu e provavelmente continua com vontade de abrir espaços "revolucionários" e bonitos noutras latitudes...

(Óleo de Amadeo Souza-Cardozo)

sábado, março 24, 2018

A Hora de Verão e a Hora de Inverno...


Daqui a pouco muda a hora, é o primeiro sinal de um Verão, que este ano parece não estar logo depois da esquina.

Esta é uma daquelas "insignificâncias" que nunca percebi muito bem quais as vantagens. Provavelmente é mais uma daquelas modas importadas das "europas"...

E ainda acho mais estranho quando se muda a hora de Verão para a de Inverno. De um momento para o outro passamos a acordar de noite. E ainda é mais estranho para os miúdos, que passam a ir para a escola antes do amanhecer...

(Fotografia de Luís Eme)


quinta-feira, dezembro 21, 2017

A Noite que Chega Mais Cedo...

Estava no meio do rio junto à janela e não pude deixar de pensar que uma das coisas piores do Inverno é a "vitória" da noite em relação ao dia.

O frio também não é muito agradável, mas temos de dar uso à roupa mais comprida e quente...

(Fotografia de Luís Eme)

segunda-feira, novembro 14, 2016

A Lua "Gigante"...

Sei que esta fotografia, tirada a pouco mais de uma centena de metros da minha casa, às 18 horas e poucos minutos, não faz justiça à beleza da Lua, gigante, só por esta noite...

Sei também que sem uma grande máquina e tripé, era difícil fazer melhor...

(Fotografia de Luís Eme)

sexta-feira, julho 01, 2016

A Noite e o Dia em Julho...

A noite para mim é quase como o mar. Por muito que goste das suas ondas e seja capaz de nadar até deixar de me apetecer ser "barco",  como se fizesse a travessia da Trafaria a Belém, acabo por me lembrar sempre que não tenho guelras nem pés de pato...

Não gosto de vestir roupa que brilha com as luzes, muito menos de me transformar numa personagem pedida de empréstimo a qualquer filme negro. Muito menos ofereço ilusões com o olhar e meia dúzia de palavras. 

O mais curioso é que às vezes apetece-me fumar e fazer um daqueles exercícios em que se finge conseguir levar o fumo até perto das estrelas. Outras fico indeciso, sem saber se devo beber, ou não, uma das muitas bebidas que nos convidam à loucura...

Mas como isso também me acontece em plena luz do dia, quando os fumadores fazem mais uma pausa no pátio ou mesmo na rua e me apetece "ser do clube". Sei que a rua é sempre mais divertida que o local de trabalho. 

Só não consigo me afogar num bagaço antes de entrar ao serviço, chamando-lhe "mata-bicho"... Muito menos, beber por beber, só para baralhar o fígado.

Talvez a noite seja grande, seja quase um mar, mas não se compara em beleza com o dia...

(Fotografia de Yale Joel)

quinta-feira, março 17, 2016

O Fado Vadio e um Outro Bairro Alto


Ontem encontrei um rapaz que não devia ver há mais de vinte anos.

Encontrámos-nos por acaso nas ruas de Lisboa. Acabámos por parar num café onde oferecemos alguns minutos de conversa um ao outro.

Falámos de vários tempos e de várias peripécias, desde as aulas de natação que demos em conjunto (que eu evitava, porque ele passava mais tempo a chatear os miúdos que a ensiná-los a nadar...) às noites de quinta-feira em que nos enfiávamos no Bairro Alto com mais dois ou três amigos depois de jantar, e que se prolongavam até ao raiar do dia.

Nesse começo da década de oitenta, em que ainda andávamos a aprender a ser homens, o fado ainda não estava na moda, as prostitutas e os seus "donos" ainda tinham o seu território no Bairro, tanto nas ruas como em alguns bares, que tentavam fintar a modernidade, perfumados com vinho tinto, carapau frito e "águas de colónia" e lacas baratas que as "meninas" (algumas já quarentonas...) usavam.

Perguntei-lhe se ainda cantava o fado. Começou a sorrir e abanou a cabeça a dizer que não. Depois disse-me que continuava a gostar da canção de Lisboa e que ainda sabia de cor os dois ou três fados que cantava sempre que lhe pediam, embora gostasse de se "fazer caro". Pelo menos isso aprendera com as "vedetas", a só responder às chamadas para  o palco improvisado com muita insistência...

Claro que falámos de outras coisas, dos filhos que fizemos, das mulheres que amámos, dos amigos que perdemos de vista. Da vidinha, como diria o grande poeta O' Neill...

(Fotografia de Toni Frissel)

domingo, outubro 11, 2015

A Solidão de um Quarto de Hotel


Quando estamos habituados a entrar na noite numa casa cheia de sons, de cheiros, de movimentos, estranhamos a solidão de uma casa vazia, e ainda mais a de um quarto de hotel.

Quando vivemos sós, há várias artimanhas para combatermos o silêncio. A televisão aparece quase sempre em primeiro lugar, depois a rádio... com as vozes a saírem dos aparelhos e a espalharem-se pelas divisões, sem cerimónias.

Mas num quarto de hotel tudo é diferente, nada daquilo é nosso, nem a televisão consegue ser uma boa companheira.

Era para ficar por aqui, mas olho a janela e sinto um vazio ainda maior nas ruas desta pequena cidade. 

Quando caminhava, depois de jantar, não me cruzei com ninguém. Não consegui sentir sequer a presença de fantasmas, quanto mais de seres humanos. Nem passei por um único café aberto. 

Claro que devem existir lugares estratégicos para quem pensa que gosta da noite, um pequeno bar longe do centro ou até uma discoteca.

Sei que nada disso me interessa por aí além, pois não ando à procura de "aves nocturnas". Sinto sim alguma curiosidade pela vagabundagem nocturna, que parece ter os dias contados.

Embora me custe a acreditar que a única possibilidade de encontrarmos pessoas é dentro de um computador, não tenho dúvidas de como o mundo está diferente...

Felizmente, de manhã, um novo dia começa, com pessoas, que até poderiam vir de outro planeta.

sexta-feira, junho 05, 2015

As Noites Calmas das Cidades Menores


«Nas localidades pequenas, o dia a dia acaba mais cedo, para quem não gosta de viver pela noite dentro.

Há um café ou outro que ficam abertos até à meia-noite, quase sempre mal frequentados, por serem lugares de predilecção de quem gosta de beber mais que a conta e deixar que a sua voz ecoe pela rua fora.

Provavelmente também há bares e uma ou outra discoteca, inventados em lugares quase escondidos. Nunca percebi se a construção de discotecas em lugares isolados, se devia apenas ao som, para não se fazer má vizinhança, ou se havia algo mais. Devia haver, porque normalmente as discotecas construídas dentro das cidades – Lisboa é a excepção que confirma a regra – são um fiasco, a malta quer ir para fora, ver outras caras e fingir que o mundo afinal sempre mudou.»

A fotografia é de Andreas Feininger.

segunda-feira, dezembro 15, 2014

Uma Voz Quente na Noite Fria


Gostei de te ouvir cantar, ontem, tal como já gostara noutros tempos e noutras músicas.

O engraçado é que, mesmo quando cantavas o fado, já achava que havia ali qualquer coisa "azul" na tua voz. Foi por isso que não estranhei esta tua aproximação ao jazz.

Dizes que é a escolha definitiva (não acredito).

Eu também acho que sim, a tua voz é um "instrumento", que casa melhor com o piano, com o baixo e até com o saxofone e o trompete, que com a guitarra portuguesa.

O óleo é de Eric Bowman.

quarta-feira, setembro 24, 2014

A Noite Pode Ser Outra Vida


Não sei qual é a maior virtude da noite, sei apenas que dá muito mais oportunidades à criatividade, e até ao sonho, que o "dia solar", que decorre de uma forma geral entre as nove da manhã e as cinco da tarde.

Embora esteja a uma distância mais que segura da noite - nem  sequer me lembro da última vez que assisti ao amanhecer -, às vezes sinto saudades de levar uma daquelas cantadas, que nos tentam virar do avesso, de uma ave nocturna.

Até por saber que é sempre bom não nos preocuparmos com o facto de as pessoas misteriosas e aparentemente interessantes, serem metade lenda metade realidade. 

O óleo é de Keita Morimoto.

quinta-feira, agosto 21, 2014

Em Agosto São Mais...


No Verão as várias associações que dão apoio aos sem abrigo da Capital, reduzem a sua actividade. Provavelmente por ser tempo de férias e também por haver menos necessidade de acompanhamento, porque até parece agradável adormecer a olhar para a Lua... 

Talvez seja por isso que há um aumento de gente a dormir na rua, embora seja quase tudo gente de fora.

Sim, alguns turistas com menos euros no bolso aproveitam o facto de Lisboa ainda ser uma cidade aberta e livre e optam por dormir na rua, beneficiando da nossa temperatura amena.

Provavelmente também ficam a gostar de Lisboa e prometem voltar, felizes por não existir o controle de outras capitais europeias, onde há um olhar diferente pelo chamado espaço público e pela ordem das coisas.

O óleo é de Morteza Katouzian.

segunda-feira, julho 21, 2014

O Nosso Corpo Não Ajuda...


Por muito que nos esforcemos, nunca conseguiremos atingir o ponto de sedução feminino.
 
Podia começar por falar dos pés, do sacríficio calculado que empurra as mulheres para o uso de sapatos ou sandálias de tacão alto, que lhes oferece um andar que não nos deixa indiferentes.
 
E depois ir subindo, para o vestido acima do joelho, ou para o outro comprido, mas que dança com o vento...
 
E parar no decote, que tem um poder único no olhar masculino.
 
E por fim o mais importante, o rosto que segura o olhar, o sorriso, sem esquecer a companhia dos cabelos macios...
 
O nosso corpo não ajuda mesmo.
 
O óleo é de Fabian Perez.
 

sábado, fevereiro 01, 2014

«Sabes uma coisa? Estranhamente, senti-me aliviado de bolsos vazios.»


Eram dois, pediram-lhe a carteira e ele começou a rir-se quem nem um perdido.

Puxaram de uma navalha e encostaram-na ao seu pescoço, com cara de maus rapazes.

Olhou-os nos olhos e sem os levar a sério, disse que não usava carteira e que o único dinheiro que tinha, estava nos bolsos.

Um apalpou-o de alto a baixo, o outro aliviou-lhe o pescoço, pedindo-lhe de seguida para despejar os bolsos.

Fez-lhes a vontade e entregou-lhes uns míseros 3 euros e 75 cêntimos, que estavam longe de o envergonhar.

Os dos rapazolas olharam um para o outro e começaram a rir. 

Quando se preparavam para virar costas ele lembrou-lhes do assalto:

«Então, não querem o dinheiro?»

Sem pararem de rir, pegaram nas moedas e despediram-se com um boa noite.

Parecia que não tinha perdido o sorriso desde então, quando me disse: «sabes uma coisa? Estranhamente senti-me aliviado, de bolsos vazios.»

O óleo é de Stephen Conroy.

segunda-feira, janeiro 27, 2014

A Espera...


As mulheres sempre foram mais de esperar que nós, mesmo que não o façam deitadas e quase sem roupa.

Talvez hoje exista um pouco mais de equilíbrio, mas penso que os homens gostam mais da liberdade e menos de compromissos.

Não sei se são apenas os homens antigos que gostam das ruas e das casas que os enchem de promessas. Sei que muita coisa mudou. 

É sempre assim, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muito para além da poesia e das canções...

O óleo é de Alexander Klingspor.

quinta-feira, agosto 15, 2013

Sons de Rua em Agosto


Nos últimos dias a minha rua têm ganho uma nova vida, a partir do fim da tarde.

O calor abre as janelas e solta as línguas, que conversam em casa como se estivessem na rua e em pleno dia, até depois da meia-noite.

Embora no início achasse estranho, nunca me senti verdadeiramente incomodado. Aceito que quem se deita cedo não ache muita piada, mas é Agosto...

Acabei por perceber que estes "sons urbanos" são de "turistas", gente que está de férias na minha rua, na casa de familiares, o que faz com que se perceba ainda melhor, o esticar das conversas até perto da uma da manhã.

Quando existe um bom relacionamento entre familiares e amigos, as conversas têm o condão de se tornarem quase infinitas...

Espero que em vez de irritar, conforte as pessoas, terrivelmente sós, e que fiquem perto da janela, a ouvir esta "musicalidade humana".

Numa época em quase metade dos lares são de pessoas sós ou então de casais sem filhos, sabe bem esta barafunda, fico com a sensação que há mais gente a quebrar o silêncio da noite, além dos meus filhos, que têm dias de parecer comer "grafenolas" de sobremesa.

O óleo é de H. Momo Zhou.

sábado, junho 22, 2013

O Medo Masculino


Ouvia as dúvidas dele e sorria, talvez por já ter escrito algo parecido.

Sempre procurara uma mulher diferente, forte e livre, que gostasse da noite e de tudo o que lhe pertence, desde o álcool ao sexo. E agora estava com medo.

Medo de não ser suficiente forte para ela. 

Medo de ser abandonado, por ela ser demasiado livre...

Enquanto o ouvia, pensava: «e ela, quais serão os seus medos?»

O óleo é de Vincent Giarrano.

terça-feira, maio 21, 2013

As Noites Calmas


Há noites assim, calmas e solitárias.

Parece que está tudo a dormir e que a noite nos pertence, completamente...

Estava ali, sentado, à beira rio, à espera de ti e do cacilheiro que te transportava para a nossa Margem, quase sem pensar em nada, além do Tejo e da Lua.

Foi então que, sem nenhuma razão aparente, lembrei-me que na infância os dias são quase infinitos, temos tempo para fazer tudo. 

O óleo é de Christopher Pratt.

segunda-feira, maio 06, 2013

A Moda e o Requinte do "Karaoke"...


Nunca fui uma "ave nocturna", mas então hoje, contam-se pelos dedos de uma mão as vezes que saio à noite para qualquer bar. A desculpa de não ter quem fique com os filhotes, é isso mesmo, uma desculpa.

Foi por isso que uma noite destas percebi que a moda do "karaoke" veio para ficar e continua a ser uma grande animadora de plateias.

As figuras deprimentes que vemos fazer nas audições do programa "Ídolos" são facilmente transportadas para alguns cafés e bares, onde alguns "artistas", pensam (ou querem pensar...) que as palmas e as gargalhadas que suscitam, se devem ao seu "jeito para a coisa" e não ao merecimento de um comentário do género, «não cantas um c...».

Descobri também que existem diferenças nos gostos musicais da clientela. Se estivermos num lugar onde os frequentadores se levam mais a sério, em vez  de cantarem Tony Carreira ou Quim Barreiros, oferecem-nos Sinatra, em grande estilo, pensam eles, claro...

O óleo é de Guy Lerat.

quinta-feira, março 28, 2013

«Não sou capaz.»


A crise trouxe-lhe tudo, o desemprego, o desespero e sobretudo o sentimento cada vez mais forte de inutilidade...

O pesadelo durava há mais de um ano.

O marido também estava desempregado e ultimamente começara a pressioná-la para aceitar trabalhar num bar nocturno de alterne e de mais qualquer coisa. Disse-lhe que só custava os primeiros dias.

Ela ficou em silêncio.

Continuou à procura de trabalho, porque não queria tornar-se uma "rameira"...

Uma noite ele disse-lhe para se vestir, de uma forma leve, sem se esquecer de se pintar, porque ia começar a trabalhar no bar do Joca.

Enfiou-se no quarto e começou a chorar.

O marido entrou no quarto e tentou obrigá-la a vestir-se, dizendo que estava a ficar tarde. Ela levantou-se e disse: «não sou capaz», sem esconder as lágrimas.

Ele virou-lhe as costas e saiu, deixando a porta da rua bater com estrondo, ecoando pela escadaria do prédio.

O óleo é de Burton Silverman.