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sábado, agosto 03, 2019

O Velho Hábito de Encolher o Mundo...


Folheio o último número do "Jornal de Letras" e penso nas pessoas que me dizem, «Ainda lês isso? São sempre os mesmos a escrever sobre os mesmos. A literatura é muito mais que isso.»

Lembrei-me  também de uma frase da Rita, que disse que o mundo era outra coisa, maior que os jornais e as televisões. 

Embora em saiba que ela tem razão, não é essa a lógica de quem exerce qualquer poder, por mais insignificante que seja. O exemplo mais visível é a prática do mundo partidário, que escolhe os seus dirigentes e governantes tendo como base o cartão de militante, o grau de amizade e até o parentesco (não deve haver nenhum governo local de Norte a Sul que não tenha a sua dose de primos, tios, cunhados - por ter mais vergonha que eles, "excluo" neste texto esposas, irmãos e pais...). A competência e o conhecimento técnico, estão quase sempre distantes das três ou quatro primeiras premissas, para qualquer escolha. 

É por isso que todos temos a sensação de que é tão difícil deixarmos de "plantar cepas tortas", do Algarve ao Minho (e estava eu a pensar escrever sobre livros e escritores...).

É uma pena não nos conseguirmos libertar deste velho hábito de "encolher o mundo"...

(Fotografia de Luís Eme - Vila Real de Santo António)

sábado, julho 06, 2019

Desabafos & Ingenuidades (a vida como ela é...)


A maior parte das pessoas que trabalham, a partir dos quarenta começam a estar fartas do seu "circuito diário" (casa, trabalho, trabalho casa...), por que a vida nunca facilita. Aliás, com o passar dos anos, ainda tem o condão de nos ir dificultando, cada vez mais as coisas...

Os filhos, que muita boa gente já "desistiu de ter" (preferem o cão ou o gato...), embora acabem por ser a principal razão da nossa existência, nunca deixam de ser um "mar de preocupações". Dos seus tempos de "cristal" (meninice...) à idade adulta, onde quase que se tornam quase de "aço" (mesmo que este só exista nas suas cabeças e seja maleável...), passamos por um pouco de tudo (sem falar de casos dramáticos...). 

Embora saiba que é capaz de ser quase igual em todo o lado, no nosso país os problemas estão longe de terminar quando eles acabam o curso superior. Normalmente tem duas soluções: aproveitar qualquer emprego que surja, mesmo que não tenha nada que ver com a sua formação (até podem aproveitar a vaga como caixa do supermercado da esquina...) e seja precário, ou emigrar.

Há já algum tempo que não trazia para aqui as conversas, que tenho com a Rita (mais raras, estupidamente, porque se deixarmos, a vida também nos vai afastando dos amigos...). 

Não temos cão nem gato, mas temos filhos com a mesma idade (diferença de meses...), na tal fase complicada, quase entre o fim da universidade e a entrada no mundo do trabalho. 

Não somos diferentes dos outros, dizemos muitas coisas parvas, como o cidadão comum (os maus exemplos diários quase que nos obrigam a esses desabafos...), até falamos da nossa "burrice", de não os empurrarmos para uma das juventude dos partidos do "centrão". 

Mas são só desabafos, queremos muito que eles sejam criaturas livres e com capacidade para pensar pela sua própria cabeça, e mais importante, sem passarem o resto da vida com as "mãos sujas"...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)

quinta-feira, abril 25, 2019

O Dia que Começa a Ser Apenas uma Boa Memória...


Tudo arrefece, até as comemorações dos dias bonitos e felizes, como foi o memorável 25 de Abril, magnificamente caracterizado pela nossa poeta maior, Sophia de Mello Breyner Andresen.

Claro que me faz confusão que este dia ainda não seja de todos (claro que não estou a falar da gente que fugiu para Espanha e para o Brasil...), que 45 anos depois ainda existam manobras divisionistas, quase sempre partidárias. Algo que se nota mais do que devia, um desses exemplos é Almada.

Apesar destas pequenas coisas continua a saber bem dizer, em conjunto, com gritos ou não, "25 de Abril Sempre!", ou desejar feliz dia da Liberdade, como desejei à minutos aos meus cunhados...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)

sábado, janeiro 26, 2019

A Estupidez Crescente do Comentário Televisivo e a Banalização da Memória


Se há coisa que me incomoda ouvir nas ruas e nos cafés são as discussões doentias sobre futebol, quase sempre distantes do jogo em si, pois fala-se sobretudo de clubes e de árbitros. 

Sim, raramente ouço falar da beleza do jogo, da qualidade técnica dos jogadores ou da sabedoria dos treinadores (ou da falta de ambas as coisas...). 

O amor e o desamor pelos clubes torna impossível a existência de uma conversa normal sobre um jogo de futebol. A "cegueira" e a desconfiança (sempre que uma equipa é beneficiada a primeira coisa que se diz é que "o árbitro estava comprado"...) são mais fortes que tudo o resto.

O mais curioso, é que estas "discussões de café" são alimentadas diariamente em programas transmitidos nos canais de notícias dos principais operadores televisivos, com comentadores que são capazes de dizer hoje uma coisa e amanhã o seu contrário, sem qualquer pudor.

O grave da questão é que esta "clubite", também é, cada vez mais, praticada na política, e pelos próprios dirigentes  partidários (muitos deles também comentadores televisivos, que têm o mesmo comportamento dos seus colegas do desporto, dizem uma coisa hoje e amanhã outra, completamente diferente, como se não existisse memória...

Só assim é que se percebe que quando o líder do maior partido de oposição apoia a existência de "pactos de regime", em áreas sensíveis como a justiça ou a  saúde, defendidas pelo Presidente da República, tenha a oposição de gente do seu partido, que prefere o "bota abaixo", a "intriga" e a "mentira", à defesa dos interesses e das condições de vida dos portugueses e de todos cidadãos que vivem no nosso país.

(Fotografia de Luís Eme - Cova da Piedade)

sábado, fevereiro 24, 2018

Ilusões, Cambalhotas e Mentiras...

Se há classe de quem se pode esperar quase tudo, é a dos políticos.

É por isso que nem estranho as palavras ditas hoje por Assunção Cristas, líder do CDS:

«Queremos um CDS que já não é visto como partido 'dos ricos', 'dos patrões' ou 'dos quadros', mas é o partido de todos, de todas as idades, homens e mulheres, rapazes e raparigas, que valorizam mais o trabalho, o mérito, as ideias, o afinco, a credibilidade, e, sobretudo, a imaginação, a força criativa e o entusiamo.»

Mas não deixa de ser curioso, todo este "esvaziamento" ideológico coincidir com mais uma "crise existencial" do PSD...

Percebe-se, que se der votos, o CDS até volta a ser um partido democrata, a caminho do socialismo, como aconteceu em 1974 e 1975...

A luta pelo poder faz com que os políticos utilizem todas as armas, assim com todos os números de circo, mesmo aqueles que agora são proibidos, que metem tigres e leões (que agora são mais PSD)...

(Fotografia de Luís Eme) 

quarta-feira, fevereiro 21, 2018

Estás a Fugir para Onde, Democracia?

O que se está a passar no Sporting e no PSD são apenas dois bons exemplos de que a democracia já deixou de ser o que era, e há já algum tempo.

Não vale a pena estar a culpar os EUA e o Trump, porque os nossos problemas ainda não são os deles. Por muito que gostemos de andar em rebanho e de ficar à espera que os outros decidam por nós, ainda não chegámos à América.

Mas é triste quando um dirigente desportivo acha que deve decidir quais os jornais que devemos ler, ou a televisão e rádio que devemos ver e ouvir. E ainda é mais triste, se há uma ou duas pessoas que fazem o que ele quer...

No PSD, embora as coisas se passem de uma forma diferente, todos sabemos que a democracia não é aquilo. Percebe-se à légua que a minoria não aceitou e não consegue respeitar a escolha da maioria dos militantes. E ainda antes do seu presidente começar a trabalhar, os jogos de bastidores já se iniciaram, com o objectivo de "minar" o caminho do novo líder. Mas não deixa de ser triste, que os social-democratas em vez de fazerem oposição à verdadeira oposição política, combatam o próprio partido. 

Quem deve esfregar as mãos de contente com este cenário é uma tal Cristas... (da mesma forma que o Benfica e o seu presidente também devem estar muito agradecidos ao líder dos rivais).

(Fotografia de Luís Eme)

sexta-feira, dezembro 15, 2017

O Associativismo e o Poder...


Não vale a pena bater mais na "ceguinha", ou colocar em causa uma instituição de utilidade pública (mesmo que não tenha o estatuto...), que cresceu demasiado e começou a ser gerida como uma "empresa", até por prestar serviços que a obrigam a ter um número significativo de funcionários.

O que é mais relevante neste caso é o exemplo (mais um...) do que as pessoas fazem com o poder, especialmente no movimento associativo, com demasiados casos de associações vitimas de gestões danosas, por parte de dirigentes incompetentes e com poucos escrúpulos. Não deixa de ser curioso, que acabe por parecer mais fácil, dirigir uma colectividade que vive o seu dia a dia com dificuldades, que uma que viva desafogadamente...

Isto acontece porque uma boa parte das pessoas não sabem (acho que não querem saber...) gerir instituições que tenham dinheiro. Dinheiro esse que continua a ser o alvo de todas as tentações, e que faz com que se dêem tantas vezes, passos mais largos que as pernas, que acabam por ter consequências desastrosas.

Mas o problema maior é o alheamento das pessoas, mesmo que sejam associados desta ou daquela colectividade. De uma forma geral não se preocupam com as questões colectivas, só perdem tempo quando estas se "individualizam" e lhes batem à porta e os obrigam a agir (muitas vezes tarde demais). Mas se isso não acontecer, continuam à espera que sejam os outros a resolver os problemas que deviam ser de todos...

Claro que esta problemática tem muito a ver com a sociedade onde estamos inseridos, do facto de não sermos educados a intervir e a participar, ter uma voz activa e estarmos atentos ao mundo que nos cerca. E não será com os políticos que temos (uma boa parte deles medíocres e pouco honestos...), que as coisas mudarão. Até por que não querem perder o "poder" que têm (basta ver a forma como são sempre selectivos a escolher os seus pares, ou seja, nunca se rodeiam dos "melhores", para não perderem os seus lugares...).

Enquanto não resolvermos esta questão cívica e de cidadania, não iremos a lado nenhum. Só quando as pessoas sentirem que é sua obrigação intervir nas instituições que regem o seu dia a dia (Câmaras, Juntas de Freguesia, Bombeiros Voluntários, Associações de Solidariedade, Sociedades Culturais, Clubes Desportivos, etc), conseguirão afastar os "oportunistas" que tomam conta do "poder", e em vez de servir os interesses colectivos, servem os individuais...

(Ilustração de Robert Armstrong)

sexta-feira, setembro 29, 2017

Num Mundo Quase Perfeito...

Para mim, num mundo quase perfeito, não existiam maiorias, nem partidos a governarem durante mais de uma dezena e meia de anos (curiosamente ouvi a jeitosa da Cristas dizer quase isso sobre Lisboa, falou só numa dezena, porque parece ser o tempo do PS no poder na Capital...).

E durante as campanhas para eleições todos os candidatos a qualquer coisa deviam sofrer do "síndroma do pinóquio", ou seja, cada vez que dissessem uma mentira, sentiam o nariz a crescer, crescer, crescer... 

Como sempre, sei em quem devo votar, da mesma maneira que sei em quem não devo (é sempre bom não esquecer algumas pessoas que bem podiam andar à pesca  rente ao rio, em vez de se andarem a enganar e a enganar-nos, anos a fio...).

É também por isso que gosto particulamente das eleições autárquicas, por serem as únicas em que se vota sobretudo nas pessoas. Às vezes até votamos em pessoas que não pertencem ao partido que está mais próximo de nós. E é bom quando isso acontece. Pensamos mais na competência e nas qualidades humanas dos candidatos que da sua cor política...

(Fotografia de Luís Eme)

quarta-feira, junho 21, 2017

Um Homem Maior que o País (mesmo assim não é ouvido por quem de direito...)


Se há coisa que me faz confusão é o facto de nos últimos 40 anos, quase ninguém ter dado ouvidos à pessoa que melhor tem defendido o país em termos ambientais, sempre com propostas e respostas assertivas. Falo do arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles, que o site da "Visão" recuperou com grande sentido de oportunidade, uma sua entrevista realizada no Verão de 2003, em que ele diz coisas como:

«(incêndios) A grande causa é um mau ordenamento do território, ou seja, a florestação extensiva com pinheiros e eucaliptos, de madeira para as celuloses e para a construção civil. O problema foi uma má ideia para o País, a de que Portugal é um país florestal. Lançou-se a ideia de que, tirando 12% de solos férteis, tudo o resto só tem possibilidades económicas em termos de povoamentos florestais industriais.»

«Houve toda uma política de desprestígio do mundo rural tendo por base a ideia de que era inferior ao mundo urbano. Despovoámos os campos e essa gente toda veio para a cidade. Hoje, enfrenta o desemprego. Esqueceram-se que o homem do futuro vai ser cada vez mais o homem das duas culturas, da urbana e da rural. Hoje, 30% das pessoas que praticam a agricultura económica na Europa não são agricultores. É gente que vive na cidade, tem lá o seu escritório e tem uma herdade no campo onde vai aos fins-de-semana. A expansão urbana aumenta e não podemos viver sem a agricultura senão morremos à fome.»

«Defendi uma regionalização há muito tempo, que deu origem a um documento de que os grandes partidos fizeram muita troça. Dividia o País em cerca de 30 regiões naturais, áreas de paisagem ordenada, que estavam já organizadas histórica e geograficamente.
São as terras de Basto, as terras de Santa Maria, as terras de Sousa, a Bord'água do Tejo, etc. O País é isso e não é outra coisa. Esta regionalização podia contribuir para a efectivação dos planos de ordenação da paisagem, com uma participação democrática das respectivas populações.»

Muito do que Ribeiro Telles diz quase todos sabemos, mas nunca se viu um único ministro ou secretário de Estado, a seguir as suas palavras... - alguns até são capazes de mudarem de passeio se o encontrarem na rua. Ou seja, andamos há décadas a destruir o nosso país, sem que quem exerce o poder, faça o que lhe compete: defender a natureza e o ambiente.

(Fotografia de autor desconhecido)
                                            

segunda-feira, junho 19, 2017

As Reacções à Tragédia do Distrito de Leiria

Sem poder dizer se isso é bom ou mau (pelo menos parece-me positivo), estou surpreendido com algumas das reacções à grande tragédia que atingiu os concelhos de Pedrogão Grande, Castanheira de Pera e Figueiró dos Vinhos.  

O que mais estranhei até ao momento foi a contenção da "direita" que foi governo antes da "gerigonça", por normalmente serem bons a "jogar baixo", ao ponto de culparem os sucessores  por erros próprios (cometidos quando governavam). Provavelmente fizeram-no a pensar nas últimas sondagens (cada vez mais baixas...) e não por qualquer coisa parecida com sentido de estado ou respeito pelas vitimas.

Mesmo os comentadores ultra liberais não trouxeram muitas achas para a fogueira. Criticaram as palavras "conciliadoras" e quase "conclusivas"  do Presidente da República - com razão, até por se saber muito pouco sobre o que aconteceu... -, que mais uma vez falou demais... E também questionaram - mais uma vez, bem - o não fecho atempadamente das vias rodoviárias atingidas pelo incêndio, com os resultados que todos sabemos... 

Sem se apontar dedos, a quem quer que seja, acho que é importante abordar tudo aquilo que não correu bem (neste e noutros incêndios), e fazer-se mesmo alguma coisa, para que uma tragédia destas dimensões não volte a acontecer. Se nos limitarmos a culpar a "trovoada seca" e a "assobiar para o lado", um dia destes já não há árvores para arderem (nem mesmo eucaliptos...) neste nosso canto, demasiado quente para o meu gosto. 

Sem querer ser "moralista", sei que todos temos de mudar de atitude. Vivermos melhor ou pior, depende cada vez mais da forma como nos relacionamos com a Natureza. E é já hoje, não temos tempo para esperar por amanhã... 

(Fotografia de Miguel A. Lopes - retirada do site do "D. Notícias")

sexta-feira, maio 26, 2017

Os Daltonismos Crónicos e a Liberdade...


Há pelo menos um ponto comum entre a maior parte dos "seguidistas militantes" - políticos, futebolísticos ou religiosos -, no seu limitado mundo "cromático" todos têm de ter um partido um clube ou um credo. Ou estão com eles ou contra eles.

Não acreditam que existam pessoas livres e independentes, que se estão borrifando para tudo aquilo que rodeia a política, o futebol ou a religião.

No tempo da inquisição havia uma solução para eles, as fogueiras. Nos regimes que se fingem democráticos, há o olhar de lado, o apontar o dedo, o fechar portas, a agressão gratuita (verbal e física), os muitos sinais de proibição, com o objectivo claro de criar uma barreira invisível, para onde possam empurrar os "outros"...

Tenho a sensação que é cada mais complicado pensarmos apenas pela nossa cabeça e seguirmos as estradas que queremos...

Mas a liberdade nunca foi uma utopia, sempre foi um desígnio do homem e de quase todos os outros animais...

(Óleo de John Woodrow Kelley)

quarta-feira, março 15, 2017

As Queridas Utopias...


Vivemos num tempo em que as ideologias dominantes querem acabar com tudo, até com a nossa capacidade de sonhar.

Continuo a pensar que as utopias nos fazem bem, especialmente quando são positivas ou trazem valor acrescido para nós, no todo.

É também por isso que acho bem que o PCP e o BE continuem a defender as linhas programáticas que sempre defenderam, apesar de hoje terem alguma responsabilidade governativa.

E neste caso particular, estes cartazes nem têm nada de utópico (excepto para os pequenos e grandes capitalistas...).

Noutros tempos, socialmente mais justos, era perfeitamente normal que a cada trabalho permanente correspondesse um contrato efectivo.

Como diria o Carlos, «não confundam cagalhões com marmelos». 

(Fotografia de Luís Eme)

segunda-feira, agosto 22, 2016

Os Políticos e os Porcos que sabem Andar de Bicicleta...


A presença oficial do CDS (e de Paulo Portas...) no Congresso do MPLA em Angola  podia entrar naquelas historietas em que há sempre alguns fulanos a afirmarem que viram o porco do costume "a andar de bicicleta"...

Mas não, foi mesmo verdade. E até mandaram um  "deputado afro", que quase se torceu todo em elogios, aquele governo exemplar

Este procedimento retrata muito bem os políticos portugueses que têm ocupado cargos de poder nas últimas décadas, sempre sorridentes, agachados e de mão esticada para com os "donos de Angola".

Pouco importa se Angola é uma "democracia a fingir" ou se voltou a ser o país com a maior taxa de mortalidade infantil do mundo. Os diamantes e o petróleo são bem mais importantes que a democracia e as criancinhas...

(Fotografia de Sebastião Salgado)

sábado, julho 02, 2016

Os Ideários não Transformam as Pessoas em Marcianos

Para aquele "camarada" de voz inflamada o médico do BMW e dos fatos de marca nunca podia ser comunista.

Todos aqueles que o podiam chamar à razão, olhavam para o ar e para os lados. Sabiam tal como eu que a ignorância nunca deixará de ser atrevida, e em muitas situações limite, até cega e ofensiva. Ninguém quis gastar um pouco de "latim", para trazer aquele homem à razão, tirá-lo, nem que fosse por momentos, do "mundo das sombras", libertando-o das suas certezas...

Até que houve uma mulher cheia de coragem, que foi capaz de lhe dizer que mais importante que o carro do médico e as roupas que vestia, era a sua prática diária, ser incapaz de levar dinheiro por uma consulta a todos aqueles que não tinham dinheiro para a pagar. E encaminhar os que precisavam para os hospitais públicos e não para as clínicas privadas.

Depois de um silêncio ensurdecedor que durou alguns segundos, ouviu-se um eco de apoio generalizado àquela mulher-coragem. O homem cheio de certezas, baixou a cabeça, só não sei se se apercebeu da facilidade com que nos deixamos levar pelo verbo e conseguimos ser injustos...

A realidade mostra-nos que o século XXI acabou com os proletários, somos todos "burgueses", quanto mais não seja pelos hábitos de vida que nos são impostos socialmente. 

Mas mesmo no passado sempre houve militantes e amigos do PCP com poder económico. Há tantas histórias por contar de doutores e engenheiros que esconderam militantes na clandestinidade nas suas casas e depois os transportaram nos seus carros até à fronteira...

Continuo a pensar que mais importante que qualquer ideário, é a prática com que vivemos o nosso dia-a-dia, não ignorarmos que esta sociedade que fabrica ricos muito ricos (cada vez menos) e pobres muito pobres (cada vez mais) não serve ninguém.

Até porque os ideários - mesmo que por vezes isso possa parecer possível - nunca transformaram pessoas em marcianos...

(Fotografia de Eduardo Gageiro)

segunda-feira, janeiro 25, 2016

O Novo Presidente e Estas Sondagens (Irritantes)

Embora tenha acontecido o que se esperava, quem não pertence à área política de Marcelo Rebelo de Sousa alimentava a esperança de uma segunda volta, da possibilidade de um novo "tira-teimas", desta vez só a dois. E com o imaginário em Freitas e Soares, embora hoje tudo seja diferente, com uma esquerda mais desunida...

E o mais curioso é que as divisões não se verificam entre os partidos de esquerda, mas sim no interior do próprio PS. Não tenho grandes dúvidas que muitos dos "inimigos" do Costa e "amigos" da Maria de Belém, preferiam aclamar Marcelo como presidente a votar em Sampaio da Nóvoa.

E estas sondagens (tão certeiras...) continuam a irritar-me. Já nas eleições legislativas, nunca acreditei na vitória da coligação de direita. Pensava que os seus quatro anos de governação, em que colocaram o país num estado miserável, tinham sido suficientes para empurrarem as pessoas para outro tempo, mas não. E agora fiei-me um pouco de sermos um país maioritariamente de esquerda, esquecido que metade da nossa população prefere não escolher, entregar-se à vontade dos outros. São sobretudo estes que merecem os Passos, os Portas e os Cavacos...

E agora só espero que Marcelo seja o que disse no seu discurso de vitória, porque precisamos de um presidente responsável em Belém e não de um "catavento". Já nos chegaram os últimos dez anos, povoados de "cobardias" e "silêncios", bem escondidos nos roteiros cavaquistas "do nada".

(fotografia de Luís Eme)

domingo, janeiro 24, 2016

«Todos os grandes homens são comunistas.»


Ontem assisti em Almada a uma sessão de homenagem ao poeta Joaquim Namorado, na sala Pablo Neruda, do Forum Romeu Correia, organizada pela Associação Cultural Manuel da Fonseca.

Os quatro elementos da mesa de honra (Fernando Fitas, Henrique Dória, Alexandre Castanheira e António Pita) prestaram um belo serviço à memória deste homem, que foi muito mais que poeta. Foi professor, resistente comunista e até jornalista (principal responsável pela revista cultural "Vértice", quando esta era publicada em Coimbra...).

No final foi dada a possibilidade à plateia de fazer  perguntas sobre o homenageado à mesa. 

Por a sessão ter sido um pouco longa não foi levantada nenhuma questão, mas mesmo assim houve duas intervenções, uma delas com uma síntese do que se passara e a outra para enaltecer o ideário político do homenageado. Embora a pessoa em causa tenha começado por sublinhar a importância da cultura na sociedade, assim que teve oportunidade  "vendeu o seu peixe" - ao qual não faltou o tratamento a todos presentes por "camaradas", culminando com esta frase: «Todos os grandes homens são comunistas.»

Eu, que marxista me confesso, mas pouco dado a fundamentalismos, sejam eles religiosos, desportivos ou políticos, lembrei-me logo naquele momento de Miguel Torga, Sophia e Jorge de Sena. 

Claro que só houve uma pessoa que respondeu ao senhor, e com bonomia, para não "estragar" uma sessão tão importante para a preservação da memória.

É pena que muitas pessoas não percebam que existe mais mundo para lá dos seus "credos". E basta olharmos o "mundo" de frente para sentirmos os males desta "doença" que se chama fundamentalismo...

(Fotografia de Luís Eme)

quarta-feira, dezembro 09, 2015

A Coragem Intelectual e Política


Apesar de Pacheco Pereira gostar de controvérsia e de "nadar contra a corrente", é um dos comentadores que mais desafia a nossa inteligência, porque nunca se limita a dizer mal disto ou daquilo. Desenvolve sempre o seu pensamento com grande clareza, sem nunca ter medo de incomodar este ou aquele, à esquerda ou à direita.

Houve alturas em que pensei que as pessoas como ele não têm lugar dentro dos partidos, porque são demasiado livres para se submeterem à, tantas vezes incómoda, disciplina partidária.

Hoje continuo a pensar a mesma coisa. Embora reconheça que o problema está mais dentro dos partidos que em pessoas como o Pacheco Pereira. A diversidade de opiniões desde há uns anos para cá passou a ser ser uma coisa negativa nos grupos políticos, algumas vezes até é encarada como "traição", como se toda a gente tivesse de gostar do amarelo ou do lilás.

Lembro-me do tempo em que quase todos os partidos criticavam o PCP pela sua disciplina interna, apelidada de "estalinista".  É por isso que me incomoda o que se passa na actualidade em praticamente todos os partidos, em que a chamada "voz do dono" impera sobre todas as outras.

Ou seja, não foi o Pacheco Pereira que mudou. A democracia partidária é que passou a ser uma coisa diferente, deixando muito a desejar, pelos exemplos que nos são oferecidos quase diariamente.

Este é apenas mais um dos exemplos de que somos em 2015 um país muito menos livre que em 2010, para não recuar mais no tempo...

sábado, novembro 07, 2015

O Ressentimento e o Ódio Despertaram, Quarenta e Um Anos Depois...


No dia 25 de Abril de 1974 tinha apenas onze anos e vivia numa Cidade pacata, sem grandes laivos revolucionários.

Mesmo assim sempre gostei deste dia e da feliz ideia de crescer num país mais justo, fraterno e livre, que aquele que existira até então. 

E também gosto do que aconteceu no PREC, mesmo que tenha sido um período de grandes batalhas entre as esquerdas, os centros e as direitas. Embora nesses tempos andasse mais entretido a brincar, sei do que falo porque tenho lido muitos jornais, revistas e livros, e claro, ouvido o testemunho de tantos amigos mais velhos, que viveram esses anos inesquecíveis de 1974 e 1975, com os sonhos quase a flor da pele.

É por isso que me espanta, que 41 anos depois da Revolução, a possibilidade da existência de um governo com o apoio da esquerda (maioritária no parlamento) assuste tanta gente e liberte tantos fantasmas...

Hoje ouvi uma história pela primeira vez, da violência que era exercida sobre os operários não comunistas na Lisnave. Embora a fonte esteja longe de ser credível, não deixei de ficar espantado pelo relato, em que alguns elementos nem sequer para o duche se deslocavam sozinhos. 

E mesmo que seja verdade, porque razão estas pessoas não esqueceram todos esses excessos, próprios das revoluções (e a nossa até foi das menos sangrentas que se conhecem)?

E porque razão não confiam na palavra dos comunistas?

Não consigo compreender todo o ressentimento e ódio que têm enchido as páginas de alguns jornais. 

Talvez o problema tenha sido ter apenas onze anos no dia 25 de Abril de 1974 e viver até aos dezoito anos numa Cidade pacata, sem os tais grandes laivos revolucionários.

Ou talvez não. Provavelmente o problema está nos meus pais, que nunca alimentaram na nossa casa qualquer tipo de ódio ou ressentimento. 

E como lhes agradeço, de todo o coração.

A fotografia é de Bill Perlmutter, a prova de que a Vila da Nazaré não foi descoberta por McNamara.

domingo, outubro 18, 2015

O Medo que Toda Esta Gente Tem das Pessoas Livres...


Ainda não me assusta, mas já me começa a incomodar, sentir, cada vez mais, que ser livre começa a ser quase sinónimo de "fora da lei", como aconteceu entre 1926 e 1974, esses 48 anos de tão má memória, e que tantos já esqueceram...

Não vou deixar de ser livre, de dizer ou escrever o que penso, apenas porque alguém fica com "azia", ou ainda pior, a "espumar pela boca".

Infelizmente este medo não é apenas da direita, é essencialmente de quem exerce o poder (que também não se resume ao poder político, infelizmente os maus exemplos são seguidos por muito boa gente, com "alma de ditador").

Podia dar como exemplo a cidade onde vivo, Almada, governada desde 1976 pelo PCP (ainda que com siglas diferentes, de APU a CDU), onde tenho sofrido vários tipos de pressões, quase todas encapotadas, que se reflectem sobretudo na falta de apoio a iniciativas da qual faço parte.

Claro que a direita é mais carnívora, especialmente quem pensa pertencer a "castas", que por si próprias lhes dão acesso ao poder (as famílias que não têm feito outra coisa, que não seja viver à nossa custa, há já quase 900 anos...), é por isso que gostam tanto de monarquias, de dinastias, condados e afins.

Quando comecei a escrever nem sequer estava a pensar em Angola, onde as coisas terão forçosamente que mudar, ainda que para isso possam existir vitimas mortais, como podem ser os casos de Albano "Liberdade" ou de Luaty Beirão...

É por tudo isto que quando me perguntam qual é a palavra que gosto mais, digo sempre, LIBERDADE.

O óleo é de Winslow Homer.

quinta-feira, outubro 15, 2015

Espera-nos um Futuro Demasiado Cinzento


Desde que os resultados das eleições proporcionaram esta "luta de frangos" - mais que prevista - não voltei a escrever sobre política.

Mas ela diz bem da qualidade dos nossos líderes políticos, gente sem capacidade para governar em busca de consensos, ou seja, sem maiorias. Fingem-se esquecidos do que é a democracia, porque bom bom é a autocracia, fazerem o que lhes dá na real gana, como fizeram os partidos de direita nos últimos quatro anos.

Esta será a grande diferença que existe entre António Costa e Passos Coelho, o primeiro além de ser menos mentiroso (foi também por isso que perdeu as eleições...), já provou na Câmara de Lisboa que é capaz de ir à procura de consensos, quando tem necessidade disso.

Não sei qual vai ser a posição de António Costa em relação ao "canto da sereia" do PCP e do BE. Espero que pense bem no que vai fazer e que não centralize o olhar apenas no poder, na ambição de ser primeiro-ministro.  Espera-se no mínimo que seja capaz de fazer um acordo que lhe garanta a governação com o programa do PS e não dos outros partidos.

Mas seja qual for a posição de António Costa, o seu partido continua de tal forma dividido (ele já deve ter percebido que conta com uma oposição interna mais forte que nunca...), que pode ir desaparecendo aos poucos, apesar do conservadorismo político dos portugueses, avessos a grandes mudanças.

Mais perigosa será a política de "vitimização" que vai ser levada a cabo por Passos e Portas (maior se for formado um governo de esquerda...), que irão sempre dizer que forem eles os escolhidos pelo povo, ao mesmo tempo que culparão o PS de todos os problemas, especialmente os herdados da coligação. Porque entre outras coisas, eles sabem mentir e explorar melhor do que ninguém a "memória curta" dos portugueses.

Esta política de vitimização só terá um objectivo: criar condições para novas eleições e levar a direita a uma nova maioria no parlamento.

A ilustração é de Ben Shahn.