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terça-feira, outubro 17, 2017

Morre-se um Pouco Todos os Dias...

Vamos morrendo um pouco todos os dias, mas há dias em que "morremos" vários anos seguidos...

Foi mais ou menos isto que a mulher de mais de setenta anos disse, quando à hora das telenovelas começou a chover, e todos voltámos a sorrir na esplanada coberta...

Ninguém lhe respondeu. Fingimos todos estar mais interessados na chuva que estava a lavar as ruas e a disfarçar o nosso sentimento de culpa, por não conseguirmos fazer nada, para alterar o rumo de um país que gosta de aproximações ao abismo.

Mas a mulher precisava de desabafar. E continuou a falar, a dizer o que quase todos sentíamos: «Agora não foram só duas ou três terras queimadas, foi o país quase todo. Todos conhecemos uma aldeia ou uma vila que ficou destruída, ou alguém que tem um familiar ou amigo que perdeu tudo...» 

E continuou, agora mais enraivecida: «E nenhum destes bandidos que governa se vai embora.» Nós continuámos a fingir-nos entretidos com os fios de água que caíam e já formavam poças.

A mulher que falava por nós todos ainda foi capaz de dizer: «Só espero que não desate a chover sem parar. Só faltava virem as cheias a seguir...»

(Fotografia de Rui Oliveira - N.Magazine)

terça-feira, janeiro 03, 2017

O País da Liberdade...

Nunca tinha pensado nas potencialidades do nosso país como espaço de liberdade e de anonimato, para pessoas que um dia qualquer tinham andado com a estrela de famoso nos bolsos.

Sabia que no Algarve havia muita gente importante com casa de férias, mas normalmente vivem recatados, entre amigos, onde é proibido falar português. A única coisa que querem de nós é o sol e o areal da praia...

Foi por isso que foi uma surpresa saber que aquele casal de idade que se esforçava para falar português vivia na Beira, numa pequena quinta com oliveiras e também outras árvores de fruto, da qual falavam com um carinho especial.

Quando a Marta nos apresentou, gostei sobretudo da serenidade que transportavam nos olhos. Disseram que tinham vindo para ficar, para sempre, neste canto da Europa. Não voltaram a Paris nem a outra cidade europeia. Preferem passar o tempo a ver as coisas a crescer na sua aldeia. 

Quando sentem necessidade de passear, dão um volta pelo nosso país. Só lhes falta conhecer a parte de Trás-os-Montes, para lá do Douro. E cada vez amam mais Portugal e os portugueses.

Os filhos e os netos quando os querem ver, sabem que é só aparecer por cá.

Adoram o nosso silêncio e o respeito pela privacidade alheia. O senhor com idade para ser meu pai, sorriu, quando contou que  houve uma altura em que pensou ser impossível voltar a ser livre nesta vida, puder ser apenas mais um...

Pois é, nem tudo é mau, por não sermos um pais muito culto e conhecedor da gente que entra nos filmes...

Claro que quem gosta de andar de vermelho e de ser amado "eternamente" pelas multidões, o melhor que tem a fazer é não se mudar para Portugal, por causa das desilusões.

(Fotografia de autor desconhecido)

quarta-feira, fevereiro 17, 2016

Dilemas Humanos...

Quando se nasce perto do mar ou de um rio largo como o Tejo, é quase incompreensível não se saber nadar, até por uma questão de sobrevivência.

Sim, sobrevivência. Sempre me pareceu estranha a versão de que muitos pescadores preferiam não saber nadar, para em caso de naufrágio, sofrerem menos. Podem sofrer menos, mas dificilmente sobrevivem, pelo menos quando se estabelece uma comparação com os seus companheiros que sabem nadar.

Mas quem nasce a centenas de quilómetros do mar e apenas com ribeiros por perto, pode mesmo chegar à idade adulta sem saber nadar. Com algum jeito, é possível esconder esta limitação, fingindo por exemplo não gostar dos banhos de mar, por causa das ondas e da temperatura da água.

Andar de bicicleta é quase a mesma coisa...

Estou a escrever porque houve alguém que me perguntou: «Se eu te dissesse que não sabia nadar nem andar de bicicleta, o que é que chamavas?»

Claro que a primeira palavra que me surgiu foi mentirosa...

Mesmo sabendo que se pode viver sem problemas de maior, pois nadar ou andar de bicicleta estão longe de ser coisas essenciais no nosso dia a dia citadino.

(Óleo de Pino)

segunda-feira, junho 01, 2015

Um Largo Cheio de Estórias


Este mês estou a pensar fazer algo diferente aqui no "Largo". Não vou montar barraquinhas e festejar os Santos Populares, até porque prefiro manter o sossego habitual.

Este meu "Largo" tem a vantagem de ficar num lugar onde não passam carros, onde é possível sentarmo-nos nos seus bancos e deixar escorregar algumas migalhas de pão no chão e recebermos a companhia dos pardais que se fartam de cantar nas árvores...

Mas vamos lá ao que interessa: ao longo do último ano fui escrevendo aquilo que poderia ser um romance (mas já são pelo menos meia dúzia, tal foi a divagação...), pelo que irei transcrever alguns pedaços de histórias, ilustrados com a beleza das fotografias a preto e branco.

Será este o Junho no "Largo da Memória"...

A fotografia é de Bill Perlmutter.

terça-feira, janeiro 27, 2015

Voltou a Morrer-se em Casa, quase Pacificamente, por esse Interior Fora...


O jornalismo mudou muito e para pior, Não se anda à procura de notícias, espera-se que as notícias batam à porta. E quando batem é um corropio, com reportagens para quase todos os gostos.

É por isso que os jornais e as televisões montam piquetes nas urgências dos hospitais, à espera de mais mortes enquanto se espera a vez. E por razões que a razão desconhece, continuam atentos a quem passa pelo estabelecimento prisional de Évora...

Num outro país, longe dos hospitais e onde os centros de saúde fecharam, muitos avós, perdidos nas aldeias do interior, morrem calmamente, sem que tenham de viajar para o "purgatório" que conhecem da televisão, onde tanto se morre da cura como do mal, pelo menos é o que pensam.

Se não há dinheiro para todos os medicamentos, menos haverá para pagar um táxi até à cidade mais próxima, quase sempre a trinta, quarenta quilómetros...

Os governantes e os jornalistas estão longe deste país. As terras longínquas dão poucos votos e ainda menos notícias.

Nada que incomode muito os velhos destas terras votadas ao abandono. Se lhes perguntarem se querem ir para o hospital, não abrem a boca mas abanam a cabeça, e dão uma resposta negativa. Se puderem escolher, morrem em casa, preferencialmente durante o sono, mesmo que seja breve... 

O óleo é de Célia Reisman.

sábado, agosto 23, 2014

Faltava-lhe um Outro Caminho...


Quando se vive no interior normalmente sente-se falta do mar... sente-se falta do que está mais distante.

Ele não, sentia falta de um caminho de ferro, de ver chegar e partir comboios que deixavam e levavam pessoas, e também dos outros de mercadorias, que demoravam uma eternidade a passar. Sabia porque contara uma vez as carruagens, quando foi à cidade grande, enquanto esperava pela composição que o traria de regresso a casa. A automotora puxava nada mais nada menos que 36 carruagens...

Quando olhava para trás, não tinha dúvidas que tinha sido um rapaz estranho, demasiado curioso por tudo o que o rodeava. Devia ser por isso que era bom a  fazer perguntas que incomodavam os adultos, quase sempre por não terem respostas...

Hoje quando volta ao lugar onde cresceu, sorri quando pensa nas coisas que pensava que lhe faltavam na infância, especialmente as respostas que nunca recebeu dos adultos...

O óleo é de Michael Peck.

quarta-feira, agosto 06, 2014

Longe do Mar


"Longe do Mar" é um dos últimos livros publicados na colecção Retratos da Fundação (Francisco Manuel dos Santos), da autoria do jornalista do "Público", Paulo Moura.

Comprei o livro sem saber muito bem qual era a sua história (estava à espera numa superfície comercial e para matar o tempo, fui à procura de uma revista e trouxe o livro...) e acabou por ser uma boa surpresa.

Embora já tivesse lido algumas destas histórias no jornal e no blogue do Paulo, "Repórter â Solta", foi bom voltar a sentir o que é viver no interior, em muitos casos praticamente afastados de tudo...

Uma das histórias que já tinha lido e que voltei a ler - com alguma emoção - foi da senhora que viveu durante vinte anos sozinha na aldeia de Anta, a Joaquina. Parece uma coisa absurda, alguém viver tanto tempo sozinha, ainda por cima numa aldeia praticamente inabitável no Inverno, mas aconteceu...

O livro conta muitas outras história de vida, que se passam ao longo da estrada nacional nº 2, de Chaves até Faro, nem sempre fáceis, de gente que até parece ser de outro país...

sábado, abril 19, 2014

Interioridades


Mesmo sendo um país pequeno, somos incapazes de aproveitar ou explorar as potencialidades que existem no interior. 

Mas não é coisa de hoje, sempre o fomos, sempre tivemos o desejo de "vir ver o mar" e depois acabamos por ficar...

Fala-se muito de qualidade de vida, que existe longe dos grandes centros urbanos. Mas e o resto? E já não falo do teatro, do cinema, dos concertos? (e agora até os livros - falamos pouco, mas quase que não existem livrarias, fora dos centros comerciais...). Falo sim dos centro de saúde, das escolas das repartições de finanças e dos tribunais, encerrados, porque o dinheiro manda em quase tudo...

Compreendo muito bem os jovens que partem assim que podem, até porque a "pasmaceira" nunca foi uma coisa muito saudável para quem está na flor da idade...

O óleo é de Keita Morimoto.