terça-feira, maio 23, 2017

Um Mundo Sem Conserto...

Nada do que possa dizer faz muito sentido, neste mundo farto em lugares onde se vive um dia de cada vez...

E se há coisa que não quero hoje, é armar-me em moralista, até por saber que cada vez devemos esperar menos dos "animais inteligentes", que sempre preferiram o lado errado da vida, mesmo quando saiam à rua com uma auréola em cima da cabeça e enchiam a boca de palavras bonitas.

Bem diz o povo sábio, que de bons intenções está o inferno cheio.

Alguns portugueses continuam a assobiar para o ar, fingem acreditar na Senhora dos milagres de Fátima e esquecem-se que o "cerco a Lisboa" também há-de chegar, mais tarde ou mais cedo...

(Óleo de John Bowen)

segunda-feira, maio 22, 2017

Os Ganhos e as Perdas na Cultura


O Zé disse-me, com um sorriso nos olhos, que a ausência de dinheiro fácil está a expulsar os oportunistas do mundo da cultura. Não sei se é bem assim.

Ele pode ter razão quando diz que nunca se ganhou tão pouco dinheiro a cantar, a tocar, a pintar, a filmar, a fotografar ou a escrever. É ligeiramente mais novo que eu, ou seja ainda é do tempo em que se vendiam discos pequenos e a internet era uma incógnita, olhada de lado por uns e quase um sonho para outros.

Mas também se devia lembrar que nunca houve tanta gente a acotovelar-se e a querer ser alguém nas culturas...

Claro que ele conhece melhor o meio que eu. Fez parte de boas bandas da Margem Sul graças ao seu talento como guitarrista. Depois começou a produzir, onde ainda continua... 

Consumidor cultural e companheiro de uma realizadora de filmes (cada vez mais de publicidade...), conhece muita gente e oferece-me exemplos. Artistas plásticos que trabalham quase exclusivamente com os computadores, porque não lhes apetece sujar as mãos e andar a gastar dinheiro em telas e tintas. Poetas que escrevem em blogues e oferecem os poemas em folhas soltas aos amigos. Músicos que são vendedores de qualquer banha da cobra, empregados de bares e até seguranças em jogos de futebol. Fotógrafos que circulam à volta das estrelas das telenovelas e do futebol, trabalhando à peça. Dos filmes tem o exemplo da Catarina lá em casa.

Eu limitei-me a recordar-lhe que quando o dinheiro voltar, eles regressam (se é que se estão a afastar)...

(Fotografia de Alberto Galducci)

domingo, maio 21, 2017

Jogos de Diferenças...


Um casal de meia idade que já não via há uns dias largos, quis saber coisas de mim e da minha família. Falei-lhes do último "pesadelo" cá de casa. O homem maduro disse: «O tamanho dos problemas revela-se sobretudo na forma com os enfrentamos.»

Eu sabia que era assim. Até por não ser muito melodramático em relação a tudo o que nos cerca.

A esposa argumentou que nem sempre era assim. Mas claro que era, e é. A forma de encararmos os problemas (sem fugir deles...) e de os tentar resolver da melhor maneira, ajuda sempre.

Quando vinha para casa pensei na minha capacidade de abstração (o que irrita muito boa gente...), do facto de raramente ficar a matutar nos problemas,  de tentar dar sempre um passo em frente.

Ao começo da tarde, antes do início da tertúlia em que estava envolvido, uma mulher veio-me com a história de que os homens só sabem fazer uma coisa de cada vez, dando como exemplo o marido. Respondi que por acaso eu consigo fazer duas ou três, mas nunca a dúzia das mulheres... deixando-a  em silêncio com cara de caso.

Mas acho que sim, temos várias características que nos distinguem. Esse facto de que tanto as orgulha, de fazerem muitas coisas ao mesmo tempo, também lhes altera completamente o sistema nervoso. E é por isso que não conseguem ultrapassar os problemas da mesma forma dos homens (sei que algumas dizem que isso acontece por irresponsabilidade, mas é muito mais que isso...).

Embora cada caso seja um caso, nestes "jogos de diferenças"...

(Fotografia de Robert Doisneau)

sábado, maio 20, 2017

A Arte Enquanto Espaço Criativo e Espaço de Sobrevivência...

A meio da semana encontrei-me com um amigo pintor, que já leva muitos anos de pinturas e de exposições. Um dos traços mais marcantes da sua personalidade é a exigência que tem para cada obra, basta não gostar de um pormenor do que está a pintar, para rasgar o que faz e colocar no lixo (tenho algumas obras dele, que salvei do "caixote"...).

Falámos de muitas coisas, inclusive do mercado de arte, que mudou muito nos últimos anos (há cada vez mais dificuldade em vender obras de arte... a excepção devem ser os grandes artistas, cujas obras continuam a atingir valores recordes em leilões).

Foi nesta altura da conversa que falei dos muitos artistas de rua, que enchem as ruas de Lisboa de "cópias" de eléctricos, ruas de Alfama, que vendem a presos irrisórios. Achei curioso ele não ter utilizado nenhum adjectivo negativo para qualificar estes vendedores de pinturas, que são outra coisa, que passa um pouco ao lado da arte.

Até me falou do exemplo de um pintor amigo, que pintava os quadros quase todos iguais (isto ainda antes de Abril...). Quando lhe disse que isso o reduzia como artista, este argumentou que antes de ser artista era chefe de família. Ou seja, como se dedicava exclusivamente à pintura, pintava o que lhe encomendavam das galerias, ou seja o que era mais procurado e se vendia (as ruas típicas de Lisboa). Porque sem este dinheiro não conseguia sobreviver. O artista das obras originais aparecia depois...

Com este argumento  o meu amigo ficou sem palavras.

Óleo de Ralph Hedley)

sexta-feira, maio 19, 2017

A Mulher que é Sempre Notícia no Bairro...

A tua janela nunca se abre.

É como o teu rosto, que já se deve ter esquecido do que é sorrir.

Quem pensa que te conhece, conta uma história. Fala de várias coisas que acabam sempre com um amor não correspondido.

Outras mulheres, do grupo raro que ainda conversa na mercearia, vão ainda mais longe, acrescentam à tua mágoa, um filho perdido.

Comentam também a tua magreza. Umas falam de fome, outras de ausência de apetite, e as que lêem revistas com ficções, de anorexia.

A única coisa que não consegues é ser invisível.

Seja pela janela que nunca se abre, pelo teu rosto fechado, por um amor não correspondido, pela mágoa de um filho perdido ou pela magreza, és sempre notícia no bairro...

(Fotografia de Judy Linn - Patti Smith)

quinta-feira, maio 18, 2017

Coisas da Poesia e dos Poetas do Nosso Contentamento...

Podíamos estar a tarde toda a falar de poesia e de poetas, não apenas do que escrevem, mas também do que nos fazem sentir. Embora um dos momentos mais pitorescos da conversa tenha acontecido quando contámos pequenos nadas, curiosos, daqueles que fazem sorrir...

Eu também tinha um, passado com o Zé Gomes Ferreira, no qual tive a ousadia de confundir a sua arte, na primeira vez que nos cruzámos ao vivo, num Primeiro de Maio das culturas. Quando me perguntaram se conhecia o homem com ar feliz, de cabeleira branca farta e quase despenteada, que passou por nós e me piscou o olho, fiquei a pensar. E a primeira pessoas em quem pensei foi no Leonard Bernstein, que era visita assídua na televisão (quando o nosso mundo era só RTP e a preto e branco, a "caixa mágica" oferecia-nos música da boa, mesmo que nessa altura não morresse de amores pela arte sinfónica, ao contrário do pai, que escutava deliciado, o homem que não conseguia estar quieto e também usava uma excêntrica cabeleira branca...). Foi por isso que disse que ele não me era estranho, perguntando de seguida se era maestro.

Não, era poeta, e dos militantes, disse-me a Teresa com um sorriso rasgado. E eu nessa altura até já tinha lido "O Mundo dos Outros" e até tinha gostado daquela linguagem de quem finge que anda por aí distraído, mas vê tudo.

Ainda nos encontrámos uma ou outra vez, a última foi no Chiado, talvez em 1981 ou 82. Apeteceu-me mesmo dizer-lhe um «olá Poeta», mas senti que ele estava completamente absorvido por algo que se passava a metros (ou quilómetros...) dali. Já nesse tempo evitava ser inconveniente.

Talvez o grande Zé Gomes estivesse naquele preciso momento dentro de um poema...

(Fotografia de autor desconhecido, com Zé Gomes Ferreira bem acompanhado, na festa do Avante de 1977, com Mário Viegas, outro grande amante da poesia e dos poetas e com a actriz Fernanda Lapa, digo eu...)

quarta-feira, maio 17, 2017

As Pessoas que Gostamos de Ver e as que Precisamos de Encontrar...


A vida vai tornando as ruas cada vez mais longas, afastando-nos inevitavelmente de esquinas e lugares onde sabemos que podemos encontrar a Etelvina ou o Serafim (escolhi estes nomes porque ofereço-os muitas vezes à minha filha e ao meu filho...), e até a Miquelina...

Lembrei-me disto depois de receber o telefonema de um amigo que também escreve livros, a reclamar, por eu nunca aparecer, entre outras coisas.

Foi então que dei por mim a separar as pessoas de quem gostamos em dois grupos: as que gostamos de ver e as que precisamos de ver. As do primeiro grupo, normalmente são de boa memória, mas sabemos que podemos encontrá-las em qualquer altura, nunca é uma urgência. O precisar é diferente, muitas vezes é para ontem, até conseguimos desmarcar coisas só para estarmos com estas gentes especiais, capazes de nos encher a alma e fazer sorrir até aos dramas...

Ainda de volta ao telefonema, que me fez pensar nestas coisas, embora goste deste prosador de mão cheia, não me senti nada confortável com a última conversa que tivemos, com mais três personagens também ligadas aos livros, até por me sentir forçado a defender o alvo de todos os ataques (a maior parte deles injustos...), que conheci na época em que escrevi o meu primeiro romance e que se revelou um bom companheiro. Além de me dar várias sugestões para melhorar o livro, apresentou-me vários escritores e ia-me falando de livros que tinha gostado e que eu devia ler.

Naquele momento não pensei no editor ou no antigo secretário de estado da cultura. Pensei apenas no homem simples e bonacheirão (tem a minha idade mas sempre pareceu mais velho, mesmo hoje ainda me leva uns "seis" anos de avanço...), com quem troquei tantas ideias sobre futebol, jornalismo e livros...

Sei que o meu amigo não levou a mal as minhas palavras, por saber que detesto injustiças. Agora os outros três fulanos, que têm de ter algum cuidado para não morder a língua, devem ter-me pintado de todas as cores, depois de os deixar na mesa de café a "pintar mais mantas". É por isso que me telefona e me fala do que está a escrever e quer saber coisas de mim...

Um dia destes a gente encontra-se. Mas não precisa de ser hoje...

(Fotografia de Luís Eme)

segunda-feira, maio 15, 2017

A Velha Mouraria do Luís e do Modesto


Os meus amigos, Luís Bayó Veiga e Modesto Viegas vão apresentar na FNAC do Chiado mais uma das suas produções multimédia, desta vez, "Recordando a Velha Mouraria".

A não perder por quem gosta de imagens com história. 

domingo, maio 14, 2017

Sábado Escrito com "Três Éfes"...


É impossível não dizer nada sobre o dia de ontem, um sábado escrito com "três éfes".

Como devem ter lido por aqui, muito antes de sábado já estava "intoxicado" com  Fátima. Isso não tem nada que ver com o Papa Francisco, de quem é difícil não gostar (tal como acontecia com João Paulo II), devido à forma simples e directa com que fala de todos os problemas que nos rodeiam. Tem a ver sobretudo com uma igreja que continua a alimentar "milagres" e "segredos", que nem sequer dão grandes histórias de ficção...

O segundo éfe foi sobretudo agradável para mim e para todos os benfiquistas. O Benfica sagrou-se campeão nacional e conquistou pela primeira vez na sua história quatro títulos consecutivos. Mas não me agradou apenas por ser o meu clube, agradou-me por nunca ter assistido a tantas manifestações de mau perder por parte dos responsáveis do Sporting e do FC Porto, colocando tudo e todos em causa, semana após semana. Estes últimos até baptizaram o campeonato de "liga salazar"...

Mas o mais surpreendente (e até mais saboroso) acabou por ser o último "éfe", não de fado, mas de "festival" (da eurovisão), com a vitória de Salvador Sobral, um rapaz calmo e simples (que grande conferência de imprensa!), que encantou a Europa com uma balada, bela e sentida, cantada em português...

(Fotografia de Nino Migliori)

sábado, maio 13, 2017

Ir a Nova Iorque e Voltar...


Se tivesse o dinheiro que pedem por um quarto de hotel em Fátima, à mão, ia passar o fim de semana a Nova Iorque. E antes de aterrar, era menino para pedir a bênção à Liberdade...

(Fotografia de Ed Clark)

sexta-feira, maio 12, 2017

Uma Divisão Absurda de Mão Dada com uma Falsa Laicidade


Não faz qualquer sentido que hoje exista tolerância de ponto para metade do país e outra metade tenha de trabalhar.

O mais curioso deste "filme" foi não ter ouvido ninguém da igreja católica a discordar desta dualidade de critérios de um Estado (falsamente) laico.

Quando passei pelo talho, quase à hora de almoço, perguntaram-me se pertencia aos "uns" ou aos "outros"... com toda a razão. Sorri, sem lhes dizer que estava no meio, e com muita coisa para fazer durante a tarde...

(Fotografia de Luís Eme)

quarta-feira, maio 10, 2017

Visita ao Café Gelo ( a propósito de um café com o O'Neill com visita guiada)

Nunca percebemos totalmente o quanto mudamos, o quanto nos deixamos transformar pelo tempo (quase um gigante, que está em todo o lado e se mete em tudo... mesmo sem o chamarem).

Claro que não falo de banalidades, do cabelo que se agarra aos cinzentos e se deixa levar pelo vento, ou ainda  do abdómen que descai, mesmo que se finja não beber imperiais e se frequente o ginásio da esquina.

Falo de já não conseguirmos ouvir as pessoas que dizem sempre a mesma coisa (sim há muitas pessoas iguais aos canais generalistas de televisão...). Levantamos-nos em silêncio, para não quebrar a "magia destes dias gémeos".

Quando me afasto gosto de viajar dentro da memória e de ter saudades do tempo em que podíamos dizer maluquices e éramos capazes de espremer a imaginação, como se fosse uma laranja sumarenta.

Ainda hoje me pergunto, porque razão não aceitei  de imediato o desafio de me tornar poeta, de ser mais um daqueles tipos que gostam de fintar rimas e de ver dançar as palavras, ao mesmo tempo que se esquecem de lavar demasiado o corpo, argumentando que a água e o sabão azul gastam a pele...

Foi numa dessas viagens interiores que tive uma memória com música e perguntei a uma nuvem, «o que será feito da Dulce "pianista"?» Essa mesmo, que tinha olhos multicolores e usava mini-saia, quando todas as miúdas da rua se pavoneavam à nossa frente dentro de calças de ganga apertadas. Além de gostar de contar anedotas que abriam muito a boca às meninas púdicas, ela era capaz de alegrar qualquer filme mudo com as suas improvisações de piano.

Hoje sei que fui um parvo, quando preferi namorar uma das tais miúdas que se fingiam esquisitas. Não fui o único. Todos nós tínhamos medo de amar a Dulce...

(Fotografia de Ami Strachan)

terça-feira, maio 09, 2017

Uma Velha Mania...

A "vida" (há quem lhe chame outras coisas, como Deus por exemplo...) tem uma velha mania, muito antiga, que deve vir desde os tempos em que os tempos se tornaram tempos, esses mesmos em que o homem deixou de ser "macaco".

Falo dessa coisa parva de nos dar coisas com uma mão e tirar-nos outras com a outra... Ou dito de outra forma, não podemos dar dois passos em frente, sem darmos um atrás...

O que vale é que nos habituamos a tudo. Ao ponto de até já perdermos a hábito de protestar, por direitos que nos vão tirando, dia sim dia não. 

Para mal dos pecados dos sindicalistas profissionais (as mesmas caras de sempre, desde o famoso líder da Fenprof, a outros tantos que se ocupam dos lugares de relevo e gostam de se verem na televisão), qualquer dia não têm filiados...

Será que eles perdem tempo a pensar nisso? Ou culpam a "vida" e as suas velhas manias? Ou será que também andam a aprender a rezar e vão à festa a Fátima?

(Fotografia de Luís Eme)

segunda-feira, maio 08, 2017

Quando a Qualidade Pode Ser uma Bóia ou um Farol...

A idade, embora nos vá roubando coisas, ano após ano, também nos vai dando algo para a troca. Uma das coisas que noto é a forma como nos vamos tornando selectivos, pelo menos em relação ao que de facto gostamos, talvez por termos mais consciência das nossas limitações.

Ao afastarmos do acessório, para nos focarmos no que consideramos realmente importante, não só sabemos que não vamos durar sempre, como sabemos melhor o que realmente nos dá prazer.

De repente a quantidade torna-se uma mera contabilidade matemática. E a qualidade supera-a em tudo...

E nem vale a pena falar de uma coisa tão simples como a amizade, da importância que damos a um amigo de corpo inteiro, ao ponto de não o trocarmos pelo  tal "milhão" que pode estar na montra do facebook. Mas esta "contabilidade" serve mesmo para tudo.

Coisas tão simples como um livro, um filme, uma peça de teatro, um concerto ou uma exposição, são  escolhidos cada vez em função de um gosto que refinou...

(Fotografia de Luís Eme)

domingo, maio 07, 2017

O Mar, a Poesia e as Mulheres-Mães da Sophia (e do Frank)...




Há Mulheres que Trazem o Mar nos Olhos
  
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
... Da praia onde foram felizes
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os Homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes e calma.
  
Sophia de Mello Breyner Andresen

Estas mulheres também são as nossas Mães...

(Óleo de Frank Wilcox)

sábado, maio 06, 2017

O Prazer da Transgressão...

A Rita tem razão, falar ao telefone tem um sabor muito diferente de falar ao vivo, podemos adivinhar sorrisos, caretas, e até um outro esbracejar... mas nunca conseguimos entrar dentro dos olhos de quem está do outro lado...

Foi por isso que lhe prometi que para a semana vou a Lisboa (mesmo sem a joaninha que avoa avoa...).

Entre outras coisas, confessámos um ao outro, as vezes que nos apetece fumar um cigarro, só para fazer nuvens de fumo em atmosferas demasiadas amareladas, povoadas de gente que finge que deixou de ter prazer em transgredir. 

Só espero que não seja o espírito do Salazar a cirandar por aí, de mão dada com o Cerejeira, novamente apostados em levar a gente do nosso país para os "bons caminhos" dos vícios privados e das virtudes públicas. 

Quem diria, que neste tempo, o fado ainda consegue ser a coisinha mais sensata e democrática, pelo menos quando comparado com as doidices de fátima e do futebol...

(Fotografia de Luís Eme)

sexta-feira, maio 05, 2017

A Menina de Olhos Tristes...


Logo pela manhã descobri a menina de olhos tristes, sentada num banco, rente à paragem do autocarro. Estava de mochila, devia ir para a escola.

O nosso primeiro encontro deu-se no fim de semana passado, no interior do metro, quase vazio. Passou a viagem da Gil Vicente até Cacilhas a repreender o irmão, com menos três ou quatro anos que ela, como se fosse uma "mãe pequena".

E o pequenote, avesso às ordens da mana, fazia tudo ao contrário. Quando me olhou com ar traquina, disse-lhe que devia obedecer à irmã. Foram as minhas únicas palavras. Entretanto chegámos ao fim da linha e sai primeiro, para não se sentirem de alguma forma constrangidos.

Mas enquanto caminhava não deixei de pensar nas histórias que a minha mãe nos contava, mesmo pequena, como era a filha mais velha tinha de tomar conta dos irmãos, enquanto os pais trabalhavam nos campos...

Às vezes pensamos que o mundo mudou muito, que está tudo melhor, etc. O problema é esquecermos que não mudou para todos... Há por aí quem enfrente os desafios de outros tempos, há quem continue sem tempo para ser apenas criança...

(Óleo de Gaetano Chierici)

quinta-feira, maio 04, 2017

Só nos Desiludem as Pessoas de Quem Realmente Gostamos...


Como já devem ter reparado, ando há pelos menos dois dias, a tentar fugir das palavras.

Sei que não devo, nem quero, particularizar.

Se pensar bem, nem se pode dizer que me aconteceu uma coisa do outro mundo. Toda a gente sabe que a amizade não sobrevive a tudo. Apenas a quase tudo...

Não foi a primeira vez que descobri que a desconfiança às vezes anda perto demais do ciúme e da inveja, e que se pode tornar numa mistura explosiva... 

Nem se pode falar de uma "história de saias", até porque ela anda quase sempre de calças...

Acabei por ficar a pensar que a forma de gostar nunca tem uma medida certa, é por isso que às vezes gostamos mais dos nossos amigos que eles de nós, tal como o seu contrário. 

E claro que fiquei desiludido. Sei que só nos desiludem as pessoas de quem realmente gostamos...

(Fotografia de Rurik Dmitrienko)

quarta-feira, maio 03, 2017

Palavras Frescas (e às vezes confusas)

Quando se escreve directamente no "blogger", as palavras acabam por sair quase sempre mais frescas, mas por vezes também mais confusas (foi o que aconteceu ontem e é o que vai acontecer hoje...).

As ideias são tão complicadas como nós, às vezes misturam-se num simples parágrafo e fazem com que se mude o sentido das coisas. Ou seja, a ideia inicial é "derrotada" por outra que entretanto apareceu, e que me disse que tinha vindo para ficar.

Outras vezes é uma telefonema, como aconteceu agora, em que me estavam a oferecer uma data de coisas (os fulanos que vendem os pacotes de telecomunicações gostam de fazer o número de "pai natal"...),que acabamos por não usar, para no final acabarmos por pagar mais.

Pois é, queria falar de uma coisa e já estou a falar de outra.

Mais um telefonema. Afinal vou ter de ficar por aqui. Vou lá fora até ao mundo (pode parecer que estou a ficar maluco, mas não, passo só ao lado da casa amarela, onde mora um bom grupo deles...)

(Fotografia de Luís Eme)

terça-feira, maio 02, 2017

Gente que Parece Só Saber Viver em Montras...

Eu sei que nem toda a gente quer ser feliz, por uma razão ou por outra.

Também sei que a felicidade às vezes é apenas um fogacho, e outras nem isso, continua muito mais perto das utopias que das realidades...

Realidades que às vezes são quase "macacas" e fazem com que algumas pessoas prefiram ficar a ver o mundo passar, na montra para onde se esgueiraram, disfarçados de manequins, com a cumplicidade dos outros.

(Fotografia de Luís Eme) 

segunda-feira, maio 01, 2017

Um Primeiro de Maio Demasiado Maduro...

Saio de casa e sinto a diferença de outros primeiros dias de Maio, O Dia do Trabalhador por esse mundo fora...

Nem volto atrás no tempo para ver o que escrevi quando aquele senhor que é dono de uma rede de supermercados abriu as portas e colocou todos os seus produtos a metade do preço.

Mas incomoda-me ver tantas casas de comércio abertas (não são só os chineses e os paquistaneses...), tantos trabalhadores "espoliados" do seu dia, tanta gente a deixar fugir a dignidade em nome de meia dúzia de euros.

Sinto alguma tristeza por sentir que este nosso Primeiro de Maio, está demasiado maduro... e que um dia cai mesmo no esquecimento da gente que finge não ter memória.

(Fotografia Henri Cartier-Bresson)