Sei que muitas pessoas nunca deixaram de pensar que eram "arianas", alimentando sempre que lhes era possível a "aura" que as tornava diferentes dos outros, a que sempre gostaram de chamar "povo". Só o não diziam em público porque o espírito do malfadado 25 de Abril ainda estava bem presente nas ruas...
A reboque de uma crise sem igual conseguiram chegar ao poder, disfarçados de "salvadores da pátria", preparados para tudo, até para inverterem o ciclo da própria história.
Os resultados estão hoje bem à vista, pois todos os dias nos roubam direitos e somam deveres, transformando o país num lugar miserável, quase sem lugar para novos e para velhos.
A lição está de tal forma estudada que a ideologia dominante salta da própria sociedade, desde a senhora do Banco Alimentar que resolve vir dar lições de como devemos lavar os dentes ou quantas vezes podemos comer bifes por semana, ao Cardeal Patriarca que quase que apela para não nos manifestarmos, para aceitarmos este "calvário", como se fossemos uns Cristos (coisa que ele não é, nem quer ser, pois não prescinde das suas mordomias...). Só faltavam as palavras do banqueiro multimilionário que sabe-se lá porquê, tem uma predilecção especial pela palavra "aguenta", para dizer essa coisa inteligente sobre a crise, de que aguentamos, porque os sem abrigo também aguentam...
Infelizmente os sem abrigo já estão praticamente riscados da sociedade, só são preocupação para alguns voluntários que andam pelas ruas a distribuir-lhes roupas, medicamentos e alimentos.
O banqueiro fascista conseguiu ir ainda mais longe que os seus dois comparsas.
O mais grave é que ele tem razão, aguentamos mesmo tudo. Caso contrário, ele já teria engolido as suas próprias palavras...
A fotografia é de Robert Doisneau.