São um homem e uma mulher, tanto um como o outro com quase meio século de vida.
Ainda não sabem muito bem se foram salvos... sabem apenas que a filha de nove anos foi, e continua ser, a sua aparente salvação.
Toxicodependentes, uniram-se pela droga, sem pensar em histórias de amor, ou de outra coisa qualquer. Sentiam-se mais seguros juntos. Mas numa noite mais fria que as outras, embrulharam-se um no outro. E distraídos, fizeram a Catarina.
Quando a mulher soube que estava grávida, ficou surpreendida e também contente, embora o escondesse. O companheiro de aventuras, quando soube da novidade, não quis acreditar, eles conseguiam lá fazer um filho... Mas conseguiram. Também gostou da ideia. As famílias com medo que eles trouxessem ao mundo mais uma criança deformada, a primeira coisa em que falaram foi de abortos.
Ela desolada preferiu desaparecer de circulação. Entretanto foi ao centro de saúde e contou com a solidariedade e a amizade de uma enfermeira, que lhe pediu que aparecesse por lá todas as semanas. A muito custo deixou de consumir, porque, sabe-se lá porquê (claro que se sabe, por amor...), quis muito ter um filho, que seria uma filha quase nove meses depois.
O companheiro também fez um esforço para deixar de consumir e começou a trabalhar. Entre meia dúzia de recaídas, lá se conseguiu recompor, talvez também a querer ser um bom pai.
A Catarina nasceu um pouco antes do tempo, perfeitinha. Os únicos problemas que teve foram a nível respiratório (a asma permanece, mas já se habituou à tosse e aos espirros...), de resto tem dois pais que a amam, que se tornaram um casal por um desses acasos que às vezes aparecem nos livros e nos filmes, mas que não fazem mais que retratar a vida...
(Fotografia de Ferdinando Scianna)