segunda-feira, março 30, 2020

O Mestre, os Filmes e os Livros


Hoje estive a consultar algumas revistas antigas e acabei por ler algumas apreciações de Manuel de Oliveira (nestes anos sessenta do século passado ainda não era Manoel...), sobre o cinema desse tempo, e também de alguns jovens realizadores (Fernando Lopes, Paulo Rocha e António-Pedro Vasconcelos).

Gostei da sua serenidade e abertura (mesmo depois dos seus 100 anos de vida, continuava igual...) e também de sentir o quanto era respeitado e admirado pelos cineastas do chamado "cinema novo". Era praticamente a única figura que era tida como referência do pobre cinema português de então.

Embora não seja um apreciador do seu cinema (fez muitas vezes o mesmo filme...), demasiado poético e teatral, ficou para a história como alguém que fez sempre os filmes que quis fazer, e não os que queriam que fizesse.

Quando ele disse: «É necessário que haja um cinema individual, ainda que exista outro que o não seja. O que é necessário é que haja um cinema meramente artístico e outro espectacular. Não se combatem, completam-se», estava cheio de razão.

E era um cavalheiro. Adaptou vários livros de Agustina para o cinema, que ela não gostou e disse-o publicamente (de forma desagradável)... mas ele nunca lhe respondeu. Aliás, respondeu, quando disse numa entrevista: «Há uma diferença muito grande entre o que é cinema e o que é um livro. A transposição de um livro para o cinema é uma coisa extraordinariamente difícil e nunca há correspondência.» Ela, provavelmente, fingiu que não percebeu...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

domingo, março 29, 2020

"O Espectáculo da Rua"...


José Gomes Ferreira tinha uma rubrica cheia de interesse na "Seara Nova", nos idos anos 1940, que se chamava "O Espectáculo da Rua", onde escrevia o seu "olhar" sobre a Lisboa desse tempo. Achei curioso um seu texto e até fiz um "paralelo" com os dias de hoje, embora em vez de "adormecidas", as pessoas estejam ausentes, involuntariamente...

«[...] Não havia dúvida! Dormia tudo, à minha volta: homens, mulheres, crianças, burros, carroças, eléctricos, carecas, cabeludos, Teatro Nacional, tabuletas, pedras, estátuas e até o céu azul estendido como uma mulher de preguiça. Dormia tudo, sombriamente, pesadamente, a andar - um dois, um dois... - como eu naquela famosa tarde de andróide hipnotizado. Dormia tudo a sono solto. [...]»

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

sábado, março 28, 2020

«Queres passear na rua? Compra um cão!»


Quando vi que um polícia estava a chamar a atenção de um homem, que estava na rua, comecei a andar mais devagar, para evitar uma possível "entrevista", embora os motivos porque me encontrava na rua, fossem perfeitamente justificados.

Entretanto o homem seguiu o seu caminho e o polícia entrou no carro e fez-se à estrada.

Quando me aproximei, um vizinho que ainda se encontrava à janela contou-me que o agente da autoridade ao ver o Faustino a andar, com o seu "estilo cambaleante", pensava que este estava bêbado e até queria levá-lo para a esquadra. Fora ele que o salvara de boa, ao dizer ao polícia que o homem tinha um problema na perna esquerda... este não ficou muito convencido, mas para evitar males maiores mandou o Faustino para casa.

Uns metros mais à frente, quando o apanhei, ele virou-se para mim e disse: «Queres passear na rua? Compra um cão!»

Continuava irritado e sem se calar, insistiu no seu "fungagá da bicharada": «Isto está bom é para todos estes camelos, ursos, cabras e macacos, que gostam mais de bichos que de pessoas e enchem os passeios de merda

Como calculam, tive de fazer algum esforço para não lhe oferecer um sorriso...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)

sexta-feira, março 27, 2020

Um Dia Mundial de Teatro sem Palmas e sem "Patadas"


Se o Dia Mundial da Poesia foi estranho, não sei o que dizer do Dia Mundial do Teatro...

Não me incomoda apenas a estranheza dos palcos silenciosos e das salas vazias e fechadas. 

Saber que esta é a actividade cultural mais vulnerável do nosso país, por estar cada vez mais dependente dos apoios de terceiros, é que considero, muito preocupante.

Se durante os anos da "troika" houve muitos actores que foram forçados a mudar de profissão, os dias que se aproximam não vão ser melhores...

Mas a realidade é o que é, não vale a pena escondê-la atrás do "biombo": há um divórcio cada vez maior entre os portugueses e o teatro.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

quinta-feira, março 26, 2020

Uma Memória Ocasional e a Boa Tradição


Soube hoje do falecimento de Manuel Fialho, que colocou o Alentejo e Évora, no mapa da excelência da gastronomia regional, acarinhando e explorando as receitas tradicionais alentejanas de uma forma saborosa e original.

Só lá entrei uma vez, há uns trinta anos. 

Procurávamos um restaurante e entrámos no "Fialho", sem sabermos ao que íamos. Fomos bem recebidos e saímos dali melhor comidos e bebidos. Só depois é que percebemos que tínhamos almoçado naquele que provavelmente já era considerado "o mais tradicional restaurante de Évora", embora nessa altura a cozinha estivesse longe de estar na moda (ainda não se falava de "chefs" nem de "estrelas michelin"...).

Voltei mais vezes a Évora, mas a "fama" já internacional, fez com que fosse "impossível" lá entrar...

(Fotografia de Luís Eme - Évora)

quarta-feira, março 25, 2020

"Isolamento versus Egoísmo"


Falei há poucos minutos com um amigo ao telefone, e entre outras preocupações, ele demonstrou ter algum receio, que tudo isto nos tornasse ainda mais egoístas. 

O seu argumento baseava-se na forma isolada como estamos a ser obrigados a viver, confinados praticamente às divisões das nossas casas, e com o mínimo de contacto humano possível.

Pode ser que não. Pode ser que no final disto tudo, tenhamos aprendido alguma lição...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

terça-feira, março 24, 2020

Ainda Antes do Dia Seguinte...


Os nossos patrões sempre foram - e continuam a ser - um grande exemplo de cidadania no nosso país. Só de pensarem que lhes "vão mexer nos bolsos", começam logo a pensar na melhor forma de passarem ao lado, de qualquer crise, mesmo que esta seja momentânea. 

É por isso que não nos devemos admirar que tenham iniciado a "onda de despedimentos", logo no dia em que foram obrigados a fechar portas, com a imposição do "estado de emergência" no nosso país.

As primeiras vitimas foram todos aqueles que trabalhavam de forma precária (a maioria estrangeiros, alguns dos quais nem sequer contrato de trabalho tinham...) na restauração, hotelaria e comércio.

Não vale a pena falar de "imoralidade", muito menos de "falta de ética", porque segundo os "livros" onde eles estudaram, estas duas condições humanas vivem distantes do mundo dos negócios. Muito menos lembrar-lhes dos milhões que ganharam nos últimos anos, graças ao "maná" do turismo...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

segunda-feira, março 23, 2020

Há Ladrões e Ladrões (sempre foi assim)...


Uma antiga notícia de jornal, fez-me lembrar de um amigo, que durante um dos nossos almoços, me confessou que a única coisa que tinha roubado a vida toda, fora um livro, durante a adolescência. Era um livro que queria muito ler e como não tinha dinheiro para o comprar (estamos a falar do final da década de sessenta do século passado, quando os livros eram vendidos como um "objecto de luxo"...).

Arrependeu-se tanto do que fizera, que a leitura do romance de Machado de Assis (Dom Casmurro), não lhe deu o prazer que devia dar...

A nossa conversa versara sobre, o ter ou não dinheiro, para alimentar qualquer sonho, por mais pequeno que seja. Percebíamos com alguma facilidade os miúdos dos bairros pobres que traziam roupa e calçado de marca de balneários, sem dar qualquer satisfação aos donos.... Agora que tantos multimilionários, continuassem a roubarmos, sem terem qualquer necessidade, é que nos era completamente incompreensível. 

E mais estranho ainda, era sabermos que andam pelas ruas de cabeça bem levantada...

Provavelmente quando Victor Hugo escreveu "Os Miseráveis", já devia ser assim...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

domingo, março 22, 2020

As Novas (e Velhas) Rotinas Diárias


Sei que soa quase a "lugar-comum", dizer que o que sinto mais falta, na minha rotina diária, é a liberdade de movimentos - que todos perdemos, pelas razões que conhecemos -, da qual usava e abusava, sempre que era possível. 

Ter a família em casa, praticamente vinte e quatro horas por dia, até agora, está a ser uma coisa boa.

Como já trabalhava em casa, nada mudou neste campo. Só não posso (é mais, não devo...) é "inventar" algumas reuniões de trabalho em Lisboa - às vezes aconteciam apenas para "fugir de casa" e para trocar dois dedos de conversa com duas ou três pessoas especiais, aproveitando também para atravessar o rio  de cacilheiro e, depois, no "regresso a casa", partir à descoberta de outras lisboas, caminhando de preferência por uma ou outra rua desconhecida (como eu gosto de conhecer uma nova rua... e felizmente ainda há muitas à minha espera na Capital) com "viagens" saborosas de hora e meia, e até mais...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

sábado, março 21, 2020

«Sou Poeta!»


É esta a minha forma de comemorar o "Dia Mundial da Poesia, aqui no "Largo":


«Sou Poeta!»


Quando lhe perguntam a profissão,
responde sempre:
- Sou Poeta!
Gosta de ser olhado de alto abaixo
como se os outros andassem a ver
de onde lhe faltava um parafuso.

Que satisfação boa e secreta...


(Luís (Alves) Milheiro


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, março 20, 2020

Ontem e Hoje...


O que achei mais curioso da minha caminhada de hoje, foi ter-me cruzado com mais pessoas, que  antes de ontem, no mesmo percurso, entre Cacilhas, Ginjal e Almada, e com um tempo muito menos agradável (e com o "estado de emergência" decretado)...

Havia gente a correr, a pedalar e a caminhar (as três pessoas de ontem foram substituídas por mais de duas dezenas...).

Estranhei que algumas pessoas não fizessem qualquer movimento para manter a distância de "segurança" recomendada (quando passei por elas,  além de me afastar, dentro do que era possível, também virei a cara para o lado oposto, ou seja, para o rio...).

Espero que a nossa "estatística" (ainda com poucas mortes e casos graves...), não leve as pessoas a "aligeirar" os cuidados, que todos devemos ter...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)

quinta-feira, março 19, 2020

"Isto está tudo ligado"...


Embora possa parecer um lugar comum, é a verdade: tanto o dia do Pai como o da Mãe, não precisam de nenhuma data especial, porque os recordamos, diariamente, quase sempre por pequenos nadas.

E se eles já não estão entre nós, há sempre uma ou outra coisa, que nos leva de viagem, ao seu encontro...

A situação actual do mundo fez com que me lembrasse do meu pai (não hoje, há já vários dias...), ele que sempre foi um amante da liberdade, e me perguntasse, como reagiria a esta quase "reclusão voluntária"... Felizmente teria muito espaço para passar o tempo, no nosso casal, que nunca mais foi o mesmo, sem os seus cuidados de "agricultor" fora de tempo...

E céptico, como sempre foi (aprendi com ele...), iria dizer que este "vírus" não nasceu do nada. Sei que não se iria agarrar a nenhuma "teoria de conspiração", falaria sim, da acção destruidora do homem para com a natureza... E mesmo sem conhecer as palavras do poeta Guerra, diria, que "isto está tudo ligado"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)