quarta-feira, julho 08, 2020

Excelentes Realizadores e Actores para um Cinema Quase Inexistente...


O cinema português sobrevive há décadas, sobretudo graças à "carolice", e amor à arte, de uma grande parte dos nossos realizadores, muitos deles premiados internacionalmente, mas que nunca receberam o apoio que mereciam (a excepção que confirma a regra foi Manoel de Oliveira, que "fintou" toda a gente com a sua longevidade, continuando a realizar filmes depois dos 100 anos..).

Há quarenta anos que oiço falar de "promiscuidade" e "falta de transparência", na atribuição de subsídios por parte do Estado. Praticamente todos os realizadores que, podemos chamar de "consagrados", de Fernando Lopes a José Fonseca e Costa (que já não estão entre nós), passando por António-Pedro Vasconcelos, Luís Filipe Rocha, João Botelho, Joaquim Leitão, todos se queixaram e se sentiram prejudicados nestas últimas quatro décadas.

Esta falta de apoio fez com que se inventasse excessivamente, que se fizessem demasiados filmes com o menor custo possível. E o mais curioso, é que muitos deles foram premiados internacionalmente. Pois é, Pedro Costa, Margarida Cardoso, Miguel Gomes, Teresa Villaverde, Edgar Pêra, Manuel Mozos, Marco Martins,  João Pedro Rodrigues, Miguel Gonçalves Mendes, João Salaviza, Sérgio Tréfaut, Cláudia Tomaz e Ligia Teles, têm conseguido autênticos "milagres".

E também não deixa de ser curioso, que mesmo sem a existência de uma indústria, sempre houve actores que demonstraram grande talento para a sétima arte: Isabel Ruth, Nicolau Breyner, Laura Soveral, Canto e Castro, Rogério Samora, José Pinto, Rita Blanco, Vitor Norte, Alexandra Lencastre, Pedro Hestner Ferreira e Ana Padrão (entraram em dezenas de filmes desde Abril...), tal como outros mais jovens como Beatriz Batarda, Nuno Lopes, Soraia Chaves, Albano Jerónimo, Vitória Guerra ou Afonso Pimentel, têm deixado a sua "impressão digital", nos filmes em que participam.

É caso para dizer: temos excelentes realizadores e actores para um cinema quase inexistente...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)

terça-feira, julho 07, 2020

O Poder de Síntese no Cinema


Esta imagem poderia indiciar que eu iria falar do tempo em que as salas de cinema eram "templos do silêncio", onde a  própria escuridão nos ajudava a visualizar o filme ao pormenor...

Mas não. Apetece-me falar sim, do poder de síntese do cinema. Mas para o fazer não posso falar do cinema dos nossos dias, porque ele é sobretudo espectáculo, a própria exploração dos efeitos especiais e o uso da tecnologia, acabam por banalizar o trabalho do actor...

Tenho de andar alguns anos para trás, quando os realizadores conseguiam contar a história da vida de alguém, em apenas hora e meia... Hoje talvez tal não seja possível, por isso é que muitos se viraram para as séries televisivas, onde têm muitos episódios, muitas temporadas, para contar a tal história, que acaba por se multiplicar, em nome do negócio...

É também por isso que me apetece louvar o Manoel de Oliveira, que nunca teve a pressa da maior parte dos fazedores de filmes, mesmo que tivesse apenas duas horas para contar uma história...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

segunda-feira, julho 06, 2020

Lisboetas (e vizinhança...) quase "Proscritos"...


Embora exista uma explicação sociológica (tal como existiu para o Norte, no início da pandemia, onde se continuou a trabalhar, até mais tarde...), os jornalistas adoram "rótulos", da mesma forma que os comentadores adoram "disparar com os dedos"... E agora somos nós, que vivemos na Área Metropolitana de Lisboa os "maus da fita".

Se as pessoas que dão notícias não começarem a ter um comportamento normal, somos quase proibidos de nos deslocar, para Sul ou para Norte, ficando "proscritos", até que apareça no horizonte noticioso, algo de novo para explorar...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

domingo, julho 05, 2020

Coisas que Tento Fixar...


Há muitas coisas que fotógrafo sempre que posso.

Para além dos candeeiros, bancos de jardim, janelas, dos jogos de cor (tenho centenas de fotografias com duas tonalidades, amarelo e azul... tal como dezenas de mulheres de vermelho), sempre que descubro alguém a ler (felizmente ainda há muita gente que gosta de ler livros...), aproveito para "disparar".

Mas há mais: sem saber explicar muito bem porquê, sempre que vejo alguém a fotografar alguma coisa, apetece-me fotografá-la...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)

sábado, julho 04, 2020

O Olhar dos Outros como "Espelho"...


Sei que é mais normal do que parece, dizermos coisas só por dizer.

Esse pormenor devia fazer com que eu não ligasse à senhora, que apesar de estar a alguma distância, mesmo sem dar por isso, falou para eu ouvir. 

Mas havia algo de cómico e de fatalista nas afirmações da mulher, quando disse que já não precisava de branquear os dentes, por causa do uso das máscaras. Máscaras que nunca mais nos iriam deixar em paz.

Apeteceu-me bater na mesa, apesar de não ser de madeira.

E depois fiquei a pensar que para muitas pessoas o olhar dos outros é mais importante que o seu próprio espelho, esse quase "ecrã", de vários tamanhos, para onde espreitam, mal se levantam... e que pode ser assustador.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

sexta-feira, julho 03, 2020

"O Pior Cego é Sempre Aquele que não Quer Ver"...


Todos nós já percebemos que o "covid 19" não é diferente das outras doenças. Quanto maiores forem as dificuldades económicas maior é a probabilidade de se ficar infectado por este vírus, mortal.

Quando um secretário de Estado (Duarte Cordeiro) não consegue dizer que o grosso do problema (aumento do número de infectados...) está nos bairros pobres, deve pensar que somos todos tolinhos.

São as pessoas mais pobres que vivem em casas sem as condições mínimas de habitabilidade (pequenas e sobrelotadas...), aumentando o risco de contágio junto da família e amigos; são as pessoas mais pobres que não possuem transporte próprio e têm de se deslocar diariamente para os seus trabalhos, em autocarros, comboios e metro, sem condições para respeitar o distanciamento; são as pessoas mais pobres, as mais atingidas com o desemprego, que se vêem obrigadas a aceitar qualquer ocupação, mesmo que não respeitem as normas da DGS... porque o "vírus", está longe de ser o seu problema maior...

Mas como nos diz a sabedoria popular: "O pior cego é sempre aquele que não quer ver"...

(Fotografia de Luís Eme - Trafaria)

quinta-feira, julho 02, 2020

Amália, Ontem e Hoje...


Iniciaram-se ontem as comemorações do centenário de Amália Rodrigues (dia em que nasceu...), que continua a ser nossa grande "diva" da música, e da cultura portuguesa, graças à sua capacidade vocal ímpar como fadista e cançonetista. 

Foi ela que deu a conhecer ao mundo o Fado, que continua a ser "a nossa canção", não só pela famosa saudade, mas também pela melancolia e pelo conjunto de sentimentos,  quase sempre tristes e solitários, que evocam a não menos famosa "alma lusitana".

Tive a felicidade de a entrevistar e perceber que era um ser humano demasiado simples, frágil, e até inseguro, para o peso mítico que o seu nome transportava (entrevistei-a para uma rubrica que tinha no "Record", aos domingos, chamada "Contra-Ponto", em que entrevistava uma pessoa do desporto e outra fora dele e tentava falar de coisas diferentes com eles. O outro entrevistado foi o Eusébio, que também era a simplicidade em pessoa, mas percebia-se que nunca se devia ter levado demasiado a sério e demonstrava conviver melhor com o "Mito Eusébio", que a Rainha do Fado com o "Mito Amália"...).

Pessoas como Amália, deviam poder ter "duas peles", "duas vidas", para se libertarem do peso (tantas vezes insuportável...) que o seu nome artístico transporta...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)

quarta-feira, julho 01, 2020

Singularidades da Cultura Nestes Tempos Estranhos...


Fiquei ali sentado a ouvir aquele piano de cauda, que me oferecia música, graças a um rapaz, que minutos depois vim a saber que tinha tanto de talentoso como de estranho.

O meu filho contou-me que ele era o Filipe, filho de um casal amigo que perdera de vista nos últimos anos. Sabia pouco dele. A única coisa que tinha sido assunto de conversa em casa, foi que saíra de casa aos dezoito anos, para ser músico profissional, e pouco mais...

Acabámos por ficar à conversa. Sei que fui demasiado indiscreto, propositadamente. Quando lhe perguntei onde vivia, respondeu-me com algum sarcasmo: «Onde vivo? Não se preocupe, que não vivo debaixo da ponte. Quando se tem pais que não prestam, há quase sempre uma avó ou uma tia caridosa, que olham por nós e nos ajudam a crescer.»

Estava a ser injusto. Um dia iria perceber isso...

Ele tocara qualquer coisa muito suave, próximo do blues, dando voz a uma ou outra melodia, como se cantasse apenas para ele. Quando quis saber o que tocara e cantara, porque uma ou outra coisa me tinham parecido familiares, explicou-me: «Toquei coisas minhas e também de outros. Cantei um pouco de Marvin Gaye, pouco mais que uma quadra... apeteceu-me. Continuo a gostar de músicas que me fazem sonhar e gosto de coisas suaves e lentas. Gosto por exemplo de João Gilberto e de Marvin Gaye porque não gritam a cantar, quase que sussurram...»

E foi ainda mais longe: «Quando toco a solo gosto de tocar coisas suaves. Deve ser por isso que, antes da pandemia, trabalhava como músico de um bar de hotel, duas vezes por semana. Só punha o piano a gritar quando era preciso acordar uma ou outra pessoa e convidá-las a irem para o quarto.»

E depois ofereceu-nos um sorriso.

Fiquei por ali a pensar, nesta coisa estranhas de se querer ser músico, actor, bailarino, escritor ou pintor,  enquanto os dois rapazolas foram à vida deles.

Com todas as dificuldades culturais que vieram à "superfície", graças à pandemia, é possível que muito jovem de talento, volte a uma segunda opção, prefira estudar engenharia, biologia ou história, ficando a arte com as horas mortas. 

A não ser que queiram muito, muito mesmo, fazer qualquer criativa e singular, como o Filipe...

(Fotografia de Luís Eme - Alentejo)

terça-feira, junho 30, 2020

Os Rótulos que nos Querem "Colar" à Pele...


É engraçado como os outros gostam de nos colocar "rótulos", mesmo sem nos conhecerem. 

Se forem "maluquinhos da bola", temos de ser do Benfica, do Sporting ou do Porto. Ser por exemplo do Belenenses, não vale. Muito menos ser do Boavista, do Vitória de Setúbal ou do Caldas.

E se for gente ligada aos partidos e dos poderes, pequeninos e grandes, também tentam colocar-nos uma cor, seja pela forma como nos vestimos, seja pela forma como pensamos, ou apenas porque sim...

Só que nós, muitas vezes, não somos aquilo que os outros pensam ou querem de nós. Somos uma coisa diferente. E ainda bem.

Sem sair do " jogo das cores políticas", eu por exemplo quando a CDU estava no poder em Almada era "socialista", agora que os socialistas estão no poder, sou "comunista"... E sei que amanhã ainda poderei ser outra coisa qualquer.

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)

domingo, junho 28, 2020

A "Caça aos Descontentes e aos Ignorantes"


Ontem, quando entrei na Rua Augusta, na minha viagem de regresso a casa, vi que era fácil manter o distanciamento das pessoas, as "multidões" ainda não tinham regressado...

Mesmo assim pude verificar que um acontecimento a que nunca dera importância, tinha-se realizado, pois o que sobrava da "marcha dos saudosistas e dos descontentes" pela Avenida da Liberdade abaixo dava vida a algumas esplanadas da Baixa.

Ao ver pessoas bem vestidas e apessoadas, a beberem imperiais, com bandeiras brancas enroladas junto ao corpo, fez-se luz.

Na Praça do Comércio aconteceu o mesmo. Ao olhar esta gente, a alguma distância, percebi pelos cabelos penteadinhos e pelas camisas brancas engomadas, que se tratavam sobretudo de "betos" saudosistas do salazarismo (conheci alguns no meu papel de investigador, as conversas que travámos deu para perceber que o seu sonho era voltar ao "país imperial", em que as suas famílias se sentiam, e eram, em parte, "donas de Portugal" (mesmo que se tratasse de um país atrasado e miserável...). Foi através destes contactos que me chamaram pela primeira vez, entre risinhos, "historiador comunista", por não ter nenhum tipo de adoração por Salazar, pela PIDE ou pelo Estado Novo.

Percebi também que entre esta gentes estavam vários "dissidentes" do CDS - que durante muitos anos andou disfarçado de partido democrático - que estavam a deixá-lo moribundo...

Já na Praça do Município, enquanto aproveito para fotografar um pormenor dos Paços do Concelho, sou ultrapassado por uma actriz pequenina, acompanhada pelo companheiro que trazia um "fifi" pela trela (não perdeu a oportunidade para aparecer na televisão, durante a manifestação...). Foi quando fiquei a pensar que os organizadores da manifestação, vão tentar apanhar todos os descontentes e ignorantes que encontrarem pelo caminho, tal como fez Bolsonaro no Brasil, com os resultados que sabemos... Ou seja, metem a ideologia fascista de "quarentena", ao mesmo tempo que aproveitam todos os deslizes e asneiras governativas, para espalharem, em frases curtas. a "doutrina populista do descontentamento"...

A mim não me assustam os "descontentes". Assustam-me sim, os "ignorantes"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa) 

sábado, junho 27, 2020

Entre Margens


Tive de me deslocar a Lisboa, de carro. Como estava com saudades da Cidade que gosto de percorrer a pé, consegui convencer o meu filho a regressar a casa, sozinho, ao mesmo tempo que eu aproveitava para fazer uma caminhada e regressar a Almada, pelo rio.


Além de o dia estar bastante quente, estava também muito límpido. Ao atravessar a ponte percebi que era possível avistar a margem norte até Cascais, assim como todas as localidades da Margem Sul, que ficam depois da Ponte Vasco da Gama...

(Fotografias de Luís Eme - Tejo)

sexta-feira, junho 26, 2020

O Último a Chegar que Feche a Porta, se Conseguir...


Eu que sou leitor confesso (em anos normais leio sempre mais de trinta livros, em anormais como o de 2019, posso ultrapassar os cinquenta...), nunca me revi na frase de que "são os livros que nos vão salvar".

Sei que há muitas mais coisas que nos podem salvar.

Talvez a mais importante seja aprender a amar a natureza, mesmo sem se ter de ler o poeta Alberto Caeiro. O cuidar, em vez de destruir, as plantas e os animais que nos acompanham nesta viagem quase louca.

Sei que há algum lirismo, neste "cuidar" e pouco realismo...

E olhar para o mundo não ajuda nada. Como é que nos podemos salvar, se a maior parte das pessoas não têm qualquer vontade de respeitar o espaço do outro? Podia falar neste momento particular do distanciamento, tão importante nesta altura, ou seja, das pessoas que ao verem-nos a afastar, se aproximam... Ou de todos aqueles que "plantam" nas ruas e nos carreiros as máscaras que já não utilizam, apesar de todas as recomendações...

Pois é, há tanta coisa que nos pode salvar, e que não vem apenas nos livros... e que dependem apenas de nós...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)