sábado, dezembro 10, 2016

Conversas, Amores & Fixações

É normal que as conversas com as pessoas de quem gostamos sejam sempre mais abertas e saborosas, que as outras, com os outros.

Mesmo assim, às vezes somos surpreendidos, por pessoas que conhecemos quase só de vista e que descobrimos que gostam de conversar e de fazer daquelas perguntas que nos parecem inteligentes. Quando digo que parecem inteligentes, faço-o, por normalmente serem coisas que me fazem pensar. E como eu gosto de pensar (vá-se lá saber porquê), acaba por calhar bem...

Mas sim, quando gostamos de um sitio, é mais fácil escrever sobre ele, tirar fotografias ou até pintá-lo. Há algo que nos prende e faz ver beleza onde outros vêm ruína ou descobrir poesia nos objectos mais improváveis...

É também por isso que penso que o conhecimento das coisas anda quase sempre de mão dada com as artes. Embora nem toda a gente acredite nisso, o "acaso" normalmente dá uma trabalheira do caraças...

(Fotografia de Luís Eme - da exposição, "50 Anos - 50 Pontes, do Tejo e de Abril").

quinta-feira, dezembro 08, 2016

O Prazer de Almoçar à Beira do Tejo...


Podia ser este o título da fotografia que aqui deixo, mas não. 

Escolhi quase um sinónimo: "O Almoço Está à Nossa Espera Rente ao Tejo".

É uma das 50 imagens que vão estar expostas na sede-galeria da SCALA a partir de amanhã, em Almada.

(Fotografia de Luís Eme)

quarta-feira, dezembro 07, 2016

Uma Escolha de Última Hora...

Para escolher as 50 fotografias com a Ponte Sobre o Tejo para a minha exposição que será inaugurada na sexta-feira, tive como ponto de partida 120 imagens. Depois umas foram desaparecendo, ao mesmo tempo que surgiam outras novas do lado de lá (notei que tinha muito mais fotografias da Margem Sul que da Margem Norte...). 

O mais curioso foi ter ido buscar uma fotografia que estava de fora para o cartaz... que acabou por entrar à última hora na exposição.

É a fotografia que ilustra estas palavras, e foi escolhida pelas pessoas, embora a maioria das imagens da exposição estejam limpas de gente. Elas próprias parecem estar a ver a "exposição", foi isso que pesou na escolha e não a sua qualidade...

(Fotografia de Luís Eme)

terça-feira, dezembro 06, 2016

Trazer Gente para a Mesa...

Se há qualidade que os meus amigos da "Tertúlia do Bacalhau com Grão" têm, é a de trazer gente para a nossa mesa, quase sempre por bons motivos, exaltando, não as suas melhores qualidades, mas aquilo que possuem de "mais literário".

O que mais me chama a atenção são as "alcunhas", algo que se perdeu no tempo. Houve uma época em que uma boa parte das pessoas eram mais conhecidas pelos nomes que se colavam a eles, fruto das várias contingências da vida, que pelos nomes de baptismo. E esses quase "cognomes" muitas vezes chegavam aos netos...

É dessa forma que surge na nossa mesa o "Capitão Galã", que estava invariavelmente bêbado e que não tinha grandes atributos para merecer estes dois epítetos. Mas se calhar foi por isso mesmo que foi promovido a "capitão" e ainda recebeu o miminho de "galã"...

Foi também numa mesa, mas com outros amigos, que recordámos uma personagem que nem era grande coisa, mas tinha uma alcunha das boas, o "Pisa-Campas". Nunca soube quem foi o padrinho, mas talvez fosse coisa do João Bugia, sempre danado para a brincadeira. Neste caso o nome fazia sentido, porque o moço em questão gostava muito pouco de correr e se pudesse dava aulas por "video-conferência"... Só que em vez de o colocarem a "pisar ovos", a "malandragem" enviou-no para o cemitério...

(Fotografia de Henri Cartier-Bresson)

segunda-feira, dezembro 05, 2016

Relógios de Corda com o Tempo a Fugir

Hoje foi um daqueles dias com menos horas que as dos relógios de corda...

Pelo menos é a sensação que experimento, quase no virar do dia. Comecei mais cedo e acabei mais tarde, sem conseguir fazer tudo o que era preciso.

Até o almoço foi rápido. Não fizemos sala nem conversámos tanto. Todos tínhamos coisas para entreter o tempo. Também sentimos a falta do Carlos.

E mesmo assim sei que fiz muitas coisas. Mas não todas...

Espero que amanhã não acabe o dia com esta estúpida sensação, de não ter feito tudo o que era preciso fazer.

(Fotografia de Luís Eme)

domingo, dezembro 04, 2016

O Cigarro a Caminho da Clandestinidade...


Estava sentado no café à espera de uma companhia melhor que a chuva. O "vai e vem" da mesa ao lado chamou-me a atenção que ali já não era possível beber uma bica e fumar um cigarro em simultâneo, um prazer desfeito na maior parte dos lugares públicos...

Eu que nunca fui fumador fiquei a pensar que este vício caminha para a clandestinidade, com as pessoas que gostam de saborear o tabaco a serem tratadas como cidadãs de segunda, quase a caminho da "criminalidade".

Se esquecermos os alunos das escolas (especialmente as meninas da escola que fica a uma centena de metros deste lugar onde escrevo, que gostam de fumar e dizer caralhadas, em nome da "liberdade"), já ninguém usa o cigarro como instrumento social.

Lembrei-me agora que só tenho um amigo que fuma desalmadamente, capaz de acender cigarros uns atrás dos outros. Em reuniões com mais "nervo" chega a acender dois cigarros quase em simultâneo, sem se aperceber. É a única pessoa que me consegue perfumar a roupa de uma forma desagradável e que suscita a pergunta da ordem em casa: «Onde é que andaste? Que cheiro horrível!»

Sorri ao pensar no Vitor, que tantas vezes fumou nas mesas deste café e que nunca foi incomodativo... Eram outros tempos, em que o "hábito fazia o monge"...  E claro, éramos mais tolerantes e despreocupados com os malefícios do sal, do açucar ou do tabaco...

(Fotografia de Georges Dambier)

sexta-feira, dezembro 02, 2016

Quando os Livros Quase que Pedem para ser Lidos...

Caminhava rente à estante de literatura portuguesa da biblioteca, quase à espera de um sinal, por gostar de acreditar que talvez  um dos daqueles livros usados fosse capaz de me fazer parar, para de seguida saltar para as minhas mãos e viajar comigo dali para fora, para ser lido, algo que não acontecia há uns bons anos...

Foi quando o Ramalho Ortigão mexeu no bigode e me mostrou uma palavra quase mágica: Paris.

Quando dei por ela trazia dois livros na mão, ambos escrito pelo Ramalho das "farpas", de quem nunca tinha lido um livro...

E agora tinha nas minhas mãos, a sexta edição de "Em Paris", editada pela Livraria Clássica Editora em 1958 e "Banhos de Caldas e Águas Minerais", da mesma editora, datado de 1944, com uma introdução de Júlio César Machado e sem número de edição (seria a primeira?).
O primeiro livro veio por causa da tal "palavra mágica", o segundo por curiosidade, pelo que poderei descobrir sobre as Caldas da Rainha, pelas palavras de um seu frequentador dilecto.

E agora tenho de lhes fazer a vontade: lê-los...

(Fotografia de Luís Eme)

quinta-feira, dezembro 01, 2016

Vale Tudo Menos Morder a Língua...

São quatro mulheres, todas com idade para serem minhas mães. Se as quiser encontrar basta passar de manhã pelo "meu café".

Cada uma delas continua a valer pelo menos três páginas de jornal, tais são as novidades que trocam sobre o que se passa nas suas ruas e  também na rua dos outros. Têm uma particularidade que as une e transforma quase em editoras: sabem mais da vida dos outros que da sua própria vida.

Infelizmente as suas páginas cada vez têm mais notícias de necrologia. Sei que preferiam o tempo em que ofereciam na primeira página a "fotografia" da amante de qualquer "bom rapaz" que viram crescer, porque como uma boa parte das mulheres antigas, acham que são sempre "elas" que fazem e desfazem lares.

Hoje lembrei-me que se ainda fossem a tempo de  ter "facebook", eram meninas para se tornarem-se rainhas dos "likes".

Foi também por isso que pensei que o género de conversa que sempre cultivaram, aproxima-se mais das "revistas cor de rosa" (coitadas no seu tempo só existiam a "Crónica Feminina" e a Plateia"...) e das "redes sociais", que do mundo dos jornais...

(Óleo de Armando Barrios)

terça-feira, novembro 29, 2016

As Nossas Histórias que Ficam Fora dos Livros...

Não nos encontramos todos os dias, por não vivermos na mesma cidade e também por nem sempre termos histórias para inventar e contar um ao outro.

Sim, contamos quase sempre um ao outro as histórias que nunca iremos escrever... Posso mesmo acrescentar que se tornou um vício.

Gostei da história que me contaste, um policial a espaços delicioso, com suspense, humor e personagens dignas de qualquer livro escuro. Disse-te que desta vez podias fintar a "superstição do escritor" e transformar em realidade a história que me ofereceste. Sorriste antes de dizer que não.

E faz sentido. Ambos sabemos que as histórias que contamos aos outros ficam demasiado "gordas" para caber dentro dos livros.

No mundo dos livros como em tantos outros, "o segredo continua a ser a alma do negócio"...

(Fotografia de Luís Eme)

segunda-feira, novembro 28, 2016

Revoluções e Palavras em Novembro

Falava-se do 25 de Abril por ser 25 de Novembro.

No início eram quase a "antítese" (o céu e o inferno), mesmo que na mesa estivesse alguém que tinha feito parte deste último movimento, que apenas queria devolver a democracia ao país, acabar com os exageros cada vez mais perigosos, de tantos esquerdistas agrupados em mil e um partidos, que tanto poderiam ser maoistas, como marxistas e leninistas. As amplas liberdades deram-lhes a possibilidade de andarem armados (também em parvos, mas andavam mesmo com armas de verdade). Habituaram-se a ocupar tudo o que parecesse vazio, sempre em "nome do povo" (que costas tão largas que tu sempre tiveste...).

Foi então que a memória os recordou desses tempos cheios de "polícias" (quase todos gadelhudos e com barba revolucionária...), que tiveram o seu auge no dia 28 de Setembro, um dos dias em que puderam virar quase de pernas para o ar todos os carros que lhes apareceram à frente...

Eu sabia que o 25 de Novembro não tinha sido feito para que tudo voltasse a ser como dantes. Para que as famílias exiladas no Brasil e em Espanha regressassem com vontade de "reconquistar" os seus impérios nacionalizados (o que acabou por acontecer, mais ano menos ano...), ao mesmo tempo que se fingiam "vitimas" e pediam indemnizações milionárias ao Estado (e não é que alguns as receberam mesmo?).

Entretanto voltei ao presente. 

E não é que dois dias depois das "iscas" o "melhor administrador de bancos deste país" (só pode ser isso ou algo parecido...) pediu a demissão. 

Um homem passeava na rua com uma folha que parecia um mapa e que abria aqui e ali, para mostrar que fulano era filho de beltrano e neto se sicrano. Talvez por um mero acaso, lá voltavam as velhas famílias, que sempre se "governaram bem" neste país, ora disfarçados de banqueiros, ora de empresários, e sempre "de sucesso!", à baila...

E eu fiquei a pensar que mais importante que saber de onde tinham vindo tantos ministros, secretários de estado, deputados e gestores, com nomes que eram tão familiares a Salazar, era o que tinham feito para chegar até aqui...

(Fotografia de Luís Eme)

domingo, novembro 27, 2016

O Bom Jornalismo, as Mentiras e as Redes

Nunca foi tão necessário o bom jornalismo, numa época em que parece ter deixado de existir o meio termo e que querem empurrar o "bom senso" para longe. Até porque só o bom jornalismo poderá derrotar as  notícias "falsas" que se tornaram moda nas redes sociais...

Há acontecimentos que fazem com que algumas pessoas façam exercícios de memória. É o que tem acontecido com a despedida do "Diário de Notícias" do seu bonito edifício num dos lugares mais nobres de Lisboa. No meio de algum lamechismo também  têm aparecido boas crónicas (nos jornais e na blogosfera).

Ontem quando ainda estava sozinho no café escrevi sobre "os jornais onde nunca irei escrever", até por depois dos cinquenta os sonhos serem diferentes... prendem-se menos com lugares e cargos (até por ser a partir desta fasquia que começamos a ser empurrados para o clube dos "velhos"...). Também só me lembrei de referir dois títulos, "A Bola " e o "Diário de Notícias". Sim, são os únicos onde escreveria com gosto, se fosse convidado para tal. Isso não acontece apenas por serem duas "instituições" no mundo do nosso jornalismo, são também os primeiros jornais que me habituei a ler no começo da adolescência.

Dos desaparecidos também lia com gosto (nos seus bons tempos...) o "Diário Popular", o "Diário de Lisboa" e "A Capital", curiosamente todos vespertinos, algo que acabou, pois deixaram de existir jornais da tarde...

Com a chegada de um amigo, a prosa de café foi interrompida.

Falámos de outras coisas, distantes do mundo dos jornais e das notícias. Mas o bom jornalismo continua a ser necessário. Claro que só há bom jornalismo com bons jornalistas. Sei que hoje se mente com facilidade por todo o lado, a começar nos políticos (perderam de vez a noção do ridículo...), mas quem tem como missão a procura da verdade, doa a quem doer, não pode ter preço nem medo de incomodar os vários "poderes instalados".

Nota: Esta é a minha opinião, mesmo que vá contra a nossa realidade, em que o jornal que mais vende, é aquele que mais explora as meias-verdades e que não aceita ser neutro.

(Óleo de Francis Luís Mora)

sábado, novembro 26, 2016

Mais um Mito que Desaparece...

Mesmo que Fidel Castro me desperte simpatia, por ter sido sempre um lutador e um resistente (especialmente contra os EUA...), não esqueço que foi um ditador. 

Não sei se fez mais bem que mal a Cuba, mas acredito que a balança se incline para o lado positivo, por nunca ter sido um "mal amado" pelo seu povo, pelo tempo que durou no poder e também por ter saído pelo próprio pé (ainda que se tenha feito substituir como se vivesse numa monarquia...).

Mas Fidel nunca foi um paladino da liberdade, pois fez tudo menos respeitar aqueles que pensavam de maneira diferente no seu país (perseguiu, mandou prender e - no mínimo - torturar...).

É mais um "mito" que nos deixa, ainda que nunca tenha atingido a popularidade de Che, que se distanciou dele e morreu antes de tempo...

(Fotografia de autor desconhecido)