sábado, fevereiro 25, 2017

O Difícil é Fugir...


Tenho alguns amigos funcionários públicos que conseguem fugir ao espírito da "coisa", mas são raros. 

Há um ritmo de trabalho (devagar, devagarinho, parado...) que com o tempo acaba por se apoderar de nós... Porque quem tem demasiada energia (essa enorme dificuldade em estar parado...) acaba por fazer o seu serviço e de uma boa parte da secção, sem que os outros se mostrem muito incomodados com isso...

Nunca esqueço o Nascimento, um "cromo" adepto da "paz e do amor", que era capaz de andar o dia inteiro com o mesmo papel na mão, a cirandar de secção em secção, sempre cheio de amabilidades e simpatias, a dar à língua, mas incapaz de "mexer uma palha", para desespero do chefe, que viu-se obrigado a declará-lo como um "caso perdido", o que na função  pública acaba por ser sempre uma "promoção"...

Dizem que as coisas estão a mudar. É provável, mas muito lentamente, no tal ritmo: devagar, devagarinho, parado...

(Ilustração de Robert Brault)

sexta-feira, fevereiro 24, 2017

Intransigências...

Se há coisa onde continuo a ser intransigente, é nos serviços de atendimento público.

Quem finge não saber que num serviço de atendimento às pessoas, além de se ter de mostrar simpatia (os problemas pessoais têm de ficar de fora...), tem também o dever de informar correctamente toda a gente que utilize o seu serviço, deve mudar de função. 

E claro, não precisa de se "despersonalizar", também deve chamar a atenção a quem se lhe dirigir de forma pouco educada ou correcta. 

Embora de uma forma geral estes serviços tenham melhorado, ainda anda por aí muito "enjoado" à solta, que deveria ser recambiado para qualquer sala dos fundos a arrumar prateleiras (e afins...) e nunca ter como missão o atendimento de pessoas...

(Fotografia de Luís Eme)

quarta-feira, fevereiro 22, 2017

Amadeo no Chiado


Ontem de manhã visitei a exposição de Amadeo Souza-Cardozo no Chiado com um grupo de amigos, que não só gostam de arte como a praticam.

Gostei bastante da forma como a exposição está organizada. Os quadros são o que quase todos já conhecemos, um "mundo novo" artístico, que abriu tantas portas, fechadas... especialmente quando foram expostos pela primeira vez em 1916, no Porto.

Todas as palavras que ocupam as paredes ajudam a compreender o passado, o presente e o futuro, de um verdadeiro génio.


É também por isso que não me preocupa nada (até acho bem) que as pessoas visitem as exposições de Amadeo  e Almada Negreiros por serem muito divulgadas e de alguma forma estarem na "moda". É sem sombra de dúvida, uma boa "moda".

Digo isto porque são duas mostras de arte que nos  fazem questionar muitas coisas (mesmo que não percebamos daquela "horta"...), desde a cor às formas utilizadas por estes dois "modernistas". 

E sei que, 100 anos depois, ninguém tem vontade de cuspir em nenhum dos quadros do Amadeo, por mais conservador que seja...

(Fotografias de Luís Eme)

terça-feira, fevereiro 21, 2017

A "Bofetada" e a Mudança de Mentalidades...

Fiquei parado  a ler um artigo assinado pela  historiadora M. Fátima Bonifácio, publicado no "Público", numa já distante sexta-feira treze, de Janeiro de 2006, que abordava as mudanças da mulher na sociedade, ao longo dos tempos. 

Fátima deu um realce especial à pílula, que não só emancipou a mulher como a libertou. Assim como a sua entrada em massa no mercado de trabalho, apesar de todas as desigualdades existentes - e que continuam sem sofrer grandes alterações -, pois para o mesmo trabalho as mulheres recebem quase sempre menos que os homens.  

O texto tem como título "A Importância da Bofetada". Há uma parte que relata a violência doméstica, que não escolhe classe ou meio social, ao mesmo tempo que destaca a facilidade de a mulher conseguir o divórcio  nos nossos dias (também aqui se libertou...).

Mas o mais importante para mim foi mesmo o "remate final" da historiadora no texto: «Não acredito que a situação se possa alterar por meio de uma voluntária e generosa "mudança de mentalidades", pelo motivo de que ninguém muda de mentalidade contra os seus próprios interesses.»

Eu também penso da mesma forma. A mudança de mentalidades infelizmente vai ter de ser mesmo forçada, e ocorrerá quando as mulheres passarem a ocupar os cargos mais importantes no mercado de trabalho e a terem uma situação económica e social privilegiada, pelo menos quando comparada com a dos homens.

Talvez existam uns tempos de "bofetadas" (acredito que uma boa parte da violência doméstica tem origem em complexos de inferioridade masculinos, quase sempre escondidos...).

(Óleo de Charles Courtney Curran)

segunda-feira, fevereiro 20, 2017

Precisar Urgentemente de Renascer...


Poucos sabiam o porquê de toda aquela tristeza, que habitava no rosto quase bonito, da mulher que acabara de ultrapassar os trinta e já parecia caminhar para os cinquenta. Dia após dia percebia-se que quase se esquecia de viver...

Não era o dinheiro que escasseava que a fazia sofrer, era algo muito mais precioso:  a impossibilidade de viver outras vidas, de assistir ao "nascimento" de uma outra pessoa, mesmo que fosse apenas por dois ou três meses, Até podia ser uma assassina ou uma prostituta, queria era "renascer", ter um outro nome, uma outra vida...

(Fotografia de Alfred Cheney Johnston)

domingo, fevereiro 19, 2017

O País dos Iluminados...


Não sei qual é o maior defeito dos portugueses. Sei apenas que dou cada vez mais razão ao meu amigo Orlando, por uma boa parte das pessoas se terem em grande conta e achar que são os melhores, não da rua, mas do bairro onde moram (alguns até da cidade ou do país...).

O exemplo dado por Cavaco Silva e José Sócrates esta semana, é apenas mais um, de dois seres "iluminados", que foram primeiros-ministros de Portugal e são tão bons, que a sua qualidade acaba por estar reflectida no rumo do nosso país, que como sabemos se tornou uma "potência europeia", graças às suas governações...

Mas nem precisamos de ir tão longe, podemos focar-nos (não na nossa rua, porque já quase ninguém perde tempo a falar com a vizinhança...) no nosso trabalho, onde existe sempre alguém que passa a vida a dar nas vistas, com a habitual "graxa" aos chefes, a valorizar o pouco que faz, ao mesmo tempo que - sempre que pode - se tenta apropriar dos louros alheios, com a maior naturalidade do mundo.

Talvez seja da idade, mas cada vez tenho menos paciência para lidar com os "cavacos" e "sócrates" que nos rodeiam... 

(Óleo de Giorgio de Chirico)

sexta-feira, fevereiro 17, 2017

A Festa das Artes da SCALA


Participo mais uma vez na "Festa das Artes da SCALA", a 23.ª Exposição artística Anual desta Associação Almadense a que pertenço, que apresenta obras de  Artes Decorativas, Escultura, Fotografia, Ilustração e Pintura e vai ser inaugurada amanhã, às 16 horas, na Oficina de Cultura de Almada.

As minhas três fotografias são sobre a Procissão da Senhora do Bom Sucesso de Cacilhas.

(Fotografia de Luís Eme)

quinta-feira, fevereiro 16, 2017

«Eu sempre soube que somos uns seres um bocado para o estranho»

Ainda mal tínhamos acabado de sair da sala de cinema e já estavas a dizer: «eu sempre soube que somos uns seres um bocado para o estranho».

Sorri. Há coisas que sabemos, mas que normalmente não dizemos. Neste caso particular, nem sequer era preciso pensar no Hitler...

O cinema e o teatro, com os exageros da realidade, deixam-nos muitas vezes a pensar. Foi o aconteceu esta noite ao vermos "A Solidão dos Números Primos", apenas mais um exemplo de como  somos obrigados a viver com os "aleijões" que a vida nos oferece... e de como os erros, mesmo na idade da inocência, se podem pagar caros, ao ponto de  nunca mais nos deixarem em paz...

Eu sei, que, mesmo que alguns filmes nem sejam muito bem feitos, fico a gostar deles quando me fazem pensar.

(Fotografia de Cristiano Mascaro)

quarta-feira, fevereiro 15, 2017

Dizer o que se Pensa Tem o seu Preço...

Desde a minha infância que sei que dizer o que se pensa, tem o seu preço.

Por teimosia, orgulho e personalidade, ainda em construção, comecei logo a pertencer ao clube dos "livres pensadores", mesmo sem saber muito bem o que era isso.

Recordo que nas férias grandes que passava na casa da avó, quando não gostava da comida dizia-o, sem qualquer problema. O meu irmão, mais velho dois anos, mesmo que não gostasse, "comia e calava". Isso irritava a "cozinheira" e fazia com que existisse alguma diferença de tratamento entre nós dois, ele era sempre bem vindo por que era um "menino do campo", enquanto eu não passava de um  "menino da cidade"...

Cresci e não mudei tanto quanto isso.

É por isso que até consigo achar graça a pequenas coisas, como a confusão que provoca o que escrevo nos blogues (especialmente no "Casario", por ser mais regional...) a algumas pessoas, que até são capazes de "ler" coisas que nunca estiveram no meu pensamento  (quanto mais nas palavras...), inventando logo qualquer "teoria de conspiração".

É também por isso que há acontecimentos que acabam por ser ainda mais importantes que qualquer "medalha", como o episódio do presidente da Assembleia Municipal de Almada, que recusou sentar-se à mesma mesa que eu, no lançamento de um dos meus livros, supostamente por coisas que tinha escrito na blogosfera, contra o seu "partido" e a sua "câmara"...

(Fotografia de Luís Eme)

terça-feira, fevereiro 14, 2017

Um Poema Resgatado de "Outra Vida"...

Não é apenas por ser o dia dos namorados, que publico aqui este poema. É também por estar incluído numa pequena antologia com poemas de amor dos poetas da SCALA ("Corações Cheios de Poesia - poemas de amor dos poetas da scala"), inserida na "Semana do Amor em Almada"  e por ter sido "resgatado" de um caderno com escritos dos anos 1980.

Aquele Amanhecer Único

Olhei-te e recordei
aquele amanhecer único...

Não pregámos olho nessa noite,
andámos de festa em festa,
até os bares fecharem.
Os amigos também foram voando,
quando olhámos um para o outro,
restávamos apenas os dois...

Não sei se bebemos mais que a conta...
muito menos qual era a nossa conta.
Sei apenas que deixámos o carro em qualquer lugar
e fomos esperar a madrugada
à beira da Lagoa...

As coisas que fizemos,
enquanto o dia não clareou...

Depois olhámos abraçados,
aquele amanhecer único...


A fotografia que escolhi não é de nenhum amanhecer, mas é da Lagoa de Óbidos...

(Fotografia de Luís Eme)

segunda-feira, fevereiro 13, 2017

A Carta do Cinema ao Governo


Embora concorde com o teor da carta que o "cinema" (praticamente todas as pessoas envolvidas na indústria...) enviou ao Governo, sei que as coisas nunca foram exactamente como são "pintadas" neste manifesto.

Quando dizem: «[...] A política cultural que permitiu este cinema e que abriu as portas à diversidade, assentou em Leis do Cinema e num Instituto Público, o ICA, que as aplicou, organizando de forma continuada concursos públicos para o apoio financeiro à produção de filmes, com regras de participação transparentes e critérios de avaliação compatíveis com uma política promovida pelo Ministério da Cultura e com júris escolhidos pelo Instituto cujo perfil é definido por lei como “personalidades com reconhecido mérito cultural e idoneidade”.[...]», esquecem uma série de "privilégios" em benefício de Manoel de Oliveira, ou ainda de João César Monteiro, que até se deu ao luxo de fazer um filme sem imagens ("Branca de Neve"), que se foram prolongando no tempo.

Mas esse é um mal do nosso país, criamos regulamentos, que deixam sempre uma ou duas alíneas abertas, para poder beneficiar a entrada de quem mais nos convém. O velho sistema da "cunha" nunca deixou de existir, e em épocas de crise, como a que continuamos a viver, ultrapassa todos os limites do razoável...

Sei que o cinema e o teatro, e até alguma música, têm de continuar a ser apoiados. É a única forma de subsistirem, porque continuamos a ser um povo pouco culto e facilmente manietado e manipulado, por tudo aquilo que não nos obrigue a pensar muito...

Mas era bom, mesmo muito bom, que o apoio estatal não fosse sempre para os mesmos, baseando-se sobretudo na qualidade dos seus projectos e não nos seus "nomes".

domingo, fevereiro 12, 2017

Duas Exposições da Modernidade


Embora ainda não tenha passado por nenhuma das duas exposições que nos mostram uma boa parte do expoente do modernismo do começo do século passado, através de Amadeo Souza-Cardoso e de Almada Negreiros, em Lisboa, acho muito bem que se festeje a arte destes dois amigos e extraordinários artistas plásticos. Um morreu cedo demais e o outro atravessou todo o Estado Novo, para quem trabalhou e por quem foi aceite, apesar de ser um provocador...

E por falar em exposições, há um acontecimento que merece sempre ser relembrado: a forma como Almada defendeu Amadeo na abertura de uma sua exposição na Liga Naval, em 1916. Quando um quadro do amigo é cuspido pelo público Almada defende a arte ao murro, dizendo para quem o quis ouvir: «É mais importante a descoberta da pintura de Amadeo do que a do caminho para a Índia, porque a Índia foi há quatro séculos.»

(Óleo de Almada Negreiros)