domingo, janeiro 19, 2020

O "Adamastor" Está de Passagem pela Minha Rua...


Lá fora alguém sopra, com quase toda a fúria do mundo. Quase que me apetece acreditar que é o "Adamastor", mesmo sem precisar de ir espreitar a janela.

Sei que ele aparecia mais no meio dos oceanos, mas acredito que, uma vez ou outra, era senhor para vir a terra, levantar um destes alvoroços, que deve dobrar as pobres árvores da minha rua, e pela parte que me toca, faz estremecer os estores, a pouco mais de um metro da minha secretária...

(Fotografia Luís Eme - Cova da Piedade)

sábado, janeiro 18, 2020

Monumentalidade & Religiosidade


Em parte percebo a quase necessidade de misturar a monumentalidade com a religiosidade, pelo menos no seio da religião católica (isso acontece tanto na arquitectura dos templos como na sua ornamentação artística).

Sempre se usaram as imagens de santos e santas, no interior e no exterior dos santuários e igrejas. Normalmente saem beneficiados pelos artistas, que tentam transmitir aos fiéis uma imagem de beleza, mas também de respeitabilidade, de inocência e temor (especialmente quando elas são Marias...).

Como sou um leigo nestas coisas, não sei muitas coisas, como por exemplo, qual é o significado do uso de animais, aos pés e ao colo destes dois santos, que agora fazem  parte da decoração que rodeia o Cristo-Rei de Almada.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)

sexta-feira, janeiro 17, 2020

Tempo para Tudo...


Estava na paragem do autocarro que nunca mais chegava, a ver o quadro electrónico a brincar connosco. De repente os três minutos que faltavam passaram a ser sete... Conhecia aqueles "truques" das paragens do metro de Almada, onde se pratica mais do que se deve, a supressão de transportes...

À minha frente havia um cartaz publicitário, também electrónico, que ia passando duas ou três coisas.

A única coisa que me prendeu a atenção foi a série televisiva "lista negra", por me recordar o único rapaz que tinha uma lista dessas (deve ser mais normal do que o que eu penso, pois até os telemóveis têm uma...), onde empurrava para lá a "malta que não interessava".

Naquele meu momento de "enfrentar a lista", sorri por me recordar, que se havia alguém que devia estar em todas as folhas pretas, era ele, ao mesmo tempo que esquecia os atrasos dos transportes públicos, que também devem fazer parte de muitas "listas negras"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

quinta-feira, janeiro 16, 2020

Gente Castigada pela Vida Duas Vezes...


Ontem fiz uma coisa que está longe de ser das que mais me agradam, fui a um hospital  público como acompanhante, e onde, naturalmente, permaneci mais de um bom par de horas. Isso deve ter acontecido para sentir na pele que as coisas estão bem piores do que o "quadro que nos tentam pintar" e oferecer...

As pessoas que já estão doentes, são sujeitas a um martírio de horas, desde os tempos de espera, à forma como são tratadas, como se não lhes bastasse a maleita que padecem, ainda têm de ser "castigadas" pela desordem reinante da maior parte dos serviços...

Não sei se foi por estar a observar tudo aquilo que me rodeava, com atenção, que até acabei por não ficar excessivamente impaciente...

Outra coisa que me incomodou foi ver a falta de cuidado dos funcionários para com os doentes com gripe, que estavam por ali, lado a lado com as pessoas saudáveis e com os outros doentes, que não precisavam de "comprar" mais nada no hospital... 

(Fotografia de Luís Eme - Almada)

quarta-feira, janeiro 15, 2020

O Talento Está Lá, Mas...


Embora não seja possível comparar os mundos do futebol e da literatura, penso que se está a colocar "pressão" antes do tempo, em dois jovens talentosos que prometem bastante. Falo de João Félix e de Afonso Reis Cabral.

Claro que o Afonso é um felizardo em relação ao João (esquecendo os milhões de euros do futebol, claro...), porque continua no nosso país, não foi vendido por uma verba obscena ao Atlético Madrid, nem tem de lidar diariamente com a imprensa espanhola, que se nunca deu paz a Cristiano Ronaldo nem a José Mourinho, que eram dos melhores do Mundo, muito mais cobrará a um jovem, que ainda está distante de ser um "fora de série".

Como a literatura é cada vez mais uma coisa de minorias, talvez nem todos saibam que o Afonso é - desde que venceu o Prémio Leya em 2014 - a nossa "coqueluche" do mundo dos livros, pelo menos para os críticos e editores. E ainda não chegou aos trinta anos...

Espero que o João Félix seja suficientemente forte para aguentar toda esta pressão, e que tenha a sorte de ter um treinador para quem o talento seja algo decisivo no futebol (algo que parece não acontecer com Simeone...), como acontece com Guardiola ou Klopp.

Da mesma forma que espero que o Afonso Reis Cabral  escreva os livros que quer escrever e não os livros que querem que ele escreva. Só assim conseguirá ser, num futuro próximo, um escritor de excepção.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

terça-feira, janeiro 14, 2020

A Esperteza Lado a Lado com a Bondade Humana...


Podia continuar a falar do Paulo Gonçalves, pelo seu exemplo como desportista, que parava sempre para auxiliar alguém que estivesse com problemas, e que foi realçado por todos os seus companheiros e até rivais, nas competições de todo o terreno, para falar da bondade humana, que por vezes parece estar em extinção.

Mas vou relatar um episódio, aparentemente banal, que me aconteceu ontem, depois do almoço. 

Vinha com dois amigos e um senhor de idade, bem composto, vem direito a mim e efusivamente estende-me a mão, com um boa-tarde. Retribuo o cumprimento sem a menor ideia de quem era o sujeito. Segundos depois percebi de onde é que não o conhecia, quando ele me estendeu a mão novamente, agora noutra posição, a pedir uma moeda. Comecei a sorrir com a lata do homem, ao mesmo tempo que lhe disse que não tinha qualquer moeda no bolso (tinha gasto as últimas no café...). Mas os meus dois amigos, atentos e bons samaritanos, deram-lhe cada um deles um euro.

Penso que mesmo que tivesse uma moeda no bolso, não a dava ao "pedinte", por achar toda aquela encenação (digna de ser filmada) no mínimo pouco séria, retirada de qualquer manual da "chico-espertice".

Acabámos por falar sobre aquele episódio nos metros seguintes. Um dos meus companheiros até nos sugeriu (pela boa compostura do senhor), que o homem podia nem ter qualquer necessidade de pedir, provavelmente tinha qualquer problema mental. Mas nenhum deles teve uma atitude crítica em relação aquele gesto. Nada que me causasse admiração, porque estes meus dois amigos são gente boa, daquela que começa a destoar com estes tempos...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)

segunda-feira, janeiro 13, 2020

A Informação há Muito Tempo que Já Não é o que Era...


Ontem era para escrever qualquer coisa sobre a forma como Paulo Gonçalves se despediu do mundo dos vivos (involuntariamente), montado na sua companheira de tantas horas, quase sempre boas. 

Sei que há quem diga que uma das formas mais dignas de partirmos, é a fazermos uma coisa da qual gostamos muito... Por não querer ir tão longe, acabei por não escrever nada...

Hoje ouvi algumas coisas que me fizeram pensar. Mas quando alguém é capaz de dizer que o Paulo já tinha idade para ter juízo, está um pouco deslocado das andanças do "todo o terreno", que costuma receber "reformados" das várias disciplinas do desporto motorizado, que tanto podem chegar dos campeonatos de ralis como dos da fórmula um.

Também não fazia ideia que a prova que nasceu como "Paris-Dakar", andasse agora pela Arábia Saudita, depois de ter sido forçada a abandonar uma África demasiado perigosa e viajar pela "Latina-América".

A informação há muito tempo que já não é o que era...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

sábado, janeiro 11, 2020

Olhar para o Futuro e Ver o que "Ainda não Existe"...


Há pessoas que conseguem olhar para o futuro e ver aquilo que "ainda não existe", como se lhes fosse possível levantar uma ponta de "qualquer coisa", e ver o amanhã, e o depois de amanhã...

João Bénard da Costa foi uma dessas pessoas. Em "A Casa Encantada" (a sua crónica  semanal do "Público") de 3 de Outubro de 2003, conseguiu antever a geração "Trump", com uma referência ao cinema, que tanto amou, que transcrevemos:

«Lembro-me de um filme de 1994 - "Forrest Gump" chamava-se - em que o herói (Tom Hanks) era uma espécie de atrasado mental, que só tinha uma pálida ideia dos problemas e conflitos americanos ou mundiais. O filme retratava-o como um típico produto do que se chamou a "Baby Boomer Generation", a que foi dominante entre a ascenção de Elvis e a queda de Nixon. Mas aquilo que no livro (de Winston Groom) serviu de base ao filme - uma sátira, mais ou menos verrinosa, contra essa geração - transformou-se, no filme de Zemeckis, numa apologia do "pobre de espírito", que triunfava, porque milhões de americanos se achavam iguais a ele e queriam que a América e o Mundo fossem de homens como ele.
Quando vi o filme. tive um primeiro prenúncio que aquele personagem não representava um tempo passado, mas um tempo futuro. O êxito desse elogio à estupidez deixou-me perplexo. Mais ano menos ano, não iria a nova minoria reclamar direitos e a comemoração do Dia do Estúpido?
Estúpido fui eu, porque infelizmente, essa minoria é maioria, na América ou em qualquer país.»

(Fotografia de Luís Eme - Tejo - a Lua hoje...)

sexta-feira, janeiro 10, 2020

Andava por aí, de um lado para o outro, quando pensei que viajar é outra coisa...


Viajar não é a mesma coisa que andar por aí, nunca foi. Mas nem sempre damos por isso. São as chamadas distracções do quotidiano...

Viajar é partir, procurar outras paragens. Puder olhar, cheirar, tocar e sorrir a outras coisas, mesmo que essas  coisas sejam pessoas.

Mas partir mesmo, até porque nunca foi tão fácil e barato andar por aí à volta do mundo.

Sei que nem tudo é agradável, os aeroportos parecem centros comerciais ao fim de semana, para pior. Os aviões parecem comboios, daqueles que nunca chegam a horas a sítio nenhum. Mesmo assim, as pessoas fazem filas para embarcar, ainda que seja num "avião-autocarro" (e as viagens de pé, estão quase...), porque fica mais em conta.

O barco podia ser uma boa alternativa, se estes também não tivessem sido transformados em "cidades", que transportam e dão abrigo a reformados endinheirados,  que navegam para Norte e para Sul, por esse mundo fora.

Até me lembrei se a mochila com que fiz o "inter-rail" em 1985, ainda existia. Talvez, lá para os cantos do sotão da casa dos pais... Antes já pensara que não é possível viajar como nesse tempo (passaram quase 35 anos... o tempo não perdoa). A liberdade entretanto também é outra coisa...

Transformámos quase tudo (nem sempre para melhor), é por isso que viajar também é outra coisa (cada vez mais material e menos espiritual)...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)

quinta-feira, janeiro 09, 2020

A Exploração (Abusiva) das Emoções...


Sei que o jogo das emoções faz parte dos muitos teatros de vida que nos cercam, mas também sei que a televisão não precisava de "abusar", explorando cada vez mais as nossas fragilidades. 

As notícias são o que são, e já não descuram a componente do espectáculo... Mas pior são os programas diários, de entretenimento, onde até se "oferecem uns trocados", a quem não tiver qualquer pudor em exibir publicamente as suas fragilidades humanas. E se conseguirem chorar sem cebola, ainda é melhor, para as audiências...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

quarta-feira, janeiro 08, 2020

Nem o Pão Escapou...


Normalmente os preços vão aumentando, de uma forma ligeira, ao longo do ano, para que a malta não se chateei nem ligue muito.

Foi por isso que estranhei que um dos pães que eu costumo comprar, tenha passado de 1,50 para 1,70 € (e ainda fiquei com a sensação que estava mais curto de tamanho...). Ainda lhes disse que podiam ter sido mais meigos, não era necessário ultrapassarem os dois dígitos em termos percentuais no aumento. Ficaram a olhar para mim com cara de parvos e com um sorrizito amarelado.

Embora goste bastante do pão, estou a pensar seriamente em deixar de ser cliente.

Também estranhei o aumento do jornal desportivo ("A Bola") que comprei na segunda-feira (mais dez cêntimos). Numa altura em que estão a perder leitores, não será com aumentos que lá vão... Perguntei se o "Record" também tinha aumentado. Disseram-me que sim. 

É curioso, como a "rivalidade" se esbate, no que toca à "concertação dos preços"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

terça-feira, janeiro 07, 2020

O Mau Aproveitamento das Coisas Boas...


A utilização do video-árbitro no futebol tem sido bastante mais polémica do que se poderia pensar, quando este foi criado. Embora reconheça que tem de ser aperfeiçoado (as paragens de jogo são muito longas...), continuo a pensar que foi uma boa inovação e um bom auxiliar para o futebol e para a verdade desportiva, pois fez com que se acabassem com os chamados "roubos de igreja" (expressão que penso ter sido transportada para o futebol pelo grande José Maria Pedroto...), também conhecidos como "erros grosseiros", como eram as grande penalidades e os foras de jogo, que toda a gente conseguia ver (menos alguns árbitros, mais habilidosos que incompetentes), sem ter necessidade de se socorrer das "mil e uma repetições" televisivas ...

Apesar das mudanças, os erros de arbitragem (mesmo os que não são erros...) têm hoje nas nossas televisões  uma maior "caixa de ressonância" , ao ponto de estas terem criado um outro campeonato, povoado de "comentadores-adeptos", em que ganha quem fala mais alto, quem interrompe mais vezes o outro e quem consegue dizer as coisas mais bizarras, sobre o que quer que seja.

Este é apenas mais bom um exemplo da nossa dificuldade em aceitar algumas coisa boas e de lhes dar o melhor aproveitamento.

Se as coisas não se alterarem, penso que o futebol perderá (como tem vindo a perder nos últimos anos...) muita da sua autenticidade e da sua imprevisibilidade, afastando cada vez mais as pessoas dos estádios (agravando o que já acontece hoje, em que a maior parte dos estádios com lotação para milhares de pessoas, têm assistências de apenas algumas centenas de pessoas...).

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)