sábado, setembro 24, 2016

Quando se "Inventa" para Ficar na História...


A história de Almada saltou para cima da mesa do café (tal como tem acontecido tantas vezes...) e na defesa dos meus pontos de vista e da história local, acabei por de alguma forma chamar mentiroso a um dos meus companheiros de "tertúlia". Sei que era mais simples ter dito que a verdade não era bem assim, mas em algumas coisas sou demasiado intransigente.

A minha experiência - primeiro como jornalista e depois como historiador - de quase três décadas, faz com que apanhe um "mentiroso" com relativa facilidade. Basta fazer duas ou três perguntas sobre o mesmo tema, para encontrar contradições. Ou estão estar a par dos factos (o que aconteceu...).

É por isso que sempre que quero saber coisas do passado, recorro normalmente a duas ou três fontes, que são de uma honestidade rara. 

Claro que quem "mete os pés pelas mãos" nem sempre o faz por mal. A passagem do tempo faz com que muitas pessoas não tenham a noção de que já se passaram décadas e décadas sobre determinado acontecimento, é isso faz com que se enganem com relativa facilidade na data, e por vezes até do local. Mas pior são  mesmo as pessoas que gostam de se meter dentro da história. Fala-se sobre determinado acontecimento e a primeira coisa que dizem é, «eu estive lá», quando lhes era impossível estarem presentes fisicamente, por serem demasiado pequenos,  por residirem noutra cidade ou até por ainda não serem nascidos...

Eu sei que por vezes é difícil resistir à tentação, de ficarmos na história, mesmo que esta nos tenha passado ao lado. Espero ter sempre a lucidez suficiente para ser um autor e uma fonte credível...

(Fotografia de Luís Eme)

sexta-feira, setembro 23, 2016

É Sexta-Feira...

Sexta-feira sempre foi um dia desejado, porque teve a sorte de ficar à porta do fim de semana.

Embora não tenha um patrão definido, nem trabalhe das nove às cinco, há sextas que me apetecem mais que outras. Esta é uma delas.

Não que tenha previsto alguma coisa especial para amanhã ou para domingo. Mas sim porque me sinto cansado. Começou a escola e como sou o "despertador" cá de casa, isso significa levantar mais cedo e estar na rua ainda antes de "a vida começar"...

Há pelo menos uma vantagem  em todas estas mudanças, a manhã começa mais cedo e como é mais produtiva (sempre aproveitei mais as manhãs que as tardes...), ficamos todos a ganhar.

(Fotografia de Luís Eme)

quinta-feira, setembro 22, 2016

Segredos que não são Segredos...

Todos nós sabemos coisas sobre os outros que se ficam pelas conversas entre amigos, nem sequer são para espalhar aos sete ventos, muito menos para serem soprados para jornais ou revistas. Pertencem a uma palavra que nos estão a querer roubar, de mil e uma maneira: a privacidade.

O problema é que a palavra privacidade não rima apenas com outra palavra, que ainda nos devia ser mais querida, a liberdade. Ambas têm um trajecto de vida em comum muito rico, mesmo que nem sempre se pense ou fale no assunto.

Poderia dar muitos exemplos, desde essa coisa ridícula que agora anda na moda, chamada "burquini", mas que não pode, nem deve ser proibida, muito menos no país da "Liberdade, Igualdade e Fraternidade", aos telemóveis e à internet, que começam a saber quase mais do que nós, ao ponto de conseguirem transmitir a terceiros não só a nossa localização, mas também a nossa ocupação...

Todas estas mudanças na sociedade só deveriam valorizar a tal palavra, privacidade, que cada vez tem menos espaço na nossa vida (pelas "invasões" a que nos deixamos submeter diariamente...). É por isso que não consigo entender que alguém que foi director de jornais possa escrever um livro em que o tema principal é a vida privada dos outros, neste caso particular, políticos. Quando se dirige um jornal vive-se num clima de "guerra diária", entre o que se pode ou não publicar. Questionam-se muitas coisas; se a notícia "tem pernas para andar", se as fontes são credíveis, se foi feito o "contraditório" (algo que parece já não se usar...), etc.

É por isso que só entendo que alguém publique um livro do género por duas razões: para ganhar dinheiro (sim, o livro vai vender muito, as pessoas que normalmente dizem que não o vão ler, são as primeiras a irem às livrarias e a levarem-no para casa, à procura das páginas mais escabrosas...) e para ser notícia de jornal. Como não acredite que o senhor esteja "falido", só pode mesmo querer ver a fotografia nos jornais e revistas e ser falado e comentado  por milhões (mesmo que seja da pior maneira...) nas redes sociais.

(Fotografia de autor desconhecido)

quarta-feira, setembro 21, 2016

Fugir do Nome das Coisas...


É um lugar comum dizer que a Língua Portuguesa é extremamente rica. Riqueza que os ingleses, franceses, alemães ou espanhóis, também encontram, com toda a certeza, no seu "mundo de palavras". 

O que é certo é que descobrimos sempre formas e usos para evitar os chamados "choques frontais", quanto muito damos o flanco e lá surge uma vez por outra um "choque lateral"...

É por isso que se faz tanto o uso da ironia e das metáforas, até mesmo nas notícias dos jornais, que deviam ser objectivas e "servidas a seco", de preferência.

Toda esta introdução para falar da literatura, aliás, dos seus autores, ou para ser ainda mais específico, dos "críticos". De um mundo onde fiquei a saber que existem pelo menos três divisões: os escritores, os escritorzinhos e os escritorzecos. O mais curioso foi perceber que se podem colocar praticamente todas as pessoas que escrevem apenas nestas "três assoalhadas".

Quando pedi que fossem mais longe, até por ser parte interessada (mesmo que escrevesse apenas nos "campeonatos distritais"...), foi um pagode. Até porque a escolha era guiada sobretudo pela opinião pessoal que aquela mesa de "críticos" tinha de quem escrevia, a valia da sua obra era um assunto de importância menor. Ou seja, os "escritorzecos" acabaram por ter a lista literária mais extensa, cabendo aqui e ali até um ou outro candidato ao Nobel. Os "críticos" até se acotovelavam para colocar lá mais um escritor, mesmo que fosse apenas pela maneira de vestir e de andar, entre gargalhadas e palavras jocosas.

Ou seja, devo ficar sempre de pé atrás se me chamaram "escritorzinho". Mas pior, pior, é ser considerado um "escritorzeco"...

As coisas que se inventam para fugir do nome das coisas...

(Óleo de Georg Grosz)

terça-feira, setembro 20, 2016

De Vez Enquanto lá Aparece o País Velho...

Foi impossível passar ao lado da alegria do homem que contava a toda a gente que tinha assistido ao jogo do Benfica ao lado de um dos médicos que o tratara no hospital. A felicidade que ele sentia por ter descoberto que o doutor também chamava nomes feios ao árbitro e aos jogadores adversários...

Pensava que já não existiam pessoas assim. Pensava...

De vez enquanto lá aparece o "país velho", do povo e dos doutores e engenheiros...

(Fotografia de Luís Eme)

segunda-feira, setembro 19, 2016

Olhar para o Futuro e Ver Nada...

Eu sei que o Chico tem razão, o futuro não existe. Mesmo que esteja a apenas um segundo de distância das minhas palavras.

É por isso que também sei que o futuro pode ser uma coisa melhor ou pior, dependendo do nosso presente...

E olhar para as portugueses e para Portugal não ajuda nada. Olho e  perco a vontade de ditar soluções para isto ou para aquilo, entre passado, presente ou futuro. E começo a falar um pouco mais baixo.

Não sei até que ponto me deixo influenciar pelo facto de ter em casa um filhote de dezoito anos, sem saber muito bem o que quer do futuro. E o pior é que tenho a sensação de que o futuro ainda quer menos com ele...

Se ficar, pode acabar o curso e depois candidatar-se à condução de um "tuk-tuk" a um emprego na restauração ou na hotelaria. Mesmo que perceba que não se pode encher a cidade destas "motoretas", nem fazer de cada número de polícia um café, um restaurante, um hostel ou uma loja de "recuerdos". Porque isso parece-me não ser solução para coisa nenhuma.

Mas talvez este país esteja a caminhar para não ser " coisa nenhuma" e também para não ser "para ninguém". 

É possível que alguns empresários acreditem que a (sua...) "galinha dos ovos de ouro" é ficarmos por cá a fazer apenas parte da felicidade dos outros, esses todos que chegam do mundo inteiro com dinheiro para comprar quase tudo, até a nossa dignidade (se deixarmos...). 

Estes "empreendedores" têm os olhos cheios de cifrões e pensam que os portugueses como são simpáticos e gostam de ajudar os outros, que vêm de fora, são o povo "eleito" para  os servir (perto do que se entendia noutras épocas por "escravos" , embora devam continuar a ter a a mania que são cidadãos livres...).

(Fotografia de Alfredo Cunha)

domingo, setembro 18, 2016

Passear e Fotografar Lisboa

Hoje andei a passear por Lisboa na parte de manhã.

E embora tenha passado por ruas que me são familiares, descobri vários motivos de interesse como a casa do "Manel Barbeiro" (na zona da Bica), com um horário muito peculiar, muito virado para os clientes da "vida artística"...

E não levem a loura a sério, porque é uma "Marylin" a brincar...

(Fotografia de Luís Eme)

sábado, setembro 17, 2016

O Meu Olhar Sobre as "Minorias"...


Hoje quando ia para o café comecei a pensar (e a tentar desvendar...) como seria a minha vida, se pertencesse aos chamados grupos "minoritários", mesmo que muitas vezes até possam estar em posição de superioridade numérica - como acontece com as mulheres -, mas nunca em termos representativos ou de poder. 

Percebi que se fosse homossexual (assumido) era olhado de lado na minha rua, no meu bairro e na minha cidade; só teria a vida facilitada se entrasse no chamado mercado do trabalho alternativo; não tinha os mesmos amigos, teria outros (menos...), diferentes. Ou seja, era mais facilmente "notícia" por uma questão que só a mim devia dizer respeito.

Entendi que se fosse "preto" era olhado por muita gente quase como se fosse um "fenómeno do entroncamento"; senti que sempre que existisse qualquer roubo e estivesse nas proximidades, era logo apontado pelo olhar dos outros como "culpado";  se tivesse o bom gosto de namorar uma branca gira, olhavam-nos como se estivesse qualquer coisa fora do sitio; e à partida não tinha todas as portas abertas no campo profissional. Infelizmente ainda há profissões que não são para "pretos"...

Deixei para o fim a questão mais complexa, ser mulher. O meu primeiro pensamento foi de que tinha a vida mais facilitada, era seduzida e bajulada naturalmente pelos homens, podeno "jogar" com isso, ao mesmo tempo que teria mais portas abertas em quase todas as áreas da nossa sociedade (esquecido do que estava por trás de todo este falso cavalheirismo...) . Provavelmente também tinha mais gente amiga. Mas depois lembrei-me que há poucas mulheres em lugares importantes no nosso país, as que exercem esses cargos são a excepção que confirma a regra. Que as mulheres que fazem o mesmo que os homens, recebem menos dinheiro. E nem entrei dentro das casas, nem quis pensar mais no assunto...

Pois é, o grupo "minoritário" que parecia ter a tarefa mais fácil, é, provavelmente,  o mais complicado de todos...

(Óleo de Augusta Herbin)

sexta-feira, setembro 16, 2016

«Aprendemos sempre, mesmo sem darmos por isso.»


O que livro nos faz, mesmo um simples livro de crónicas, com um conteúdo duvidoso para muitos leitores. Falo de "A Liberdade do Drible", as crónicas de futebol de Dinis Machado.

Voltei a sentar-me na quase "sala de estar" do primeiro andar na rua Anchieta, onde ficávamos a conversar sobre tudo e mais alguma. Não me lembro muito do que lhe dizia, passados vinte cinco anos tenho a sensação que me limitava a ouvir. Mas não, devia dizer vários disparates compensados com a sabedoria de um escritor "todo o terreno", filho do Bairro Alto, que me ensinou tantas coisas, sem nunca se ter armado em professor. O cinema, o jornalismo, o futebol, e claro, os livros, eram o sal das nossas conversas, que por vezes também penetravam na nossa intimidade.

Há pessoas assim, que nos ensinam coisas com a maior das simplicidades, quase a pedirem-nos desculpa por saberem tantas coisas... 

Pelo caminho ainda me cruzei com a minha mãe, quando a ouvi dizer, com o seu sorriso suave: «aprendemos sempre, mesmo sem darmos por isso». 

Eu sei que ela tem razão...

(Fotografia de André Kertész)

quarta-feira, setembro 14, 2016

O Café as Frases Bonitas e a Vidinha...


Ontem, depois do almoço, bebi café em Almada num espaço agradável, remodelado há pouco tempo.

As paredes estão decoradas com retratos pintados a preto e branco de actores e actrizes da sétima arte. Mas o mais curioso foi terem colocado atrás do balcão um quadro gigante, preto, cheio de frases, aparentemente sábias, escritas a giz, da autoria de gente famosa, com destaque para o nosso Fernando, que também quis ser Alberto, Álvaro, Bernardo e Ricardo.

Quando comecei a ler o nome dos autores, conhecedor das histórias de vida de quase todos eles, questionei-me pela primeira vez sobre o valor real daquelas palavras. 

É sempre mais fácil atirar "bitaites" que viver... isso talvez explique as razões de quase todos aqueles "pensadores" terem sido pessoas infelizes, acabando geralmente mal...

(Fotografia de Alexander Khokhlov)

terça-feira, setembro 13, 2016

Eu, Ela e o Amor


Estava a escrever sobre a cor as formas, quando de repente comecei a inventar poesia, quase estranha. 

Eu estava ali, a escrever e a vê-la, como se estivesse no cinema...


Ela fumava de uma forma galopante,
enquanto dizia:
Não sabia que o amor quando chegava, de rompante,
também era capaz de fugir,
quase sem ter tempo para se despedir.

Apalpava um dos seios, como se lhe doesse, ali.
Depois confessava:
Sabes o que é que penso desta dor?
É uma treta.
Acredito mesmo que seja mais do fugir, sem se deixar ver,
que do amor…

Enquanto arrumava a mala 
quase que filosofava:
O amor pode estar já ali à esquina.
É também por isso que não vou passar por lá.
E também não trouxe moedas para dar ao homem da concertina.


Sei que não faz muito sentido, apesar de rimar... saiu assim...

(Fotografia de Maciek Lesniak)

segunda-feira, setembro 12, 2016

A Liberdade não Tem Muros nem Gaiolas...

Há duas coisas que sempre me irritaram e que espero nunca ter ou fazer.

Falo de muros e de gaiolas.

Desce criança que sempre que incomodaram os muros altos (muitos ainda estavam revestidos na parte superior com pedaços de vidro...), que é algo que pouco resolve, já que normalmente desperta ainda mais a curiosidade de quem passa, pois fica-se sempre com a sensação de que alguém está a esconder alguma coisa...

Das gaiolas nem é bom falar... nunca gostei de ver pássaros presos (no Velho Continente é o mais usual, se esquecermos os jardins zoológicos...), sempre me apeteceu abrir-lhe a pequenina portada e convidá-los a voar, porque é para isso que têm asas.

Sei que o muro francês e inglês projectado para Calais não irá resolver nenhum problema humano, quando muito aguçará o engenho de quem não tem quase nada a perder, arriscando ainda mais a vida, fazendo do atlântico um "cemitério de gente", tal como acontece nos nossos dias no Mediterrâneo.

Como já perceberam os cravos da fotografia são só para disfarçar. Não é por usarmos um cravo na lapela que nos tornamos mais livres ou democratas...

(Fotografia de Luís Eme)