segunda-feira, julho 22, 2024

O que se pensa com quarenta graus à sombra...


O normal é nós pensarmos coisas diferentes, quando enfrentamos os mesmos problemas.

Pensei nisso quando estava à sombra, a sentir a brisa quente e suave que passava, capaz de quebrar em segundos qualquer pedra de gelo.

Talvez muitas pessoas pensassem que boa ideia era entrar em qualquer loja, com o ar condicionado ligado e ficar ali, a fingir que queria comprar qualquer coisa...

E eu ali sentado, armado em ambientalista, a pensar em todas as coisas parvas que continuamos a fazer, enquanto fingimos que este planeta aguenta tudo e que estes quarenta graus à sombra é uma coisa passageira...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


domingo, julho 21, 2024

«Quando pensamos nos outros, fica mais fácil tomar decisões que sejam boas para todos»


Quando dizemos coisas simples e que têm sentido, é quase normal fazer-se referência a "La Palisse", como se ele fosse o "rei" dos lugares-comuns e das frase certeiras.

Mesmo que possa parecer quase um "hino religioso" (que deve ser dito nas milhares de capelas de culto, de todos os credos...), ninguém duvida da verdade que está dentro frase que escolhi para título destas palavras, da mesma forma que ninguém a leva a sério.

O que é certo é que ninguém chega ao poder, a defender coisas tão simples e essenciais, como a paz, o amor e a união entre os povos.

Os EUA são apenas mais um exemplo, em que a construção de muros e a expulsão de imigrantes, dão mais votos, que as políticas que facilitem sua integração na sociedade.

Isso explica que embora a frase «quando pensamos nos outros, fica mais fácil tomar decisões que sejam boas para todos», esteja certa, ninguém a segue, muito menos ganha eleições com ela...

Mas este problema não é de agora, tem milhares de anos. É por isso que o planeta Terra sempre foi um lugar estranho para se viver...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sábado, julho 20, 2024

Não há sistemas perfeitos e talvez o nosso ainda seja mais "imperfeito" que os outros...


Estava sentado a ver "o mundo passar" na esplanada de um restaurante no centro de Almada, no começo da noite. Saboreava o café, distraído com coisas mais lunares que terrestres, quando a minha companheira, reparou num facto, cada vez mais evidente nas nossas ruas: mais de metade das pessoas que passavam por ali eram oriundas de outros países. Pela forma como se expressavam percebia-se que a maioria tinha vindo do Brasil.

Claro que não concluímos que a população imigrante já ultrapassara os locais. Havia pelo menos duas razões para que fossem estas pessoas a passearem nas ruas e não os almadenses. A primeira dizia-nos que somos uma população envelhecida que sai cada vez menos à rua à noite (já o éramos antes da chegada destas gentes das américas e das índias, cuja maioria contribui de uma forma positiva para a nossa economia...). A segunda era que estas pessoas muitas vezes partilham casa e com estas temperaturas elevadas deve ser um suplício ficar dentro de quatro paredes em casas superpovoadas.

Depois passou por nós um vizinho carregado com dois sacos de mercearias. E lá voltei a ser "acordado"... Tratava-se de um chefe de família que sempre vivera de expedientes. De repente descobriu-se "velho e cansado", com mais duas bocas em casa para alimentar (a esposa que nunca trabalhou para fora e uma filha deficiente...), e teve de se "agarrar" com unhas e dentes ao Estado e a todas as Instituições que ajudam pessoas que dificuldades.  Corria o boato de que vendia muitos destes produtos, para arranjar umas moedas para o tabaco e para as cervejolas. 

Ao contrário da minha esposa, encarei o caso com normalidade, por ele ser quem era e por não existirem sistemas perfeitos. Até porque tudo indicava, que o nosso ainda fosse mais "imperfeito que os outros...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sexta-feira, julho 19, 2024

A expansão do "Algarve" dos "ingaleses" por este país fora...


Cada vez temos de ser mais criteriosos nas escolhas de restaurantes e noutros lugares de "estar", que apostam cada vez mais nos "turistas" (pelo menos é que os preços indiciam, tal como a qualidade dos serviços...). É também por isso que há muito tempo que não frequento restaurantes na rua Cândido dos Reis, em Cacilhas, onde os preços subiram e a qualidade baixou.

Mas isto já não acontece apenas em Lisboa (Cacilhas e Almada confundem-se com Lisboa...) ou no Porto. As grandes cidades parecem apostar cada vez mais no "dinheiro fácil", espalhando "passadeiras de cores berrantes" para quem vem de fora e esteja disposto a gastar dinheiro na restauração, na hotelaria, no património e na diversão nocturna.

É mesmo a expansão do "Algarve". Aquele Algarve do tempo em que quase só existiam listas nos restaurantes, escritas na língua inglesa. 

Estão todos esquecidos é de que esse Algarve, com as crises, teve de meter a "viola no saco" e voltar a ter listas escritas em bom português, porque se não fossem estes, a maior parte dos lugares virados para o turismo tinham fechado...

Os nossos governantes fingem esquecer-se do perigo que é para a nossa economia, esta cada vez maior dependência das receitas de turismo...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


quinta-feira, julho 18, 2024

Ainda os livros, com e sem polémicas...


Como já perceberam pelos últimos textos, li meia-dúzia de livros nas férias (o segredo foi levar obras com menos páginas que o habitual...). 

Um deles já fazia parte da lista de aquisições (em alfarrabistas, porque está esgotado...), por ter sido uma obra polémica quando foi editada nos anos 1960. Só o encontrei este ano à venda, a um preço simpático. Falo de "Rumor Branco" de Almeida Faria, que a par da "Torre de Barbela" de Ruben A., foram alvo de críticas, por serem obras completamente inovadoras, escritas de uma forma diferente, sem a esquematização habitual do romance (com muita acção e quase sem princípio, meio e fim...).

Claro que fiquei ligeiramente desiludido, porque as expectativas eram grandes. Não acho que seja um grande livro. Nem sequer o considero um romance, coloco-o mais na esfera dos diários. Mas a curiosidade é o que é (aconteceu o mesmo com "O Toldo Vermelho" do poeta Joaquim Manuel Magalhães, outra desilusão...), e lemos muitas coisas pelo que os outros escrevem sobre elas...

Felizmente tenho também "A Paixão" e "O Conquistador", que penso ler brevemente, para poder ficar com uma opinião mais avalizada do romancista, Almeida Faria.  

Mas não deixa de ser curioso, que as polémicas resistam mais no tempo que a própria obra de alguns escritores...

(Fotografias de Luís Eme - Algarve)


quarta-feira, julho 17, 2024

Este blogue podia ser apenas sobre livros...


Às vezes ponho-me a pensar que este "Largo" podia ser mais elitista e fazer referência apenas a coisas que gosto e que me fazem bem, como são os livros, as exposições, os teatros "da vida" e dos outros, e claro os filmes, até por existirem tantos que querem ser o "filme da minha vida"...

Pois, poder podia, mas não era a mesma coisa. 

Sei que exerço mais vezes do que queria a minha autocensura, para não falar dos "FDP" que enchem diariamente as notícias televisivas e inspiram os "donos da verdade" das redes sociais. 

Penso que faço isso por saber que o pior que pode acontecer a um lugar, é começar a ser mal frequentado...

Mas também não quero que o mundo de repente se transforme num lugar maravilhoso, onde se lêem livros, onde se visitam exposições, onde se vai ver teatro, para sorrir e pensar, ou ao cinema, tocar na mão da companheira ou companheiro naquela escuridão que também fala com os nossos sentidos, quando surge um plano que nos recorda a vida, como ela é, ou como ela deveria ser...

E como já me estou a "esticar", a conversa sobre livros vai ficar para amanhã...

(Fotografia de Luís Eme - Algarve)


terça-feira, julho 16, 2024

A nudez na arte e na vida...


O peso da fotografia nota-se sobretudo na nudez, na sexualidade e na sensualidade.

Não é por acaso que sempre existiram estátuas com mulheres e homens nus (pelo menos desde a Grécia e a Roma antigas), sem causar qualquer tipo de constrangimento, mesmo a nível institucional. Passa-se o mesmo com obras de pintura.

Quando aparece uma fotografia de um corpo nu, tem logo outro tipo de envolvimento e até de interpretação, muito diferente de uma obra artística, mesmo que o retrato também queira ser artístico.

É uma coisa que sempre me fez impressão, desde a infância (desde pequenote que visito museus...), por ver que um decote ou uma mini-saia era uma coisa mais escandalosa que uma estátua de uma mulher, completamente nua.

Voltei a pensar nisso, ao olhar um dos livros que li nas férias, "Filipa nesse Dia", de Urbano Tavares Rodrigues (uma estranha história de amor do Alentejo do latifúndio...), com capa de Francisco Simões.

(Fotografia de Luís Eme - Algarve)


segunda-feira, julho 15, 2024

O extraordinário Fernão Mendes (cada vez menos "Minto"...) Pinto


Um dos livros que levei para ler nas férias foi "Na Senda de Fernão Mendes Pinto", de Joaquim Magalhães de Castro.

O autor não só desmonta muitas das falsidades que se foram escrevendo sobre este grande aventureiro, que felizmente se tornou escritor de viagens, quando estes ainda não existiam, como prova a passagem desta figura histórica pela China, Japão e muitos outros orientes. É importante recordar que Fernão viveu os últimos anos da sua vida no Pragal, em Almada, onde escreveu a "Peregrinação".

Neste caso particular, o tempo tem sido amigo do escritor português, pois, ano após ano, o seu registo histórico vai-se valorizando, pela quantidade de informação - cada vez mais respeitada e enaltecida - que nos ofereceu e também pela forma como conta as suas peculiares epopeias, positivas e negativas. Ou seja, afinal não é o "mentiroso" que muitos pensavam e difundiam.

Publico esta fotografia especial, de um amigo que já não está por cá, porque neste ano de 2024, se comemora o centenário do seu nascimento: o também almadense Fernando Barão. Fotografia tirada numa tertúlia histórica de Almada ("As Tertúlias do Dragão", organizadas pela SCALA no Café Dragão Vermelho...), com o Fernando a encarnar com graça e história, o extraordinário Fernão Mendes Pinto.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


domingo, julho 14, 2024

"Não tinha rua"...


O primeiro período de férias já foi.

Há algum tempo que não lia tanto (tem sido sempre assim...). Como de costume houve palavras que tiveram mais peso que outras.

E lá vou voltar a Maria Judite de Carvalho, que em 1963 (um ano depois de eu nascer...), quando escreveu o livro "As Palavras Poupadas", já fazia um retrato tão actual da sociedade, no conto "A Sombra da Árvore":

«As pessoas caminhavam em frente sem se voltarem para os lados onde havia outras pessoas que seguiam também em frente. Atropelavam-se, esmagavam-se umas às outras e não paravam para olhar. Era isto afinal a vida. A vida como as pessoas a entendiam. Todos tinham onde chegar e lá iam, rua fora, com uma pressa doida. Só ele se sentia perdido, não achava o caminho para a sua rua. não sabia qual ela era, não tinha rua.»

Talvez o mundo nunca fosse tão diferente como queremos fazer crer...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, julho 12, 2024

É mais diferente do que o que poderá parecer, falar e escrever sobre a vida dos outros...


Como de costume, li bastante nas férias (mais até na praia, nos intervalos entre o banho e o "torrar" na toalha...).

Quando leio também escrevo. Este período também é bom para ter conversas descontraídas, com a que tive com a minha filha sobre as minhas preferências literárias e também sobre o que mais gosto de escrever.

Não gosto de José Gomes Ferreira e Maria Judite de Carvalho, por um mero acaso, sei que me dá bastante prazer escrever sobre o quotidiano, ser um "observador" deste mundo que nos cerca (aliás, é esse o grande "alimentador" deste Largo...).

Ela acha estranho que eu não goste de falar sobre a vida dos outros, mas adore escrever sobre a vida outros. Foi por isso que tive de "desmontar" esta falsa proximidade. Podem parecer coisas iguais, mas são completamente diferente. Normalmente o que se escreve é pensado, depois de se ouvir e olhar. Infelizmente isso acontece pouco com o que se diz, basta olhar para se falar, sem se quer nos darmos ao trabalho de pensar...

Ficou mais ou menos esclarecida.

(Fotografia de Luís Eme - Algarve)


quarta-feira, julho 10, 2024

"Era como se as pessoas não tivessem crescido ou como se o tempo se tivesse esquecido delas"


Nestas férias voltei a Maria Judite de Carvalho e às suas "Palavras Poupadas" (prémio Camilo Castelo Branco).

Como de costume foi um prazer. É por isso que transcrevo um bocado de um parágrafo do conto "Uma História de Amor":

«Descia do eléctrico e tinha de fazer um pedaço de caminho a pé. Encurtava-o passando pela minha antiga rua. Divertia-me, mas a maior parte das vezes, perturbava-me ver à mesma porta, à mesma janela ou a sair da mesma loja as pessoas que há dez anos eu ali havia deixado. Dir-se-ia que só tinha corrido dentro do tempo, e que ele era para outras pessoas uma entidade estática. Um dia entrei por simples curiosidade, a fim de me documentar, na tabacaria da esquina e vi que o dono da loja conversava com o mesmo homem de um dia qualquer dos meus verdes anos, sobre um desafio de futebol que talvez não fosse o mesmo da outra vez, mas que não era com certeza muito diferente. Era como se as pessoas não tivessem crescido ou como se o tempo se tivesse esquecido delas.»

Acho que isto só não aconteceu (ou algo parecido), a quem nunca mudou de casa e de rua...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, julho 08, 2024

O mar, sem ser ruidoso, é a voz mais forte da praia...


Este mar do sotavento algarvio, mais Mediterrâneo que Atlântico, está longe de ser "falador" como o do meu Oeste, mesmo assim é quem mais fala e barafusta na praia.

Passamos minutos sem ouvir uma voz humana. De longe a longe aparece a senhora das bolinhas, a quebrar a monotonia humana. As pessoas preferem ler livros (esta praia é muito culta, há uma grande percentagem de leitores...) e o smartphone a falar umas com as outras.

Quase não há crianças. É tão estranho. Parece que as gerações a seguir à minha se esqueceram de que as crianças são a alegria das casas... Foi por isso que só ao terceiro dia de praia vi duas crianças já grandotas a fazerem um castelo de areia, coisa que fiz sempre com os meus filhos, pelo menos até eles terem dez, onze anos.

Claro que não me estou a queixar, estou a constatar. Se quisesse ficar cheio de vozes humanas na praia, fazia férias em Agosto.

Felizmente na casa ao nosso lado, onde estão avós, filhos e netos, há um menino com menos de dois anos (ainda usa fralda...) a partir das oito da manhã anda e fala - mesmo que ainda não se perceba bem o que diz - sem parar, põe tudo em alvoroço, especialmente o avô, que é uma espécie de "guarda-costas"

É o melhor exemplo do que escrevi anteriormente, o pequenote é mesmo a alegria da casa...

(Fotografia de Luís Eme - Algarve)