segunda-feira, abril 24, 2017

O Porco, o Presunto e a Linguiça...

Embora possa ter a sua graça, esta história do "Porto, do Presunto e da Linguiça" não tem quase nada que ver com a história do "Rapaz, do Velho e do Burro".

Se exceptuarmos o facto da natureza humana ser sempre mais estranha do que parece... não existem outros pontos em comum.

Claro que falta uma boa dose de equilíbrio em todas estas coisas que glosam o nosso comportamento, o chamado bom senso, que parece estar afastar-se cada vez mais do nosso quotidiano.

Mas vamos lá deixar-nos de generalizações e escrever sobre o que de facto interessa. Nas histórias de partilhas há sempre quem ache o outro estúpido, é por isso que quando se propõe fazer qualquer troca, avança com uma "linguiça" na mão, na esperança de conseguir alcançar "um porco" nas contas finais.

No sábado de manhã e de tarde, tive duas conversas com dois amigos distintos, sobre a mesma personagem, hábil em andar por aí a acenar com "linguiças" para depois montar lá por casa uma "vara de porcos". A velha questão que nos surgiu tem que ver com a forma  como se diz não a alguém que nos aparece sempre sorridente e simpático. Acabámos por concluir todos os mesmo. Talvez por termos todos já mais de cinquenta anos, sabemos que não há nada melhor que uma boa dose de cinismo e de hipocrisia para responder a quem em vez de "lata" usa um "bidon" no relacionamento com os outros...

(Fotografia de Luís Eme)

domingo, abril 23, 2017

Festejar o Livro Todos os Dias (com ou sem Pessoa)

Sei que hoje não é dia para falar de livros, para quem os abre, afaga, lê, sorri, faz cara séria e viaja com eles diariamente. Normalmente os "dias mundiais" são para os não praticantes, para lembrar que existem algumas coisas a que eles normalmente não ligam. Mas mesmo assim, talvez por ser Abril, apetece-me falar de livros.

Falar daquilo que estou a escrever, não me apetece muito. Até por um desses livros estar "quase parado", ao ponto de até já me ter surgido uma ideia que combate a inicial...

É por causa dele que estou a reler "Vida e Obra de Fernando Pessoa" de João Gaspar Simões, cuja primeira edição data de 1950, e que para mim continua a ser a biografia mais completa do nosso poeta genial, embora tenha algumas coisas discutíveis, como acontece normalmente com as histórias de pessoas (e quando uma pessoa é várias, ainda torna tudo mais complicado...).

Por mais inovações que façam, penso que o livro nunca deixará de ser livro. Talvez seja cada vez mais um objecto de luxo (sei que me estou a repetir, por ser o que penso...), com alguns editores (como o Manuel S. Fonseca) a fazerem cada vez mais coisas mirabolantes, utilizando novos materiais e novas técnicas, para nos fazer sorrir com o seu engenho e imaginação...

(Fotografia de autor desconhecido)

sábado, abril 22, 2017

O Nosso Olhar Selectivo...

Não sei se esta será a melhor expressão, dizer que o nosso olhar é quase sempre bastante selectivo em relação a tudo o que nos rodeia.

Talvez seja por isso que somos capazes de descobrir um pormenor "novo" que antes nunca tínhamos reparado, na rua por onde passamos quase diariamente há vinte anos...

(Fotografia de Luís Eme)

sexta-feira, abril 21, 2017

Uma Descoberta ao Café (sobre o Romeu)...


Hoje acabei por parar uns bons minutos na esplanada da "Rifera", do bom do Fernando, para beber um café e ficar a conversar com o Carlos Durão, que tem uma peculiaridade especial, quando lhe fazemos uma pergunta ele oferece-nos quase sempre várias respostas, indo buscar sempre mais pessoas e lugares, graças à sua "memória de elefante". 

Falámos sobre Cacilhas e o Romeu Correia acabou por vir à baila, porque sabia que o Carlos me podia dizer algo que desconhecia... E disse mesmo. Primeiro começou por me falar do Arrobas do seu seu filho Gregório, grande futebolista do Sporting e do Atlético, depois lá veio a surpresa...

Quando o Carlos resolveu transformar a "Fonte da Alegria" (que pertencia à família) no restaurante e snack-bar mais moderno de Cacilhas, "O Farol" (que continua bem vivo e a manter o mesmo nome, logo à saída dos cacilheiros, na esquina, entre o Largo de Cacilhas e o começo do Cais do Ginjal), em Abril de 1961, recordou que nos dias de nevoeiro passou a ter um cliente habitual logo pela manhã, que aproveitava a quase paragem da circulação dos transportes fluviais, devido à falta de visibilidade no Tejo, para ficar numa das mesas de "O Farol", a escrever as suas histórias, provavelmente desejoso de que o nevoeiro se mantivesse pela manhã fora...

E esta? Acabei por descobrir mais um café onde o Romeu escreveu...

(Fotografia de autor desconhecido)

quinta-feira, abril 20, 2017

Romeu, um Escritor de Café...


Hoje voltei ao Museu da Cidade de Almada para consultar alguma documentação sobre Romeu Correia (graças a uma amiga especial...), e depois acabei por visitar a exposição, "Um Homem Chamado Romeu Correia".

E aquilo que me chamou mais a atenção nesta segunda visita foi a velha mesa de café (pelo que ouvi comentar do "Café Central" de Almada...).

Na tarde da inauguração aquele espaço (no final da exposição rente ao elevador...) estava sempre cheio de gente e não pude apreciar ao pormenor tudo aquilo que estava em cima da mesa e ao seu redor...


É uma excelente forma de terminar uma exposição, com uma mesa que simboliza muito bem o que o Romeu sempre foi, um escritor de café, tanto em Lisboa como em Almada. Não de um, mas de muitos cafés...

(Fotografias de Luís Eme)

quarta-feira, abril 19, 2017

Uma Europa que Empobrece e Apodrece Todos os Dias...

Sei por que razão evito escrever sobre por aqui coisas demasiado tristes, por cobardia, e também para não cair no "lamechismo".

Mas hoje, não consegui fugir de uma reportagem, talvez por ser mais profunda que outras. A espaços coloquei-me no lugar dos milhões de pessoas, de todas as idades, que perderam tudo, até a esperança. Tudo em nome de uma guerra igual a todas as outras, em que se luta pelo poder até à exaustão, esquecendo aquilo que temos de mais importante e nos devia diferenciar dos animais... 

Claro que esta "cobardia" não nasce do nada, transmite-se quase como se fosse uma praga, na Europa dita civilizada. Europa essa cada vez mais carregada de preconceitos, e que em vez de ajudar esta gente que apenas luta pela sobrevivência, de uma forma digna, prefere fazer acordos com os turcos e alimentar a "febre" dos populistas, que confundem refugiados com terroristas.

É também por isto que não sei se haverá alguma possibilidade de se inverter esta caminhada, que "empobrece" e "apodrece" a Europa, diariamente...

E nós no nosso cantinho mostramo-nos solidários com a "Europa" e esfregamos as mãos de satisfação, com a invasão de turistas que descobriram que afinal até somos parecidos com o norte de África...

(Fotografia de António Passaporte)

segunda-feira, abril 17, 2017

A Primavera e os Relógios que Ganham Mais Minutos...

Cheguei há poucas horas de um dos lugares onde sinto mais a Primavera... São as cores, os cheiros, e sobretudo, o canto das aves, que são cada vez mais rainhas dos campos, até por serem quase inexistentes nas nossas aldeias, os rapazolas que se entretinham a "inventar" armadilhas para as apanhar...

Mas o melhor de tudo é sentir que as horas têm mais minutos, que há tempo para fazer quase tudo...

(Fotografia de Luís Eme)

domingo, abril 16, 2017

Os Ares da Beira Baixa...

Na Páscoa vou sempre até à Beira Baixa.

Não existe qualquer sentimento de religiosidade nesta opção, embora o concelho onde estou (Idanha-a-Nova) tenha recriado algumas tradições da religião católica, nos últimos anos.

Há sim o aproveitar os três ou quatro dias para fazer coisas diferentes e para descansar do bulício da Cidade grande...

(Fotografia de Luís Eme)

sexta-feira, abril 14, 2017

A Clandestinidade...

Quando se entrava a sério na luta antifascista, dificilmente se escapava às garras da PIDE.

Para se evitar a prisão eminente, muita gente passava a viver outras vidas, na clandestinidade, saltando de terra em terra, de disfarce em disfarce... 

Era uma vida estranha, em que se tinha de abdicar de quase tudo, desde a família, aos amigos, passando pelos lugares que tanto amávamos...

Tinha de se possuir um espírito aventureiro, uma alma quase de vagabundo e ainda uma boa componente cénica, para se conseguir  mudar de vida de um momento para o outro, criando uma nova personagem...

(Fotografia de Herbert List)

quinta-feira, abril 13, 2017

As Mulheres e as Greves dos Anos Quarenta


Ao fim da tarde de terça-feira assisti a um colóquio em Almada em que se falou nos movimentos grevistas que decorreram durante a Grande Guerra e a Segunda Guerra Mundial.

Embora tenha saído um pouco antes do final, penso que não se falou de um dos aspectos mais importantes das manifestações grevistas que decorreram entre os anos 1942 e 1947, pelo menos as que decorreram no Concelho de Almada: a participação activa das mulheres operárias nestes movimentos. De uma forma estratégica passaram a ocupar as primeiras filas de luta, à espera que os guardas e os polícias tivessem vergonha na cara e não levantassem as mãos e os cassetetes para as agredirem.

Claro que as forças policiais tinham tudo menos vergonha na cara, e as mulheres foram muitas vezes agredidas, ofendidas e feitas prisioneiras. Nada que as abalasse ou retirasse das primeiras filas das manifestações...

Até porque as mulheres tinham mais que razões para protestar, pois recebiam um terço do ordenado dos homens, muitas vezes para funções de trabalho semelhantes. E nem vale a pena falar das crianças, as maiores vitimas desse tempo, em que não tiveram "tempo" para ser meninos e meninas e até para irem à escola...

(Óleo de Joan Rodriguez)

quarta-feira, abril 12, 2017

O Homem que Nunca foi Preso...


O António nunca se sentiu diminuído pela ausência de anos de prisão no seu passado antifascista. Muito pelo contrário, sorri de contentamento quando recorda as muitas vezes que esteve "quase, quase", mas que sempre conseguiu escapar. Foram inúmeras as vezes que teve de se ausentar para parte incerta, durante algum tempo (a sua profissão ligada ao comércio ajudava nessas "fugas"), até que recebesse a informação de que as coisas tinham acalmado e já não havia ninguém a cirandar a sua rua.

Sente um orgulho secreto por ter escapado a mil e uma armadilhas, por ter sido quase sempre extremamente cuidadoso (ainda hoje há quem lhe chame picuinhas, esquecidos que foi isso que tantas vezes o salvou...).

Sorri quando se metem com ele e lhe dizem que é menos "herói" que outros, cujo passado conhece de fio a pavio, e por isso mesmo sabe, que a única coisa de relevante que fizeram foi andarem demasiado distraídos, ao ponto de serem feitos prisioneiros, colocando outros camaradas e o  próprio Partido em risco.

Tem mil e uma histórias rocambolescas, que ainda estão por contar, além de outras mais que batidas, como as da tipografia portátil que funcionou em vários lugares, onde imprimiu juntamente com outro companheiro milhares de "avantes" e de outros folhetos, que foram distribuídos nas fábricas e nas colectividades da então vila de Almada...

O António é o melhor exemplo que conheço de que é um erro analisar a capacidade de luta e de intervenção antifascista, pelos anos que se têm de prisão.

(Óleo de Leon Mathieu Cochereau)

terça-feira, abril 11, 2017

A Dúvida está Sempre em Crescimento...

Os anos passam e a dúvida cresce, ao ponto de colocar quase toda uma vida em causa...

Já lhes chamaram muita coisa, até egoístas. Podem ter sido tudo, menos isso... 

A mulher fica com os olhos húmidos quando revive o que sofreu na prisão, na clandestinidade, no exílio... mas sobretudo, por não ter visto o seu filho crescer. O homem afaga-lhe o cabelo, com o carinho de quem nunca deixou de amar.

Sabe que não foi a mãe que devia ter sido. É por isso que percebe a ausência do seu Carlos, que teve de abandonar com menos de um ano e deixar ao cuidado dos pais.

O homem tenta desculpá-los com as incidências da própria vida, com a dificuldade que sempre tiveram em conviver com a injustiça nos locais de trabalho, com as perseguições, o desemprego, e a luta colectiva, que alguém tinha de travar...

Mas a solidão passa o tempo todo a pregar-lhes partidas. Pensam demasiado na vida.

Olham para o país com desconsolo, porque já não sabem se tudo o que sofreram valeu a pena. Não sabem explicar as razões, mas a verdade é que os patrões continuaram, e continuam, a roubar o povo, cada vez com mais descaramento.

Olham para o filho com orgulho por ter conseguido ter uma vida melhor que eles, mas sentem muito, muito, a sua ausência...

(Fotografia de Sena da Silva)