domingo, abril 22, 2018

A "Canalhice" Feita a um "Canalha"...


Quando assisti à transmissão televisiva de parte dos interrogatórios a José Sócrates, perguntei a mim mesmo, como é que era possível, tornarem aqueles filmes públicos. Porquê esta necessidade de humilhar o arguido e de colocar a justiça ainda mais nas "bocas do povo"?

Mas hoje ao ler a crónica de António Barreto no "Diário de Notícias", em que ele escreveu muito do que pensei, achei que devia dizer alguma coisa. E nada melhor que transcrever algumas das suas palavras:

[...] «A divulgação em canais de televisão do interrogatório de José Sócrates, brada aos céus. Outros, incluindo os banqueiros arguidos, já por ali tinham passado. E também aqui não se viu, até agora, uma reacção institucional que traga decência e civilidade à justiça.
Mesmo em democracia, um interrogatório feito pela polícia é sempre um momento de debilidade pessoal. Seja ou não bandido ou aldrabão, tenha ou não um currículo violento, possua ou não músculos ou capital, partilhe ou não ferocidade com animais selvagens, um arguido ou um suspeito está sempre, durante o interrogatório, em situação de inferioridade, facilmente amedrontado, quase sempre em fragilidade psicológica. Mesmo quando reage com fúria destemperada, como foi o caso, o arguido está assustado e luta pela vida. Em pleno interrogatório, sobretudo se tem algo a esconder, se há culpa, se procura defender-se, qualquer pessoa, mesmo valente ou violenta, merece, porque é uma pessoa humana, um pouco de respeito. Uma justiça decente tem em consideração a humanidade das pessoas e dos processos. O que estão a fazer com José Sócrates é imperdoável. Como foi com os banqueiros e outros. A falta de respeito pelo arguido não é apenas isso: é sobretudo falta de respeito pelos cidadãos, por nós todos.» [...]

Quem será que tem a coragem de dizer aos juízes, delegados, procuradores e jornalistas, que eles não são "justiceiros populares"?

E nem me apetece falar das estações televisivas e da comunicação social em geral... a não ser para dizer que a SIC afinal não é assim tão diferente da TVI e do CMTV, nem o "Expresso" do "Correio da Manhã"...

(Óleo de Armando Morales)

sábado, abril 21, 2018

Os Muros Invisíveis que Construímos...


Ao cruzar-me com um rapaz ligeiramente mais velho que eu, lembrei-me de um episódio festivo que aconteceu há pouco tempo, em que me deixei ficar, quase "fechado", dentro de um grupo de amigos. Na altura não pensei muito no caso, mas sempre que o vejo,  recordo a cena, a sua chegada, a tentativa de intromissão, e o fazerem de conta que ele não estava ali (papel bem interpretado pelas mulheres, que estavam em maioria...). Inteligente, bebeu o café e foi embora.

Nunca me falou no assunto, mas como tenho o velho hábito de me colocar no seu lugar, imagino que se deve ter sentido incomodado, até por nos conhecer a todos, uns melhores que outros.

Com o tempo fui percebendo que havia pelo menos dois grupos entre estas gentes das culturas (talvez tivesse um pé nos dois (mas só os dedos...), por me dar bem com praticamente todos os seus elementos. E ele até é do outro grupo...

Quem evita fazer parte destes grupos demasiado fechados, que gostam de perder tempo a falar de "coisas pequeninas", acaba por ser olhado de lado pelas duas partes. No meu caso pessoal, acho que isso nem acontece. Mas não era nada que me incomodasse, até por passar ao lado de uma série de intrigas (sei sempre depois...), que acabam por ter efeitos nocivos na relação entre uns e outros, e no meio onde estamos inseridos. 

Mas nós humanos somos mesmo assim. Desde os tempos da escola primária que nos habituamos a querer os nossos amigos só para nós e a construir "muros invisíveis"...

(Fotografia de Luís Eme)

sexta-feira, abril 20, 2018

A Competência versus a "Má Imprensa"...


Há palavras que são muito utilizadas, especialmente como "chavões" de discursos, como é o caso da  "competência", "solidariedade" ou "méritocracia", mas que infelizmente têm pouco efeito prático na sociedades actuais, onde a "mediocridade",  o "individualismo" e o "amiguismo", continuam a ser quem mais ordena.

Só quem é mesmo muito bom, é que se vai conseguindo manter "à tona de água"...

Há já algum tempo que me apetecia escrever sobre dois treinadores de futebol, cuja carreira tem sido mais complicada do que devia, por serem dois homens com um grande carácter e seriedade, que não se limitam a  sorrir para as câmaras ou a debitar frases banais que ajudam o "negócio".

Acreditam sobretudo no trabalho e na qualidade profissional. São eles Arséne Wenger e Carlos Queirós.

Por serem dois treinadores com convicções fortes (não alteram o sistema táctico nem utilizam jogadores, por pressão ou a pedido, quer de "comentadores" quer de "jornalistas"...), acabam por ter má imprensa, que ao menor deslize, começa logo a "inventar crises" e a "pedir a sua cabeça"...

É por isso que é quase um milagre Wenger estar no comando do Arsenal há praticamente 22 anos (anunciou hoje a sua saída no final da época...). É também por isso que os 16 títulos que conquistou são normalmente desvalorizados... mesmo que tenham sido conquistados contra algumas equipas históricas  inglesas como foram o Manchester United de Alex Ferguson, o Liverpool de Kenny Dalglish ou o Chelsea de José Mourinho.

(Fotografia de Autor Desconhecido)

quinta-feira, abril 19, 2018

Livros Iguais para Leitores Diferentes...


Como quase tudo na vida, também a leitura dos livros nos desperta sentimentos diferentes, em parte por termos a capacidade de olhar para o mundo que nos rodeia com "cores diferentes".

O "filme" começa logo nas primeiras páginas, na forma contraditória como gostamos, ou não, da escrita ou da história que a pessoa que brinca com as palavras nos oferece.

Ao ler "O Nervo Ótico" de Maria Gainza, pensei nestas coisas todas, porque o seu começo não é nada deslumbrante. Também não é uma coisa chata, daquelas que nos apetece logo encerrar "o caso", às primeiras. Foi por isso que continuei a ler e à medida que ia lendo, ia gostando das palavras da Maria, que sim, faz uma original combinação de memórias (frase da capa... que também nos diz que a vida é um museu), com a sua cultura artística, a família, os lugares que foi percorrendo, sempre de uma forma simples, que nos vai colando à sua vidinha com prazer.

Mas eu nem queria falar do livro, mas sim das sensações que me foi despertando, e não menos importante, das questões que foi levantando. Pensei, entre outras coisas, nas diferentes técnicas usadas pelos escritores para nos contarem as suas histórias. Se uns querem agarrar-nos logo na primeira página, outros preferem não dizer nada de especial nos primeiros capítulos, para depois nos agarrarem, até ao fim. E depois há os outros, que nunca nos conseguem prender às suas palavras. E cada vez estou mais convencido de que isso acontece por falta de talento ou por talento a mais (acho que é o caso no nosso Lobo Antunes...). Se nos meus primeiros tempos de leitor, lia todos os livros até ao fim (por vezes com grande sacrifício...), hoje já não caio nessa "patetice". 

Sei e aceito, pacificamente, que há livros e escritores que não são para mim...

quarta-feira, abril 18, 2018

«Um Corrupto de esquerda é diferente de um da direita. Ponto final.»


De repente a comunicação social voltou a "acordar" o monstro adormecido e a inquietar alguma esquerda, que ainda quer acreditar que o antigo presidente do Brasil é diferente dos seus companheiros de partido e governo, já que sobre o antigo primeiro-ministro pouco haverá a acrescentar. 

Em conversa de café, ficou mais uma vez registado que há uma exigência moral maior para a esquerda que para a direita, no mundo da política. Isso pode explicar em parte a forma como o jornalismo e a justiça têm "perseguido" o nosso "Animal Feroz" por cá, e o "Molusco Metalúrgico " por lá.

Essa exigência prende-se sobretudo pelos valores que defendem.

Quando o Jorge disse que «um corrupto de esquerda é diferente de um da direita. Ponto final», explicou quase tudo.

Falou-se muito do "cavaquistão", dos muitos escudeiros do "homem que nunca se engana" que se safaram à grande com os fundos comunitários, e que nunca foram alvo de uma investigação séria como esta (nem mesmo os envolvidos no "roubo" do BPN...). 

Mesmo que precisássemos de exorcizar os nossos fantasmas, todas as comparações são odiosas... 

E na verdade, pelo que se diz e mostra, nunca houve um "pobre provinciano" que usasse tanto a chamada "esperteza saloia" e pensasse que éramos todos tolinhos... 

Mas o erro maior disto tudo é dizer-se que o rapaz que "veio das berças" é de esquerda, ele até andou pela JSD, como salientou a Rita...

(Fotografia de Luís Eme)

terça-feira, abril 17, 2018

Quem Atravessa o Rio...


Penso sempre que quem atravessa o rio, entre o Cais Sodré e Cacilhas, quase que não tem tempo para saborear a viagem, quase sempre agradável.

Um olhar pelas margens, a distracção da passagem de uma barca qualquer, e quando damos por ela estamos a chegar...

Esqueço-me do "martírio" de quem trabalha em Lisboa e que tem forçosamente de atravessar o rio todos os dias, sem morrer de amores pelas águas movimentadas do Tejo, e muitas vezes sem saber nadar...

(Fotografia de Luís Eme)

segunda-feira, abril 16, 2018

Claro que Sim...


Claro que sim, as "pinturas de guerra urbana" podem tornar alguns lugares abandonados mais alegres e bonitos.


É o que se passa por exemplo nas imediações do Caramujo e da Romeira (Cova da Piedade).

(Fotografia de Luís Eme)

domingo, abril 15, 2018

Culturas, há Mesmo Muitas...


A cultura geral de cada um de nós acaba por ser opcional. Ou seja, perdemos tempo sobretudo com o que nos interessa saber.

Pensei nisto ao perceber que um daqueles fulanos que achamos "limitados" e com quem não podemos falar de tudo, conhecia de fio a pavio as pessoas do seu "bairro", e não menos importante, as suas vidinhas, mesmo nas partes que poderiam interessar às revistas que gostam de inventar amores, aqui e ali.

Achei piada à quantidade de coisas que ele sabia sobre algumas pessoas que eu conhecia há anos (namoros, casamentos, adultérios, separações, etc). 

Afinal pensava que as conhecia...

(Fotografia de Luís Eme)

sábado, abril 14, 2018

Um País Cheio de Fios...


Quem gosta de tirar retratos a lugares, encontra quase sempre um obstáculo comum (mesmo na aldeia mais recatada...), um conjunto de fios de várias "nações", que também gostam de ficar, e "estragar", a fotografia.

Sei que existem programas que os podem "apagar", mas de pouco vale. Talvez embeleze um pouco mais as fotografias, mas não altera em nada a paisagem, porque os fios continuam no mesmo sítio, muitas vezes já sem qualquer préstimo para os residentes...

Era bom que o Estado se preocupasse com esta questão, de uma vez por todas, e obrigasse as empresas que continuam a ter o "monopólio" de fios (EDP e Altice), a começarem a retirar tudo aquilo que está inerte e rouba a beleza a tantos lugares, de Norte a Sul.

É por estas e por outras que tenho de dar razão ao dono da vivenda que afixou um letreiro bem visível na sua propriedade, que "proíbe" (mesmo que seja ilegal...) a passagem de qualquer fio pelas paredes da sua casa.

(Fotografia de Luís Eme)

sexta-feira, abril 13, 2018

A Familiaridade (Pública) Abusiva...


Hoje de manhã estava no talho à espera de ser atendido e comecei a ficar incomodado com a forma como um dos empregados falava com uma cliente, que mesmo sendo freguesa habitual (tratava-a pelo nome...), estava longe de se sentir à vontade com aquele quase "abuso" de lugares-comuns, em volta do facto de não ter cara de quem tinha acordado com boa disposição. Percebi pela forma como me olhou - e por evitar responder -,  que  só por educação (ou para não ser mal servida...), é que a senhora não disse ao homem do talho para se meter na sua vidinha.

Hoje é raro andar de táxi, mas houve uma altura que andava bastante. E se havia coisa que me chateava era estar sem vontade de conversar (normalmente sem paciência para aturar as suas "sindicâncias" e "ideias feitas"...) e o "xófer de praça" insistir, insistir. 

A meio do quase monólogo, lá acabava por desistir. Mas antes de desistir ainda era capaz de ter um dito daqueles "engraçados" sem graça nenhuma.

Sei que as pessoas têm de se entreter com qualquer coisa, mas não precisam de incomodar os outros (algo que fingem quase sempre não perceber)...

(Foto de Garcia Nunes)

quinta-feira, abril 12, 2018

A Realidade é Outra Coisa...


Estava a conversar  numa mesa de amigos sobre como estamos sempre em mudança, mesmo sem nos apercebermos... e sem que isso indique falta de coerência.

Acontece que somos sempre mais ignorantes do que imaginamos e gostamos de dar palpites sobre o que não conhecemos. Felizmente a idade vai-nos dando a sabedoria necessária (não a todos, para o mundo não perder a piada...), para ouvirmos, pelo menos tanto como falamos... e deixarmos de dizer coisas absurdas, apenas por que sim.

De repente distanciei-me das vozes e lembrei-me de dois pequenos exemplos, simples, de como as coisas na realidade eram diferentes das da minha cabeça. 

Recordei o meu sobrinho a tocar bateria na cave e eu a dizer-lhe que a batida dele era demasiado forte, ensurdecedora, como se fosse possível tocar este instrumento com suavidade... E depois da minha primeira aventura a sério como "marinheiro" de mar alto, como tripulante de um veleiro a sério (mais de doze metros). Ingenuamente pensava que era possível navegar sem sentir tanto o mar, esquecido de que uma barca com velas navega ao sabor do vento e enfrenta as ondas de frente, estando sempre longe da estabilidade de qualquer paquete...

(Fotografia de Luís Eme)

quarta-feira, abril 11, 2018

Gostar de Lugares Onde não Habitamos...


É normal gostarmos de alguns lugares onde nunca morámos, nem provavelmente iremos morar.

Eu por exemplo sempre gostei do Seixal e da Trafaria. Por motivos diferentes.

Embora estejam separadas por apenas alguns quilómetros, sempre senti que a vida cultural do Seixal tinha mais a ver comigo que a de Almada. Não quer ser tão cosmopolita como a minha cidade, que ainda por cima tem o problema de Lisboa estar logo ali, ao virar do Rio... Talvez seja por isso que parece ter mais vida própria, viver com mais simplicidade, calma e até autenticidade...

Claro que este é o olhar de um quase forasteiro. Se morasse no Seixal até era capaz de dizer o contrário, porque uma coisa é vivermos num lugar outra é passarmos por lá de vez em quando...

(Fotografia de Luís Eme)