segunda-feira, janeiro 16, 2017

Coisas Importantes (quase) sem Importância Alguma...


Se pensar bem no assunto, ando constantemente em arrumações.

Tudo isto acontece graças à "tralha" que guardo, a pensar que um dia qualquer me poderá ser útil, naquela coisa que não existe, a que chamamos futuro...

Claro que acabo por esquecer a sua existência (a não ser que me seja absolutamente indispensável, o que raramente acontece, pelo tal esquecimento...).

Mas o maior drama é quando resolvemos "revirar" as coisas, continuarmos com dificuldade em as deitar fora. Muitas delas acabam por ficar no mesmo caixote e voltar ao mesmo sítio da garagem (mesmo que saiba, que apesar de estarem catalogadas, acabarão novamente esquecidas...).

Claro que há sempre alguma coisa que fica em casa (para avolumar a "papelada" que me rodeia...), por lhe descobrir importância para este ou aquele trabalho...

Bem dizia o bom do Pina: ««Descobri que as coisas importantes, se as pusermos num monte, passados uns meses, deixam de ser importantes. É tudo inútil, são urgências que entretanto deixaram de ser urgentes.»

(Óleo de Joan Miró)

domingo, janeiro 15, 2017

Outros Cafés, Outras Gentes...


Estava sentado no "meu café", sozinho (é quando posso ser "solista", escrever e ver, quase como se estivesse num cinema, mas com espaço para tirar notas), quando me deu para pensar nas ausências, e até para "ouvir duas ou três vozes amigas".

Mas a vida é isso, pessoas que aparecem e desaparecem das nossas vidas, muitas vezes quase sem darmos por isso. Claro que as gentes a quem nos afeiçoamos, fazem-nos falta, nem que seja pelo sorriso solto a uma simples graçola.

Sei que nem todos aparecem e desaparecem pelos mesmos motivos. Há pessoas que não gostam de conversar. Gostam apenas de falar. Não têm paciência para ouvir os outros, só se conseguem ouvir a eles próprios...

A conversa é outra coisa, é partilha, é discussão, é novidade, é encontro, é desencontro, é sorriso, é ironia, é grito mudo ou de revolta...  é desabafo (é tão bom termos alguém - mesmo que seja só uma pessoa -, que ouça, até mesmo as nossas "lamechices"...)

(Fotografia de Luís Eme)

sexta-feira, janeiro 13, 2017

Sim, é Mesmo Caricato...


Os árbitros de futebol sempre foram usados para tentar disfarçar as aselhices dos jogadores e treinadores, e  não menos grave, as más contratações dos dirigentes.

Quando ouço Octávio Machado, dirigente do Sporting, dizer que é caricato os responsáveis da arbitragem não acharem erros graves às grandes penalidades que não foram marcadas contra o Benfica, no último jogo disputado entre os dois clubes, só posso dizer que se devia ver ao espelho...

Caricato é entender que os árbitros têm de ver em tempo real aquilo que nós só conseguimos ver à quinta repetição, em câmara lenta, e em vários ângulos,. e mesmo assim ficamos com algumas dúvidas.

Eu fiz jornalismo desportivo no tempo em que havia árbitros, que tinham tanto de  bons como de habilidosos (um deles é da minha Terra e até lhe deram durante algum tempo o nome de uma "taça"...). E sei o que é fechar os olhos a foras de jogo de mais de um metro (e não os de meio centímetro, comentados nas televisões...) ou a grandes penalidades provocadas por avançados craques a "mergulhar para a piscina" (e não as onde se procura ver se é bola na mão ou mão na bola, quase a exigir que os jogadores joguem sem braços (se for do nosso interesse, claro...).

A única coisa que tenho a certeza, é de que  futebol merecia melhores dirigentes, Há muito tempo.

(Óleo de Angel Zarraga Arguelles)

quinta-feira, janeiro 12, 2017

A Qualidade de Vida e a Mudança de Hábitos...


Nunca tinha pensado a sério numa das causas da mudança de hábitos das pessoas, que a partir de certa altura passaram a ficar mais tempo em casa e a deixar as ruas mais vazias.

Foi preciso ouvir alguém a recordar a "miséria" em que a maior parte das pessoas viviam nos anos quarenta, cinquenta e sessenta do século passado. E nem visitou os bairros de lata que existiram à volta de Lisboa, até pelo menos aos anos 1980...

Preferiu contar a história da sua vida. Quando casou continuou a viver num quarto alugado, porque as rendas na Capital eram altíssimas. Só quando a mulher ficou grávida do primeiro filho é que começou a fazer contas à cabeça, porque sabia que era demasiado desconfortável se ficassem os três a viverem naquele quarto...

Durante uns tempos andaram a ver casas, de Algés ao Cacém, até que se decidiram por Almada. O valor da renda e a facilidade de se chegar ao centro da cidade, onde ambos trabalhavam, venceram. E nunca se arrependeram de ter vindo para a Margem Sul.

E continuou a fazer o retrato do seu começo de vida em Almada...

Era uma casa com três assoalhadas, pequenas, mas que parecia uma palácio, quando comparada com o quarto onde tinham iniciado a vida a dois. Embora pouco tivesse a ver com a casa onde hoje vivem... Não havia uma sala com sofás e televisão. Nessa altura existia uma coisa chamada "sala de jantar", porque era comum as pessoas reunirem-se à volta da mesa aos fins de semana, com familiares e amigos. Pouca gente tinha dinheiro para ir a restaurantes.

Tudo aquilo para me dizer que a casa estava longe de ser o lugar mais agradável do mundo. Fez-se sócio da Incrível e era lá que passava uma boa parte do tempo, a conversar e a jogar às cartas com os amigos.

Só depois do 25 de Abril é que conseguiu comprar a casa onde vive hoje. E agora sim, sente-se de tal forma confortável, que quase não precisa de sair para a rua. Tem ali tudo...

Embora este estar confortável se deva a outros factores, como a menor mobilidade e também alguma insegurança nas ruas. Fiquei a pensar em coisas que normalmente me passavam ao lado...

(Fotografia de Luís Eme)

terça-feira, janeiro 10, 2017

A Justiça e a Injustiça dos Prémios...


Hoje assisti aos lamentos de alguém que concorreu a um prémio literário, e ao ser derrotado, não só pôs em causa o júri, como o próprio vencedor.

Disse-lhe que provavelmente  com outro júri, haveria outro vencedor. Mas isso faz parte dos concursos e das diferenças de gosto de cada um de nós. Claro que não o convenci (também não queria...).

Isso fez com que me lembrasse do fim da tarde de ontem, onde senti mais uma vez, que o "nacionalismo" muitas vezes soa a ridículo. Uma boa parte dos comentadores acharam que a entrega do prémio de melhor treinador do Mundo a Cláudio Ranieri foi  injusta e que quem devia ganhar era Fernando Santos...

Como eu não costumo ir atrás de "nacionalismos bacocos", achei que o treinador que conseguiu ser campeão de Inglaterra (que é considerada a melhor liga profissional do Mundo...), com uma equipa mediana, ao conseguir um feito extraordinário, realizado durante trinta e muitos jogos - e não em apenas sete jogos do campeonato da Europa -, mereceu, com todo o mérito, ser considerado o Melhor Treinador do Mundo.

Felizmente este ano ninguém colocou em causa Cristiano Ronaldo...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)

segunda-feira, janeiro 09, 2017

Não São os Jovens que Desenham o Mundo...

Muitas vezes olhamos o mundo, como se não fizéssemos parte dele e fossemos apenas meros espectadores de um filme demasiado real e com mais que três dimensões.

Esquecemos os nossos papeis de actores (quase sempre maus...), porque bom é vivermos a nossa vidinha sem grandes chatices. E se tivermos notas suficientes no bolso compramos silêncios lá por casa, com consolas, telemóveis, tablets e computadores. Já nos basta a barafunda dos dias quase sempre iguais.

O único problema, é que de repente os figurantes que temos em casa crescem e também querem ser actores. E se os deixarmos, também querem  ser realizadores e fazer os seus próprios filmes. E nós? Além da chatice de  termos a pagar  este "luxo" (para ver ou não, não é obrigatório), sempre pudemos continuar a ser meros espectadores, com ou sem pipocas...

Não sei se a prática do boxe é a solução, mas parece-me que precisamos de "levar umas peras na cabeça", para perceber que não foram os jovens que desenharam o mundo onde foram soltos. E mais importante ainda, descobrirmos, onde, e quando foi, que errámos...

A coisa mais fácil é culpar os jovens dos muitos excessos com que pintam os seus dias, esquecidos de que eles são as principais vítimas de sermos péssimos desenhadores da realidade...

(Fotografia de Luís Eme)

sábado, janeiro 07, 2017

Mário Soares (1924 - 2017)

O Grande Político do Portugal Democrático, deixou-nos hoje (os episódios diários - enquanto duraram - da sua "morte anunciada" à porta do hospital não dignificaram em nada a sua memória)...

(Fotografia de autor desconhecido)

sexta-feira, janeiro 06, 2017

Sexo Com Serenidade e Distanciação...


Quase todos os dias me cruzo com ele, entre as oito e um quarto e as oito e meia. Aproxima-se dos oitenta e ainda não perdeu a jovialidade, tem sempre alguma coisa engraçada para contar. As aventuras do "prof. Martelo na República de Belém" são muitas vezes motivo de conversa, outras o futebol, embora o seu Porto ultimamente não lhe dê grandes alegrias. 

Hoje, por ser uma manhã mais fria que outras, perguntei-lhe porque razão não entrava no "emprego" depois das nove (sai de casa mais cedo que muita gente que trabalha e faz sempre o mesmo ritual: compra o jornal do povo e senta-se no café, a ler as "desgraças deste país" e a tomar o pequeno-almoço, enquanto os companheiros de tertúlia não chegam).

Ele sorriu e disse de uma forma natural (não notei que existisse qualquer malícia nas suas palavras, nem desencanto, apenas o reflexo da vida):
«Ficar na cama para quê? Já nem sequer como a carcaça que se deita comigo.»

Sorrimos ambos, sem nos lembrarmos que amanhã é sábado, dia de folga destes encontros quase diários...

Fiquei a pensar nesta - e noutras conversas que tenho com septagenários -, ciente de que a idade nos oferece serenidade para tudo, até para se falar de sexo (parece que nem o pudor se aguenta com a idade...).

(Fotografia de Robert Doisneau)

quinta-feira, janeiro 05, 2017

A Aproximação Forçada dos Extremos...

Sempre desconfiei da afirmação de que o suicídio era um acto de cobardia.

Porque uma coisa é pensar outra é fazer...

Da mesma forma que não consigo ver no divórcio um acto de coragem. Aliás, acho que nem sequer podem ser comparáveis como alguém me sugeriu em conversa, por serem ambos fugas a qualquer coisa que não correu bem, a vida ou o casamento. A vida não se pode reduzir a um simples casamento...

A única vantagem que esta conversa teve, foi fazer-me pensar que a cobardia e a coragem, às vezes têm uma relação de proximidade com sentimentos tão dispares como o amor e o ódio...

(Fotografia de Marcelo Montecino)

terça-feira, janeiro 03, 2017

O País da Liberdade...

Nunca tinha pensado nas potencialidades do nosso país como espaço de liberdade e de anonimato, para pessoas que um dia qualquer tinham andado com a estrela de famoso nos bolsos.

Sabia que no Algarve havia muita gente importante com casa de férias, mas normalmente vivem recatados, entre amigos, onde é proibido falar português. A única coisa que querem de nós é o sol e o areal da praia...

Foi por isso que foi uma surpresa saber que aquele casal de idade que se esforçava para falar português vivia na Beira, numa pequena quinta com oliveiras e também outras árvores de fruto, da qual falavam com um carinho especial.

Quando a Marta nos apresentou, gostei sobretudo da serenidade que transportavam nos olhos. Disseram que tinham vindo para ficar, para sempre, neste canto da Europa. Não voltaram a Paris nem a outra cidade europeia. Preferem passar o tempo a ver as coisas a crescer na sua aldeia. 

Quando sentem necessidade de passear, dam um volta pelo nosso país. Só lhes falta conhecer a parte de Trás-os-Montes, para lá do Douro. E cada vez amam mais Portugal e os portugueses.

Os filhos e os netos quando os querem ver, sabem que é só aparecer por cá.

Adoram o nosso silêncio e o respeito pela privacidade alheia. O senhor com idade para ser meu pai, sorriu, quando contou que  houve uma altura em que pensou ser impossível voltar a ser livre nesta vida, puder ser apenas mais um...

Pois é, nem tudo é mau, por não sermos um pais muito culto e conhecedor da gente que entra nos filmes...

Claro que quem gosta de andar de vermelho e de ser amado "eternamente" pelas multidões, o melhor que tem a fazer é não se mudar para Portugal, por causa das desilusões.

(Fotografia de autor desconhecido)

segunda-feira, janeiro 02, 2017

Estes Tempos Cheios de Promessas e de Incertezas...

Às vezes precisamos que alguém nos diga apenas o que pensa, sobre isto e aquilo. Sem nada na manga.

Acho que foi isso que fez com que a Rita fingisse que queria beber comigo um último café em 2016. Até apanhou o cacilheiro e veio à terra de encanto do "Xico Maravilhas", para trocar umas prosas.

Embora ela já tivesse decidido o que fazer com a proposta de trabalho, tentadora e perigosa, que recebera, queria saber a minha opinião. Se eu achava, bem, mal ou assim assim, o que ela já decidira. Devo ser dos piores conselheiros, por achar que estas decisões são sempre muito pessoais.

Mesmo assim penso que ela escolheu o melhor. Preferiu continuar no certo e quase sempre agradável, sem se deixar levar pela meia dúzia de euros a mais no final do mês. E não digo isso por vivermos no tempo das incertezas.

Ela não gostou de "tantas promessas". Eu também não tinha gostado...

Lembrei-lhe que podíamos ser polícias (e eu até estive perto, um ano qualquer...), pois ambos temos faro para "vigaristas".

Ela disse que sim. Recordou com um sorriso algumas cenas em que trocámos sinais com os olhos, quando recebemos a visita de "vendedores de banha da cobra".

(Fotografia de Luís Eme)

domingo, janeiro 01, 2017

Calendários, Agendas e "Prisões"...

Os calendários e as agendas novas são aquilo que realmente faz a diferença neste primeiro dia de Janeiro. Mesmo que não sintamos qualquer mudança significativa neste correr dos dias, sabemos que temos de nos guiar por um novo calendário e estrear uma agenda (cada vez mais necessária...), onde abreviamos o "sal"  e a "pimenta" dos dias.

Não é de agora que me sinto incomodado com a forma como a televisão e a internet nos continuam a "acelerar" os dias, conseguindo roubar minutos (e até horas) ao nosso quotidiano, por mais banal que seja. Há sempre algo de novo que surge, com um único objectivo: deixar-nos presos (ainda mais) a estes "ecrãs mágicos".

Espero continuar a escapar a estas duas "prisões", que nos vão roubando a rua, os cafés e até o contacto com as pessoas de carne e osso...

(Fotografia de Luís Eme)