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terça-feira, outubro 27, 2026

A pergunta que me apetece fazer: "Não somos todos poetas menores?"


Foi esta a pergunta que sobrou, depois de ler o livrinho de poemas, "O Menino que via passar os comboios - e outros poemas menores", de Manuel Alberto Valente.

Comprei o livro porque achei o título delicioso. Depois de o ler, em parte, sinto-me enganado. Pensava que ia ver mais comboios a passar pela vida do Manuel dentro das suas palavras...

Mas enganado não é arrependido. Este pequeno livrinho (o tamanho é estranho...) tem poemas muito bonitos, especialmente os de e com amor (não os contei, mas são muitos).

O título deste pequeno texto é provocatório, porque se há alguém que sabe como se constroem "escritores e poetas imortais", é um editor com provas dadas, como é o Manuel Valente. Aposto que ajudou muitos escrevinhadores a tornarem-se grandes, apenas com o uso de sapatos com tacões de meio metro...

(Fotografia de Luís Eme - Fonte da Pipa)


quarta-feira, outubro 14, 2026

Olhar para dentro e para fora de nós...


Quando somos amigos de alguém, por muito que nos queiramos distanciar, acabamos por ser quase sempre tendenciosos, mesmo sabendo que eles não são os "melhores do mundo".

Lembrei-me disso hoje, ao passear pelas ruas de um bairro das Caldas da Rainha, ao passar perto da casa onde morou um dos meus amigos de infância, o Chico Mendes, que era o guarda-redes das nossas equipas (fartámo-nos de ganhar torneios populares de futebol de sete, no começo da nossa adolescência...), porque ele defendia quase tudo. Fazia-nos lembrar o Damas do Sporting, por ser magro e felino. 

Há anos que não nos encontramos, era um amigo e peras...  

Provavelmente, ele não seria assim tão bom... mas para mim, continua a ser um dos melhores guarda-redes com quem joguei.

É por isso que faz bem olharmos para dentro de nós, quando tentamos perceber o comportamento dos outros (claro que isto só desculpa uma parte do comportamento dos amigos do Cristiano Ronaldo...).

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


terça-feira, outubro 13, 2026

As terceiras pessoas...


Uma das pessoas que costuma passar pelo blogue, quando me encontra, gosta de fazer resumos, ligeiros, sobre algumas coisas que escrevo.

A sua atenção desta vez ficou quase presa aos casamentos que duram a vida inteira e aos outros, que têm prazo de validade.

O seu ponto é de que todas as vidas em comum devem ter prazos de validade. E depois saiu-se com uma frase engraçada, quando acrescentou, que vivemos vezes demais fora dos prazos e com a pessoa errada...

Sorrimos, mas era isso mesmo que acontecia. Há tantas desculpas para nos separarmos como para segurar o casamento... 

E depois falou-me das "terceiras pessoas", que se aparecem numa dessas alturas de crise, dizem-nos o que queremos ouvir e adeus casamento. Foi o que aconteceu com ela...

Não quis saber mais coisas e ela também resolveu ficar por aqui.

Depois de nos separarmos fiquei a pensar no quanto ela estava certa. Sabia que se ainda estava casado, foi por num desses tempos negros, em que pensamos seriamente que estamos dentro de uma história errada, não apareceu ninguém com um sorriso bonito e uma "bóia de salvação"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, outubro 11, 2026

Olhar para o mundo de forma diferente é mais normal do que aquilo que parece...


Nem sempre reparamos que olhamos para o mundo de forma diferente. Sim, mesmo quando olhamos para a mesma paisagem, vemos e sentimos coisas diferentes, porque o nosso foco raramente é igual.

Passa-se o mesmo com a paisagem humana, é por isso que conseguimos gostar e sentir empatia por pessoas diferentes... e ainda bem.

Pensei nisso quando o Carlos Alberto, com o seu olhar de nonagenário, de quem nunca casou nem teve filhos (embora tivesse dezenas de namoradas pela vida fora...), me perguntou se ainda vivia com a minha mulher. Disse-lhe que sim. Justificou a pergunta por nunca mais nos ter visto juntos...

Pois, ele estava longe de imaginar que no último ano a nossa vida se tinha alterado, ao passarmos a ter mais alguém em casa, que precisava de cuidados e não nos permitia andar por aí (pelo menos os dois juntos...).

Não fazia ideia que a nossa mudança de hábitos, involuntária, foi sentida pelos outros. 

Já a caminho de casa, voltei a somar dois mais dois. Pouco tempo depois da pandemia, que nos tinha tentado roubar a rua, o Carlos encontrou-me com a minha mulher e quando me apanhou sozinho, perguntou se tinha casado de novo (não sei se foi por ela ter um penteado diferente, se por estar um pouco mais velha, mas ele viu nela "outra mulher"...). 

Nas conversas sobre casais, já tinha percebido que lhe fazia alguma confusão os homens (como era o meu caso...), que eram capazes de  viver uma vida inteira com a mesma mulher. O seu normal, era irem mudando, viver novas experiências...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sábado, outubro 10, 2026

«Eu podia ter escrito esse livro...»


Há bastante tempo que não ouvia a frase: «Eu podia ter escrito esse livro...»

Respondi com um daqueles sorrisos que trazem algumas palavras coladas, nem sempre fáceis de decifrar.

Afastei-me um pouco e fui até à janela aberta, para ver o mundo do lado de fora, por saber que tem muito mais largueza, tanto para Norte como para Sul. Foi a olhar para o azul do céu e do rio que recordei a primeira vez que escutei esta frase, que além de enigmática, fica quase sempre a dever pouco aos elogios. 

Entretanto passaram mais de vinte anos e com o engenho possível, fui capaz de escrever mais de duas dezenas de livros...

Ela era professora  e no alto da "sua cátedra", depois da frase, ainda foi capaz de me dizer o que fazia de diferente (mesmo que nunca escrevesse pela vida fora qualquer livro). Eu depois de a ouvir, disse que "o livro dela" era uma outra coisa e que ela o devia escrever...

Sorri ao pensar nas quase anedotas que se contam à conta do "se"... que muitas vezes contam o que poderia acontecer se os nossos avós tivessem rodas. Sim tanto podiam ser "camiões", "carros" como "bicicletas"...

Depois, menos a brincar (mas ainda com ironia...), pensei nas primeiras polémicas que estão a surgir com os escritores e a inteligência artificial. Talvez  esta até seja uma ferramenta de grande utilidade para os pretensos escritores, sem obra, que falam muito mais do que o que escrevem... e que gostam de ter a preguiça como amiga...

Sim, que isto de escrever dá um bocadinho de trabalho... e por vezes, cansa.

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


sexta-feira, outubro 09, 2026

Deliciosos exercícios de memória em conversas do arco da velha...


É bom estarmos algum tempo sem ver pessoas de quem gostamos, porque os reencontros são sempre mais vivos, alegres e repletos de memórias.

Como já não vamos para novos, é possível que repitamos algumas histórias e alguns episódios vividos em grupo, mas isso acaba por ser o menos importante.

Importante é voltarmos atrás no tempo, partilharmos sorrisos das aventuras vividas, numa outra idade e numa outra vida, que nos permitia muitas mais coisas...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, outubro 04, 2026

Os deputados da vergonha (mesmo no interior das suas famílias)...


Eu estou farto de saber que o mundo nunca foi a apenas "preto e branco". Há toda uma paleta de cores, que faz com que o mundo seja muito mais coisas, do que aquelas que imaginamos.

E ainda fico algumas vezes surpreendido com as histórias que me contam. É por isso que me apetece usar o slogan comercial mais popular do Pessoa sobre a bebida pela qual Salazar nunca morreu de amores: "primeiro estranha-se, depois entranha-se"...

Não fazia ideia que no interior de algumas das chamadas "boas famílias", se dizia o pior possível do Chega, por estas saberem "o que a casa gastava". O partido tinha imergido no seu seio, com os seus piores elementos, ou seja, com os filhos que eles nunca escolheriam para gerir as suas empresas ou os seus interesses. O que lhes faltava em competência, sobrava em esperteza e isso nunca foi bom para os negócios. Aquele "vale tudo" assustava-os, por saberem que normalmente era isso que os levava à ruína.

Alguns mais desbocados, nem sequer escondiam a vergonha que sentiam pelas tristes figuras que os seus familiares faziam no Parlamento.

Claro que também sei que há muitas outras famílias do "antigo regime", que se sentem orgulhosas do crescimento do Chega, por terem a sensação de que o 24 de Abril já esteve mais longe...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, outubro 02, 2026

Apetece-me dizer: "talvez um dia te encontre..."


Eu sei que este título sugere o nome de uma canção, de um filme, de um poema ou de uma crónica "daquelas"...

Ainda por cima o talvez, quase que nos afasta da "vida como ela é"... mesmo que ela viva cheia deles.

O que é certo é que aconteceu uma coisa, no mínimo curiosa, em menos de meia-hora. Aliás três coisas.

Fui buscar uma encomenda para a minha filha e ao passar perto do prédio de um amigo, telefonei-lhe. Ao dizer-lhe que estava próximo da sua casa, ele disse que descia num minuto para bebermos um café na pastelaria do rés de chão.

Mal entro dou de caras com uma amiga, que estava a acabar de tomar o pequeno-almoço. Cumprimentámo-nos e fiquei a saber que agora trabalha ali ao lado (quando se é é funcionário autárquico, muda-se vezes sem conta de local de trabalho, umas porque mudam os partidos, outras porque mudam as chefias... e outras ainda, apenas porque sim).

Em menos de cinco minutos falámos das coisas que fazemos e gostamos (fotografia e literatura...), porque ela tinha de ir trabalhar... e o meu amigo entretanto chegara. Combinámos beber um café um dia destes, com tempo, para contar coisas um ao outro.

Já sentado e com outra conversa, também rápida (estava com os minutos contados, não estava à espera que ele estivesse disponível para um café, apenas me lembrei de dizer um olá...) e boa. As mesmas palavras na despedida, ele disse que um dia destes aparecia no "Repuxo", para termos uma conversa de tudo menos de médico.

Já na paragem do metro, telefono à minha filha, para lhe dizer que estava quase a chegar. Olho para o lado e vejo chegar outro amigo. Aproximo-me e digo-lhe que não precisa de fingir que não me viu. Cumprimentamo-nos com um sorriso e chega o transporte. Em menos de cinco minutos, a quantidade de informação que partilhámos um com o outro! Não nos calámos até chegarmos à minha paragem... E mais uma promessa de  uma conversa de café, das boas, sem relógios...

A vida é isto. Dias e dias em que não encontramos um único rosto familiar, nas ruas ou nos transportes e em apenas trinta minutos acontecem três bons encontros com amigos...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


terça-feira, setembro 29, 2026

«A liberdade de expressão é falarmos sobre o que nos apetece, mesmo quando dizemos disparates»


Nem sempre pensamos no verdadeiro significado das três palavras que fazem a "liberdade de expressão". O normal é querermos esta liberdade só para nós, estarmos pouco abertos a parvoeiras ditas pelos outros.

Só nas verdadeiras tertúlias, é que é possível dizer coisas absurdas e estúpidas, sem que estas sejam silenciadas. Da mesma forma que são sempre contrariadas, porque estes espaços de amigos, são também de aculturação, de ensinamento, das coisas mais simples às mais complexas. Só é necessário estarmos abertos à partilha de saberes...

E é bom sentirmos a evolução de alguns companheiros, que vão aprendendo a deixar de apontar dedos, por tudo e por nada. E também se habituam a ouvir, mesmo quando dizemos coisas que eles não concordam.

Nunca me esqueço da chamada de atenção que o meu amigo Orlando fez à mesa, na nossa memorável "Tertúlia", quando alguém tentou diminuir a opinião de um de nós, menos informado: «A liberdade de expressão é falarmos sobre o que nos apetece, mesmo quando dizemos disparates.»

Claro que nesta "Liberdade", tão especial, também está presente o respeito pelo outro, embora muito boa gente a confunda com o insulto, ela é outra coisa, muito mais bonita...

(Fotografia de Luís Eme - Almada - escolhi este retrato, porque desde pequeno que embirro com a palavra "proibido")


domingo, setembro 27, 2026

Uma certa maneira de se ser funcionário público...


As desculpas de algum funcionalismo público vão ter quase sempre ao mesmo lugar, "não me pagam para fazer isto", ou pior ainda, "não me pagam para saber isto". Ou seja, o "maldito" dinheiro é colocado sempre à frente de tudo.

Curiosamente, ou não, quando se candidataram aos lugares já sabiam que iam ser mal pagos, tal como as funções que iriam exercer e o tipo de informação que teriam de dar a quem se deslocasse aos seus serviços, preferencialmente com bons modos.

Hoje de manhã visitei dois museus e consegui ser atendido de duas formas completamente opostas. Na minha primeira visita a senhora da recepção/bilheteira estava ao telefone e conseguiu em poucos minutos formar fila no seu museu. Mas o pior ainda estava para vir. Além de se ter esquecido do sorriso em casa e estava pouco disponível para dar informações...

Não lhe dei conversa e fui ver o espaço de arte contemporânea.

No museu seguinte aconteceu-me o contrário. Além de ter sido bem acolhido, no final da visita fiz duas ou três questões, às quais ela era completamente alheia, mas que fez questão de me responder, demonstrando saber onde estava e também quem era aquele casal parisiense...

A pergunta mais pertinente que fiz foi porque razão o título dos quadros expostos estava escrito na língua francesa. Ela respondeu-me, muito bem, que se optara por manter os nomes originais de  cada obra, franceses, mesmo que o museu fosse português e ficasse em Portugal...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, setembro 13, 2026

Quando os artistas mudam as "suas dores" e deixam de falar das artes...


Estava a ouvi-la e a ficar cada vez mais enfastiado. Tentava disfarçar. É possível que o tenha conseguido, porque ela "só se ouvia a ela própria". Eu estava ali, quase a fazer apenas de "ponto"...

Só me conseguia lembrar de um outro nosso amigo comum, que a partir de certa altura (é verdade que começou a visitar mais vezes hospitais que galerias de arte...), não conseguia começar uma conversa sem se queixar disto ou daquilo. Ela disse-me mais que uma vez, que era cada vez mais difícil falar com ele, que se tornara um chato, que só falava de doenças...

Depois de a deixar, fiquei a pensar que aquilo podia ser quase "epidémico". Ela estava como ele. Talvez o problema seja da vidinha. Sim, quando o mundo ameaça cair-nos em cima, aquilo que nos realizava até aí, pode deixar de ser importante...

De uma forma optimista, pensei que talvez conseguisse escapar a este epidemia, por ser um tipo estranho. 

Sim,  já que raramente falo com os outros dos meus "achaques" e até há muito "boa gente" que acha que isso não é muito normal...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa - detesto quando destroem a arte alheia como aconteceu neste caso...)


sábado, setembro 12, 2026

Viver com as coisas "fixas", que nunca mudam...


Não vale a pena pensar no que é melhor ou pior. Somos o que somos. E não deixa de ser boa ideia, aceitarmos que temos de viver com essas coisas "fixas", que nunca mudam...

E não é por a escritora Rosa Montero ter metido esta frase dentro de uma das suas personagens, que banalizava as coisas: «Ela não sabia fazê-lo. Não sabia jogar esse jogo de intrigas nem conquistar pessoas com quem antipatizava.»

Eu também não sabia (nem queria...) gostar de quem não gostava de mim. Nunca consegui ser agradável para quem me é desagradável (e houve alturas que me esforcei...).

Sim, pudemos gostar de Jesus de Nazaré e achar o gesto magnânimo, de dar a outra face, uma estupidez...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, setembro 10, 2026

A liberdade tem sempre custos...


Não é só na rua que gosto de parar e ficar a olhar para trás, para ver as coisas de um ângulo diferente, para ver o mundo que caminha em direcção contrária...

Sempre gostei de pensar, de olhar o mundo, de querer saber e descobrir coisas, consultando apenas a minha cabecinha.

Foi por isso que tive os meus primeiros dissabores logo na infância, porque para algumas pessoas não passava de um "refilão" e um "chato", que nunca estava bem com nada...

Não percebi logo que as pessoas não gostam que sejas diferente delas, que queiras ter uma cabeça só tua, os teus pensamentos, as tuas ideias, os teus sonhos...

Muitos anos depois, sinto que só não incomodava verdadeiramente os meus pais.

Nunca tinha pensado, a sério, que para algumas pessoas (são capazes de ser muitas...), gostares de pensar pela tua própria cabeça, está longe de ser a "melhor coisa do mundo". 

Sempre soube que podia ser um incómodo para políticos, patrões e outra gente que vive embrulhada em "papel de poder". Nada que me incomodasse por aí além. Para lhes escapar, nunca pertenci a partidos e trabalhei a maior parte das vezes sem ter patrões com rosto.

Claro que viver desta forma tem custos. Sabes desde cedo que nunca vais ser rico. O que, diga-se de passagem, também está longe de ser a coisa mais importante do mundo, porque sabes que continuas a gostar mais de liberdade que de dinheiro...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, setembro 08, 2026

Talvez seja a melancolia de Setembro a aparecer mais cedo...


Estava ali e não estava.

Ouvia mas pensava em outras coisas. Claro que sabia que ritual não era sinónimo de hábito, mas nem sequer me dei ao trabalho de "jogar às diferenças".

A cor dos dias estava diferente, as sombras apareciam a horas desiguais porque os dias começavam a encurtar de uma forma visível. Ver o pôr do sol às nove do começo da noite agora só no começo do Verão de 2027...

Foi quando pensei que as minhas ausências, discretas, não perturbavam ninguém. Deviam estar ligadas à melancolia que costumo colar ao mês de Setembro...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


segunda-feira, setembro 07, 2026

Dores de crescimento e dores de envelhecimento...


Eu sei que são dores diferentes.

Provavelmente as de crescimento parecem ser mais dolorosas. Parecem...

Noto isso com a minha filha, que se prepara para entrar no mundo do trabalho, onde vai descobrir uma outra "selva humana", mais animalesca que nos meus primeiros tempos de operário, por vivermos uma época diferente, em que por vezes até se fica com a sensação de que já vale "tirar olhos" e tudo...

Sei que vai ter de "enrijar" os ossos... e o coração...

As dores de envelhecimento, ainda não me chegaram, pelo menos de uma forma que merecem qualquer desabafo mais sério. Percebo-as no contacto e nas conversas que tenho com a minha Mãe e com o meu amigo Chico. Sei que são dores diferentes, porque são de todas as horas, doer isto ou aquilo, é quase como respirar...

Aqui não há "analgésico" possível, ou "morfina" que resulte, para lá das viagens que poderá proporcionar, dependendo apenas da respectiva dose...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


sexta-feira, setembro 04, 2026

Encontrar medidas para uma coisa que é mais de sentir que de medir...


Fazia-me confusão ver pessoas da minha geração a quererem medir a amizade, fingirem que não percebiam que havia mais de uma dúzia de formas de se ser amigo, de se expressar a amizade...

Foi quando me lembrei que aquele era um dos momentos em que me apetecia fumar cigarros, para ter uma desculpa fácil para ir até ao átrio e ficar por ali a ver passar os carros e as pessoas, a várias velocidades...

E a amizade até era uma coisa mais fácil de lidar do que com o amor, por exemplo, em que se fazem coisas muito mais incompreensíveis e pouco razoáveis.

Mesmo assim fui à casa de banho. Olhei-me ao espelho. Lavei os olhos. Mijei. Lavei as mãos. Voltei.

Eles continuavam com a fita métrica à querer tirar medidas a uma coisa que é mais de sentir, que de medir...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, setembro 03, 2026

Homens que bebem para viver, sem perderem de vista os lugares onde foram felizes...


Há muitas formas de convívio, de estar e de conversar com os amigos.

Gostei de estar ali sentado, de sentir que havia uma outra forma de gostar, de conversar e até de rir nas esplanadas. Por ser um estranho, deixaram-me beber apenas uma imperial, enquanto eles já iam na quarta ou quinta.

Não deixei de ser bem recebido, porque um "amigo de um amigo", naquela mesa recebe também o mesmo tratamento.

Sorri muitas vezes, porque as conversas são muito diferentes das que estou habituado entre amigos. Há um jeito trocista na forma como se olha para o bairro, para o país e para o mundo, que é descontraído com os lados cómicos da vida, alimentados pelas imperiais de Verão e pelas taças de tinto no Inverno.

Nas nossas mesas com livros, teatros e cinemas não se ia falar das "quatro mulheres" de um dos convivas, que querem se encontrar e conhecer no aniversário dele, muito menos qualificá-las com o habitual humor masculino de tasca, com gargalhadas de todos, inclusive do homem que fazia o papel de "galã" na mesa e que se preparava para fazer setenta anos.

O meu amigo fez-me sinal, de que estava na hora. Despedi-me daqueles companheiros de ocasião, que como acontece em quase todas as tertúlias, me trataram como se fosse um deles.

Já no carro, ele ainda disse que esperava que não tivesse desgostado de todo daquele "circo humano". Claro que não, respondi com um sorriso. Ainda acrescentou que havia ali um ou outro rapaz, que até poderia querer ser personagem de alguma das minhas aventuras literárias.

O mais curioso naquela tertúlia de "amigos do copo", era terem nascido todos por ali e serem amigos desde os tempos da primária. E perceber-se que continuavam a gostar, muito, de estar uns com os outros...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, agosto 26, 2026

Uma pergunta que os homens normalmente não fazem às mulheres...


Estás mais de trinta anos sem encontrar uma mulher e em pouco mais de cinco minutos de conversa sentes, que não foi aquela senhora que conheceste numa das tuas "outras vidas".

Não sabes quem mudou mais, se tu ou ela... 

O facto de ter sido casada, divorciada e viúva e de ter vivido em quatro cidades diferentes, podia dar-te uma resposta óbvia. Podia...

Estranho, estranho, foi ela conseguir perguntar-me, quase do nada: «Fui alguma coisa na tua vida?»

Claro que foi. Foi por isso que lhe disse que ela continuava a ser uma boa memória. E era...

Quando voltei a ficar sozinho, fiquei a pensar que aquela era uma pergunta que os homens normalmente não fazem às mulheres...

(Fotografia de Luís Eme - Pragal)


segunda-feira, agosto 24, 2026

Mudamos sempre, mesmo sem nos apercebermos...


O espelho diz-nos muitas vezes que estamos diferentes. Muitas vezes apetece-nos "não ver", "não olhar", especialmente quando não achamos muita piada às mudanças.

Mais problemático é quando passamos ao lado daquelas mudanças, que nenhum espelho detecta... Sim, quando passamos a olhar para as coisas de uma forma diferente e fingimos não o perceber. Talvez aconteça por aqui o mesmo que a sempre útil Sabedoria Popular nos diz sobre o que o tempo faz ao "bom vinho": se for bom ganha qualidade, se for mauzito, tem tendência para azedar... 

Sessenta e poucos anos de vida são suficientes para percebermos, que sim, somos exactamente como o bom vinho. De uma forma simplista, percebemos que todos os "filhos da puta" se tornam piores com o passar dos anos, ao passo que as pessoas mais bem formadas, têm tendência a relativizar tudo aquilo que se passa à sua volta...

Onde se nota muito estas diferenças é no comentário político. Os casos de Pacheco Pereira ou de António Barreto, são paradigmáticos, ambos foram ganhando racionalidade, ao mesmo tempo que se iam curando da "febre ideológica". Algo que com toda a certeza nunca acontecerá com João Miguel Tavares, tal como nunca aconteceu com Vasco Pulido Valente, e muito menos acontecerá com Cavaco ou Sócrates...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, agosto 17, 2026

Tempo de organizar papéis e ideias...


Gosto dos começos de semana em que as ideias começam a circular à minha volta, ainda na cama, quase a quererem dar organização à confusão de papeis com frases e ideias, que coloco debaixo das pequenas pilhas de livros, que se julgam importantes, num dos cantos da secretária.

Sei que chegou o momento de comprar três ou quatro cadernos de capa preta, para "apagar a vela" e "acender a luz" aos vários projectos que me perseguem a  horas e dias cada vez menos incertos.

Tenho de me despedir da "preguiça" e das ideias pré-concebidas, de que o tempo dos livros já era...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)