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domingo, agosto 12, 2007

MIguel Torga (III)



Ficha

Poeta, sim poeta...
É o meu nome,
Um nome de baptismo
Sem padrinhos...
O nome do meu próprio nascimento...
O nome que ouvi sempre nos caminhos
Por onde me levava o sofrimento...

Poeta, sem mais nada.
Sem nenhum apelido.
Um nome temerário,
Que enfrenta, solitário,
A solidão.
Uma estranha mistura.
De praga e de gemido à mesma altura.
O eco de uma surda vibração.

Poeta, como santo, ou assassino, ou rei.
Condição,
Profissão,
Identidade,
Numa palavra só, velha e sagrada,
Pela mão do destino, sem piedade,
Na minha própria carne tatuada.


Hoje o poeta fazia 100 anos...

Este poema de Miguel Torga foi retirado do seu livro, “Câmara Ardente”, editado em 1962, ano em que nasci...

sábado, agosto 11, 2007

Miguel Torga (II)


[...] Noé e o resto dos animais assistiam mudos àquele duelo entre Vicente e Deus [...]. A significação da vida ligara-se indissoluvelmente ao acto de insubordinação. Porque ninguém mais dentro da Arca se sentia vivo. Sangue, respiração, seiva da seiva, era aquele corvo negro, molhado da cabeça aos pés, que, calma e obstinadamente, pousado na derradeira possibilidade de sobrevivência natural, desafiava a omnipotência.
Três vezes uma onda alta num arranco de fim, lambeu as garras do corvo, mas três vezes recuou. A cada vaga, o coração frágil da Arca, dependente do coração resoluto de Vicente, estremeceu de terror. A morte temia a morte.
Mas em breve se tornou evidente que o senhor ia ceder. Que nada podia contra àquela vontade inabalável de ser livre.
Que, para salvar a sua própria obra, fechava, melancolicamente as comportas do céu.

Final do último conto do livro, “Bichos”, uma obra fascinante, pela sua simplicidade e pelas várias mensagens que nos são oferecidas, pela sapiência dos animais de Miguel Torga, ao longo dos catorze contos...

sexta-feira, agosto 10, 2007

Miguel Torga (I)

A "Visão" e o "Jornal de Letras", resolveram homenagear um dos grandes nomes da literatuta portuguesa, com a edição de um pequeno livro com o título, "MIguel Torga, Cântico do Homem".
Quem gosta deste poeta e prosador genial, não deve perder esta pequena homenagem...
Eu gosto. Gosto de tudo o que ele escreveu. Da sua poesia, tão forte; da sua ficção, tão natural; e claro, dos seus diários, tão intimistas e certeiros.
Por hoje, retiro apenas uma passagem curta do seu "Diário, XI", que expressa bem a seu amor pela liberdade e pela democracia:
«S. Martinho de Anta, 21 de Agosto de 1968 - Não, nunca poderia pertencer a nenhum partido. Se eu hoje me visse na situação de ter de aplaudir a invasão da Checoslováquia, preferia morrer. Assim, ao menos, posso continuar a viver no mundo, livremente indignado.»