quarta-feira, janeiro 16, 2013

O Homem da Gabardine Preso à Esquina


Hoje estive à conversa com um velho comunista, que me contou vários episódios da sua vida de resistente, ao qual nem faltaram alguns anos de clandestinidade.

Não me soube dizer como foi que tudo começou, embora se tenha lembrado da razão de ter ganho um ódio terrível às gabardines (nunca teve nenhuma na vida...) e aos chapéus (também não...), por causa do homem que esteve estacionado durante dias na mesma esquina, numa atitude intimidatória e provocatória, rente à porta de um professor proibido de leccionar, inclusive em casa...

E aquele senhor que eles prenderam e soltaram dezenas de vezes, nunca deixou de ser o seu amigo professor.

O óleo é de Juan Luis Jardi.

terça-feira, janeiro 15, 2013

O Cheiro Bom das Tangerinas


Gosto de comer tangerinas pelo seu sabor doce mas também pelo cheiro bom que me deixa nas mãos.

Sem esquecer a famosa vitamina cê, que dizem que dá uma boa ajuda na luta contra as constipações e gripes...

O óleo é de Emanuel Javelid.

segunda-feira, janeiro 14, 2013

«É o "Correio" não é?»


«É o "Correio" não é?»

«Não, é "A Bola".»

Quando sai da tabacaria fiquei a pensar se teria cara de leitor do "Correio da Manhã" ou se era apenas a força do hábito da senhora, de vender o jornal com mais leitores deste país.

Inclinei-me para a segunda hipótese, até por aquele não ser o meu local de compra preferencial de "notícias de papel".

Embora já não adquira a "bíblia" todas as segundas, continuo a gostar de ler as peripécias que se escrevem depois dos clássicos. 

Em relação ao famoso "Correio", não sei se o comprei mais de meia-dúzia de vezes. Não é preconceito, é pensar que ainda existe uma diferença entre contar estórias é fazer notícias. Quando se misturam as duas coisas nas páginas de jornal - mesmo que seja um sucesso comercial... - as notícias transformam-se em meias mentiras ou meias verdades (lá vem a história do copo...). E é mesmo assim. 

Não esqueço um assalto protagonizado apenas por um rapaz, que nem sequer foi discreto, pois passou várias vezes pelo local do crime, antes do ataque final, sem se dar ao trabalho de mudar de roupa e não foi o facto de aparecer com um capacete de motociclista que o tornou anónimo.  No dia seguinte o "CM" falava do ataque de um "gangue", talvez para mexer com o ego do assaltante, pouco experiente nestas andanças...

Ou seja, se puderem juntam sempre um bocado de "ketchup" ao sangue derramado em qualquer crime, para que se pareça mais com as histórias da América.

Só que eu, ficção, prefiro da boa, daí que me fique pelos romances.

O óleo é de Heitor Chichorro.

domingo, janeiro 13, 2013

O Teu Rosto Será o Último


Acabei de ler o romance, "O Teu Rosto Será o Último", de João Ricardo Pedro.

Não era um livro que pensasse comprar, mas o "pai natal" tem destas coisas... 

Não fazia parte das minhas primeiras escolhas por não ficado muito cativado com as entrevistas que li do João e por não sentir os prémios como "cantos da sereia".

Felizmente foi uma agradável surpresa. Embora a história não seja linear (mistura mais que uma história de vida, em tempos diferentes...), o livro está muito bem escrito, com todos os ingredientes capazes de prenderem o leitor do principio ao fim do livro. 

É um retrato quase difuso de uma família que atravessa três gerações (avô, pai e filho...), oferecendo-nos alguns episódios do Portugal de Salazar, desde a esperança de Humberto Delgado ao pesadelo da Guerra Colonial, juntamente com as coincidências que aparecem mais facilmente nos romances e nos filmes que na vida...

É bom ler com entusiasmo e sentir que talvez não tenha sido eu que tenha perdido qualidades como leitor. Há sempre a possibilidade de não ter escolhido os livros certos nos últimos tempos.

Nos próximos dias vou atacar "À Espera de Moby Dick", de Nuno Amado, depois digo alguma coisa...

sábado, janeiro 12, 2013

Sinais da Poupança


Um dos sinais mais visíveis da poupança dos municípios, é a sujidade das ruas.

Em Almada ainda não se chegou ao ponto deste óleo, mas para lá caminhamos, se não se fizer nada para inverter esta marcha tão pouco dignificante, pois é raro o dia em que não encontro contentores a transbordar, rodeados de sacos, entre outros objectos deitados fora pelas pessoas.

O óleo é de Chester Arnold.

sexta-feira, janeiro 11, 2013

Fingir que Estou Noutro País


Não sei até quando o vou conseguir, mas calo as palavras e tento fingir que estou noutro país.

Mas é muito difícil calar a revolta, escutando ou lendo notícias sobre as mentiras e  as manipulações deste governo...

Também não me apetece falar do Benfica-Porto do fim de semana, mesmo que torça para que o clube da Luz vença, inclusive uma arbitragem habilidosa, como a do ano passado.

Nem sequer me apetece falar destes dias húmidos, que tentam entrar dentro de nós, assim que nos apanham na rua...

Mas o pior é o rosto das pessoas com quem me cruzo, preso ao chão ou a sitio nenhum...

O óleo é de Paul Fenniak.

quarta-feira, janeiro 09, 2013

As "Meninas" de Viseu


As "Meninas" de Viseu têm contrariado os parâmetros que estavam definidos para a sua actividade (ainda que clandestinamente...) , naquela que chamam a mais velha profissão do mundo (nunca percebi muito bem porquê...).

Com alguma coragem afastaram-se da tradicional prostituição de salão e de quarto, privada e anónima, que sempre procurou estar debaixo do mesmo tecto do lema, "vícios privados virtudes públicas", tão ao gosto das sociedades hipócritas. 

Não sei se foi pela crise de mercado ou por outra razão qualquer, que decidiram começar a publicitar o seu objecto de trabalho na "montra", ou seja através das janelas dos seus apartamentos.

Provavelmente se morasse na mesma rua deste agora bairro "vermelho", não deveria achar muita piada a este exibicionismo (que não é gratuito...), até por ter dois filhos menores.

Mas esta não é a questão principal. A questão principal é a forma como se continua a tratar uma profissão que sempre existiu e que não faz muito sentido continuar a tratar como um "mundo à parte" da sociedade.

E não me venham dizer que se deixar de ser um "fruto proibido" deixa de ser "apetecido". Os exemplos da Holanda, Alemanha e França, dizem que não é preciso continuar a alimentar esta farsa.

O óleo é de Andrew Wyeth.

terça-feira, janeiro 08, 2013

Ser Artista Neste País


Apesar de Portugal ser um dos países que menos aposta na Cultura, nos últimos anos assistiu-se a uma correria infernal em direcção a vários palcos, graças à televisão e aos seus programas de entretenimento, que além da criação dos  "famosos instantâneos", também venderam por aí, que em poucos meses é possível fabricar cantores, actores ou dançarinos de sucesso.

Aparecem sempre milhares de jovens em "castings", seja para cantar ou interpretar um papel secundário numa novela, mesmo que nunca o tenham feito e quando olham ao espelho este lhes diga para mudarem de sonho...

Infelizmente, não só as coisas não funcionam desta forma, como esta massificação (em nome das audiências...) tem produzido 100 vezes mais gente frustrada que artistas.

O mais estranho nisto tudo são as pessoas que entram no "negócio", normalmente como jurados (bem pagos...), que mesmo sabendo que uma carreira artística se constrói com talento e anos e anos de trabalho e evolução, alimentam toda esta cadeia de "fábricas ambulantes de artistas".

Mas o problema maior nem reside aqui. Ao mesmo tempo que se vendem todas estas ilusões, desvalorizam-se várias profissões que exigem bastante Arte e ameaçam ficar sem continuidade neste país, que aposta sobretudo no espectáculo e na ilusão... 

O óleo é de Miguel Levy.

domingo, janeiro 06, 2013

Ainda as Imagens


Não tenho dúvidas que a nossa relação com as imagens depende bastante da nossa educação e do meio onde estamos inseridos.

Quem raramente vai a museus ou a exposições, à partida sente uma maior indiferença  pelo poder da imagem, enquanto objecto comunicativo.

Embora as Caldas da Rainha possuam museus mais apelativos e de maior qualidade artística que os de Almada, tenho quase a certeza que têm uma relação mais afastada com a cidade e com os cidadãos.

Embora muito boa gente tente desvalorizar as diferenças entre a políticas de direita e de esquerda, elas saltam à vista quando olho para estes dois exemplos. De um lado está as Caldas, que continua a alimentar uma cultura elitista, para a meia dúzia de "iluminados" do costume, enquanto Almada pratica uma politica cultural mais massiva e aberta a toda a população. 

Claro que nunca se chega a todo o lado. Da mesma forma que há muitos caldenses que nunca pisaram o Museu José Malhoa, também há muitos almadenses que nunca visitaram a Casa da Cerca...

O óleo é de Saghar Pezeshkian.

sábado, janeiro 05, 2013

As Imagens Dizem Muitas Coisas


Hoje durante a inauguração da minha exposição, que causou surpresa a muita gente, que não sabia que eu tirava retratos (quem é que não os tira nos dias de hoje?...), o Jorge virou-se para mim e disse-me que todas as exposições deviam ter uma visita guiada dos autores, com a explicação do que estava registado em cada imagem.

Sorri, sem lhe responder. Apeteceu-me dizer-lhe que isso fazia com que perdesse a graça a visita à exposição, pois o poder especulativo de cada um de nós deixava de fazer qualquer sentido.

Não me posso esquecer que há artistas que preferem ouvir o que os outros dizem dos seus quadros e até se misturam com o público (conheço alguns...), tentando ser apenas alguém que está ali a ver, a descobrir...

Sei que quando nos afastamos do realismo (ou naturalismo...), não temos a única chave do que fazemos.

É por isso que gosto bastante da ideia de que a mesma imagem pode dizer muitas coisas...

O óleo é de Karin Jurick.

sexta-feira, janeiro 04, 2013

Matérias Sensíveis da Natureza Humana


O meu amigo que faz filmes tem um coração quase de manteiga, ou seja, possui a pior qualidade que um "patrão" deve ter. Percebi mais uma vez durante a nossa última conversa, que mesmo sem ter empregados, sou bem mais frio e pragmático, em relação a algumas matérias sensíveis da natureza humana.

Desabafou que em 2013 vai ser difícil manter a mesma equipa de colaboradores e que se calhar vai ter de dispensar um "puto" porreiro e cheio de talento.

Quando lhe perguntei se ele era o elo mais fraco da equipa, disse-me que não. 

Contou-me que o Artur sempre fora a maior fonte de problemas do grupo, mas não o podia dispensar, pois estavam juntos há mais de dez anos... 

Percebi depois que o Artur era o técnico de som, que andava sempre sem dinheiro, embora não deixasse de comprar tudo o que lhe apetecia. Ao dia 15 começava a pendurar-se e o Gui lá lhe dava o "adiantamento" da ordem, para ele continuar a  viver a vida, despreocupadamente.

Depois explicou-me que se despedisse o Artur, ele teria mais dificuldades em arranjar emprego, que qualquer outro, por não ser pontual, não se vestir como deve ser, etc.

Disse-lhe que ele pensava à chefe de secção do funcionalismo público, que protegem sempre os incompetentes, sobcarregando de trabalho os melhores funcionários. 

Respondeu-me que não, com um sorriso, ele era muito competente no que fazia, o pior era o resto...

O óleo é de Karen Offutt.

quarta-feira, janeiro 02, 2013

A Minha Memória


Apesar de ser o dono deste "largo", sei que a minha memória não é das melhores.

Tenho sim essa coisa boa de conseguir passar para o papel muitas coisas que vivi e outras que ouvi dizer que vivi..

Descubro isso quando me contam alguns episódios da meninice, que estavam completamente esquecidos.

Alguns parecem mais absurdos que outros, como a história que me contaram de uma das muitas perseguições que sofremos, de donos de pomares ou vinhas, quando nos deliciávamos com a sua fruta, sem lhes pedirmos autorização.

Durante uma dessas fugas houve alguém que afirmou que ficou escondido dentro da roupa do espantalho que se metia com as aves, enquanto nós corríamos perseguidos por um homem furioso de forquilha em riste, com vontade de nos furar o que quer que fosse.

Embora achasse estranho, não lhe disse que não. Limitei-me a sorrir, até por saber que não tenho nenhum elefante na memória.

O óleo é de Sergei Aparin.