Felizmente, um senhor de noventa e quatro anos, ainda com memória e vontade de recordar os seus tempos de tocador de banjo, contou-me a verdadeira história do "Luisiana".
Tudo começou com a paixão pela música, um gira-discos e uma dúzia de álbuns que vieram da América, oferta do senhor António (que ainda conheci por ser amigo do meu pai...), que era "embarcadiço" e tinha tocado saxofone na banda filarmónica da aldeia onde nascera. Foi ele que apresentou o Coltrane e outros génios do outro lado do Atlântico aos amigos.
Ou seja, quando ele estava por cá (passava meio ano no mar e outro meio em terra...), juntavam-se aos sábados à tarde no casal do Luís dos "Ovos" (era um dos seus vários negócios, embora fosse mais conhecido pelo seu "ferro velho"), que comprara uma bateria em terceira mão, só para ter o prazer de acompanhar os dois amigos nas suas aventuras jazzísticas quase desconhecidas de toda a gente.
Foi o velho Duarte que me contou que o meu pai era um dos raros assistentes. Fingia vir passear o cão e ficava ali, pela tarde dentro, a beber uma taça de tinto e a ouvir as histórias e a música dos amigos.
Foi sempre apenas isto. Nunca foi um bar, muito menos um bordel (as únicas mulheres da casa eram a mulher, a sogra e a filha do Luís...). E só se tornou o "Luisiana", anos depois, por graça e em homenagem ao dono do casal...
Uma vez apareceu um francês, que os quis ouvir e acabou por trazer o piano que comprara numa feira e transformou o trio num quarteto.
Talvez por o casal ficar isolado - na época não devia haver casas num raio de dois quilómetros -, bem depois do fim do bairro (passávamos por lá na infância, nas nossas aventuras de "pequenos vagabundos "...), começou a ser coisas que nunca foi. Ouviam aquela música diferente e começavam a imaginar coisas...
Devem ter sido estas histórias enviesadas que despertaram a atenção de um ou outro informador da PIDE, sequiosos de notas de cem paus, que colocaram o casal no mapa, como um local suspeito, de encontros de comunistas"...
E num sábado à tarde foram visitados por três senhores bem vestidos e bem falantes, acompanhados de dois soldados da GNR, que interromperam o ensaio dos quatro amigos. Enquanto um deles fazia perguntas, os outros dois revistaram o casal, de uma ponta a outra. Claro que não encontraram nada de suspeito. Ficaram a saber que o agente das perguntas gostava de música, porque antes de se despedir gabou a bela colecção de discos de jazz da casa.
Não voltaram ao casal, mas o velho Duarte, ainda hoje diz com um sorriso, «Foi a partir deste dia, e desta visita, que me tornei comunista.»
E eu fiquei a saber, por um mero acaso, que o meu pai era um dos raros assistentes daquele clube de amigos que gostavam da música de cor escura da América, que nem sonhavam que tinha sido baptizado de "Luisiana", vendia bebidas fortes e era visitado por mulheres provocadoras, que bebiam e fumavam muito, além de se pintarem e usarem vestidos curtos...
(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

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