sábado, agosto 15, 2026

Ser um "artista pop" não é para quem quer. É só mesmo para quem pode...


Apesar de termos milhares de homens e mulheres, que passam o tempo a cantar coisas que chamam de "pop", sempre pensei que os verdadeiros "artistas pop", nesta nossa Lusitânia, se contavam com os dedos das duas mãos.

O primeiro artista que senti que era diferente de todos os outros, foi o António Variações, que não teve medo de ir atrás do que não existia, sem mostrar receio de ser antigo ou moderno, muito menos de ser único. Isso acontecia na forma como cantava, dançava e também como se apresentava em palco.

Depois apareceu o Rui Reininho. Mais tarde o David Fonseca. E depois o Samuel Úria (podia falar também da Manuela e dos Clã, da Sónia e dos The Gift ou do Tomás e dos Capitão Fausto... e pouco mais...).

Apesar de serem diferentes do António, vivem o palco como se estivessem nas suas salas de estar, sem se esconderem atrás de ninguém e sem terem qualquer problema em vestir umas calças às riscas amarelas e vermelhas.

Cada um deles tinha (e tem) uma identidade própria, coisa rara na música portuguesa.

Pensei nisto a0 olhar para este cartaz que anuncia os concertos do David em Lisboa e no Porto.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sexta-feira, agosto 14, 2026

A cantiga é sempre a mesma: "atrás dos tempos vêm tempos e outros tempos hão-de vir"...


Ao ouvirmos os outros, olhamo-nos ao espelho mais vezes do que pensamos, mesmo que nem sempre estejamos muito atentos ao que se passa tanto a sul como a norte.

Sei que quem têm mais de cinquenta anos, viaja mais pela memória... e até é capaz de se habituar a dizer que, "no meu tempo é que era bom", porque só gosta de se lembrar das coisas boas que lhe foram acontecendo ao longo da vidinha (pois é, é muito melhor)...

É nestes momentos que reparo que não sou muito saudosista. Acho mesmo que nunca disse algo do género, por saber que o passado só existe dentro das nossas cabeças.

Foi quando me lembrei do Fausto, um trovador com muito mais de dois metros de talento, que nos disse a cantar esta grande evidência, "atrás dos tempos vêm tempos e outros tempos hão-de vir..."

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


quinta-feira, agosto 13, 2026

Ter vontade de esquecer a palavra "original"...


Falámos sobre a "originalidade", essa coisa que tanta gente anda à procura no mundo das artes e letras, quase numa perseguição doentia, mesmo que não se saiba muito bem o que quer dizer.

Talvez estivesse a meter gente a mais ao barulho e ser apenas eu que não sabia, muito bem, qual o verdadeiro significado da palavra...

Mais uma vez, a conversa não adiantou grande coisa. Mas pelo menos falámos disto e daquilo, sem querermos "levar a taça para casa"... Há muito tempo que entre nós deixou de ser importante saber quem é que está certo e quem é que está errado.

Comecei por dizer, que uma coisa é escreveres o que te vem à cabeça, que para o bem e para o mal, passa a ser uma coisa tua, mesmo que tenha por detrás, mil e uma apropriações (dos livros, dos jornais ou das vozes que nos rodeiam...). Ou seja, esteja longe de ser uma coisa original...

O que eu fui dizer ao António... 

Ele disse que se formos atrás do meu ponto de vista, a originalidade não passa de uma utopia. Para de seguida me dizer que isso estava longe de ser uma coisa que lhe fizesse perder o sono. E depois lá me ofereceu uma frase, quase batida:

«O importante é sermos criativos, escrevermos, pintarmos ou tocarmos, dando ouvidos apenas à nossa cabecinha, com a ilusão de que são coisas apenas nossas.»

E ainda foi mais longe, trouxe o "pecado original" para a mesa, para me dizer, que este era apenas o primeiro, quase a convidar-me para meter esta palavra no saco das coisas inúteis.

Claro que no meio ainda falámos dos pintores-copistas, dos músicos que cantam sempre a mesma canção e dos poetas que escrevem por cima dos poemas dos outros, que normalmente se têm em grande conta (e ainda bem, é isso que os mantém à "tona de água")...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, agosto 12, 2026

«Enquanto o mundo se desgranha falas de livros...»


É curioso, que só ouvimos vocábulos, que normalmente não se usam nas conversas do quotidiano, através das pessoas que se acham mais cultas ou de gente pouco instruída, que além de terem facilidade em "inventar" palavras, também têm presentes no seu vocabulário, termos que ouviam na infância aos pais e avós...

Foi o que aconteceu com a palavra "desgranha", que cheira a desgraça e a desarrumação e caracteriza muito bem este mundo que nos rodeia... 

Não menos curioso, foi esta palavra ter sido dita por uma mulher.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, agosto 11, 2026

O bom do Dinis e a sua "escola" literária povoada de policiais e banda desenhada...


Quando escrevi ontem sobre o António, acabei por me lembrar do bom do Dinis Machado, que no começo dos anos 90 do século passado, visitava quase todas as semanas no primeiro andar da Rua Anchieta, paredes meias com a Bertrand.

Falávamos sobre a vidinha, sem deixarmos fugir o cinema, os livros e a banda desenhada... Não é por acaso que o seu brilhante "O que Diz Molero" tem lá estas três coisas... embrulhadas numa Lisboa que ainda tinha bairros com gente, capaz de inventar aventuras do arco da nova e da velha...

Nem sequer se pode dizer que "trocávamos" heróis, porque eu conhecia tão pouco mundo na estrada das aventuras literárias. Era por isso que tentava fixar os escritores de policiais e as suas obras mais emblemáticas, que o Dinis me oferecia, como se de cromos se tratassem, entre uma cigarrilha e um sorriso de miúdo (algo que ele nunca perdeu...).

Mas o mais curioso foi descobrir com ele o tempo em que se "alugavam" livros na "Barateira" e em outros alfarrábios.  que passavam de mão em mão pela malta do Bairro Alto que tivera algum tempo para ir à escola e era mais dada às leituras... 

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, agosto 10, 2026

As coisas que nem toda a gente percebe ou sente (como o "cheiro ausente")...


António reformou-se este ano, depois de uma vida dedicada ao ensino do português, ao mesmo tempo que ia escrevendo uns ensaios e uns poemas nas suas "horas vivas".

Nunca ninguém percebeu como é que alguém que fez um doutoramento com nota máxima, se refugia numa escola secundária, nos subúrbios lisboetas, onde teve de aturar alunos que pensam quase sempre que detestam livros.

Não foi coisa que me preocupasse, porque só nos conhecemos vários anos depois, quando visitei a sua escola, para falar do "prazer de ler" (foi o facto de não ter qualquer pejo em falar de que a minha iniciação literária começou com a banda desenhada, que fez com que tivéssemos uma boa conversa na companhia da Isabel, que me convidara e fizera as honras da casa.

Nunca mais nos perdemos de vista e costumamos trocar os livros que escrevemos e falar sobre o que nos apetece, num café, numa esplanada ou até num banco de jardim.

Foi numa dessas conversas que me explicou o "mistério", de estar demasiado habilitado para aturar adolescentes no secundário. Fora convidado para dar aulas na universidade depois do doutoramento, mas antes de aceitar, quis conhecer o meio, andar por lá, pelos corredores, falar com um ou outro professor. E foi nessa espécie de "estágio", que percebeu que aquele não era o seu mundo... Começou por falar de "um cheiro ausente" (os poetas dizem estas coisas, incompreensíveis...), para depois me explicar que era uma espécie de mofo que estava em todo o lado, mesmo que não se conseguisse cheirar ou ver...

Mas o pior de tudo foi ele sentir que aquela gente caminhava quase sempre um metro acima do chão, algo que ele era incapaz de fazer, sem estar sempre a estatelar-se no chão...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, agosto 09, 2026

«O que é que te incomoda mais nos domingos?»


Não sabia qual era a melhor forma de dizer, que não havia nada de especial, que me causasse incómodo, nos domingos, tanto de manhã como à tarde.

Depois de deixar a esplanada que tem sombra durante as manhãs, fiquei a pensar na frase, «O que é que te incomoda mais nos domingos?»

Havia muitas coisas que tinham mudado, mas quem queria, e gostava, podia continuar a ir à missa de manhã e ao futebol de tarde, por exemplo.

Foi quando me lembrei de um pequeno pormenor, dos "condutores de fim de semana", que gostam de ensaiar passeios lentos pelas ruas da cidade, para não cansarem muito os motores das suas bombas de garagem ou de capa...

Mas nem eles eram um "incómodo", porque só andava de carro aos domingos, se fosse mesmo necessário...

Mudei logo de pensamento e sorri ao olhar para a leveza das minhas roupas, ao mesmo tempo que fingia não ter no roupeiro um simples "fato de domingo"...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sábado, agosto 08, 2026

Um café com palavras e telenovelas...


As pessoas que se cruzam comigo e são capazes de dizer mais que bom dia ou boa tarde numa esplanada qualquer, são quase sempre actrizes. Não é nada de muito estranho, se há coisa que a vida ensina as meninas desde cedo é a serem actrizes, em serem "outra pessoa"...

Não fiz muitas perguntas (acho que já nem sei fazer entrevistas...), como de costume. Prefiro que as pessoas digam o que quiserem, desde que se sintam bem na pele que vestem.

Pensei que fazia parte do grupo de teatro amador do bairro, mas não, entrava em telenovelas e tudo. Talvez fosse verdade, mas ver estas "tragédias" portuguesas estava longe de ser o meu passatempo preferido. Ainda por cima ela trabalhava para o canal que menos contribuímos para a "guerra" das audiências, lá por casa.

Foi capaz de dizer que nunca fizera nenhum papel principal, talvez para dar mais autenticidade à sua história. 

Expliquei-lhe que conhecia pouca gente do meio, tirando um ou outro figurante que entravam em algumas cenas, que  passavam por lá, sem que se lhe conhecesse a voz. 

Ela sorriu e disse-me que também começara assim... 

Foi quase uma deixa para eu pagar os dois cafés e fazer-me à vidinha, no palco onde cabemos todos, sem termos direito a aplausos ou patadas.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, agosto 07, 2026

O parque que é campo e arte no centro da cidade...


O Parque D. Carlos das Caldas é um lugar já secular, de beleza única, pelo seu ordenamento que nos parece natural, ao qual nem falta um lago, onde é possível passear de barco e fazer a estreia a remar, quase a sério (não é a brincar como fizeram os noruegueses no Mundial de futebol...), durante 30 ou 60 minutos.

Foi o que aconteceu comigo. Foi naquelas águas demasiado verdes que remei pela primeira vez, no começo da adolescência, quando fazíamos "batalhas navais" com amigos que se disfarçavam de inimigos por meia-hora...

E depois existe a parte artística, com estátuas espalhadas por quase todo o Parque, que aumentam quando nos aproximamos do Museu José Malhoa, quase a piscarem-nos o olho e a fazerem-nos um convite para entrarmos naquele espaço, que aposta sobretudo na pintura naturalista de Malhoa e amigos, embora também possua muitas esculturas, e até uma original "Via Sacra", criada por Rafael Bordalo Pinheiro, com figuras de barro pintadas, em tamanho real.

Não tenho qualquer dúvida de que é um dos lugares mais agradáveis das Caldas, com árvores, relva, sombras e muitos bancos de jardim... sobretudo num Verão farto como o que estamos a viver.

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


quinta-feira, agosto 06, 2026

"A Ponte é (mais que) uma Miragem" há 60 anos...

 


a ponte é uma miragem

a ponte é uma miragem
que ultrapassa a exposição
pois é também uma viagem
do olhar e dos sentidos
que buscam inspiração
e querem que a ponte seja mais
que uma simples passagem.
 
olhar que se cruza
com um Rio de “visões”
tanto a norte como a sul
e que se deixa levar
em todas as direcções
 
sentidos explorados
pelo som que se confunde com o vento
de um tabuleiro povoado de carros
suspenso pelos cabos do tempo
 
sentidos encantados
pelas cores de um Tejo radiante
que pinta toda a paisagem
de uma forma contagiante
e transforma a ponte na tal miragem
 
Luís [Alves] Milheiro

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


quarta-feira, agosto 05, 2026

Um ar campestre no centro da cidade


Estou a passar quatro dias nas Caldas da Rainha.

Hoje, logo pelo começo da manhã fui às compras à Praça da Fruta, que é, provavelmente, a única praça diária que funciona ao ar livre no nosso país.

É uma delicia passar no meio dos vendedores e perguntar o preço dos legumes e da fruta, ao mesmo tempo que é possível "escolher" a peça que queremos no meio daquela variedade.

É por tudo isto, que me faz confusão, que seja sequer levantada a possibilidade, de fazer uma "cobertura para a praça, de se acabar com este ar campestre no centro da cidade, tão importante em termos turísticos...

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


segunda-feira, agosto 03, 2026

Tinha-me esquecido, por breves momentos, de que o mundo era dos espertos...


Não sei se faziam uma escala diária, mas às sete da manhã havia alguém que saía de casa com o chapéu de sol, duas cadeiras e duas toalhas, para "reservar" uma parte do areal da praia de Armação de Pêra.

Com um sorriso maroto, disse-me que aquela hora estavam longe de ser os primeiros ou segundos a "marcar território".

Tudo aquilo me pareceu estranho, por na minha praia haver espaço suficiente a qualquer hora do dia, para montar um "mini acampamento de índios". O mais curioso, é que para ele, aquela "ocupação" era a coisa mais normal do mundo...

Tinha-me esquecido, por breves momentos, de que o mundo era dos espertos...

(Fotografia de Luís Eme - Algarve)


domingo, agosto 02, 2026

Os campos de futebol inclinados que nos roubam o sonho e a ilusão...


Talvez exista algo de quixotesco e sobretudo de "Robin Hood", no meu gosto de ver aqueles que são descritos como mais fracos e pequenos, fazerem frente aos grandes.

Claro que no mundo da política ou das empresas, tratam-se de meras impossibilidades. Não sobra quase espaço nenhum para o sonho. Vinga sempre a "lei do mais forte"...

O desporto é um dos poucos sectores que dão essa ilusão, especialmente o futebol. No começo de cada partida como jogam onze contra onze, é sempre possível acreditar na possibilidade da existência de uma surpresa, do "David conseguir derrotar o Golias".

Infelizmente - e para não escapar desta sociedade desigual em que vivemos -, os chamados grandes têm quase sempre um aliado de peso dentro das quatro linhas; o árbitro. É ele que decide, que tira toda e qualquer dúvida que exista... e que se quiser "inclina" o campo, como disse anteriormente, para o lado que quiser. Lado, que vá lá saber-se porquê, é quase sempre inclinado em benefício do mais forte...

Foi o que aconteceu ontem na final da Supertaça, disputada entre o FC Porto e o Torriense. Na primeira parte do jogo o árbitro teve o cuidado de "amarelar" dois ou três jogadores da equipa de Torres Vedras, que não se intimidaram e mostraram ao que vinham. Ao ponto de até ter jogado bem melhor que a equipa do Porto nos primeiros vinte minutos, sem que alguém notasse que fazia parte da segunda divisão...

E foi sempre assim durante os mais de noventa minutos, em casos de dúvida, o "juiz" apitava sempre contra o Torriense.

Claro que esta evidência não tem nada de fervor clubístico, se fosse o Benfica ou o Sporting que estivessem no lugar do FC Porto, o cobarde do árbitro, teria o mesmo comportamento...

(Fotografia de Luís Eme - Algarve)


sábado, agosto 01, 2026

Largos que se deixam ficar apenas pela memória...


Há textos que nos deixam a pensar, porque o mundo está longe de ser o que queremos ou imaginamos. As pessoas de hoje são diferentes das de ontem, porque as respostas que temos de dar a tudo aquilo que nos rodeia, também são diferentes... E isso altera tudo, até a paisagem com que estávamos habituados a conviver diariamente.

Foi o que aconteceu com as primeiras palavras da crónica de Ana Cristina Leonardo no "Ípsilon" de sexta-feira:

«Desde que fechou o café do largo junto à estrada que serpenteia até à vila, a vida no monte foi estreitando. Foi-se a caminhada diária que exercitava as pernas e os sentidos, incluindo o sentido comunitário, e não há tai chi walking que nos valha.
Para muitos, tratava-se de um hábito de décadas, ponto de encontro das mulheres pela manhã bem cedo, dos homens pela tarde para o petisco, posta-restante, central de notícias, posto avançado onde paravam obrigatoriamente o padeiro e o peixeiro, o “marroquino”, o homem dos queijos e chouriços, até, esporadicamente, o vendedor de conquilhas.
O largo passou a apresentar-se deserto, rendido ao silêncio que pesa sobre as duas únicas casas que restam. Além destas e do edifício do café encerrado, apenas uma charneca abandonada onde as chuvas se afundam no Inverno e no Verão se contorcem plantas rasteiras ressequidas pelo Sol.»

Não tem nada de premonitório, porque aqui o "Largo" continua com gente, mesmo que falem pouco ou quase nada (a Rosa é a excepção que confirma a regra), gostam de ficar por aqui, sentados nos velhos bancos de jardim, a ler, a olhar ou simplesmente a ver o tempo passar...

Mesmo assim, não deixa de ser uma boa maneira de começar Agosto. Até porque a realidade fez menos mal do que parece...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, julho 31, 2026

Nunca percebi (ou nunca quis perceber...)




Nunca percebi porque é que as férias parecem sempre tão curtas, em especial quando se aproxima o seu final...

(Fotografia de Luís Eme - Algarve)


quarta-feira, julho 29, 2026

Não faz mal, não é importante...


Fomos a uma livraria a Vila Real de Santo António e fizemos o que é costume fazer-se nestes lugares, comprar livros.

Houve dois que se colaram logo às minhas mãos, "As Cartas de Berlim" e a "Aguarela de Paris", de Katherine Reay e João Pinto Coelho. Disse-lhes que sim...

Estava já em casa, de regresso às leituras, quando pensei na "perigosidade" de se lerem livros. Acabei por escrever estas palavras no "caderno de desabafos":

«Ler muitos livros é mais perigoso do que parece. Sem te aperceberes vais-te apropriando das palavras dos outros e começas a misturá-las com as tuas... e uns dias depois, olhas-te ao espelho e chamas-te escritor...»

Sei que há tanto de exagero como de realidade nesta frase... 

Não faz mal, não é importante...

(Fotografia de Luís Eme - Fonte da Pipa)


terça-feira, julho 28, 2026

Leitores e gostos diferentes para livros iguais...


Trago sempre pelo menos meia-dúzia de livros para ler nas férias. 

Voltei a perceber, mais uma vez que nem sempre são as melhores escolhas porque desta vez a minha companheira não trouxe nenhum livro e teve de ficar com as "minhas escolhas" e já torceu o nariz duas vezes...

Começou por ler "A Sala Magenta" de Mário de Carvalho, que leu até ao fim mas não gostou (eu também já acabei de ler e gostei, mesmo que não se trate de uma grande história, fala dos "desencontros" das pessoas nos meios das culturas, através do insucesso de um cineasta...). Mas com a segunda leitura é que se "estragou" tudo, graças aos contos de Charles Bukowski, do livro, "A Mulher mais bonita da cidade". E abandonou-o logo às primeiras páginas...

Além de estar cheio de sexo (ao vivo e a cores...), a linguagem sem travões do Charles não deixa de chocar alguns leitores. Quando um dos seus contos tem como título, "A Máquina de Foder", está tudo dito...

Comecei a ler o Charles com conhecimento de que ele escrevia sem qualquer cerimónia, sobre o mundo e sobre as pessoas (li um dos seus livros mais populares, embora não me lembre do título...). Não era do seu estilo substituir as palavras que acha certas para ilustrarem as suas histórias. Claro que há sexo e álcool a mais neste livro. É provável que tenham escolhido os seus contos mais vadios e marginais para esta antologia...

Imagino que não haja espaço para Bukowski, nesta nova América tão purista e adepta das "aparências". O mais certo é ele ter sido banido das bibliotecas públicas e até de algumas livrarias de "lacinho"...

(Fotografia de Luís Eme - Algarve)


segunda-feira, julho 27, 2026

Quando um simples marcador de livros, se torna quase inseparável...


Uma das poucas colecções que tenho, é de marcadores de livros. Mesmo sem nunca os ter contado, devo ter mais de um milhar, guardados em várias caixas que já foram de sapatos.

Há um deles que me acompanha há meses, já marcou mais de duas dezenas de livros. Começou por ser o "marcador de mesa de cabeceira". Revelou-se de tal forma inseparável, que até veio de férias comigo e com os meus livros.

E agora cheguei a um conclusão. Uma das minha próximas aquisições literárias será "As Cartas de Berlim" da desconhecida (para mim, claro), Katherine Reay...

E apenas porque sim.

(Fotografia de Luís Eme - Algarve)


domingo, julho 26, 2026

Malvados preconceitos (e logo a "triplicar")...


Uma das formas que continuo a gostar de "passar tempo" é dentro de livrarias, enquanto as meninas andam a passear dentro das lojas de peças de roupa.

Foi numa dessas passeatas que fui surpreendido ao olhar para uma estante por um título "daqueles", que fazem furor na chamada "literatura de cordel". Quando li o nome do autor (com a fotografia do próprio escarrapachada na capa...), um actor ainda jovem, que aparece nas telenovelas, pensei ter ficado esclarecido.

Aquele título, "Tudo o que nunca te disse, meu amor", percebia-se à légua, que piscava o olho a jovens adolescentes ou pré-adultas (e porque não tias solteironas?). A fotografia na capa, idem idem aspas aspas. E depois a escolha de um actor jovem como escritor romântico (que até pode ter jeitinho para a escrita, mas...), indicava que havia por ali mais comércio que literatura.

Depois de virar as costas, percebi que no que tocava a livros, a minha crítica de capa continuava cheia de preconceitos. E desta vez a "triplicar"...

(Fotografia de Luís Eme - Algarve)


sábado, julho 25, 2026

Uma televisão que gosta de se lembrar das pessoas fora de tempo...


É no mínimo estranha esta moda, das televisões só se lembrarem das pessoas, depois delas partirem. 

Não estou contra as muitas homenagens que foram prestadas a Luís Represas  pelos canais generalistas, quer com a repetição de concertos como de outros programas. 

Gostava sim, era de assistir aos sábados ou domingos, a programas de música com a presença dos nossos melhores cantores e músicos. E não desta "misturada" de gente que finge que sabe cantar, mas que não passava das eliminatórias dos concursos que procuram novos talentos musicais...

Essa sim, era a melhor homenagem que se poderia prestar a Luís Represas...

(Fotografia de Hugo Delgado)


quinta-feira, julho 23, 2026

«Vocês protegem-se sempre uns aos outros...»


Por viajar muito, dentro e fora das nuvens, sou melhor a fixar as frases que as conversas dos outros.

Estávamos a beber café e de repente sou surpreendido pela frase, «vocês protegem-se sempre uns aos outros...»

Não percebi o contexto destas palavras, mas percebi que foi dita mais como "quem quer comprar" a coisa, que "por desdém".

Nós na camaradagem quotidiana somos mais unidos e solidários, ao ponto de guardarmos segredos "do arco da velha"...

As mulheres nem por isso. Estão logo preparadas para entrar em qualquer jogo de intrigas.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)

terça-feira, julho 21, 2026

Olhar pela janela o mundo que está lá fora...


Lá acabei mais uma aventura do inspector Maigret (gosto mais que comissário).

Há sempre pequenas coisas que ficam.

Reparei que tal como o inspector, uma das coisas que gosto, é de olhar para o exterior no lado de dentro das casas, ver o mundo lá fora.

Mas não tem nada que ver com as razões que Georges Simenon invocou nas páginas de "A Defesa de Maigret":

«No seu gabinete, tal como no Boulevard Richard-Lenoir, Maigret tinha o costume de postar-se à janela, olhando para fora, fosse o que fosse: as janelas fronteiras, as árvores, o Sena, os transeuntes. Talvez isso fosse um sinal de claustrofobia. Por todo o lado procurava um contacto com o exterior.»

Eu sei que no meu caso não é claustrofobia. Ganhei este hábito na infância. Ainda recordo com alguma melancolia quando ficava preso à janela da sala, em especial no Inverno, a olhar para a rua e a ver as pessoas a pé, de motorizada ou de bicicleta (carro menos, havia poucos...), a passarem, a desviarem-se ou a andar a saltitar, para fugir às poças de água castanha, porque o alcatrão só  chegaria algum tempo depois ao bairro. E quando passava um carro, era banho certo para quem se deslocava a pé... Para uma criança era um espectáculo digno de se ver.

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


segunda-feira, julho 20, 2026

"De vez em quando"...


De vez em quando
 
De vez em quando
Acontecem-me coisas estranhas
Daquelas que surgem com mais frequência
Aos poetas e aos malucos.
Eu começo já a contar:
Sentei-me num dos bancos de uma carruagem de metro,
Quando olhei para a frente,
Descobri uma jovem mulher de pele castanha
Enquanto a olhava
Comecei a escutar uma música longínqua
Um blues que ecoava na parte interior dos meus ouvidos
Olhei à volta e percebi que a música era só minha
 
A mulher de pele castanha era jovem
Podia ser minha filha.
Tinha um vestido negro com listas com espigas
cremes e uma mala de viagem
De quem parte ou de quem acaba de chegar
Por mais de meia-dúzia de dias…
 
A música só acabou quando ela saiu
na estação do Marquês.
 
Fiquei sem perceber se tive
Um laivo de loucura ou de poesia…
 
Luís Alves Milheiro

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

sábado, julho 18, 2026

Ao encontro do Sul quase paradisíaco...


Já não sinto falta de férias de praia.

Mas o resto da família continua a não prescindir do descanso no nosso canto algarvio, onde continua a ser possível passar duas semanas, sem as variedades e as variantes da Costa de Caparica.

Pode parecer um gosto egoísta (ou até milionário, nos tempos que correm...), mas a minha praia ideal, é um areal espaçoso, onde existe a opção de escutares o mar e não apenas os gritos, a música e as conversas dos outros... Além, claro, de dispensares  a areia das suas toalhas...

Felizmente, ainda é possível encontrar algumas praias em estado quase natural, de Norte a Sul. Oferecem-nos a vantagem de deixar o carro a alguma distância e usufruir durante pelo menos uma dezena de minutos, de uma caminhada daquelas que nos "dão saúde e fazem crescer"...

(Fotografia de Luís Eme - Algarve)


sexta-feira, julho 17, 2026

O outro lado da coisa, ou seja, quando a televisão parece que se vira de pernas para o ar...


Talvez fosse dia de falar do ministro da Educação. Talvez...

O problema é que o ministro da Administração Interna gosta muito mais de ser notícia e de falar para os microfones que o professor Fernando...

Isso já se notava quando estava à frente da PJ e não perdia uma oportunidade de aparecer à frente das câmaras, a fazer um número, pequeno ou grande, de "super-herói". 

Já se percebia que aspirava a mais. Como bom comunicador que era, devia sonhar ter ainda mais televisões à sua volta... 

E um dia lá conseguiu chegar a ministro.

Talvez ninguém lhe tenha dito, que havia um outro lado, mais chato, nessa coisa de se ser governante. Sim, iria ser confrontado com os especialistas em "sacar esqueletos do armário", que também adoram saber coisas através de chamadas falsamente anónimas.

Mas nem era preciso. Como director da nossa principal polícia de investigação, sabia bem demais como é que as coisas funcionavam tanto nos corredores do poder como nas redacções.

É por isso que é demasiado estranho que ele não se tenha libertado dos vários "rabos de palha", que aparecem, cada vez que alguém abre uma porta num dos seus montes alentejanos...

E alguns são enormes. Segundo consta, um deles é  do tamanho do reboque de um camião tir...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


quinta-feira, julho 16, 2026

«Se não os consegues vencer, juntas-te a eles...»


Sabia que o descontentamento das pessoas era a principal razão para o crescimento do populismo (continuo a ter dificuldade em chamar-lhe "extrema-direita"...), mas nunca tinha olhado para ele, numa outra perspectiva. É por isso que as conversas são importantes e duas cabeças pensam quase sempre melhor que uma...

Há quem não consiga (nem queira...) "lutar contra". E então juntam-se aos "reis da confusão", que passam o tempo de dedo em riste, a culpar alguém do que está a acontecer. Com eles a culpa nunca morre solteira, ao contrário do que acontece no país.  Até mesmo a "cagadela de pombo" que lhe calhou por sorte, é culpa de alguém...

Com toda esta obsessão - parecida com a popular "lavagem ao cérebro" - em querer "justiça", nem se preocupam que estejam a acusar as pessoas erradas. Eles querem é culpados, querem é apontar dedos, querem é  ver alguém no "cadafalso", mesmo que seja alguém inocente...

Quase no fim desta conversa, que começou com a tentativa de dividir a questão da segurança e da acção policial, em "esquerda" e "direita". Com um simplismo que até meteu dó: os esquerdistas defendem os bandidos, a direita defende os polícias.

Ou seja, eu e o meu amigo Orlando, éramos os únicos na mesa, com o "emblema" de perigosos esquerdistas, apenas por defendermos o estado de direito, por acharmos que a principal função das polícias é garantir a segurança das pessoas e não andar a agredi-las...

Houve alguém que teve a feliz ideia de mudar de assunto. Mas só mudou a temática, a "fome de justiça" continuava bem viva. Já não disse mais nada.

O meu amigo Orlando simplificou tudo aquilo que acabara de acontecer com uma simples frase: «se não os consegues vencer, juntas-te a eles...»

Não sei o que vem aí. Sei apenas não é nada de bom, quando percebemos que há cada vez mais "carneiros" à nossa volta, que em vez de pensarem pela sua cabeça, preferem o caminho mais fácil, ir atrás do rebanho...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, julho 15, 2026

A simplicidade e os bons truques dos policiais


Graças à quase secular "colecção Vampiro", tenho lido Georges Simenon e as suas curiosas aventuras do comissário Maigret.

Já não me lembrava da simplicidade desta escrita, nem dos "truques" usados pelos escritores de policiais, que nos vão lançando pistas  e bandidos pelo caminho, para que continuemos presos às suas páginas, até chegarmos ao fim. 

Está a fazer-me bem, ajuda-me a escrever outras coisas...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, julho 14, 2026

A gente pequenina dos vales de 10 cêntimos e a nossa facilidade em deitar fora oportunidades...


Não fazia ideia que havia tanta gente, no mínimo estranha (não me estou a referir aos sem abrigo, como é óbvio), que embora andem nas ruas limpinhos e bem vestidos (as pessoas com quem me tenho cruzado são quase sempre homens e mulheres reformados que talvez não tenham mais nada de "útil" que fazer nas suas vidas, além de coleccionarem "inutilidades com preço"...), andam por aí à procura de um "novo lixo". 

Percorrem durante o dia os pequenos caixotes distribuídos cidade, munidos de sacos de plástico, em busca de garrafas e latas vazias, para trocarem nas máquinas de marca "volta". Pensam que são discretos, quando olham para o lado, a tentar perceber se estão a ser observados. Como vêm a maior parte dos transeuntes presos aos "smartphones", enfiam as mãos nos pequenos caixotes rente às paragens de transportes, como quem não quer a coisa... e de vez enquanto "ficam mais ricos".

Já me cruzei com mais de uma dúzia deles pelas ruas de Almada. Apetece-me quase sempre dizer alguma coisa, mas acabo por ficar em silêncio, limitando-me a abanar a cabeça...

Não sei se são estas mesmas pessoas que assim que o dia escurece, saltitam de contentor em contentor, desta vez com muito menos cuidado, ao ponto de revirarem o lixo e deixarem atrás de si um rasto de imundice por onde passam, pela merda de um vale de dez cêntimos. Provavelmente não, porque não olham para a noite como sua companheira...

Acredito que quem teve esta ideia pretendia mesmo que se fizesse um melhor aproveitamento da reciclagem e que as ruas ficassem mais limpas. Mas o ser humano é o que é... e bem podem meter a viola do saco, porque o resultado parece ser exactamente o contrário do pretendido.

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


segunda-feira, julho 13, 2026

um incidente bem explicativo sobre o comportamento de algumas minorias...


O meu barbeiro dos últimos vinte e muitos anos, finalmente arrumou o "pente e a tesoura", já com oitenta e alguns anos.

Fiquei sem saber a que porta ir bater, enquanto o meu cabelo continuava a crescer. Durante o almoço o meu amigo Chico disse-me que passara a ir a uns paquistaneses dos famosos "cinco euros" e que estava satisfeito, quase na nossa rua. Pouco convencido, resolvi passar por lá. Um dos rapazes percebeu a minha indecisão e convidou-me a entrar e dizendo que estava quase a acabar...

Sentei-me sem suspeitar da "cena" que iria assistir nos minutos seguintes. Um dos dois clientes começou a queixar-se que o bigode estava torto, partindo pouco depois para o insulto ao jovem barbeiro. Pelo jeito de falar percebi que era de étnia cigana. E nunca mais parou de insultar o rapaz que lhe cortara o cabelo e aparara o bigode, ao mesmo tempo que acusava o outro, que era quem lhe cortava o cabelo normalmente, e como tal "era o culpado de tudo".

Quando se levantou disse, alto e a bom som, que não pagava e saiu pela porta fora. Os dois jovens ficaram parados a olhar um para o outro, desabafando na sua língua.

Antes, no meio daquela discussão, apeteceu-me levantar e sair pela porta fora, sem dizer "água vai, água vem", duas ou três vezes. Mas ainda bem que não o fiz, pois acabei por ficar satisfeito com o corte de cabelo e com a simpatia e simplicidade dos dois rapazes. E também foi o corte mais barato dos últimos trinta anos...

Depois de sair fiquei a pensar na diferença de comportamentos destas duas minorias, tantas vezes metidas no mesmo saco, pelo partido do costume, quando têm comportamentos tão diferentes. 

E talvez seja por estas e por outras que a gente do Oriente está a dar, cada vez mais, o salto para o "nosso país vizinho"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa, homenagem ao António, o "Rei dos Barbeiros" e da "Música Moderna")


domingo, julho 12, 2026

O comboio continua a ser o melhor transporte do mundo...


Quem como eu percorreu parte do fim da adolescência e começo da idade adulta a viajar de comboio, mesmo com os atrasos tradicionais, sabe que ele é o melhor transporte do mundo, especialmente ao nível da segurança.

É por isso que nunca perdoarei aos políticos que andaram durante décadas a tentar destruir (destruindo muitas linhas e fechando muitas estações de Norte a Sul), em nome de um progresso e de um "mundo novo" que nunca chegou a esses lugares...

Mas nem é sobre isso que pretendo escrever.

Quero escrever sim, sobre a tal sensação de segurança que é transmitida pelo comboio, ao ponto de se mostrar capaz de "levar toda a gente", mesmo que viaje superlotado (tanto posso olhar para as imagens da Índia como as da Linha de Sintra) e de uma forma completamente desconfortável.

Mesmo com estes exageros, não há o perigo de "ir ao fundo" como as embarcações navais, ou vir parar cá abaixo como os aviões (por muito que nos digam que este sim, é que é "o melhor e o transporte mais seguro do mundo").

Até agora tem resistido a todas as "avarias", "boicotes", "desinvestimentos" ou "incumprimento de horários"...

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


sábado, julho 11, 2026

Memórias (boas) das praias do Alentejo...


Conheci as praias do Alentejo, quando ainda não estavam muito na moda e era possível fazer "campismo selvagem".

Acho mesmo que só Vila Nova de Milfontes e o Porto Covo é que se começavam a aproximar da Costa de Caparica. Zambujeira do Mar ainda era outra coisa...

A Comporta era uma aldeia, onde era difícil escapar à melga e ao mosquito, por causa dos arrozais e das margens lodosas dos canais do Sado, que ficavam próximas. O mar era parecido com o da "praia da minha vida", com ondas sonoras e quase selvagens... Era quase só para quem tratava o Oceano com bastante familiaridade, como era o nosso caso...

Tudo isto se passou há mais de quarenta anos... no começo dos anos oitenta do século passado. Os únicos estrangeiros que se encontravam na zona eram "hippies", donos de carripanas velhas, que acampavam em qualquer lugar calmo, onde não fossem incomodados...

Até cheguei a conhecer uma ou outra praia perto do Presídio do Pinheiro da Cruz, assim como alguns dos seus guardiões, que acabávamos por descobrir que eram velhos presos, que cumpriam parte das suas penas em regime aberto...

Lembrei-me de tudo isto, apenas porque sim. Mas ainda fui capaz de pensar: "O que será que os milionários fizeram às colónias de melgas e mosquitos, que também escolhiam a zona da Comporta como lugar de férias?"

(Fotografia de Luís Eme - Vila Nova de Milfontes)


sexta-feira, julho 10, 2026

É bom recordar que a presidência do SMAS nos últimos anos tem funcionado como "moeda de troca" em Almada...


Tudo o que acontece - de mau e de bom - no Concelho de Almada, está directamente ligado à governação do PS, e à presidência de Inês de Medeiros. São mais de oito anos e meio de poder. Os socialistas não têm qualquer espaço para o habitual "passa culpas".

Existe sim, alguma cumplicidade com os partidos com que se coligou ao longo dos mandatos.

É por isso que se trata de uma piada de mau gosto, o PSD ter vindo a terreiro, afirmar que "não tem nada a ver com assunto". Os factos falam por si, foi um vereador do PSD que presidiu os SMAS (Serviços Municipalizados de Água e Saneamento) entre os anos de 2017 e 2024.

O mesmo se passou na coligação seguinte, feita com a CDU. Mais uma vez, Inês Medeiros "ofereceu" a presidência do SMAS ao partido com que acordara governar Almada, neste seu último mandato (desde Outubro de 2025).

Isto prova duas coisas. O pouco interesse que o SMAS sempre despertou ao PS e à presidente de Câmara (que também se comprova com a redução de investimento durante os dois primeiros mandatos, com a cumplicidade do companheiro de coligação, o PSD). E a ligação dos partidos com que se coligou a todo este problema (bem podem tentar "sacudir a água do capote", como o fez  apressadamente o vereador do PSD...), por terem aceitado a presidência do SMAS, mesmo que fossem apenas uma espécie de "rainha da inglaterra"...

Nota: Texto publicado inicialmente no "Casario do Ginjal".

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quinta-feira, julho 09, 2026

Pois é, parece que afinal "o dinheiro não paga tudo"...


O facto de ainda não ter sentido falta de água canalizada na minha casa, fez com que fosse alvo de algumas "bocas", de quem gosta de se informar através das redes sociais, sem sequer se dar ao trabalho de pensar um pouco, de saber como funcionam as coisas.

Penso que a abastecimento de água  nas cidades não tem grandes segredos. Há vários reservatórios, distribuídos por áreas geográficas, que na maior parte dos casos devem coincidir com os mapas das juntas de freguesia.

Se existir uma zona que consome o dobro ou o triplo da água das restantes, é óbvio que o seu reservatório, acabará por se esvaziar de uma forma mais rápida. E, em casos extremos (como o que está a acontecer no Concelho de Almada...), poderá condicionar mesmo a distribuição normal de água pelas populações.

Isso faz com que a palavra "solidariedade" não faça muito sentido, porque o consumo depende das próprias pessoas. Embora tudo indique que ela até esteja a ser feita em Almada, através do uso de camiões cisternas, que devem ir buscar água aos reservatórios que estão a funcionar normalmente, para a distribuir junto dos almadenses que estão mais necessitados deste bem essencial.

Além das grandes responsabilidades do Município, que não se preocupou em fazer as obras necessárias para evitar este problema, é importante dizer, que os moradores das freguesias mais afectadas, não deixam de ter alguma culpa, no agravar desta situação.

Fala-se de desperdício, e até de roubo de água. Mas existe ainda outro problema: a Charneca de Caparica é a freguesia com mais vivendas, e naturalmente, com mais jardins e piscinas do Concelho. Isso faz com que algumas pessoas usem a água como se esta fosse um bem infinito. E ainda sejam capazes de argumentar: "Se pago, uso a água que quiser..."

E o resultado está à vista...

Nota: As notícias televisivas continuam a não reflectir a realidade. Há uma histeria e um exagero, que levam as pessoas a ver o problema com "lentes de aumentar" e a pensar que todo o Concelho de Almada está sem água.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quarta-feira, julho 08, 2026

A falta de água em Almada é uma grande ironia (há mais de oito anos que a CMA "mete água" em Almada)...


De vez enquanto escrevo sobre o mau serviço que é prestado pelo Munícipio de Almada, aos almadenses. Tento não ser muito insistente, embora os problemas se mantenham - e em alguns casos até se agravem -, ano após ano.

O meu espanto é que, no meio de tanta incompetência, as pessoas continuam a votar no partido do poder. Nunca percebi o porquê. Mas também não perco muito a tentar perceber, até por se passar o mesmo a nível nacional... 

O que eu posso dizer, como morador do Concelho de Almada há mais de trinta e nove anos, é que a forma como se olha para a coisa pública, a começar pelas ruas, nunca foi tão displicente. Lixo, buracos e vegetação, são o "pão nosso de cada dia" em todo o Concelho.

É muito triste sermos notícia nacional devido à falta de água, apenas porque não se "fez o trabalho de casa", como foi dito pela Ministra do Ambiente. Até porque o nosso subsolo possui um dos maiores aquíferos do distrito de Setúbal...

Pessoas ligadas à CDU garantem-me que em 2017 já existia um plano de renovação de toda a rede pública, assim como um projecto para a realização de novos furos de água. Mas como o costume é ignorar as iniciativas feitas pelos outros partidos, mesmo que sejam boas para a população, não vale a pena fazer grandes comentários.

Por todas estas razões, não tenho qualquer dúvida, de que a falta de água em Almada, é uma grande ironia em relação à governação local (ou não se desse o caso de se andar a "meter água" no Município, há mais de oito anos...).

Nota: texto publicado inicialmente no "Casario do Ginjal".

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


terça-feira, julho 07, 2026

O hábito (quase institucionalizado) do "passa culpa" dos políticos


O PSD por ser o partido em que os seus dirigentes continuam a gostar de "encher a boca" com o nome de Francisco Sá Carneiro, devia lembrar-se da sua prática governativa e de um aviso que ele fazia aos seus ministros e secretários de estado, de que só tinham seis meses para denunciar ou desculparem-se com os erros dos seus antecessores.

Muita coisa mudou na política e nos partidos do poder dos primeiros anos da democracia até aos nossos dias. 

É a explicação óbvia que encontro para a forma como a ministra da Saúde, a ministra do Trabalho e agora o ministro da Educação,  dois anos e alguns meses depois de serem poder, continuarem a apontar o dedo e a culpar o PS do muito que funciona mal nos seus ministérios...

Curiosamente, quando inauguram algo feito pelos antecessores, esquecem-se de falar deles...

Estes exemplos dizem quase tudo sobre os políticos do século XXI, que nunca se serviram tanto das meias verdades e das meias mentiras, para justificar os seus actos.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)