quarta-feira, junho 12, 2019

A Vontade de Fugir a Sete Pés do Contraditório


Olho à minha volta e sinto que cada vez há mais instituições e gentes a quererem viver sem os "constrangimentos democráticos", tentando escapar sempre que podem ao contraditório. Eu sei que discutir as coisas com os outros, especialmente com quem pensa de uma forma diferente de nós, é realmente uma chatice... Mas também sei que continua a ser o melhor caminho para se encontrarem as melhores decisões (no meu entender, claro...). 

A nível empresarial, o que aconteceu na TAP, é um bom exemplo de quem acha que pode tomar decisões, sem ouvir os outros accionistas (neste caso ainda é mais grave porque o Estado é o accionista maioritário...), apenas por que é mais agradável fazer o que nos diz o nosso umbigo.

A nível associativo também conheço vários exemplos, em que se tenta escapar a decisões tomadas em assembleias gerais (decididas pela maioria dos sócios), apenas porque contrariam a linha do pensamento de quem dirige...

A história diz-nos que quando a democracia começa a perder, o "terceiro estado" (nós, o povo, essa imensidão de gente...) é sempre o principal derrotado...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)

terça-feira, junho 11, 2019

Precisa-se Urgentemente de "Cursos de Serviço Público"...


A maior parte das pessoas que nos prestam serviços públicos, não têm noção da sua verdadeira função. Fingem não perceber que estão ali para servir os outros, que precisam de informações ou de usufruir das valências que o seu local de trabalho presta à população.

Nem sequer é anormal olharem-nos de "alto para baixo", como se fossem os "donos do pedaço"... E no que toca a informações, além do ar "enjoado" que nos oferecem, fazem questão de ser poucos esclarecedores, ao ponto de serem capazes de nos darem informações erradas, brincando com o nosso tempo e a nossa inteligência... E isto tanto pode acontecer na conservatória, na segurança social, nas finanças, no município, como nos serviços que nos fornecem água, electricidade ou gás...

Benditas excepções, que de longe a longe, encontramos na segurança social, nas finanças ou noutro serviço qualquer. Enchemos-os de agradecimentos, embora se tenham limitado a cumprir o seu verdadeiro papel.

É por isso que acho que as pessoas que têm como função servir os outros, precisam, urgentemente de "Cursos de Serviço Público".

(Fotografia de Luís Eme - Almada)

segunda-feira, junho 10, 2019

Olhar a Publicidade como um Mero Artifício Social


Sempre olhei a publicidade como um mero artifício social, como algo que faz parte do nosso dia-a-dia, e que quando tem qualidade, consegue acrescentar cor, imaginação e graça aos nossos dias.

Sei que actualmente é quase impossível manter este olhar "inocente", pelo menos fora das ruas. Na televisão, por exemplo, a publicidade há já algum tempo que deixou de se limitar aos largos minutos publicitários entre programas, entra dentro dos filmes, das novelas e dos programas de entretenimento, de uma forma cada vez mais descarada. Mas nos cinema passa-se a mesma coisa, há grandes planos a focar a marca de uma bebida (tabaco nem por isso, porque quase que foi banido dos filmes...), um carro, um perfume ou um computador.

Há três ou quatro anos participei numa exposição e pediram-me duas fotografias para o folheto. Uma das escolhidas (a que ilustra este texto...), fazia publicidade a um banco, porque a instituição bancária ficava no final da praça e "apagar" o seu nome seria falsificar a história. Antes de me chamarem a atenção, nem sequer ligara ao pormenor, por que para mim era natural a sua existência. Mas o mais curioso, é que não se limitaram a chamar-me a atenção, cortaram a "publicidade" da fotografia nas provas do folheto, fazendo com que ela perdesse alguma da profundidade que tinha. Claro que não autorizei o "corte" e substitui a fotografia da Praça da Fruta das Caldas por outra...

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)

domingo, junho 09, 2019

Criticar a Justiça é das Coisas mais Fáceis do Mundo


Já depois de escrever o texto de ontem, publicado aqui no "Largo", li a crónica publicada no "Expresso", de Maria José Morgado, em que ela nos apresenta alguns dados estatísticos, que no mínimo, devem-nos deixar a pensar.

Ela aborda a luta contra a corrupção, sem deixar de focar as "montanhas que parem ratos" (de 604 comunicações de crimes só resultaram 19 condenações...), analisando os dados fornecidos pelo Conselho de Prevenção da Corrupção.

Quando ela refere: «O CPC recebeu no ano de 2018, descontadas as cifras negras e a fragilidade dos números alcançados, um total de 604 comunicações de crimes económicos, dos quais os principais diziam respeito a 248 crimes de corrupção, 153 de peculato e 17 de prevaricação. Deste universo, destacam-se as comunicações de crimes com indícios probatórios, das quais resultaram 73 acusações, 19 condenações, três Suspensões Provisórias do Processo e duas absolvições. As conclusões são más.»

É importante referir ainda que 48% destes crimes comunicados aconteceram em Autarquias...

Escolhi o título "Criticar a Justiça é das Coisas mais Fáceis do Mundo", porque é a verdade. 

Raramente perguntamos, por que razão os processos que chegam aos tribunais revelam "tantas" deficiências e fragilidades nas investigações. Enquanto o Ministério Público e a Polícia Judiciária se debatem diariamente com problemas, como a falta de pessoal ou a utilização de meios técnicos ultrapassados, os "criminosos de colarinho branco" podem contratar os melhores escritórios de advogados (peritos na leitura das leis, que muitas vezes foram eles próprios que redigiram...).

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

sábado, junho 08, 2019

«Somos o País das escolhas erradas. E tudo começa nas pessoas...»


Não sei se é coisa com mais de quarenta anos, mas acho que sim. Até por que já ouvi histórias sobre as escolhas e nomeações de ministros e secretários de estado dos governos provisórios  - nem vale a pena falar de outros cargos menores -, que cabem que nem uma luva no anedotário nacional. Do género de telefonaram para a casa de alguém às duas da manhã a perguntarem se queriam ser isto e aquilo, e que tinham de dar uma resposta às nove da manhã (muitas vezes eram cargos com pastas sobre as quais não tinham perdido mais de cinco minutos da vida...). A maioria refugiava-se na tese de que "era a oportunidade de uma vida" e não queriam saber de mais nada...

Sei sim, que foram raros os homens e mulheres que tiveram a coragem de dizer, não, por saberem que não "cabiam naqueles fatos"...

Infelizmente esta história não se ficou pelo "país provisório" do Verão Quente, continuou a repetir-se até actualidade. 

A coisa mais fácil de fazer na política é uma lista de ministros, secretários de estado, presidentes de câmaras, e vereadores, medíocres e incompetentes (alguns ainda acrescentaram ao currículo adjectivos ainda menos abonatórios, e só não estão na prisão porque a nossa justiça é o que é...).

Do que não faço ideia, é se essas pessoas alguma vez se questionam, sobre o mal que fazem ao país, quando deixam que os seus interesses pessoais, do partido e dos amigos,  se sobreponham aos interesses de todos nós...

Comecei a escrever e como de costume fui andando... quando na conversa que tive com dois amigos, apenas falámos dos ministros da administração interna, da educação e da saúde.

E o Pedro numa frase disse tudo: «Somos o País das escolhas erradas. E tudo começa nas pessoas...»

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

sexta-feira, junho 07, 2019

A Ligação de Belarmino a Almada


Ainda a propósito do Belarmino (o original...) Fragoso, descobri há pouco tempo que uma das suas últimas ocupações foi carregar e descarregar as mercadorias dos vendedores do Mercado de Almada, na Rua da Olivença.

Descobri-o por um mero acaso. Estávamos a almoçar o nosso bacalhau com grão da Olivença das segundas-feiras quando passou um fulano rente à nossa mesa, que cumprimentou o Carlos. Quando ele se afastou o Carlos confidenciou-nos que o salvara uma vez de levar pancada, ao puxá-lo para longe, depois deste insultar o antigo "boxeur", sem saber com quem se estava a meter...

Depois acrescentou que ele morrera de uma forma completamente estúpida, que tinha sido atropelado próximo do mercado, quando trabalhava...

Baptista Bastos, que entrevistou o Belarmino no excelente filme do Fernando Lopes dedicou-lhe um bonito obituário no "Diário Popular": «No corpo debilitado do velho campeão de meios-leves emergiram todas as doenças que a fome e a miséria arrastam. “Não passo de um campeão deitado” – dissera, há dias, a um de nós, que o fora ouvir, para narrar, seguidamente, a história resplandescente de um homem comum que se guindara às galáxias das grandes estrelas, para tombar na noite medonha como um cometa transviado do rumo certo.»

O mais curioso, é que a primeira vez que ouvi falar da ligação de Belarmino a Almada, foi de uma forma negativa. Além de o retratarem da pior forma possível, acrescentaram que morara numa barraca, entre o Pragal e a Caparica e que tinha morrido na miséria (sem especificarem...). Contaram-me esta história no começo dos anos 1990. Não sei se alguma vez morou neste local, sei sim, que quando faleceu morava num anexo da Praceta Francisco Noronha, na cidade de Almada...

(Fotografia de Luís Eme - Pragal)

quinta-feira, junho 06, 2019

O Meu Amigo, Filho do "Belarmino"...


Estive com um amigo que não via há mais de uma dúzia de anos.

Acabámos por falar sobretudo da nossa juventude. Do nosso bairro, das nossas "patifarias" de adolescentes, dos nossos amigos e também da nossa família, dos nossos irmãos e pais. A Foz do Arelho também não faltou, não fosse ela a praia da nossa vida...

Ou seja, falámos sobretudo do passado. Não dissemos uma palavra sobre os nossos filhos e companheiras. Só quando vinha de cacilheiro para a Outra Banda é que pensei no assunto. 

Pois, o presente é outra coisa, onde só nos encontramos por acaso...

Os nossos pais já partiram, sobram as mães, que são amigas, apesar da distância geográfica que as separa (penso que continuam a falar ao telefone...). Quando lhe falei no pai e das confusões que gostava de armar quando bebia mais que a conta (o seu lado texano de gostar de virar homens e bares de pernas para o ar...), ele continuava a não se sentir nada orgulhoso, desse lado quase negro paterno. Recordei que na época nós delirávamos quando sabíamos o que acontecera na noite anterior na tasca do Alfredo, ele nem por isso... O pai só se "curou" destas aventuras (que chegavam a meter polícia e tudo...) quando conseguiu deixar de beber.

Mas a sua lenda continua viva. Não deve haver ninguém do nosso antigo bairro que não conheça o poder dos punhos do "Belarmino" (não fazemos ideia de quem lhe ofereceu esta alcunha, que deve ter tudo a ver com o filme de Fernando Lopes...). 

A componente mítica é de tal forma forte, que hoje até há quem associe todas estas aventuras ao "herói" do filme do bom do Lopes, e não ao pai do meu amigo, mesmo que Belarmino Fragoso nunca tenha passado pelas Caldas...

(Fotografia de Luís Eme - Foz do Arelho)

quarta-feira, junho 05, 2019

A Feira com Livros...


A meio da tarde lá me resolvi a ir dar uma volta pela Feira do Livro.

Desta vez até fiz uma lista com nove livros... Lista que não saiu do bolso.

A bem do comércio livreiro fabricaram mais "praças" (continuo a não achar muita piada a esta moda...). 

Mesmo assim acabei por comprar quase uma dúzia de livros, graças a algumas "pechinchas" da "Cotovia" e a dois livros ou três livros da "Quetzal", que também estavam com um bom preço.

O mais curioso, é que com esta invenção das "praças" e de ter de olhar para todo o lado, acabei por nem sequer ver os livros da "Don Quixote" (e havia dois na tal lista)...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

terça-feira, junho 04, 2019

A Utilização das Palavras "Maior" e "Melhor" na Literatura...


Pensei se devia, ou não, escrever algo sobre a escritora Agustina Bessa-Luís, que nos deixou ontem, fisicamente. Isso acontece por que sinto pela Agustina o mesmo que muito boa gente sente por José Saramago, sou incapaz de a olhar como a "melhor romancista do século XX".

Li apenas três livros da sua autoria ("Os Meninos de Ouro", "Sibila"  e "Aquário e Sagitário"), o último dos quais há quase vinte anos. Provavelmente li-os na altura errada, cedo demais, especialmente a "Sibila", que recordo apenas como um livro de leitura difícil...

E também tenho dificuldade em compreender a Agustina, mulher pública, não pelas suas opções políticas, mas sim por ter aceitado ser directora, primeiro do diário "Primeiro de Janeiro" e depois do "Teatro D. Maria II". Digo isto por que não lhe encontrar qualidades para o desempenho destas funções (o que ficou comprovado no seu exercício...). 

Embora saiba que nestas alturas de despedida é muito fácil usar as palavras "maior" ou "melhor", continuo a ter dificuldade em utilizá-las na literatura, na música ou nas artes plásticas, cuja análise é muito mais complexa que a escolha do "melhor futebolista do mundo", por exemplo.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

segunda-feira, junho 03, 2019

A Nitidez das Palavras...


Há pessoas que não conseguem comunicar de uma forma directa, seja utilizando a via oral ou escrita.

Posso mesmo dar um exemplo familiar. A minha companheira no sábado esqueceu-se da carta de condução e quando me telefonou disse-me para dizer à filha para procurar na carteira que estava dentro da mala, que ela sabia onde estava. Poderia me ter dito simplesmente, «está na minha carteira». Moral da história: a minha filha andou às voltas da mala da mãe (a procurar um carteira mais pequena, que era a que ela tinha nesse momento...), até que eu decidi abrir a "carteira grande" e lá estava a carta de condução...

Este exemplo serve para outras coisas, em que a sua forma de comunicar choca por vezes com os filhos, por que gosta de acrescentar sempre, mais um ou outro pormenor.

O mais curioso, é que eu era para falar da escrita, daquelas pessoas que gostam de escrever com demasiados artifícios, dificultando por vezes a nossa compreensão.

E agora que estou quase no fim, devo confessar que tudo isto começou com uma frase de Frederico Lourenço: «O objectivo da minha escrita sempre foi a clareza. Não quero ser incompreensível. Procuro a maneira mais nítida de exprimir as minhas ideias, e dá muito trabalho.» 

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)

domingo, junho 02, 2019

O "Futebol Total" e o "Futebol da Retranca"...


Há muitos técnicos de futebol que não constroem as suas equipas em função da qualidade dos jogadores que têm. Um desses exemplos é Fernando Santos, o nosso seleccionador nacional. Utiliza quase sempre um modelo de jogo conservador, colocando em jogo os jogadores que lhe dão mais garantias de serem fiéis ao seu "sistema", mesmo que não sejam os melhores...

Eu queria, mas não acredito que o Seleccionador vá mudar, apesar de Portugal jogar em casa, na fase final da primeira "Liga Europeia das Nações". E sei que se ele não mudar, dificilmente ganhará esta competição. 

Se insistir no João Moutinho, como "alma mater" do meio-campo, por muito que reze à Senhora de Fátima e aos pastorinhos, não ganhará à Inglaterra ou à Holanda, na final (sei que primeiro ainda tem de ganhar à Suiça...).

Já pensei mais que uma vez, que estes treinadores ("da retranca") deviam ter sido obrigados a viajar até Barcelona, para conversarem sobre futebol com Johan Cruyff, quando ele ainda "dava aulas"...

E termino com uma questão: quantos treinadores do mundo não gostariam de ter a possibilidade de utilizar Rafa, João Félix, Cristiano Ronaldo, Bruno Fernandes e Bernardo Silva, em simultâneo nas suas equipas?

(Fotografia de Luís Eme - Laranjeiro)

sábado, junho 01, 2019

Correr Atrás do Sol...


Há quem goste de saltar de metáfora em metáfora, sem se importar que o olhem como um "maluquinho". O Fernando é uma dessas pessoas.

Quando ele disse «apesar do aumento da temperatura, as pessoas continuam a correr atrás do sol», eu respondi-lhe que não e apontei para as esplanadas que ficavam à sombra, cheias de gente e sem mesas vagas...

Ele não se ficou, «sim, sentam-se à sombra, mas estão cheios de vontade de correr atrás do Sol.»

E continuou: «só os sensatos é que escolhem o conforto da sombra. Só que o mundo há muito que deixou de ser deles.»

Sorri-lhe e pensei que isto de aturar filósofos tem que se lhe diga...

Antes de nos abandonar saiu-se com mais uma pérola: «a "flor do sucesso" só de alimenta com a luz, seja ela solar ou artificial.»

Levantou-se e quando se preparava para nos virar costas, o Carlos disse para ele não se esquecer de ir pelo Sol. 

Resultado: Gargalhada geral.

Talvez o humor seja das poucas coisas que consegue bater-se com a filosofia e com o calor...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)