domingo, janeiro 16, 2011

«Deus dá com uma mão e tira com a outra.»

Ninguém estava à espera que a Rita sintetizasse as diferenças do mundo com uma simples frase.

Frase dita de uma forma irónica e com um sorriso nos lábios. Percebia-se que Rita aceitava as regras do "jogo da vida", que nos eram impostas, por alguém que nunca dava a cara, pelo menos de uma forma visível, mas não em silêncio.

O mais curioso foi ter sido o frio e a humidade a convidarem o Verão para se juntar à mesa...

Tudo começou com uma conversa simples sobre o facto da roupa não secar no estendal, com este tempo, mais inglês que português. Todos sentiam a falta do "Deus-Sol", por coisas tão simples como abrir as janelas de par em par.

Depois vieram outras comparações. Mas a melhor de todas foi a da Rita. Depois de falar das saudades do mar e da praia, disse que num planeta normal não devia ser permitido alguém gostar do Verão e do mar e ter a pele branca, povoada de sardas e de cabelos ruivos.

Sem perder o sorriso disse a tal frase-chave: «Deus dá com uma mão e tira com a outra.»

Rita tem toda a razão. E Deus, entre outras coisas, é um brincalhão...

O óleo é de Eva Navarro.

sábado, janeiro 15, 2011

A Beleza Feminina

Não sei se hoje há mais se há menos "ruídos", sobre a exploração do corpo feminino, que há vinte anos, por exemplo, na publicidade e afins.

E, sinceramente, não estou muito preocupado com isso. O que mudou com toda a certeza foi o o discurso e o gosto "feminista". Hoje as mulheres, mesmo as mais acérrimas defensoras da "superioridade feminina", deixaram de imitar o homem, especialmente no vestir. Não se incomodam de salientar os seus atributos físicos, utilizando-os muitas vezes mesmo como uma "arma".

Outra coisa que também se alterou, foi a forma de olhar para o corpo masculino. Aqui sim, numa aposta muito maior como veiculo publicitário, porque hoje o homem também é um consumidor de produtos de beleza, mesmo sem ser "metrossexual" (o meu amigo Necas tem uma definição óptima para estes "efebos", que só não a publico, para não ferir mentes mais susceptíveis...).

Mesmo assim, continuo a achar que o corpo feminino "vende" muito mais que o masculino, porque é, sem qualquer dúvida, mais belo, mais atraente e mais apelativo que o nosso.
O óleo é de John Nava.

quinta-feira, janeiro 13, 2011

Afinal são Namorados...

Quando me preparava para sair de casa e levar a minha filhota à escola ela olhou a janela e disse-me:

- Está nevoeiro.
- Pois está. - respondi eu, acrescentando - e humidade.
- Não sabes que sempre que está nevoeiro, há humidade?
- Sei, eles até são primos.
- Não são nada, são namorados.
- Namorados? Boa.
Para acabar a conversa, ofereceu-me um sorriso daqueles óptimos para começar o dia.

Estamos sempre a aprender, especialmente com as crianças. E de facto o nevoeiro é masculino e a humidade feminina...
O óleo é de Pere Ventura Júlia.

quarta-feira, janeiro 12, 2011

Correr à Procura de Tudo e de Nada

Há menos de uma hora assisti a um acidente completamente estúpido, a poucos metros de mim, numa das zonas centrais da cidade.
Um aprendiz de "fitipaldi" resolveu dar uma curva apertada em apenas duas rodas, acabando por chocar contra um carro estacionado, mesmo ao meu lado, enquanto seguia no passeio.
Gente amiga que tinha deixado segundos antes, em frente da "Incrível", veio logo a correr, assim que ouviu a chiadeira do carro e o barulho do choque, com medo que eu tivesse atravessado a passadeira colocada mesmo na curva ( se o tivesse feito teria sido levado pelo ar à frente do carro...).
O condutor devia ter perto de quarenta anos, estava longe de ser um jovem inconsciente.
O senhor do carro estacionado assim que ouviu o barulho desceu logo de casa e foi mesmo ele o "contemplado", com a amolgadela e os plásticos do farol detrás partidos. Abanou a cabeça e lá foi fazer a declaração amigável.
Claro que o "fitipladi" não merecia tanta simpatia, devido ao excesso de velocidade e à sua condução perigosa. Mas cada vez se chama menos a polícia, neste e noutros casos...
O óleo é de Alex Colville.

terça-feira, janeiro 11, 2011

«Estranha terra esta.»

Muitas vezes, mesmo sem conhecermos bem outras terras, outros continentes, somos capazes de dizer o pior de nós próprios, como povo.

Mas grave é quando a frase é dita por alguém que passa a vida a andar pelo mundo, como é o caso do Gui, produtor de documentários e realizador de cinema nas horas vagas.

Bebemos um café ontem, ao fim da tarde. Falámos de muita coisa, inclusive dos assuntos do momento: as presidenciais e o assassinato de Carlos Castro.

Claro que não nos escapou a mulher que disse nas notícias do almoço que Cantanhede estava solidária com o assassino.

Lembrei-me da nossa conversa hoje, ao ler no "DN", que a família e amigos preparam uma "manifestação pública" e até um "cordão humano" na cidade.

Tens toda a razão, Gui: «estranha terra esta.»

O óleo é de Jorge Gallego.

segunda-feira, janeiro 10, 2011

O Preço da Perversão Social

A morte de Carlos Castro pode e deve ter várias leituras, que não precisam de ser ofensivas ou homofóbicas. O jornalista pagou o preço (ainda que demasiado elevado...) da perversão que se instalou na sociedade e que passa a mensagem (ainda que sorrateiramente) de que toda a gente tem um preço e todos os caminhos são válidos para se chegar ao objectivo final.

É por essa razão que a qualidade humana e profissional é muitas vezes desviada para segundo plano, quando se trata de promover uma carinha laroca (menino ou menina) na televisão, na moda, na publicidade ou até num simples emprego.

Os jovens quando fazem "castings" para um papel numa telenovela ou para uma produção de moda, são instruídos desde cedo que é possível furar as regras, desde que sejam "simpáticos" para quem faz a escolha.

Quantos "machos latinos" não se aproveitam da beleza de algumas bonecas, que querem subir, chegar ao topo da "montanha" sem olharem a meios. O mesmo se passa com "homossexuais" (homens e mulheres), bem colocados em produtoras e agências, que sempre que podem tentam seduzir jovens, que sabem bem ao vão, por mais inocentes que pareçam...

Como nem toda a gente consegue aguentar a pressão do meio e as "estórias de enganos" em que se envolvem, muitos afogam-se no álcool e nas drogas, outros são capazes de fazer coisas impensáveis...

Esta "sociedade-espectáculo", sem se aperceber, está a fabricar "monstros" e "gente oca", que deambulam sorridentes no ambiente fictício que enche as televisões, de manhã à noite, cheio de "glamour" e de "lantejoulas"...
O óleo é de Pierre de Mougins.

sábado, janeiro 08, 2011

As Caixas de Memórias

Tenho muitas caixas de "memórias", nem sempre organizadas, provavelmente por ter dificuldade em desfazer-me de coisas, mesmo insignificantes, que me transportam para vários lugares.

Numa conversa de café com "poetas", houve alguém que disse que quanto mais se gosta de viver, mais memórias se têm.

Não concordei. E depois de pensar melhor, continuei a não concordar.

O gostar de viver pode ser mais "presente" que "passado", pode ser aproveitar todas as portas que se abrem, andar sempre em frente, sem pensar sequer no ontem.

Teoricamente podemos pensar que quando mais se "vive" e "viaja", mais memórias existem.

Só que nem todos olhamos da mesma maneira para as coisas. Nem todos fazemos o mesmo uso das memórias.

Tenho a certeza que há quem goste e aproveite mais a vida que eu e não tenha tantas "caixas de memórias"...

O óleo é de Roberta Serenari.

quinta-feira, janeiro 06, 2011

A Passadeira Vermelha do Delito de Opinião


Fui convidado pelo Pedro Correia, um dos elementos do blogue "Delito de Opinião" (um dos melhores da nossa blogosfera...), para escrever qualquer coisa.

Claro que foi um prazer (e uma honra), escrever sobre jornalismo, num blogue que tem nas suas fileiras excelentes jornalistas, felizmente no activo.

Escrevi a estória: «Ele não, é anarquista!»
Espero que gostem...

terça-feira, janeiro 04, 2011

Feio & Bonito

Achei curiosa a característica que a minha filha, escolheu para definir o novo professor de ginástica: «é feio». Com seis anos já tem critérios de beleza definidos, sem se preocupar com a "poesia" dos alguns adultos, que encontram beleza em toda a parte...

Fiquei a sorrir porque tinha escrito pouco tempo antes um diálogo entre dois velhos, presos a um banco especial, onde era possível ver o mundo, de trás para a frente e da frente para trás, com pessoas.

O motivo de uma das conversas no banco foi uma mulher que passou e cumprimentou um dos amigos, recebendo logo um comentário do companheiro: «que gaja tão feia!» (é, alguns velhos também dizem a palavra "gaja", ninguém é perfeito...).

Recebeu como resposta: «uma das coisas que aprendi desde muito novo, é que não se chama feia a nenhuma mulher. Nem mesmo às muito feias.»

Fora do diálogo, lembrei-me agora que também tive um professor de português "esteta" que dizia que não existiam mulheres feias. Além de péssimo professor, era mentiroso...

Claro que a definição do bonito e do feio é muito pessoal, mas não vale a pena tapar o "sol com a peneira", pois somos "desenhados" e "esculpidos" de formas muito diferentes, exteriormente e interiormente, nem sempre favorecidos pela tal beleza, que continua a ser "fundamental", especialmente para as mulheres.

Sem chegar ao exagero de dizer que os homens querem-se feios, porcos e maus, aparentemente há menos exigências do olhar feminino, até por continuar a não ser tão franco e aberto como o masculino...
O óleo é de Zeinab El-Seginy, que "dança" entre o feio e o bonito...

segunda-feira, janeiro 03, 2011

A Carta que Não Veio

A última vez que nos encontrámos, ficaste de me escrever, de me enviar os poemas que pensavas publicar, um dia qualquer.

A carta não chegou. Não fiquei muito preocupado. Os relógios rodavam mais devagar e nós sabíamos esperar. Ainda não existiam telemóveis, ficarmos momentaneamente incontactáveis não era nenhum drama, até por vivermos em cidades diferentes.

Só no Verão seguinte soube o que realmente aconteceu. A Mariana contou-me tudo, foste quase forçada a partir para a América de um dia para o outro, não atrás de qualquer sonho, mas a fugir do "céu" que ameaçava cair em cima da tua cabeça. Nem das tuas amigas te despediste.
O teu pai deixou-se enrolar de tal forma nos negócios que só encontrou uma solução para escapar à prisão, deixar o país. Não quiseste abandonar a tua mãe e a tua mana e deixaste tudo para trás.
Assim que olhei este quadro de Javad Azarmehr, lembrei-me de ti. Eras esguia e coleccionavas boinas de várias cores. E claro, ficaste de me escrever, a tal carta que não veio...

Espero que não tenhas desistido da poesia.

domingo, janeiro 02, 2011

A Liberdade Pessoal em Jogo

A hipocrisia e o fundamentalismo raramente têm limites.

Mesmo sem nunca ter sido fumador, não consigo olhar para quem fuma, como um "bandido" ou um "proscrito". Acho que têm todo o direito de fumar nos lugares onde ainda lhes é permitido.

A lei que foi aprovada há três anos é mais que suficiente e preserva a liberdade individual de cada um de nós. Tentar ir mais longe (ainda por cima para imitar os espanhóis...), já começa a cheirar a "doença".

Como muito bem escreveu o Francisco, o álcool é um problema muito mais grave e prejudicial à saúde. E rouba muito mais vidas, especialmente inocentes (então nas nossas estradas, nem é bom falar disso...).

E não se vê o senhor das "gripes" preocupado com o problema, só o fumo é que lhe perturba a alma...


A fotografia é de Robert Doisneau.

sábado, janeiro 01, 2011

Uma Vida Mais Simples

O ano que agora começa pode fazer-nos regressar a hábitos mais simples.
Pelo menos para os que têm estado mais afastados deles.
Nas notícias do dia a falta de assunto foi notória, o foguetório de artificio um pouco por todo o lado (aquele milhão gasto pelo Alberto João, tem muito que se lhe diga...) e o aumento de gasolina acabaram por ser as mais exploradas e desenvolvidas.
Incomoda-me mais o dinheiro gasto no "fogo" que o aumento de gasolina e gasóleo.
A meio do ano, quando tive de me deslocar à "Brisa", em frente do tabuleiro da ponte, para trocar o dispositivo da via verde, pude ver com os meus olhos que sete em cada dez carros que passavam, iam apenas com o condutor...
Nunca fui escravo do carro (nunca vou de automóvel para Lisboa, uma verdadeira "armadilha", cheia de sentidos únicos e onde a ausência de lugares para estacionar é compensada pela acção dos diligentes funcionários da EMEL...). Além de gostar de andar a pé, também não tenho qualquer problema em andar de transportes públicos.
Os "simplórios" como eu, têm algumas vantagens, neste a noutras crises. Foi por isso que escolhi este bonito óleo de Robert Duncan.