domingo, junho 21, 2015

O Casal Italiano


«Habituara-se a ver e a ouvir um casal italiano idoso no café da Alice, que ofereciam uma musicalidade agradável ao espaço.

Falavam de gente que ele gostava, como Pirandello ou César Pavese. O primeiro explorava a má língua e a modernidade nos palcos, o segundo a discrição e a beleza poética.

Vim a saber mais tarde que a Isabela era sobrinha neta da mulher de um dos filhos de Luigi Pirandello, o Fausto, que era pintor. Na infância viveu no mesmo prédio que eles e cresceu fascinada pelo teatro de Pirandello. Ela tem um irmão, o Roberto, que quando era pequeno passava o tempo todo a escutar conversas, que depois transformava em pequenas peças para a família, a quem cobrava bilhetes.

Infelizmente ou felizmente tornou-se advogado, ou seja, pisou outros palcos pela vida fora.

O outro irmão, Marcelo, era mais activo no exterior, adorava pregar partidas e sustos à vizinhança. Isabela confessou que nunca percebeu quem era o verdadeiro artista lá de casa, sabia apenas que eram ambos divertidos e gostavam que os olhassem como uma dupla que precisava de passar uns tempos num hospício.

O marido de Isabela limitava-se a sorrir e a acender cigarros, que raramente acabava de fumar. Preferia as palavras de César Pavese. Era mais dado às poesias que às trafulhices da vida do Pirandello e dos cunhados.


Eram boa gente, percebia-se que ainda acreditavam na natureza humana, apesar de já terem ultrapassado a meia idade.»

A fotografia é de Paola Saeti.

5 comentários:

  1. E não é nada fácil chegar a essa idade e continuar a acreditar na natureza humana.
    Mesmo nada.
    Um abraço

    ResponderEliminar
  2. ...sigo neste time em que acredita na natureza humana.

    ;)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. És do clube dos fixes, Margoh. :)

      Eliminar
    2. Este comentário foi removido pelo autor.

      Eliminar