segunda-feira, junho 29, 2015

Os Falsos Camponeses


«Apareciam por ali na tasca da Maria Russa disfarçados de camponeses, mas eram todos artistas. Pintavam, escreviam, esculpiam e filosofavam. 

Descobri que não só conversavam como riam, cansados de tudo, até de viver. Aquele almoço semanal que se prolongava até ao fim da tarde era quase o seu parque de diversões, onde a única coisa que ninguém podia, era dizer bem de alguém.

Um deles disse: «Pelas viagens que fiz, pela vida que vivi, tenho agora uma ideia bem precisa do mundo. Já não tenho ilusões. Na arte só me interessa o puro, o cristalino, o brutal, o que dói, o absoluto. Mas necessito de beleza para poder suportar tal sofrimento. É por isso que continuo a frequentar a casa de putas da Isaura».

Eu só estava ali na condição de permanecer em silêncio e invisível.

Um outro, de barbas e cabelo enorme falava na recusa, como o principal gesto humano. Anarquista convicto, defendia que a história tinha sido feita por aqueles poucos que disseram não, não pelos cortesãos e conselheiros, muito menos pelos cardeais cinzentos, que também navegavam em terra ao sabor do vento, embora fingissem ter a bênção do deus menor deles.

Num outro canto um antigo professor e pintor, também ele sem esperança nos caminhos percorridos, afirmava que a arte nasce e afirma-se onde quer que exista uma ânsia eterna e insaciável pelo espiritual, pelo ideal. É essa ânsia que leva as pessoas à arte.

Baixou a cabeça desolado, por ver quase toda a gente a fugir para o vazio...»

A fotografia é de Willy Ronis.

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