segunda-feira, janeiro 08, 2007

Os Loucos de Almada

Provavelmente os "Loucos de Almada" mereciam uma canção tão bonita como a aquela que fala dos "Loucos de Lisboa", salvo erro da autoria de João Monge, almadense por afinidade, como eu.
Quanto mais não seja pelas suas pequenas particularidades, merecem que lhes dedique algumas palavras...
Devo começar por referir que uma das coisas que estranhei quando vim morar para estes lados, foi deparar com a existência de várias pessoas com um ou outro "parafuso" fora do sitio, espalhadas pelas ruas, que pediam uma moeda aqui e ali, quase sempre de uma forma pacífica.
Com os anos habituei-me à sua presença e quando me pedem dou-lhes uma ou outra moeda, sem sequer lhes pedir para fazerem o pino...
Embora brinque com as palavras, sei que estou a falar de um assunto sério, que é, quase sempre, uma dor de cabeça para muitas famílias.
Claro que esta loucura transporta sempre algo de cinéfilo e teatral. Há sempre quem faça o seu papel imaginário, seja nos hospitais psiquiátricos, seja nas ruas. E se o Napoleão já está fora de moda, os "polícias sinaleiros" continuam a aparecer em algumas ruas, e dão quase sempre jeito a quem anda nas estradas.
Sem saber como, esta "loucura" passageira, intrometeu-se numa das últimas conversas de café das manhãs de domingo, fazendo surgir personagens históricas, algumas das quais nunca tinha ouvido falar...
As que me chamaram mais a atenção foi o "Brada-aos-Céus" e o "Distribuidor de Pensamentos", pela singularidade dos seus actos.
O "Brada-aos-Céus", tinha o hábito, assim que caía a noite, aproximar-se da Praça da Renovação e começar a gritar para os céus: «Ó Mãe!» Repetia o grito uma dúzia de vezes e depois desaparecia. Diziam que tinha perdido a mãe em menino e nunca recuperou do trauma...
O "Distribuidor de Pensamentos" era aparentemente mais discreto. Andava sempre com embrulhos de plástico debaixo do braço, dos quais retirava folhas de papel com pensamentos escritos que ia colando nas paredes, perante a curiosidade dos transeuntes que passavam.
Explicaram-me que a sua loucura devia-se ao facto de ter sido acusado, injustamente de ter roubado dinheiro do Arsenal do Alfeite, onde era escriturário...
Estes pobres senhores vaguearam pelas ruas de Almada nos anos setenta.
Gosto de pensar que a existência de tantos "loucos" nas ruas da minha cidade, é sinónimo de mais abertura e tolerância da sociedade, e não de abandono...

O Óleo que acompanha este texto é da autoria de António Ramalho e tem como título o "Mendigo".

8 comentários:

  1. Infelizmente, é capaz de ser mais sinal de abandono.
    Eu, devo dizer, não me sinto lá muito seduzida pela convivência forçada com alguns desses loucos.
    Enquanto se contentam em falar sòzinhos, tudo está bem. O pior é quando abordam, "fìsicamente", quem lhes passa perto.
    Já tive duas experiências que não recomendo...

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  2. Parabéns Luís. Aqui está um blog que promete... E fico feliz por ver tanto empenho na blogosfera, tanta vontade em partilhar connosco desde desabafos a imagens, pensamentos e notícias. Obrigada por isso.
    Quanto aos "loucos de Almada" de que falas, só me incomoda algumas situações de miséria que lhes estão, também, associadas. De resto, piores são aqueles que estão disfarçados... que nos sorriem pela frente mas nos tramam assim que viramos costas.
    Um abraço.

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  3. Provavelmente tens razão Sininho...
    Encontramos de tudo neste grupo minoritário, inclusive gente que gosta de assustar e de provocar.
    Devo ter exagerado na dose de poesia que coloquei no texto.

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  4. Bem vinda ao "largo" Minda...

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  5. Veio-me de repente à idéia o "Henrique Maluco" de Caldas.
    Lembras-te?

    Um abraço

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  6. O "Henrique", de momento não estou a ver, Maria...
    Mas ao trazeres as Caldas a este "mundo de loucos", veio-me logo à memória o "Zé", pequenino e simpático, penso que já faleceu.
    Lembro-me que no Inverno, chegava a dormir no hospital... e até na igreja.
    De uma forma geral era acarinhado pela população.
    É nestes casos que noto que a nossa memória é tão selectiva...

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  7. Em Santa Catarina apareciam dois: o «Até logo se Deus quiser» e o «Camaradinha fixe». O priemrio era refractário ao exército e nunca dormia mais de um dia numa terra. Conhecia todos os caminhos desenfiados e terminava as conversas com as pessoas com um «Mais padre menos padre; tem rodas é para andar. Até logo se Desu quiser». O outro fazia-se palerminha mas não era...

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  8. Pois é Zé do Carmo, não há terra que se preze, que não tenha o seu maluquinho carismático, popular por ter qualquer coisa que fura o que consideramos normal...

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