quinta-feira, janeiro 11, 2007

O Último Adelo de Lisboa


Devo confessar que não conhecia o significado da palavra Adelo (indivíduo que vende objectos usados). Embora o senhor Neves possa não ser o último "vendedor" de usados de Lisboa, transcrevemos o texto da autoria de Joaquim Nascimento, que me chegou à mão por José do Carmo de Francisco, porque é uma homenagem a uma cidade que tinha como habitantes pessoas que conversavam... (a ilustração foi retirada do livro "Carta de Lisboa", da autoria de Eric Sarner e Miguelanxo Prado)

Só agora que as novas tecnologias me conferem a possibilidade de visualizar, simultaneamente, boa parte das gravuras que fui comprando ao longo dos anos, me dou conta que é meu dever prestar homenagem ao senhor Neves a quem comprei boa parte delas, entre dois dedos de conversa. Mais sobre a vida do que sobre as peças em exposição e, menos ainda sobre o seu preço.
Até porque entre nós se estabeleceu um pacto secreto: o senhor Neves não me pedia preços muito elevados pois, tendo descoberto o meu pudor para lhe oferecer menos, sabia que devia pedir um preço justo, à cabeça, ou muito perto dele, para não inviabilizar, logo ali, a transacção.
- Tenho pena, senhor Neves, mas não me convém !
Eu sei que este não é o método clássico de formação de preços, muito menos neste ramo de actividade, mas connosco sempre foi assim e, salvo raras excepções em que terei pago simultaneamente o custo, também justo, da aula - o senhor Neves era um bom mestre em gravura, livros e faiança portuguesa e era generoso a transmitir esses conhecimentos – os seus preços foram sempre honestos e quase sempre couberam no meu orçamento que, como bom psicólogo, o senhor Neves intuía com bastante rigor.
Nas poucas vezes que deixei de lhe comprar sempre me arrependi e, quase sempre, quando voltei – ainda as tem senhor Neves ? – as peças já tinham sido vendidas.
Ainda hoje guardo na memória algumas que, assim, deixei de ter.
Nunca disse ao senhor Neves e pouca vezes o terei confessado a alguém que o almoço sentado, substituído por uma sanduíche foi, muitas vezes, a fonte da minha poupança para sustentar a extravagância de coleccionador, donde terá resultado um lucro acrescido para a minha saúde, para a minha elegância e para o prazer de as possuir.
O senhor Neves, no seu adelo, tinha uma empregada com funções imprecisas, mas de simpatia a toda a prova, a Dona Maria para mim, a Maria para o senhor Neves, Dona Maria que, muitas vezes, esteve do meu lado, nesta questão de preços.
Uma das suas funções era fazer o almoço para os dois num espaço precário conquistado à tralha amontoada, outra era reservar, pela manhã, um espaço para estacionamento do velho FIAT 127 do senhor Neves, o mais perto possível do estabelecimento.
A origem das minhas gravuras foi um segredo que guardei usurariamente durante alguns anos, pois não podia correr o risco de contribuir para aumentar a sua procura, promovendo o aumento de preços e a rarefacção o mercado. Eu sei, eu sei que o livre comércio não é isto !
Trabalhei algum tempo fora de Lisboa e, por essa razão, as minhas visitas ao senhor Neves foram-se tornando cada vez mais raras, até que um dia dei pelo estabelecimento fechado e nem sequer me atrevi a perguntar aos vizinhos pelo senhor Neves, receando a resposta óbvia que a sua provecta idade prenunciava.
Prefiro pensar que o senhor Neves ainda lá está, ou vem a caminho no seu velho carro, e qualquer dia reabre o seu Adelo com stock renovado e vai reservar para mim as mais belas gravuras, ou os mais raros incunábulos. Se eu o merecer, ou tiver sorte, talvez até me venda a imagem do patrono do seu estabelecimento ou o vulto policromado da República que, embora em lugar de destaque, eram apenas figuras tutelares do estabelecimento, onde nunca estiveram à venda, por nenhum preço.
O senhor Neves foi o último adeleiro de Lisboa e o seu estabelecimento, esconso, bafiento e desordenado, rés-do-chão e cave, chamava-se, não sei porquê, "Adelo de São Joaquim".

4 comentários:

  1. Na rua de S. Bento, em Lisboa, creio existirem, ainda, uma ou duas lojas de Adelo.
    Sempre achei fascinante entrar naquelas lojas, onde está, espalhado e empilhado, parte do passado de tanta gente que um dia precisou de desfazer as suas casas.
    É gratificante que haja, ainda, um sítio onde se encontre uma velha manteigueira, ou biscoiteira, igual á que ficou na nossa lembrança, de quando entrávamos em casa dos nossos avós...No fundo, é a ilusão de poder comprar uma memória.

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  2. Eu também acho que ainda existem casas destas em Lisboa, até mesmo no Bairro Alto.
    Mas devem ser uma raridade... e serão, autênticos museus vivos, Sininho...

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  3. É bonito o texto, é bonita a ligação entre duas pessoas, é bonita a saudade, é bonito sentir afectos. É pena os lugares onde se sente, e se mostra passado, serem cada vez menos, o que nos faz cada vez mais ficar com cada vez menos largos de memória, onde podemos passear, e quem sabe encontrar o que nem nunca soubemos que procuramos.

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  4. Gostei da visita e das palavras.
    Volta sempre Paula.

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