sexta-feira, novembro 08, 2013

O País dos Xailes Negros


A senhora septagenária, que vestia de negro desde que perdera o companheiro, há mais de vinte anos, nunca tinha visto tantos jovens juntos, vestidos com roupas da mesma cor que as suas.

Num primeiro olhar ainda pensou que poderiam ser órfãos, que se estavam ali a manifestar por qualquer coisa contra o governo. Qualquer direito retirado. Não fosse este um tempo de tantas manifestações e de tanta perda...

Mas depois de olhar melhor, reparou que algumas moças tinham cabelo vermelho, brincos no nariz e até alguns desenhos na pele. Eles não lhe ficavam atrás. além de usarem penteados esquisitos, também tinham os braços pintados e usavam brincos para lá das orelhas. E era raro aquele que não tinha uma garrafa na mão.

Percebeu rapidamente que a única coisa que tinham em comum era a cor da roupa. Foi por isso que mudou de rua e lançou um louvado seja Deus, para quem a ouvisse. 

Num pequeno momento de ausência de fé, pensou que o o mundo talvez seja mesmo uma causa perdida, apesar das orações e dos mil enganos que se vendem por aí. Talvez o seu marido estivesse certo e não existisse nenhum Deus.

Ao ter noção da heresia que invadiu os seus pensamentos, benzeu-se, na tentativa frustrada de afastar os mil demónios que andam por aí à solta, com toda a certeza. 

O óleo é de Will Barnet.

quinta-feira, novembro 07, 2013

Renascer às Vezes é Preciso


Parece título de canção, romãntica, talvez da onda do Roberto Carlos.

Mas não, trata-se apenas de uma constatação, ao olhar alguém que decidiu "voltar ao mundo", depois dos cinquenta...

O casamento também pode ser uma porcaria para as pessoas, entre outras coisas. 

Das coisas que acho mais horríveis é notar a perda de identidade das pessoas, pelo menos exteriormente. Todos nós devemos conhecer alguém que resolveu "envelhecer" através do guarda roupa, como se deixasse de querer agradar ao espelho ou a outra pessoa qualquer. 

Foi por isso que gostei do "regresso" da Cristina, que agora aos cinquenta, decidiu voltar pelo menos aos quarenta. Todos ganhámos com a troca, a única excepção deve ter sido o ex-marido, que não devia fazer ideia que tinha casado com esta mulher surpreendente...

O óleo é de Philip Munoz.

quarta-feira, novembro 06, 2013

As Ruas e os Bairros de Lisboa


Gosto muito de andar por Lisboa, de descobrir novos bairros, novas ruas.

Ontem por exemplo fui à Torre do Tombo e acabei por fazer toda a viagem de regresso a pé, até ao Cais de Sodré.

Claro que não foi uma viagem seguida, houve várias paragens, inclusive para almoço, com a minha companheira.

Fico sempre com a sensação boa de que as ruas em Lisboa nunca acabam, são sempre substituídas por outras. Só lhes vejo o fim quando chego à margem do "Rio da Minha Aldeia".

Agora que o tempo está mais ameno, é um conforto respirar aquele ar do Tejo, que conseguiu recuperar há alguns anos o cheiro típico de qualquer rio...

E como moro na Outra Banda, ainda tenho à minha espera a sempre bela travessia de um rio largo e calmo como quase todos as coisas com "músculo".

Ou seja, ontem foi uma "desgraça de prazeres"...

segunda-feira, novembro 04, 2013

«É tudo ficção. Mal por mal, prefiro ver filmes a noticiários.»


Eu sabia que era quase verdade.

A televisão desde que se tornara "rainha do espectáculo", nunca mais voltou às ruas sóbrias e quase reais. Nem mesmo as produções das quase grandes reportagens, conseguiam disfarçar que se aproximavam mais do cinema de aventuras que da realidade.

Na mesa falava-se da liberdade, da possibilidade de se escolher, dos mais de cem canais do cabo.

O Carlos sorria de felicidade, pois deixara de ter televisão desde que a última (ainda um caixote, longe das coisas finas de agora) se finou. Não sente saudades. Prefere ouvir música (os seus velhos discos de vinil que voltaram a ser moda...) e ler, no seu cadeirão rente ao janelão com vista para a praça Gil Vicente.

O Rui abanou a cabeça e apoiou o lado maioritário da conversa. «é tudo ficção. Mal por mal, prefiro ver filmes a noticiários.»

E eu em silêncio, completamente "fora de jogo". Pensei cá para comigo, devo ser mesmo um viciado em notícias, pois a minha televisão passa mais tempo nos canais de cabo de notícias que nos clássicos da manhã, da tarde e da noite. 

É caso para dizer: «maldito jornalismo que corres quase cá tu lá com o sangue, nas artérias e veias.»

O óleo é de Albert Gleizes.

domingo, novembro 03, 2013

O Respeito do Autor pelo Leitor


Tenho andado de volta de jornais antigos e naturalmente tenho descoberto algumas preciosidades.

Não costumo transcrever textos de outros autores mas como gostei bastante de uma das respostas que Mário de Carvalho deu a Mário Santos, do "Público", a 8 de Abril de 1995, a propósito de "Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde"...

«Há uma espécie de pacto entre mim e o hipotético leitor, que tem que ser respeitado: não posso dar-lhe gato por lebre! E embora às vezes possa inventar descaradamente, tenho que saber minimamente do que estou a falar! É evidente que se este  livro fosse visto por especialistas eles detectariam imediatamente erros! O que eu procuro é dar uma ilusão da realidade, procuro que o livro seja o mais verosímil possível. Como romancista, não como historiador...»

É de Mestre.

O óleo é de Jacob Lawrence.

sexta-feira, novembro 01, 2013

«A sociedade tenta sempre empurrar-nos para uma vida vulgar.»


A Rita hoje estava cinzenta.

O o céu até estava azulado, a chuva se vier, é mais para amanhã...

Falou-me de algumas pessoas extraordinárias que conhece, que estão condenadas ao anonimato, pela simples razão de não fazerem parte de nenhuma "lista" (nem quererem...), seja de partidos, de jornais, de televisões, de rádios, de revistas, etc.

Foi ainda mais longe quando me disse: «a sociedade tenta sempre empurrar-nos para uma vida vulgar. Só escapamos a esta sina, se formos empurrados pela sorte ou se abusarmos da teimosia.»

Apesar das suas palavras terem saído um pouco codificadas, percebi-a muito bem.

Não foi por acaso que a seguir falou da gente que se sente (e é...) poderosa, ao ponto de elaborar "listas de eleitos", quase sempre por amiguismo ou por outro interesse mesquinho.
Isto explica muitas coisas. A que salta mais à vista na actualidade é a falta de qualidade dos nossos governantes... 

Mas a mediocridade grassa em toda a sociedade. Além das pessoas terem perdido a noção do ridículo, acho que nunca se praticou tão pouco a autocrítica.

A escultura é de Aristide Mailol.

quarta-feira, outubro 30, 2013

Isto Está Mesmo Tudo Ligado...


Falava eu ontem da "batota na vida", quando o video com o presidente da FIFA começou a cirandar por aí, em que ele faz a sua escolha. 

Mas o cobarde e hipócrita, não faz apenas uma escolha, aproveita o momento para denegrir um jogador que tem sido sempre exemplar, na forma como tem enfrentado todos os "blatters" desta vida.

Mesmo agora, respondeu de uma forma contundente, sem descer ao nível da criatura (tal como tinha feito com Mourinho...), porque realmente isto está mesmo tudo ligado...

Apesar de perceber todas estas "batotas", não deixo de gostar de futebol. Há de facto algo "mágico" neste jogo, que deixa tanta gente fora de si.

O que gostava mesmo era que o "feitiço se virasse contra o feiticeiro" e que o Cristiano fosse escolhido como o Melhor Futebolista do Mundo.

terça-feira, outubro 29, 2013

Fazer "Batota" com a Vida


A crise que vivemos não é apenas económica e financeira, é sobretudo social e moral. A falta de vergonha e de dignidade dos políticos está a "espelhar-se" cada vez mais na sociedade.

Claro que se fala mais do que o que se faz (há mais gente a dizer que vai começar a mentir e a roubar, que a fazer, e ainda bem...).

E esta crise revela-se em tudo, até nas pequenas coisas da vida. Claro que existem explicações. Se a vida das pessoas fosse um pouco melhor, muitas delas não sentiam necessidade de "acariciar o ego" com a invenção de personagens e de outras vidas, nas redes sociais, por exemplo.

É por isso que nem me armo em "diácomo Remédios", apenas constato com uma realidade, que talvez deixe esta gente feliz...

Só que quando se entra no "salve-se quem puder", vai quase tudo por arrasto.

Não sei se é o "faicebuque" que se mete  mais a jeito, se são as gentes (claro que sei que são as pessoas...), mas não deixa de ser triste a apropriação de textos e fotografias dos outros, utilizando-os como seus, com uma vaidade e uma lata que até chegam a fazer saltar as pedras da calçada.

Não sei se também andam fotografias e textos meus à solta por aí, com "novos donos". Não fico muito preocupado, já percebi que a falta de vergonha e de dignidade vieram mesmo para ficar. A única coisa que sei, é que não é por isso que deixo de escrever, de fotografar e de publicar o que me apetece nos meus blogues.

Afinal também sei outra coisa: a mentira continua a ter perna curta, apesar das crises...

domingo, outubro 27, 2013

Pouco Mais Resta que o Amor


As grandes vitimas deste tempo miserável são as pessoas de idade.

Não são apenas os cortes injustos nas reformas. É também o aumento de rendas, da luz, da água, do gáz. A dificuldade em conseguirem uma consulta médica no centro de saúde onde estão inscritos.

Talvez tenham razão. Talvez estes governantes os querem matar de "tortura", com a passagem dos dias cada vez mais difícil de suportar.

Sabem que pouco mais lhes resta, para além do amor das suas companheiras ou dos seus filhos... 

É por isso que nem querem pensar na vida de todos aqueles que ainda tem de suportar a solidão, cada vez mais amarga e dorida, à medida que os anos passam... 

(se usasse música no "Largo" podia muito bem colocar por aqui uma das várias canções de Lou Reed, cantadas quase como um grito de revolta, perante esta sociedade que deixa cada vez mais a desejar, em sua homenagem...)

sábado, outubro 26, 2013

Escrever, Escrever, Mesmo Palavras Ocas...


Ontem recebi o telefonema de um amigo, quase "perdido", por nos últimos meses não conseguir escrever uma única linha. 

Disse-lhe que ele devia ler, pegar num livro e lutar contra  tudo e todos, especialmente contra a tal falta de vontade, quase demolidora.

Não só senti como acrescentei que era  fácil estar do lado de cá da linha do telefone, dizendo para fazer isto e aquilo,  mas não poderia ir mais longe... o "voltar" dependia sobretudo dele.

Ainda bem que me esqueci de lhe dizer que devia ter um blogue, porque sei que isso não adianta grande coisa... o que há mais por aí são espaços quase abandonados, ou onde as pessoas escrevem cada vez mais espaçadamente.

Posso parecer egoísta (ou até mentiroso), mas o facto da blogosfera estar a perder o seu fulgor e dos seus seguidores "mudarem de rua" não faz parte das minhas preocupações. Digo isto porque este é um dos lugares onde eu me "obrigo" ao exercício da escrita, mesmo quando não me apetece e tenha de escrever quase "banalidades".

Claro que gosto de ler "leitores" e "comentadores", mas...

Espero que o meu Amigo volte a descer a rua e encontre um poema à sua procura, ou uma qualquer crónica do quotidiano, que até pode ser sobre o homem que encontrou as palavras no passeio e as agarrou uma a uma e voltou a sentir-se feliz. 

O óleo é de Louis Marcoussis.

quinta-feira, outubro 24, 2013

A Importância das Palavras dos Outros


Noto que nos últimos anos tenho preferido estar com amigos. Dentro dos possíveis tento estar presente nos seus dias especiais, para lhes dar um abraço ou simplesmente um sorriso e uma piscadela de olho. Vou a menos lançamentos, inaugurações de exposições, etc. E se há coisa que evito mesmo, são as cerimónias com mais "etiqueta". 

Utilizo muitas vezes como desculpa para a minha ausência os meus filhos (o que até é verdade... porque eles preferem quase sempre ter os pais só para eles), que não são obrigados a apanhar "seca", de coisas que ainda não lhe despertam muito interesse.
Claro que há situações das quais não conseguimos fugir... então quando somos quase "intimidados" a estar presentes por quem convida.

E Almada tem uma actividade cultural quase gigante, não há fim de semana que não aconteça mais que um acontecimento com interesse...

Consegui escrever até aqui sem falar no ponto fulcral da conversa de café de terça: aqueles que só aparecem quando são convidados para "botar palavra", com exemplos e tudo. Escutei sem fazer grandes comentários. Até porque a vida tem-me mostrado que há muita gente incapaz de ouvir os outros, só se conseguem ouvir a eles próprios. 

São pessoas que por norma se acham de tal forma importantes que nem se apercebem do que perdem, ao ignorar as palavras dos outros, que são quase sempre tão ou mais importantes que os "nossos espelhos".

O óleo é de Massimo Maramo.

quarta-feira, outubro 23, 2013

A Autobiografia de Sir Alex


Nos últimos dias têm sido revelados na imprensa (e até televisão inglesa...) pequenos episódios que fazem parte da obra, "Alex Ferguson - My Autobiography".

Isso faz com que este livro, apresentado amanhã ao público, tenha todos os condimentos para ser um dos grandes êxitos literários no Reino Unido (e não só...) neste último trimestre de 2013.

É muito importante que aquele que é considerado o melhor treinador do mundo, que esteve vinte sete anos no comando do Manchester United, com um sucesso inagualável na melhor e a mais equilibrada liga de futebol do mundo (são sempre vários os candidatos à vitória final e nunca apenas um ou dois, como acontece na maior parte dos restantes campeonatos...), nos conte o que realmente aconteceu, a sua versão de vários acontecimentos polémicos, que normalmente são distorcidos pela comunicação social (que muitas vezes nos conta a versão mais conveniente para a "guerra" da venda de jornais...).

Pelo que tem sido transcrito, há vários jogadores que já devem estar as "orelhas a arder" (com Keane e Beckham na frente...), e outros agradecidos pelos elogios  (Cristiano Ronaldo, Giggs ou Scholes).

Em relação a Cristiano, Sir Alex diz o seguinte: «Cristiano foi o jogador mais talentoso que treinei. Ultrapassou todos os outros grandes jogadores que orientei no United e foram muitos.»

Apesar de ser conhecido pelo seu mau feitio e pelo autoritarismo, tem uma frase que é tantas vezes esquecida pelos clubes: «Nenhum jogador é maior que o Clube». Penso que em Portugal só o FCPorto é que segue esta frase à risca e é aí que começa toda a diferença...

Uma obra que fará ainda mais furor, daqui a uns vinte anos, será certamente a autobiografia de José Mourinho, até por ele ser muito mais atractivo para os "media" que Sir Alex, pelas polémicas que gosta de provocar, dentro e fora dos relvados...