domingo, maio 12, 2019

«A colecção de arte não volta para as suas mãos»


Um amigo, mais entendido que eu em leis, assegurava-me há alguns meses, que a Colecção Berardo, que está no Museu com o mesmo nome, no CCB, já não saía das mãos do Estado. Falou-me inclusive da tentativa frustrada dos representantes do "dono" de levarem para fora algumas das sua obras mais valiosas, para serem leiloadas.

Depois do espectáculo protagonizado pelo "comendador" na Assembleia da República (onde até tem por lá uma sobrinha...), não sei se será assim...

Joe Berardo, bem acompanhado por um "advogado-ponto", disse  apenas o que quis, sem perder a oportunidade de se rir na cara dos deputados da comissão que o recebeu, sempre que lhe foi possível.

Claro que nada disto é novidade, já passaram pelo Parlamento, vários "berardos", que se limitaram a brincar com coisas sérias, sem que os deputados corem de vergonha ou façam alguma coisa, para alterar este estado de coisas.

(Fotografia de Luís Eme - Alcântara - 45 anos depois de Abril, ainda não conseguimos resolver este problema, continuamos a ser nós, os pobres, a pagar a "crise"...)

sábado, maio 11, 2019

«Eles levam é jeito para o teatro»


Dois rapazes sentados no interior da cacilheiro, acompanhados por uma senhora, que devia ser a avó, estavam longe de imaginar que eu iria escrever utilizando-os quase como "espelhos". Tudo porque uma outra senhora, sentada à sua frente, para combater o silêncio, disse que eles eram muito sossegados... 

A avó sorriu e abanou a cabeça, a dizer que não. Acrescentando de seguida, sem perder o ar alegre: «São o cão e o gato lá de casa. Eles levam é jeito para o teatro.»

Olhei-os e sorri. Eles desviaram a cara para a janela e para o rio e disseram alguma coisa um ao outro, como se aquele diálogo não tivesse nada que ver com eles.

E de repente, ali estava eu e o meu irmão. O "cão e o gato" das redondezas (passávamos o tempo a correr um atrás do outro...), mas sempre com grande compostura, quando estávamos num ambiente estranho. O que fazia com que as pessoas também dissessem que éramos muito sossegados. A mãe sorria, mas muitas vezes não respondia e fingia que sim... até por que gostava da nossa postura, de nunca a envergonharmos em público.

Pois é, nesse tempo, também devíamos "levar jeito para o teatro"...

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)

sexta-feira, maio 10, 2019

Escreve-se Porque Sim e Também Porque Não...


Herberto Helder cruzou-se hoje comigo, em dois textos e uma conversa. A única ligação entre estes três acontecimentos foi a sua vocação de recusa, a sua caminhada livre e solitária, para bem longe das capelinhas e dos "capelistas"...

Ou seja, ele foi o que mais ninguém consegue (e quer) ser...

Pelo meio ainda assisti, em silêncio, a uma discussão quase parva, entre dois meninos que dizem ser poetas, dos bons. O com menos cabelo disse que logo que publicassem 10 linhas sobre um livro do outro, no "Jornal de Letras" ou na revista "Ler", ele em vez de destilar ódio e inveja pela "dúzia" de escritores que eram cortejados, mesmo quando os seus livros eram péssimos (a palavra dita cheirava pior...), passava a lamber os "cus" (já tinha reparado que as "botas" tinham sido substituídas nesta velha expressão...) dos críticos.

Quando vinha para casa, voltei a pensar em Herberto e questionei-me por que razão escrevo. Até que me lembrei, que era por que gostava (e também por que precisava, poupando-me dinheiro em qualquer médico de "maluquinhos"...). ponto final.

(Fotografia de Luís Eme)

quinta-feira, maio 09, 2019

A Ficção Dentro dos Sonhos...


Normalmente os meus sonhos não têm grande nexo, nem são muito fáceis de "colar" à realidade.

Curiosamente esta última noite aconteceu-me uma coisa inédita. Sonhei uma ficção, com uma nitidez que até me forçou a acordar, para a deixar registada em papel (não a queria perder por nada...).

Vou contar: vejo-me a entrar no portão da velha casa dos meus avós maternos e depois continuei a andar, pela casa dentro. Sou surpreendido por um homem, a quem me desculpo pela "invasão", dizendo que aquela era a casa dos meus avós... Foi quando resolvi acabar com o sonho.

O curioso é tratar-se de uma impossibilidade, pois a casa nunca foi habitada por ninguém, depois de a avó ter ido viver para a casa de um dos meus tios... E posteriormente foi destruída pelos novos proprietários (centro paroquial...) e hoje é um campo aberto.

(Fotografia de Luís Eme - Salir de Matos - a última vez que entrei na casa dos meus avós, em 2010. Já não nos pertencia e estava em ruínas. Mesmo assim acabei por entrar  para tirar as suas últimas fotografias...)

quarta-feira, maio 08, 2019

O Fascínio do Futebol Reside Sobretudo na sua Imprevisibilidade


Não queria voltar a falar de futebol, mas quando uma equipa perde por três a zero, com aquela que é considerada a melhor do Mundo (por ter Messi...), e depois em casa, consegue vencer por quatro a zero (sem aquelas coisas estranhas do nosso campeonato...), tenho de fazer uma grande vénia aos seus jogadores e ao seu técnico. 

Para quem não liga a estas coisas do futebol, estou a falar do jogo de ontem das meias-finais da Liga dos Campeões, entre o Liverpool e o Barcelona.

Já hoje escrevi num comentário que o futebol continua a viver mais da improvisação e da inspiração do momento, que das tácticas do quadrado ou do triângulo. E não se pode, nem deve, falar de "lógica", por que isso conta muito pouco. Contam sim os golos que entram dentro das balizas e são validados.

É preciso ter a frieza do mestre Pedroto, que dizia, muito bem, que uma bola atirada ao poste ou à trave, se não entrar na baliza, é um golo falhado...

Eu por exemplo, num dos raros textos que escrevi sobre futebol aqui no "Largo", disse que não compreendia as apostas do Moreirense e do Santa Clara, em dois técnicos (Ivo Vieira e João Henriques...), porque ambos tinham descido as suas equipas na época passada. 

Moral da história: O Ivo e o João foram os treinadores mais em evidência durante a Liga portuguesa nesta época (se excluir Bruno Lage, claro...), com grandes jogos e excelentes classificações das suas equipas.

O pior de tudo, é quando quem nem sequer dá "chutos na bola", quer ser a figura do jogo, acabando por ter uma influência directa no seu resultado final (os famosos "roubos de igreja", que o mestre Pedroto, também gostava de denunciar...). 

E lá se vai a beleza e a imprevisibilidade, daquele que continua a ser o desporto que desperta mais paixões pelo mundo inteiro...

(Fotografia de Luís Eme)

terça-feira, maio 07, 2019

Este Tempo dos "Campos Inclinados"...


Já o disse aqui, mais que uma vez, que uma das razões que me leva a evitar falar de futebol, é conhecer o seu lado menor, por já ter feito jornalismo desportivo. Sei bem demais que o chamado "desporto-rei", além de ser muito mal frequentado, é de tal forma apaixonante, que retira a lucidez a muito boa gente quando fala dos clubes que gostam.

Mas não posso, de maneira alguma, deixar de registar o que se passou ontem no Estádio do Bonfim, durante o jogo entre o Vitória de Setúbal e o Boavista. É muito triste vermos um árbitro a querer ser a "figura do jogo", pelos piores motivos. Tentou "inclinar" o relvado, utilizando uma dualidade de critérios tal, que mexeu com as emoções dos jogadores da casa, ao ponto de a equipa do Vitória ter acabado o jogo com apenas oito jogadores em campo... 

No final de campeonato olha-se sempre para cima, discutem-se os jogos do Benfica, do Porto e do Sporting e esquece-se o que se passa cá por baixo, em que há sempre uma ou outra equipa, que começa a ser "empurrada" para a Segunda Liga. Felizmente há muitas que conseguem resistir e ser mais fortes que as "decisões mentirosas dos árbitros". Espero que seja esse o caso do Vitória de Setúbal, no final da época.

(Fotografia de Luís Eme)

segunda-feira, maio 06, 2019

Os Livros Mudam, Tal como Nós...


Resolvi reler o "1984" de George Orwell, devido a um trabalho colectivo em que estou a participar. 

Já o tinha lido há quase trinta anos, mas nós quando temos 20 anos não temos o mesmo olhar, nem a mesma linha de pensamento, de quando temos 50... Isso explica que não me lembre da sua leitura me ter despertado tantas questões (especialmente sobre o autor e a época em que foi escrito...), como agora. 

Nessa época devo-o ter lido como uma obra de ficção científica e não me preocupei muito com as questões ideológicas que lança (apesar do mundo não ter evoluído tanto - e ainda bem - para o tal tempo quase de sombras e fotocópias humanas...).

Nem sabia que tinha sido escrito pouco tempo depois da Segunda Guerra Mundial e publicado em 1949 (algo que nem me deve ter preocupado nos anos 1990...). Sabia apenas que Orwell era um escritor estranho, ou que, pelo menos tinha escrito dois livros distantes da normalidade (o nosso "Triunfo dos Porcos" também tem muito que se lhe diga...).

Não é difícil concluir que o autor conheceu de perto algumas das práticas dos partidos totalitários (além do nazismo que fora derrotado pouco antes de começar a escrever "1984", Orwell também  foi militante comunista, tendo abandonado a ideologia socialista, assim que teve conhecimento das atrocidades e da falta de liberdade dos países comunistas...).

Aliás, percebe-se que esta obra crítica sobretudo o ideário comunista, inspirando-se num centralismo de estado levado ao exagero, com a presença de uma grande opressão física e mental (não nos permitir pensar pela nossa cabeça nem ter qualquer relacionamento amoroso, tem muito que se lhe diga, mesmo muito...).

Sei que a popularidade do "big brother" televisivo fez com que algumas pessoas lessem este livro. Mas devem ter-se sentido enganados, pois além da proliferação das "teletelas" por todo o lado, não existe mais nada em comum...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

domingo, maio 05, 2019

"Por Teu Livre Pensamento"


Hoje não visitei o Oeste apenas por ser "Dia da Mãe".


Antes de almoçar com a minha Mãe e com o meu Irmão, nas Caldas, passei por Peniche, onde visitei o agora Museu Nacional da Resistência e Liberdade. 

Museu que combina muito melhor com o velho Forte de Peniche, que uma qualquer Pousada de luxo... 

E de alguma forma também homenageei o meu avô paterno,  neste visita, pois ele é um dos 2510 prisioneiros que são evocados no paredão metálico, com a gravação dos seus nomes...

(Fotografias de Luís Eme - Peniche)

sábado, maio 04, 2019

«Não faço ideia... Mas ele é feliz a falar...»


Há pessoas que têm essa capacidade espantosa de conseguirem falar minutos, e até horas, sem dizerem nada. Claro que espalham palavras, mas estas são tão vazias (apesar de terem enfeites e de serem aparentemente cerimoniosas...)  que não se agarram a coisa nenhuma, dentro e fora de nós.

Comunicar é uma coisa especial, e não é mesmo para todos, por muito que se goste de "botar palavra"...

Quando o Carlos me perguntou se o António saberia que falava, falava, sem dizer nada, abanei os ombros com um sorriso, pela franqueza deste amigo. Depois disse-lhe: «Não faço ideia...» acrescentando ainda de sorriso, "mas ele é feliz a falar...»

Acho que a capacidade de falar, também está ligada à capacidade de olhar e de sentir a realidade, de tentar compreender o mundo, sem o fechar com definições...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)

sexta-feira, maio 03, 2019

O Velho Hábito de Partir o Mundo em Dois...


Os dramas humanos que estão ligados à crise política da Venezuela, talvez merecessem uma outra leitura da minha parte.

Mas não consigo passar ao lado do velho hábito da comunicação social de partir o mundo em dois, preparando o "palco" para a peça do costume (quase mais gasta que os dramas de Shakespeare...), "o fantasma da guerra fria". 

Só não sei o que é que a China pensa disso. Mas talvez até ache alguma graça...

Sei que o elogio da estupidez faz parte do quotidiano norte-americano, há bastante tempo. É a explicação possível para as palavras do político dos EUA, que tentou separar o mundo de forma geográfica, ao mesmo tempo que enviava um recado aos russos, dizendo que eles não têm nada que se meter nas "alhadas das américas"... 

Pois, parece que só os norte-americanos é que têm "livre trânsito" para andarem pelo mundo inteiro, disfarçados de "soldados da paz"...

No meio de tanta ambiguidade e de tanta ficção, partilho do ponto de vista do governo espanhol. Não estou do lado de Maduro nem de Guaidó, estou do lado da realização de eleições livres, sem qualquer tipo de condicionalismo.

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)

quinta-feira, maio 02, 2019

Conversas, Queixas e Coisas Loucas...


Nos últimos tempos ouço muitas queixas sobre os outros, essa imensidão de gente.

Reparo que fico mais vezes calado, também com pouca vontade de ouvir. Sei que me falta aprender a levantar das cadeiras ou bancos, atrás de qualquer coisa imaginária, deixando os outros de boca ou de olhos abertos à espantalho...

Falando mais a sério, acho que não mudámos assim tanto. O que mudou foi o "mundo à nossa volta".

Sim, faz-me confusão escutar algumas pessoas que têm o facebook, a dizerem mal desta rede social. É quase como as pessoas que gostam tanto de espreitar pelo buraco da fechadura, como de criticar o que vêem...

Sabia que podia ser possível chamar "puta" a uma mulher dentro de oitenta comentários, utilizando oitenta palavras diferentes. Mas não acreditei. A imaginação é outra coisa... Mais parecida com querer ter asas e voar.

Mas não deixa de ser triste, que a cobardia comece a ser mais celebrada que a coragem, da mesma forma que a mentira tente deixar de ter pernas curtas...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)

quarta-feira, maio 01, 2019

O Atropelo ao Dia dos Trabalhadores


Embora comece a caminhar para a normalidade este apelo ao consumismo, com descontos incríveis no Dia do Trabalhador ("atropelo" que começou com o "rei dos merceeiros", embora depois acabassem por ir todos atrás...), continua a ser extremamente ofensivo, especialmente para todos aqueles que são forçados a trabalhar neste dia Primeiro de Maio.

Claro que isto só é possível num país onde a maior parte das pessoas continuam a viver com dificuldades (cada vez maiores, porque tudo aumenta à nossa volta, menos os ordenados...) e que acabam por ser quase "empurradas" a aproveitar todas as oportunidades que têm, para poupar uns cêntimos.

Ainda ontem estive à conversa com três amigos que viveram intensamente a Revolução de Abril, que não tiveram qualquer pejo em dizer-me que a liberdade de expressão, é quase a única coisa que resta do 25 de Abril. E se olharmos para a nossa realidade, é mesmo assim, e é muito pouco, 45 anos depois... 

Além de sermos um dos países mais desiguais da Europa e da a justiça continua a ter dois pesos e duas medidas, a maior parte dos "patrões" que gostam de falar dos trabalhadores com desprezo (desses que até são capazes de dizer que há trabalhadores que nem merecem o ordenado mínimo...), continuam a viver à sombra do Estado.

O seu tão publicitado empreendedorismo, na maior parte dos casos, não passa de mais uma falácia (os grandes negócios que fazem são através do Estado).

(Fotografia de Luís Eme - Alcafozes)