segunda-feira, janeiro 31, 2011

A Simpatia Lusitana é um Bom Fado

Há quem ande a dizer por aí, que a simpatia lusitana já teve melhores dias, mas como muito bem dizia o Álvaro: «olhe que não, olhe que não.»

Os estrangeiros continuam a querer voltar ao nosso país pela sua beleza natural (os caciques não chegam a toda a parte, felizmente...), mas sobretudo, por serem bem recebidos, com uma simpatia muito própria e espontânea, que é capaz de colocar um velhinho ou uma velhinha de qualquer aldeia remota, a tentar comunicar de todas as formas, com gestos, palavras, algumas até quase "estrangeiras", em adaptações felizes do nosso português, coisa quase impossível de encontrar por esse mundo fora.

Também nos sabe bem encontrar portugueses pelo mundo fora (sim eu sei, de preferência um pouco mais longe que em Madrid ou Paris, aqui também se encontra com facilidade quem tente fugir de nós, ao ouvir a nossa bonita língua, talvez pela proximidade ou por um complexo qualquer, com um nome esquisito...).

Foi o que me contou o Gui, que esteve no Japão e graças a um "cruzamento" ocasional com um casal português, numa das ruas de Tóquio, acabou por jantar com eles e ajudá-los a matar saudades do país que não visitavam há mais de três anos.

É caso para dizer: ainda bem que a Simpatia Lusitana é um "destino"...

sábado, janeiro 29, 2011

A Moda Pode ser uma Coisa Bonita

Não era preciso perguntar-lhe, nada, a forma como andava na rua, hoje mais "passarelle" que ontem, dizia tudo.

Também ele sorriu, de cumplicidade e de mais qualquer coisa.

Sabia que uma roupa bonita e uma maquilhagem, podia mudar as pessoas, mas não daquela forma.

Francisca não tinha mudado apenas por fora, estava também mudada por dentro.

A "moda" dera-lhe um sorriso novo.

Era tão bom perceber o quanto ela gostava de estar e de se sentir mais bonita.


O óleo é de Anna Bocek.

quinta-feira, janeiro 27, 2011

Profissionais do Olhar

Sei que nas grandes cidades há o mau hábito de não olharmos o outro, corremos atrás da indiferença, empurramos, levamos encontrões, raramente recebemos ou pedimos desculpa.

É por estas e outras coisas que continuo a achar que sou um "provinciano". Olho para as pessoas, peço desculpa pela pisadela ou encontrão que dou, enfim, parvoíces, que não são normais nas "capitais do mundo"...

Mas para tudo há uma explicação. Uma das razões para não se olhar o outro, é a miséria alheia estar muito mais presente em Lisboa (quase em todas as ruas...), que numa simples cidade de província.

Hoje, no coração da Capital, dei por mim, várias vezes, a desviar os olhos dos "profissionais do olhar", que se espalham por toda a parte. Espertos (eles e elas), oferecem-nos a expressão mais pungente que conhecem, na tentativa de nos "fazer doer", a ver se nos "espremem" e conseguem fazer cair uma moeda, ou até nota...

Fiquei a pensar que se não fosse "provinciano", se não tivesse a mania de olhar o outro, escapava a este jogo quase de "pantomina"...
O óleo é de Jean Paul Tibbles.

A Qualidade e o Elitismo têm de Ter um Preço

Sempre fui contra a alimentação de "elitismos" e de gente "especial de corrida", na sociedade. Provavelmente foi por isso que sempre estudei em escolas públicas, tal como acontece hoje com os meus filhos.

Não concordo de maneira nenhuma com a campanha de "intoxicação" (mais uma para variar...), onde se tentam misturar escolas particulares que são a única alternativa para alguns alunos, com estabelecimentos de ensino altamente elitistas, que nem sequer escondem a placa, "reservado o direito de admissão".

É por isso que acho muito bem que os contribuintes portugueses deixem de pagar "mordomias" que estão apenas ao alcance de alguns alunos, quase sempre filhos de gente que tem posses para pagar, embora prefiram mamar na "teta do estado", à boa maneira empresarial. Muitos deles são trabalhadores independentes, que apenas declaram uma parte do ordenado, mas que não têm qualquer pudor em levar os filhos à escola com carros topo de gama nem em exibir as vivendas de luxo onde vivem.

Eu não tenho nada contra o ensino particular. Apenas penso que quem lá quiser inscrever os filhos, terá de pagar, tal como eu pago, quando prefiro ir a um médico particular e não ao centro de saúde.

Claro que há alguns aspectos que devem merecer uma atenção especial do Estado: os professores que vão para o desemprego devem ser absorvidos pelo ensino público, assim como todos alunos. São quem tem menos culpa de um "sistema" (mais um...) que se tem arrastado durante anos e anos e tem sido uma "mina de ouro" para meia dúzia de pessoas.
A fotografia é do grande Robert Doisneau.

quarta-feira, janeiro 26, 2011

O Mistério Quase Diário...

Ele nunca tinha pensado que a ilusão se podia alimentar durante anos e anos, apenas com uma simples troca de olhares.

Foi por isso que a frase do amigo lhe soou estranha, pelo menos de inicio: «sabes, a ilusão, enquanto está viva nunca se transforma em desilusão.»

Depois desabafou que foi por isso que nunca quis ir mais além, se limitou a olhar e a sonhar, com a mulher misteriosa que subia todos os dias a sua rua.

Concluiu a conversa, afirmando que a realidade não tem qualquer magia.
O óleo é de Nancy Seamons Crookston.

terça-feira, janeiro 25, 2011

O Atrevimento do Olhar

Gosto de arte, gosto de museus, gosto de exposições, gosto de olhar, gosto de sentir, gosto de escutar...
E muitas vezes as visitas a uma exposição são um belo exercício para os ouvidos, graças aos comentários dos meus filhos, capazes de ver coisas que os meus olhos nem sempre alcançam.
Basta que uma obra peça muito mais que um olhar, ser insinuante e viva, para que eles digam coisas capazes de confundir o próprio autor.
É também por isso que gosto de gostar.

O óleo é de Cláudio Dantas.

domingo, janeiro 23, 2011

Nem Rendido Nem Convencido

Não fiquei rendido e muito menos convencido.

Mas é alarmante que a abstenção já vá nos 52,5%.

E claro que acho estranho que o senhor Silva tenha ganho em distritos como Beja, Évora ou Setúbal.

Quem ainda tivesse algumas dúvidas de que o nosso país mudou muito nos últimos anos (para pior...), perdeu-as agora, de certeza.

Ao contrário dos "gazeteiros", enquanto puder vou votar, sempre. Por mim, pelo meu pai e pelos meus avós.

O desenho é do Rui, de 1996, quando alegrava as páginas da "Visão".

sábado, janeiro 22, 2011

Vota Bem Domingo

Nunca me fiei em sondagens e normalmente sei sempre em quem hei-de votar.
Mas se por acaso tivesse dúvidas, nunca votaria em alguém que diz que para serem tão honestos como ele têm de nascer duas vezes, mas que se escusa a esclarecer as dúvidas que persistem sobre os "ovos de ouro" que as "galinhas" do BPN e SLN, puseram, só para alguns amigalhaços, como ele e a filha, por exemplo.
O boneco feliz é do Gui.

sexta-feira, janeiro 21, 2011

Envelhecer Depressa...

Cruzei-me com uma vizinha, que tem mais ou menos a minha idade, e notei, que está a envelhecer depressa demais.

Nos últimos anos só trocamos o normal bom dia ou boa tarde. A última vez que trocámos mais que estas palavras avulsas do quotidiano, foi pouco tempo depois de ter nascido a minha filha.

Os seus olhos brilharam de felicidade, com um «deve ser tão bom ter um casalinho...»

Felicidade que se desvaneceu quase de seguida quando me contou em forma de desabafo, o seu drama familiar de sempre querer ter filhos, do marido não gostar de crianças e até chegar a ameaçá-la com a separação, caso ela fosse longe demais e tentasse o "golpe da gravidez acidental".

Nunca teve a coragem de o fazer, e agora, quase com cinquenta anos, deve sentir que o tempo da maternidade já passou.

Tenho quase a certeza que é esta a causa de estar a envelhecer depressa demais.

É impossível não reparar no seu ar triste quando nos cruzamos, parece que já não sabe sorrir...
O óleo é de Gustavo Catalan.

quinta-feira, janeiro 20, 2011

"Posta" ao Café

Enquanto bebíamos café, a Rita chamou-me a atenção: «é preciso teres muita lata, para escrever coisas tão básicas». Percebi que tinha "poisado" os olhos mais no título que no texto, como se o "Largo" fosse o "Correio da Manhã", que olhamos de soslaio, quando passamos pelo quiosque dos jornais.

- Lata? Não, eu tenho é um bidom.
- Às vezes pareces um velho a escrever.
- Como é que se escreve à velho?
- Utilizando coisas fora de moda, ultrapassadas.
- Olha que não...
- Olha que sim.
- Queres mesmo falar no assunto?
- Quero!
- A verdadeira questão é porque razão pensar em sexo, nos pode levar à "porcaria"...
- Há palavras que não devem ser levadas à letra. A carga da palavra pode não ter o sentido que lhe deste.
- Como é que sabes? Fui eu que a escrevi, pode ser uma simples ficção, ou pode ter sido apanhada num diálogo qualquer. Mas acho que é real. Há mulheres que chamam isso aos maridos por eles gostarem de sexo.
- Talvez não olhem para o sexo como uma coisa limpa.
- Provavelmente. Deve andar por ali dedo da educação de sacristia.
- Sim, tens razão, ainda há muita recriminação sexual. Por ser mulher é que tenho mais pena que ainda existam tantas mulheres que tenham medo de ter prazer.
- Com essa frase, silenciaste-me...

E foi assim mesmo, pagámos os cafés e batemos em retirada, ela para Norte e eu para Sul...

«És um porco, só pensas nisso!»

E de facto pensava cada vez mais "nisso", tinha sempre a sensação que gostava mais de sexo que a mulher.

David não se achava um porco, talvez ligeiramente tarado. Mas nem sempre fora assim...

Claro que não tinha saudades dos seus tempos de "inocência". Ninguém deve ter.
Viajou pela memória e descobriu a primeira vez em que lhe apeteceu chamar "porco" a um homem. Começou a trabalhar com apenas dezasseis anos, numa fábrica de decoração. Foi empurrado para a secção das costureiras e dos criadores, onde fazia um pouco de tudo. Nesse tudo faziam parte as alterações dos quartos e salas que serviam de modelo para os clientes.

O chefe, um sujeito alto e com uma grande penca, costumava mandá-lo juntamente com uma miúda da sua idade, filha de uma das costureiras, para as limpezas e preparação da mudança de cenário. Tornaram-se amigos e aproveitavam para falar de coisas que não podiam falar à frente dos colegas mais velhos, quando estavam só os dois. Esta cumplicidade não passou despercebida ao "manda chuva".

Uma vez perguntou-lhe, descaradamente: «então já comeste a miúda?» David não lhe deu qualquer resposta, mas ofereceu-lhe um olhar onde demonstrou não ter achado graça à questão. E claro que não "comera" a miúda. Sabia que aquele não era o local, nem a hora para "isso".

Ao pensar nisso, sente que aos dezasseis anos o sexo não era uma prioridade na sua vida, como não deve ser, na vida de qualquer adolescente. À distância de trinta anos, pensa que a inocência, misturada com as muitas dúvidas e incertezas, arrefeciam o desejo.

Agora também era chefe de secção, mas nunca seria capaz de perguntar a um empregado, se já tinha feito isto ou aquilo, com uma das colegas. Nem era coisa que o preocupasse.

Uma coisa não invalidava a outra e não tinha dúvidas que pensava muito mais em sexo que antes. Talvez a mulher tivesse razão...

O óleo é de Van Wieck.

terça-feira, janeiro 18, 2011

Uma Aproximação ao Surrealismo e ao Hiper-realismo

Uma experiência pessoal curta, as conversas de café, as chamadas de atenção para este ou outro pormenor, como esta do Francisco, cujo hipotético exagero me parece muito menos surrealista que aquilo que se vive actualmente no "faiceboque".

A notória banalização daquilo que se pode chamar a nossa identidade pessoal, nem é o mais dramático. Nunca foi tão fácil deitarmos fora aquilo que não gostamos em nós. Até nos podemos dar ao luxo de "oferecer" um novo rosto e um novo corpo à "outra pessoa" que nos acompanha para todo o lado, vinte e quatro horas por dia. Além do "retrato" físico, também podemos melhorar o psicológico, pois continua a ser fácil misturar ficção com realidade, oferecendo "sonhos" aos "amigos" de ocasião, que queremos felizes e numerosos.

Faz bem ao amor próprio? Talvez. Não tenho conhecimentos assim tão profundos de psicologia para afirmar o que quer que seja neste campo.

Mais grave que esta banalização da identidade, é a mistura que se faz entre o que é privado e o que é público. Penso que esta "confusão" não é alheia ao que se passa hoje na comunicação social, em que vale quase tudo para conseguir uma notícia ou uma imagem, quase num clima de hiper-realismo.

Mas pior que os pormenores "intimistas" das suas vidas, são as imagens. Algumas pessoas expoem os seus familiares nas suas páginas pessoais, especialmente os filhos, através de fotografias, assim como os seus amigos.

É cada vez menos do outro mundo, andarmos por aí, dentro de fotografias que nem sabíamos que existiam, capazes de alimentar a vontade de "aparecer" e de ser popular, de alguém que nunca ultrapassou os fracassos do liceu.
E isso sim, incomoda-me, porque se entra na esfera privado do "outro"...

O óleo é de Georgy Kurasov.