quarta-feira, junho 24, 2026

Nunca tinha pensado nisso, mas basta olharmos para o mundo, com olhos de ver...


Estava quase a chegar a casa, quando me cruzei com uma vizinha (daqueles com quem nunca trocámos qualquer palavras, nem mesmo um simples bom dia ou boa tarde...).

Ela falava com o seu pequeno cão (quase de bolso), como se fosse uma pessoa. Depois de lhe dar uma reprimenda quase a brincar, fez-lhe uma festa.

Estou farto de ouvir falar da "transferência familiar", dos animais que são tratados como filhos pelos seus donos, quase sempre com mil cuidados. Além das conversas diárias, como a que assisti, vivem no interior das casas, são regulares visitas ao veterinário, e os seus "pais" até os costumam "vestir", especialmente no tempo frio.

Mas desta vez pensei na "transferência de afectos"... Nunca vi esta senhora com um homem ou com uma criança. A sua solidão é igual à de milhares de pessoas, especialmente mulheres, que marcadas por más experiência de amor (nós homens somos bons como "bestas humanas"...), dentro e fora da família  nunca mais nos dão qualquer possibilidade de aproximação, pelo menos intima e afectiva.

Nem se trata de uma "solidão invisível", como por vezes se gosta de dizer. Ela é bem visível, está bem presente aos olhos de todos...

Basta olharmos para o mundo que existe à nossa volta.

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


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