quinta-feira, março 28, 2019

O Testemunho de um Homem do Teatro...


Ontem festejou-se o Teatro, mas o que me ficou deste dia foi a entrevista que Jorge Silva Melo deu ao "DN". Provavelmente, por ele ter tido a coragem de colocar o dedo "numa das feridas"...

«O Estado permite que haja teatro em condições cada vez mais fechadas para os espectadores, com espectáculos que fazem três/ quatro récitas. É uma coisa inadmissível, porque é o mesmo que dizer "não venham cá", levar os empresários teatrais institucionais a não acreditarem nos espectáculos que só têm dois/ três dias porque têm a certeza que os primos, os namorados e os irmãos irão ver mas não acreditam na capacidade de se tornarem acontecimentos. São pequenas festas entre amigos e é isso que tem acontecido lamentavelmente. Nos últimos cinco anos o teatro é insultuoso para os espectadores, pois estão a dizer 'vocês não são da profissão e nós só estamos a trabalhar para os profissionais da profissão'. A maior parte dos teatros institucionais têm o seu público entre aspirantes a pessoas que fazem teatro e reformados de pessoas que fazem teatro, portanto são festas de primos em vez de abrangerem a sociedade. O teatro que eu pensei ser possível também em Portugal seria o teatro cívico, ou seja, para a sociedade numa cidade grande como foi Lisboa antes de ficar esvaziada. Qual é o lugar do teatro?»

É uma boa pergunta... Este não será, com toda a certeza.

É raro vermos alguém "do meio" a fazer um retrato tão lúcido de uma Arte (e infelizmente não é a única...), que se está a deixar  levar "pela onda", para não perder os subsídios atribuídos...

Mas é uma pena que a gente do teatro puxe cada vez menos  pela imaginação, aceitando as "regras do jogo", institucionais, sem perceber que aos poucos e poucos, vai perdendo  a independência e a liberdade, elementos-chave para que este espectáculo seja único...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)

2 comentários:

  1. Concordo com tudo o que foi dito. Parece que o teatro já não chama tanto público, e se antes chamava pouco, agora, então, nem se fala.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Sim, está perder-se a preocupação de se chegar às pessoas, Lua Azul...

      Eliminar