quarta-feira, janeiro 06, 2016

A Senhora que Queria Mais que uma Caixa de Comprimidos da Farmácia...






Uma senhora de idade falava, falava, sem vontade nenhuma de abandonar o balcão da farmácia. Em vez de me incomodar olhei com a cumplicidade possível a farmacêutica, por perceber que a cultura do mundo dos medicamentos era insuficiente para o bom exercício daquela profissão. Exigia-se cada vez mais uma grande capacidade de dialogo, para que os clientes nunca sentissem que estavam a ser empurrados pela porta fora. 

Sei que eles (mais elas...) não se contentam com os comprimidos para a tensão ou a pomada para o reumático, querem um tempo para contar pedaços das suas vidas, partilhar dores, e se possível, receber ainda um parecer clínico. Porque nas visitas aos hospitais e centros de saúde, com as mudanças operadas nos últimos anos, não são tão bem tratados como na farmácia, que é quase a mercearia do bairro...

Ela sorriu com os olhos cansados, como se me quisesse dizer que não podia "despachar" a senhora, que precisava tanto de trocar umas ideias sobre as suas doenças. 

Embora tivesse a senha seguinte, fiz de conta que tinha todo o tempo do mundo.

E pensei: maldita solidão... Eu sei que falar com as paredes é muito diferente de conversar com pessoas...

(Óleo de Irena Jovic)

14 comentários:

  1. A solidão é tramada. Ela mata mais que qualquer doença e é o que mais temo. Reparo que homens e mulheres, da minha faixa etária, alguns mais velhos e outros nem tanto, metem conversa com qualquer pessoa, na rua, na paragem do autocarro, na saída da igreja. É como se precisassem de ouvir outra voz para saberem que são gente e estão vivos.
    Um abraço

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    1. É verdade, Elvira.

      E precisam mesmo de ouvir outra voz e de receber um sorriso.

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  2. O Luís consegue sempre pinturas lindas, para ilustrar os seus textos.
    Isto, quando não são fotos suas, igualmente muito bem escolhidas.

    Na farmácia onde costumo ir aviar a minha medicação, única aqui na zona, tenho assistido a episódios como o que acabou de contar.
    Eu própria já tenho feito desabafos quando a ocasião se proporciona e não tenho ninguém atrás de mim para ser atendida.
    Não é bem como as 'boticas' de antigamente, mas quase.

    Depois...nem todos têm acesso a este meio de comunicação. Já me tenho referido à blogosfera como uma forma de terapia.

    É triste? Não sei! Mas sei que é muito bom, depois de um dia de trabalho, vir visitar a vizinhança virtual...

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    1. Mas não há nada como uma voz um sorriso verdadeiro, Janita...

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  3. Amei seu cantinho!!!!!!!!! Seguindo!!!!!!!!!!! Abraços
    http://gigicandy29.blogspot.com.br/

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  4. Vizinhança virtual? mas haverá maior solidão do que a vizinhança virtual?

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    1. Há sim, Seve!

      É não ter vizinhança alguma!!

      :)

      Janita

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  5. Gosto da forma como relata pedaços da nossa sociedade.

    Abraço

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    1. É que a vida nos mostra, aqui e ali, Rita...

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  6. Acontece (quase) sempre que vou à farmácia... Dói, não é? Dói...

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    1. E torna-nos mais tolerantes, Graça.

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  7. a solidão é triste quando não é procurada.
    :(

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  8. Triste é pouco, Piedade...

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