domingo, junho 30, 2019

«A cultura de massas é uma treta!»


O meu amigo Gui continua a ser um libertário, em praticamente tudo na vida.

Da última vez que conversámos, a minha Cidade acabou por vir à baila, assim como a nova gestão do PS e PSD (que continua praticamente invisível, no seu pior sentido, quase a caminho do vazio...).

Mas do que mais falámos foi de cultura, do passado comunista, dos males do "centralismo democrático". Houve uma parte da conversa em que ele se exaltou mesmo e quase gritou: «A cultura de massas é uma treta! Só resulta num batatal e mesmo assim este tem de ser muito cuidado, não pode faltar água e estrume, e nas medidas certas.»

Não que eu precisasse de ser convencido do que quer que seja, mas tentei fazer ver-lhe que havia uma vontade maior de fazer cultura numa cidade como Almada, que nas Caldas da Rainha (eu sei que recorro sempre aos mesmos exemplos, mas são as melhores realidades que conheço, ainda por cima, completamente antagónicas...). Disse-lhe que em Almada havia centenas de escritores, poetas, artistas plásticos, actores, que tinham "bebido" de todo o trabalho realizado através de exposições, acções de formação, peças de teatro, colóquios, etc.

Disse-me que não. E acrescentou: «O que há em Almada é muita gente que tem a mania que é escritor, pintor, actor, escultor, poeta ou realizador. Gente que pensa que basta escrever um livro ou pintar um quadro, para serem reconhecidos como artistas.»

Voltou à cultura de massas para dizer que ela gera sobretudo muita mediocridade. Ainda contra-argumentei que da quantidade é mais fácil surgir a qualidade. Respondeu-me só com uma palavra: «Balelas.» Palavra que voltou a repetir mais duas vezes.

Quando nos despedimos estava longe de estar convencido. Mas à medida que caminhava para o cacilheiro, sabia que estava mais confuso...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

sábado, junho 29, 2019

O Poder e a Oposição entre o Humanismo e o Nacionalismo


O humanismo não defende, nem quer, o mesmo que o nacionalismo, é por isso que estão quase sempre em oposição, tanto na Europa, em África, na América ou na Ásia.

Se os humanistas ficam demasiadas vezes preso às ideias, os nacionalistas não descansam enquanto não são poder, para conseguirem criar todo o género de obstáculos a quem chega de fora - preferencialmente se vierem apenas com uma mão à frente e outra atrás.

Nestes tempos cheios de "anestésicos", as suas palavras chegam mais depressa aos ouvidos do "povo", que, por exemplo, a sucessão de imagens televisivas (talvez pela sua banalização...), que relatam mortes de crianças e adultos, no Mediterrâneo ou no Rio Grande.

É por isso que não estranho que no nosso país - onde não "existem" racistas nem nacionalistas - se critique a nova "invasão" de brasileiros, mesmo que a sua maioria venha fazer o trabalho que nós não queremos fazer (precário e mal pago...), tal como acontece nos países para onde emigramos.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

sexta-feira, junho 28, 2019

O "Oásis" da Estrela


Com o calor de Verão a querer apertar, foi bom entrar dentro do Jardim da Estrela e circular calmamente, aproveitando algumas sombras e as vistas.

Não fosse este Jardim, um lugar bonito e sempre de passagem agradável.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

quinta-feira, junho 27, 2019

«Sei que pode parecer estranho, mas vivo muito bem com o pouco que tenho»


Eu sei que é difícil nestes tempos, povoados de apelos e tentações, ser-se capaz de dizer esta quase "barbaridade" (e de viver, claro...): «Sei que pode parecer estranho, mas vivo muito bem com o pouco que tenho.»

Mas existem pessoas assim, talvez para serem a excepção que confirma a regra...

Um daqueles acasos da vida que por vezes nos acontecem, fez com que conhecesse alguém, que, por opção pessoal, resolveu "voltar atrás no tempo", procurando rodear-se apenas das coisas que lhe fazem falta para viver. E são apenas três; a liberdade, a paz e o amor.

Na viagem de regresso a casa acabámos por falar do modelo de vida escolhido pelo João. Curiosamente ninguém o criticou. Todos falámos com admiração da sua coragem, não só por insistir em viver num "tempo diferente", mas também por não se deixar condicionar, em nada, por este mundo que nos cerca (é por isso que não tem televisão, telemóvel ou computador na sua casa...)

Para além das plantas e dos animais que o rodeiam, conta também com a companhia dos livros e dos discos.

Gosta de ser tratado como "artista-agricultor". Porque hoje ele é isso... pinta quando lhe apetece e cultiva os bens que gosta e considera essenciais para a sua alimentação.

Depois deste exemplo, fiquei com a sensação de que continuo a saber muito pouco da vida...

(Fotografia de Luís Eme)

quarta-feira, junho 26, 2019

Os Dias Grandes e os "Operários Europeus"...


Nestes dias grandes, em que às vinte e uma hora ainda é dia, sabe bem andar por aí pelas ruas. 

E por estes dias ainda temos a vantagem de o calor dos "quarenta" andar fugido um pouco mais para norte, ou seja, afastou-se ligeiramente dos povos do Sul do Mediterrâneo, que segundo os "operários europeus" (que passam o ano inteiro em férias no nosso país...), se escondem atrás do sol, para não fazerem nenhum.

Embora nós é que sejamos "alérgicos" ao trabalho, nunca percebi muito bem como é que milhões de pessoas por esse Mundo fora (e de todas as idades...) podem andar quase sempre de férias. Sei que a riqueza sempre esteve mal distribuída, mas mesmo assim, acho estranho ver tantos ingleses, alemães, holandeses, franceses, suecos e noruegueses (e fico-me por aqui), a quererem roubar-nos o nosso Sol, nas esplanadas ou nos degraus que se ergueram à beira Tejo...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

terça-feira, junho 25, 2019

As Patetices dos "Sabões"...


Só hoje é que li algumas notícias dos últimos dias, inclusive alguns artigos de opinião.

Embora saiba que Henrique Raposo de vez em quando escreve umas coisas parvas, ainda não tinha lido uma referência tão patética aos comunistas e aos concelhos onde têm sido poder (como são o caso de Almada, Seixal, Barreiro ou Loures) como a que ele escreveu no "Expresso", no passado sábado.

Quando alguém escreve: «E, já que estamos aqui, onde é que ficam os bairros de lata? Em concelhos ligados historicamente ao PCP. Porquê? Eu ajudo: o povo que vota PCP tem, digamos, uma relação complicada com ciganos e negros. Porque é que não se fala disto? O racismo, tal como o snobismo, é só da direita.»

Só alguém que desconhece a realidade - e que deve ter algum trauma de infância em relação ao comunismo e aos comunistas (talvez continue a pensar que eles "comem criancinhas"...) -, pode escrever uma barbaridade destas.

Estes bairros existem porque são a única possibilidade que muitas famílias - que vivem no limiar da pobreza -, têm de ter um tecto. Se têm crescido mais em concelhos comunistas, é por que os seus governantes entendem que só os devem destruir, quando conseguirem arranjar habitações suficientes para os realojar, com dignidade. 

Se por um lado as questões raciais não devem ser enquadradas apenas no "território" das ideologias, por que haverá gente racista, tanto na esquerda como na direita, por outro, quanto mais se apostar na justiça social, mais fácil será a integração das minorias, tanto nas escolas como nos bairros de concelhos como Almada, Seixal, Barreiro ou Loures. E eu não tenho dúvidas de que os habitantes destes concelhos fazem menos distinções sociais, que as gentes de outros concelhos, pequeno-burgueses.

(Fotografia de Luís Eme - Monte da Caparica)

segunda-feira, junho 24, 2019

A Estranheza do Regresso...


Sempre que estou uns dias sem escrever nos blogues, o regresso torna-se estranho.

Não só me faltam as palavras, como também me falta a vontade de voltar ao ritmo habitual.

Como em tudo na vida, a disciplina, o hábito, ou para ser mais directo, a "normalidade", precisam de exercício diário...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

sexta-feira, junho 21, 2019

À Procura de Espaço...


Ontem não estive e hoje também não estou cá. Quer dizer, acabo por estar (porque podemos agendar "postas"...), mesmo que não esteja.

São só quatro dias, em que ando por aí, ao encontro de novas paragens, aproveitando para esvaziar a cabeça de algumas coisas, para arranjar espaço para outras...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)

quarta-feira, junho 19, 2019

Um Olhar Pelos Sorrisos dos Bastidores


Não sabia exactamente qual era o objectivo de todo aquele treino colectivo ao espelho. Eram só miúdas. Tanto podia ser um filme, uma telenovela ou um simples anúncio de publicidade.

Eu é que passei à hora errada naquele corredor e vi aquelas raparigas giras a construir o melhor sorriso e a melhor pose, para qualquer coisa, que se iria passar nos minutos seguintes.
Continuei a andar até chegar ao fim do corredor, satisfeito, porque os sorrisos, mesmo ensaiados, sabem bem...

(Fotografia de Luís Eme - Corroios)

terça-feira, junho 18, 2019

Lisboa, Uma Cidade (ainda) Diferente...


Lisboa é uma cidade muito diferente de das grandes capitais europeias.

Embora possua uma beleza muito própria - graças ao pitoresco que se cola aos bairros antigos, e também à luz que reflecte nas suas sete colinas e também nas águas calmas do Tejo -, está longe de ser uma cidade funcional e bem estruturada como Paris, Londres ou Berlim.

Felizmente tem vários milhões a menos de habitantes, quando comparada com as grandes cidades europeias, o que faz com que ainda seja possível circular com alguma tranquilidade pelas suas ruas, fora das chamadas horas de ponta...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

segunda-feira, junho 17, 2019

Estamos Cada Vez Mais Apanhados pelo Clima...


Embora o poder do dinheiro continue a ditar as regras de quase tudo, há várias coisas que não consegue controlar.

A mais poderosa é a natureza, que está cada vez mais rebelde e responde sempre que lhe apetece, de uma forma mexida e barulhenta, tanto no mar, na terra como no ar...

Descobrimos mudanças todos dias, em pequenas coisas, como por exemplo esta normalidade de ser "outono" em todas as outras estações. Sim, agora caem folhas no Inverno, na Primavera e no Verão...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)

domingo, junho 16, 2019

«Hoje, mais que os livros, premeiam-se os autores»


Os prémios literários raramente são temas de conversa (pelo menos nas conversas que mantenho com as pessoas que escrevem...) E quando se fala dos ditos prémios, é quase sempre para dizer mal de alguém (e tanto pode ser o vencedor como um membro do júri...).

Foi por isso que foi bom escutar o Zé a dizer: «Hoje, mais que os livros, premeiam-se os autores.» E nem teve qualquer problema em falar de si próprio: «Por acaso, o único prémio literário que recebi, foi dado a um dos livros com que menos me identifico.»

Mas quis ir mais longe e acrescentou: «Embora esteja na moda, é uma parvoíce entregar "prémios de carreira" a quem tem menos de 80 anos...»

Quando lhe perguntei por que não recusavam este tipo de prémios ele foi taxativo: «De uma maneira geral as pessoas que escrevem não vivem muito à vontade. Pelo que todo o dinheiro é bem vindo...»

Foi quando o Rui resolveu um ar da sua graça e disse: «Ainda bem que o Herberto era milionário, pôde recusar uma data de prémios, E alguns até eram chorudos.»

Acabámos todos por sorrir, usando várias cores.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)