quinta-feira, novembro 05, 2015

Quase Teatro na Biblioteca


Podia ser quase um número de teatro, mas aconteceu numa tarde destas. O cenário é a biblioteca da Incrível e as personagens uma mulher que gosta de livros e o bibliotecário (sim, eu mesmo).

Ela ia andando pelos pequenos corredores da biblioteca, à espreita dos nomes das lombadas dos livros, sem no entanto os tirar do sítio. Depois perguntou-me:

«Incomoda-te que quase ninguém frequente esta biblioteca?»
«Não. Não me incomoda, nem preocupa muito. Sei que há bibliotecas com melhores condições e com livros mais bonitos que esta.» Ela insistiu agora com uma quase afirmação.
«Mas de certeza que gostavas que existissem mais leitores.»
«Nunca pensei a sério nisso, mas acho que sim. Sei que esta biblioteca ainda podia ser mais que um quase museu. Mas também sei que estes tempos não são de livros, é difícil resistir ao mundo que nos aparece a um simples toque de telemóvel. Vejo-o pela minha filha que andava sempre com um livro atrás e agora anda a namorar um "tablet" para o Natal, porque o telemóvel é demasiado pequeno para ela estar dentro do "mundo"...»
«Consegues perceber porque razão estas bibliotecas eram tão frequentadas há cinquenta e sessenta anos?»
«Claro que consigo. Em primeiro lugar os livros eram caríssimos nesse tempo, comparados com outros bens essenciais. Isso fazia com que não existisse o hábito de teres uma biblioteca em casa, o normal era ires requisitar um livro para ler às bibliotecas das colectividades. Em segundo lugar, tirando o trabalho, o cinema e os bailes de fim de semana, não havia muito mais para se ocupar o tempo. E não menos importante, os livros eram uma das poucas oportunidades que existiam para se conhecer o mundo, e até de se sonhar. A televisão só apareceu no final dos anos cinquenta do século passado e era muito pobrezinha, com um horário limitado.»
«E eu que pensava que te sentias mais desgostado.»
«Pensavas... a vida é o que é.»
«Nem pareces um ficcionista a falar...»
«E tu não pareces uma mulher que lê livros. A ficção é a vida tal como ela é. Quase sempre com menos vírgulas.»

E depois seguiu-se um silêncio quase de ouro. Até que finalmente pegaste num livro e contaste-me uma história deliciosa sobre o autor.

4 comentários:

  1. É como contas, Luís. E que bom quando aparece uma leitora assim, interessada nos livros e nos autores. Hoje em dia há muitas fontes de informação. Eu continuo a ter os livros por companhia.
    Um abraço.

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    1. Eu também, Graça.

      Tanto que nos falam...

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  2. Um excelente diálogo.
    E estou consigo. Hoje em dia há tanta coisa para dispersar a nossa atenção.
    Lembro que há muitos anos, eu não apreciava futebol. Mas numa terra estranha, sem grandes amizades, eu cheguei a ir com o marido ao futebol ( que lá era sempre à noite) só para não ficar em casa. Levava um livro, e levava todo o jogo a ler. Outras vezes levava um livrinho de palavras cruzadas.
    Um dia o marido disse que aquilo não tinha jeito nenhum, e que devia ir antes ao cinema. Eu fora criada num meio pequeno, com princípios rígidos e não me parecia lá muito bem. Mas graças a Deus que ele me convenceu. Porque foi assim que fui aprendendo a usar as minhas próprias asas. Apesar disso, sempre considerei um livro como um grande amigo. Até hoje. Embora desde que tenho Literatura Portuguesa, chegue à conclusão que eu não sabia ler até agora.
    Um abraço e bom fim de semana

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    1. Claro que sabia, Elvira.

      Lia de maneira diferente, atenta a outras coisas...

      O que eu noto é que há livros que devem ser lidos quando somos mais novos e outros quando já conhecemos mais da vida.

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