domingo, novembro 08, 2015

Passam por Nós Todos os Dias e Continuam sem um Nome e uma Voz


Estava a tomar o pequeno almoço e a olhar pela janela, satisfeito com o dia de Sol que temos pela frente, quando passou pela rua uma jovem mulher na companhia do seu pequeno cão. Passa por aqui pelo menos uma vez por dia, há pelo menos meia dúzia de anos. Reparo que é moderna, elegante e diferente (os penteados têm a sua marca pessoal), veste roupas confortáveis (pelo menos nestes passeios). Não é feia nem bonita, é ela. E não sei mais nada da jovem mulher. 

Ela é apenas um caso dos milhentos que nos passam pelos olhos diariamente, como o sujeito que encontro há anos no café e que nunca trocámos um simples bom dia ou boa tarde. Sei apenas que se senta na mesma mesa, perto da janela, gosta de andar de gravata e é um lobo solitário, daqueles que parecem não ter família. E pede sempre a bica cheia.

E nem vou falar dos vizinhos, não os do meu prédio mas os da minha rua. A maioria tem apenas rosto, nunca um nome. Por falar nisso, reparo que cumprimento mais as pessoas mais velhas que as da minha geração e mais novas. Talvez tenham sido elas que tenham começado a dar-me os bons dias e as boas tardes. E a maior parte conhece melhor a minha biografia familiar que eu a deles. Viram-me vir viver para aqui sozinho, depois descobriram-me uma companheira e viram nascer os meus dois filhos, que conhecem desde os tempos de colo até serem gente quase crescida.

Há o hábito de se dizer que as cidades cortam os laços humanos. Não sei se é verdade. Acho que muitas vezes somos nós que escolhemos viver nas cidades grandes para sermos gente sem nome...

O óleo é de Avigdor Arikha.

4 comentários:

  1. Às vezes nem os vizinhos do prédio conhecemos.
    Pelo menos eu que sou uma despassarada. Em compensação o marido é como o Zé dos plásticos. Conhece toda a gente.
    Um abraço e resto de bom Domingo

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    1. São tempos diferentes, Elvira...

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  2. é muito usual nas grandes cidades, ninguém conhece ninguém, ou muito pouco...

    :(

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