segunda-feira, junho 13, 2016

«Quando foi que deixámos de falar?»


Um casal estava sentado frente a frente numa esplanada, quando o homem perguntou: «quando foi que deixámos de falar?». A mulher olhou-o meio espantada e sem dizer nada, voltou a baixar os olhos.

Estava ali ao lado escondido atrás da revista do "Expresso" e senti o peso daquele silêncio na atmosfera. Silêncio que não se voltou a quebrar, nem mesmo quando o homem se levantou para pagar a conta e desaparecer, sem que a mulher tirasse os olhos do telemóvel.

Não consegui perceber se eram casados ou apenas namorados, embora já tivessem ultrapassado os trinta anos. Embora isso nem fosse importante.

Fiquei a pensar que é um problema ficarmos cativos do silêncio, ficarmos cada vez mais palavras no bolso, aparentemente inúteis. Depois à medida que o tempo vai passando, sem se apercebermos, elas deixam de se soltar, é como se ficassem aprisionadas...

Talvez esteja mesmo a mudar a linguagem entre humanos. Talvez as pessoas deixem de comunicar verbalmente num futuro próximo. Talvez apenas o façam por mensagens, por muito estranho que nos pareça...

Por muito que isto me pareça uma espécie de "morte" nas relações humanas, tenho de dizer que já vi acontecerem coisas ainda mais estranhas nas últimas décadas.

(Fotografia de Luís Eme - Arte Urbana de Almada)

18 comentários:

  1. O diálogo exige esforço, é muito fácil que o silêncio se imponha.

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    1. Esforço? Só para quem não gosta de uma boa conversa, Carla.

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    2. Certo, mas uma boa conversa acontece de vez em quando. Quando se vive com alguém, às vezes, tem de se dar um empurrão à conversa, forçar um bocadinho, ou o silêncio pode mesmo impor-se.

      Eu vejo assim.

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    3. Carla, mas eu não me estava a focar apenas nos casais, queria ir mais longe.

      Em relação aos casais é verdade, a rotina vai-se instalando e a paciência rareando...

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    4. Entendo, mas também não estava a reduzir-me aos casais, estava a pensar na família e nos amigos mais próximos que chegam a viver mais horas do nosso dia connosco do que a família propriamente dita.

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    5. Depende, Carla.

      No meu caso pessoal, os amigos não me cansam nem deixamos de ter assunto de conversa (mesmo que se torne repetitiva...).

      Agora os outros, quando são chatos, apetece ir dar uma volta ao bilhar grande. :)

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    6. Engraçado, tenho um amigo muito querido com quem falo de tempos a tempos. Falamos horas seguidas, se preciso for, até que um diz «estou farto de falar contigo. até à próxima». E isto sem que nenhum fique chateado. É o elemento diferenciador da nossa amizade. :)

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    7. A amizade é outra coisa, Carla. :)

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  2. A falta de diálogo nota-se a todos os níveis. E isso cria, na sociedade, a indiferença de uns pelos outros...
    Um abraço, Luís.

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    1. Sim, a indiferença passa muito por aí, Graça.

      É mais fácil fecharmos os olhos ou ficarmos calados...

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  3. Penso que a falta de diálogo surge quando perdemos o interesse pelo outro, seja a nível emocional ou comercial.
    Um abraço

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    1. Penso que é mais grave que isso, Elvira...

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  4. uma realidade gritante, todos deixaram de ter tempo para o dialogo e no entanto vivem dependurados no telemóvel.
    ainda há dias comentei isso e olha que sinto até uma angustia.
    belo texto.
    bom dia e boa semana.
    beijo
    :)

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    1. Vivemos em mudanças permanentes, Piedade.

      E em alguns casos, andamos para trás.

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  5. Vejo-os(as) à mesa do café, vejo-os(as) cegos na rua, vejo-os(as) a entrar de cór no autocarro, autênticos e autênticas múmias, sinto uma tristeza, mesmo pena desta triste gente, que não olha, que não vê que não cheira que não sente, e que quando (por milagre) abre a boca só sabe dizer boé, sempre de olhos (e alma) no contraplacado...gente que não olha, gente que não vê, gente que não cheira e que cada vez menos sente, uns(umas) tristes...

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    1. É triste, sim, Severino.

      Até porque as palavras têm a virtude de não se gastarem...

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  6. Luís, quando o homem faz essa pergunta - é que pelo que me apercebo é quase sempre o homem a fazê-la - já bateram no fundo.
    No caso dos casais, não é o deixarem de falar que causa os problemas, mas sim o inverso. Quando se deixa de gostar da pessoa com quem se vive desaparece a vontade de diálogo, o que para as circunstâncias é uma consequência normal.
    Já passei por isso, incluindo a pergunta.

    Penso que o que referes se aplica mais à interacção social.
    O mundo anda muito perigoso, sim. Nem é bem pela falta de palavras. Mais, muito mais, pela preguiça de estender a mão. Um pequeno exemplo fresquíssimo: ontem à noite, no aeroporto, uma senhora de muletas estava sozinha junto ao tapete rolante e, com esforço, claro, recolheu a mala. Junto dela estavam pelo menos três homens em boa condição física. O que fizeram? Afastaram-se para que a mala não lhes magoasse as pernas. Se tinham obrigação? Se não deviam ser funcionários do aeroporto? Tinham obrigação, SIM.
    E quando apanhamos o oposto, é uma lufada de ar fresco.
    Ou seja, preocupa-me muito mais este alheamento feito violência que ando a ver a pontapé, do que o preferir-se o sofá a uma boa conversa.

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    1. Nós quando escrevemos nem sempre somos explícitos, Isabel.

      Peguei num caso particular e depois parti para o geral, para a tal interacção social, que já teve dias melhores.

      tenho medo que qualquer dia tenhamos medo de falar com o outro...

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