sexta-feira, maio 05, 2017

A Menina de Olhos Tristes...


Logo pela manhã descobri a menina de olhos tristes, sentada num banco, rente à paragem do autocarro. Estava de mochila, devia ir para a escola.

O nosso primeiro encontro deu-se no fim de semana passado, no interior do metro, quase vazio. Passou a viagem da Gil Vicente até Cacilhas a repreender o irmão, com menos três ou quatro anos que ela, como se fosse uma "mãe pequena".

E o pequenote, avesso às ordens da mana, fazia tudo ao contrário. Quando me olhou com ar traquina, disse-lhe que devia obedecer à irmã. Foram as minhas únicas palavras. Entretanto chegámos ao fim da linha e sai primeiro, para não se sentirem de alguma forma constrangidos.

Mas enquanto caminhava não deixei de pensar nas histórias que a minha mãe nos contava, mesmo pequena, como era a filha mais velha tinha de tomar conta dos irmãos, enquanto os pais trabalhavam nos campos...

Às vezes pensamos que o mundo mudou muito, que está tudo melhor, etc. O problema é esquecermos que não mudou para todos... Há por aí quem enfrente os desafios de outros tempos, há quem continue sem tempo para ser apenas criança...

(Óleo de Gaetano Chierici)

2 comentários:

  1. Pese os anos que se passaram, e todo o progresso atual, há uma realidade que continua imutável.
    Um abraço e bom fim-de-semana

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    1. Continuamos tão desiguais, Elvira...

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