terça-feira, março 13, 2007

Uma Carta Especial


No começo do ano recebi uma herança inesperada, oferecida pelo filho de um amigo de longa data, que faleceu no começo de Outubro, do ano passado. Francisco deixara-me um pequeno "tesouro" dentro de uma caixa de madeira, muito parecida com a que a minha mãe tinha, para guardar os utensilios de costura.
Abri a caixa e descobri dezenas de fotografias, postais ilustrados escritos de vários países e também algumas cartas, de várias precedências...
A mais antiga, e também mais comovente, foi escrita por uma menina judia, que viveu durante a Segunda Guerra Mundial na casa dos pais do Francisco e que tinha perdido os pais e o irmão pouco tempo depois da sua separação... embora só lhe contassem o que acontecera no fim da guerra, quando tinha 16 anos...
A carta estava escrita em alemão e datada de 13 de Março de 1941. A primeira vez que li a sua tradução, feita pelo meu primo, vieram-me as lágrimas aos olhos. Isto aconteceu por conhecer a história desta menina, que tinha um nome tão universal, Marie, e que continuou, alguns anos, à espera que os pais e o irmão chegassem a Lisboa...
Na carta falava de Lisboa, encantada. Dizia que era uma cidade bonita e sossegada, onde se podia passear e brincar à vontade. Impressionada com a largueza do Tejo, dizia que costumavam passear aos domingos e que iam sempre espreitar o rio.
Acrescentava que já falava português de uma forma aceitável e que tinha muitos amigos portugueses, tão diferentes dos alemães.
Acabava a carta expressando as suas muitas saudades, com alguma esperança de que Karl, o seu único irmão, mais velho que ela quatro anos não tivesse sido obrigado a lutar, naquela Guerra sem sentido.
Sei que as lágrimas que escorreram pelo meu rosto, eram sobretudo de revolta, pelo assassínio de tantos inocentes...
O pior de tudo é saber que sessenta e alguns anos depois, não aprendemos nada.
No Iraque, na Palestina e em vários países africanos, o massacre continua...

8 comentários:

  1. É uma história bonita, embora triste.

    ResponderEliminar
  2. Continua e continuará, Luís.
    Enquanto houver homens sobre a Terra.
    É uma pena.

    ResponderEliminar
  3. Nascido em 1951 convivi muito com essas memórias. Na região das Caldas houve muita gente fugida a Hitler que arranjou abrigo. Nem todas as pessoas tinham condições mas algumas miúdas húnagras estiveram em Santa Catarina. Ao domingo de manhã, à hora da missa, ficavam a falar a sua língua, abraçadas e a chorar. AAgora é no Sul do Líbano, tal como já tinah sido em Shatila e Sabra em 1982.

    ResponderEliminar
  4. Todas as histórias de perdas são tristes, CN...

    ResponderEliminar
  5. Parece que sim Sininho. Os homens tem dificuldades em conviver com a paz e em paz.

    ResponderEliminar
  6. Sim, eu sei que as Caldas albergaram muitas famílias, vitimas do nazismo, obrigadas a fugir dos seus países, praticamente a única maneira de sobreviverem.

    Hoje a história mantém-se, especialmente no Médio Oriente e em África. As pessoas continuam a ter de fugir da guerra, para pelo menos se manterem vivas, Zé do Carmo...

    ResponderEliminar
  7. Sei que já venho um pouco atrasada, mas não faz mal.

    Gostei de te ler, como de costume. Ainda bem que resolveste partilhar o teu "tesouro" e as tuas lágrimas connosco.

    Beijo

    ResponderEliminar
  8. Nunca vens atrasada, Alice.

    Estes "tesouros" têm como finalidade a partilha.

    ResponderEliminar