sexta-feira, março 23, 2007

O Homem-Mar da Clarisse


Clarisse é um nome bonito e pouco vulgar.
Só conheço uma Clarisse, faz teatro, cinema e televisão. Infelizmente usa um outro nome, como acontece com tanta gente do mundo do espectáculo.
Nunca percebi porque não quis ficar Clarisse. Quando lhe perguntei, desculpou-se. Disse que quando estudava no conservatório um professor-actor referencial, achava que Clarisse era um nome demasiado grande e pouco familiar. E ela deixou-se ir na conversa, da sapiência parda...
Numa das últimas vezes que estivémos juntos fiquei com um pequeno texto que ela escreveu, numa mesa de café. Era um texto curioso em que ela falava do género de homem que gostava.
Vou partilhá-lo com vocês, sem a Clarisse saber. Faço isto porque sei que ela, quando descobrir, vai gostar de se ler...
«Não gosto de homens bonitos, representam tudo o que detesto. Normalmente são demasiado vaidosos, convencidos, egocêntricos, e pior, homossexuais!
Nunca pensei casar com um homem que perde mais tempo que uma mulher a cuidar do corpo (e conheço tantos, por esses camarins fora...).
O que me atrai num homem é o seu lado mais masculino, meio selvagem, bravio, quase em estado natural, como o mar.
Não sei se é pela minha profissão, mas não suporto um homem de sobrancelhas arranjadas e com o corpo sem um único pelo.
Sei que se fosse uma simples empregada de balcão, não sonharia com homens num estado mais primitivo, mas como não sou, posso dar-me ao luxo de gostar de um selvagem qualquer, desde que goste de viver sem espelhos, apenas como é...»
Clarisse aparece-me, de vez em quanto, pela casa dentro. Quando a olho lembro-me sempre que ela detesta aqueles homens bonitos com quem contracena, todos arranjadinhos, cheios de cremes e maneirismos, que ainda por cima lhe fazem concorrência, na conquista de faunos...
Desta vez escolhi "A Marcha" de Júlio Pomar, pintado em 1946, para ilustrar este texto. Nesta época Júlio era um jovem pintor cheio de ideais....

12 comentários:

  1. Vou responder aqui porque gosto da Clarisse, porque goste de Clarisse e porque é como eu. Também não gosto de homens que rivalizam comigo no espelho.
    Isto tudo para dizer, Luis, que isso de ser uma moçoila jovem é dificil de calcular... depende da noção de tempo e a minha pode ser diferente da sua, e a nossa é certamente diferente da do criador.
    Tenho - espero - ainda muito para viver, mas também já vivi uma parcela de tempo que me dá o direito de escrever o que escrevo no meu Circo.
    Se é certo ou é errado, novamente depende de cada um de nós, das nossas vivências, dos nossos tempos... mas especialmente depende de uma certeza incontornável: o que hoje é verdade amanhã é mentira.
    Por último o esclarecimento: respondo aqui porque não faço comentários no meu blogue. Eventualmente alguns, por algum motivo particular, podem merecer uma resposta num post. Não foi o caso.

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  2. Suburbana, não é difícil gostar da Clarisse, ela é das mulheres mais descomplicadas que conheço.

    Nós às vezes exageramos nas palavras. Claro que tens todo o direito de escrever o que quiseres no teu "Circo" e ninguém tem nada a ver com isso.

    Não acredito nessa tua certeza incontronável, de que o que hoje é verdade amanhã é mentira. Mesmo sabendo que mudam-se os tempos mudam-se as vontades.

    Como eu sei que a obrigatoriedade de se escrever todas as semanas (como é o caso da Cidalia e do Borges), faz com que se invente, muitas vezes mais para provocar que para sentir... não se devem levar muito a peito algumas teorias.

    Eu, ao contrário de ti, respondo a todos os comentários.

    E parabéns pelo teu "Circo Voador".

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  3. Viva a diferença !
    Joaquim

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  4. "quase em estado natural, como o mar."

    Assim se define um (bom)homem.


    P.S. Hoje ganhei o dia descobri estes teus espaços. Fantásticos. Parabéns.

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  5. As diferenças são o sal do mundo, Joaquim.

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  6. Só hoje é que descobriste o "largo" e as "viagens", Maria?

    Estavam aqui tão perto...

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  7. Para esses há uma palavra muito engraçada - raparigos. O hotel chama-se «anjo azul» e é muito perto da minha casa.

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  8. Peço desculpa, por voltar à carga. mas o meu comentário deixou uma amiga minha muito incomodada.
    Acha ela que eu ao escrever «o que hoje é verdade amanhã é mentira», estou a transmitir uma imagem falsa, já que segundo ela sou das pessoas mais coerentes que conhece. Esta frase parece dizer que navego ao «sabor da maré».
    Tento ser constante ... se sou coerente, já não sei. Mas - para que ela fique descansada - apenas quis dizer que a vida agita-se a cada segundo, tudo muda muito rapidamente. Hoje sei que o mundo é redondo, e se me provarem o contrário????? Esse contrário pode chegar já amanhã.
    Pronto Dulce, já está!

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  9. Não tens de pedir desculpa.

    Como já percebeste as portas estão abertas para todos aqueles que não precisam de se refugiar no anonimato para falarem...

    Em relação à questão da verdade e da mentira, as coisas não mudam assim tanto e ainda bem.

    Claro que o ciclo da história vai mudando, através de novos conhecimentos vamos ficando com novas perspectivas das coisas, mais isso é diferente da "verdade e da mentira", na minha perspectiva claro, Suburbana.

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  10. Há quem lhes chame outra coisa, mas essa de "raparigos", até que é simpática, José Francisco.

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  11. Não vou tão ao primitivismo da Clarisse, mas detesto homens maricas.

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  12. Acho que quase minguém gosta, Alice...

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