segunda-feira, março 05, 2007

A Feira de Santa Luzia


Este ano irei outra vez à feira da Santa Luzia e vou querer que esteja tanto frio como no meu tempo de miúdo e, se tiver sorte, talvez haja neve no Monte-Airoso que lhe fica em frente, de onde soprará um vento cortante que há-de afilar-me o nariz e engaranhar-me as mãos.
Ao fundo, continuará a correr o rio Torto, o que só acontece neste tempo de Inverno e, quem prestar atenção, vai ouvir o seu ruído surdo nos açudes que o aprisionam e nas margens que o apertam.
Irei pelo caminho velho para beber água na fontela do Vale Vinhoto, onde descansarei um pouco para recuperar forças antes de subir a ladeira que vai levar-me à capelinha da santa, logo a seguir.
Podia ir de carro, pela estrada nacional 222, mas não, quero ir a pé, pelo caminho antigo, para me reencontrar com cada uma da suas fragas, com cada uma das suas árvores, com cada um dos seus acidentes. Já não vou encontrar ninguém na faina agrícola para lhe dar os bons dias - bom dia senhor Ernesto, então não vai à festa ?! - e, embora sozinho, hei-de regressar pelo mesmo caminho, de cabeça toldada, como bom romeiro que se preza, sem outro risco que o de cair de mim abaixo, um tombo curto, pois a mão de Deus há-de amparar-me para que se cumpra o adágio: ao menino e ao borracho ...
Vou comer marrã, muita marrã, frita na sua própria gordura, a sertã de ferro num fogo vivo de estevas e de carrascos, vou comer marrã com trigo da Póvoa, amassado em quartos, com a sua poupinha ao meio, que vou partir em pedaços convenientes com a navalha de pé de pau bem afiada, como confirmei quando a passei pela unha.
E vou beber vinho tinto, tanto quanto me apetecer, o vinho tinto dos Pereiros, esperto, ladino e jovem, à temperatura certa para se beber, este vinho que se provou no S. Martinho e que se apagará com o calor do Verão.
O trigo e a marrã vão confortar-me o estômago, o odor farto do rechinar da carne vai ficar-me no olfacto e, seja milagre da Santa, seja do vinho novo, colar-se-á nos meus olhos um brilho novo que quero conservar, até poder regressar.
Oxalá que haja laranjas, tão azedas como as que comprei há 50 anos com os 2$50 que a minha avó me deu, e não haverá nada melhor para cortar a gordura da marrã que estas laranjas do Douro que só na Páscoa estariam maduras se não tivessem caído com a ventania de Dezembro.
- Será que o dinheiro chega, minha avó ?
É que ainda quero comprar um pífaro de barro, de cores garridas e de três notas que se tocam com uma mão só, que com a outra quero tocar um bombo garrido onde desenharam pares alegres, num vira minhoto e foguetes a estralejar.
- Será que o dinheiro chega, minha avó ?
Não posso deixar de comprar o registo da Santinha, a Milagrosa Santa Luzia que se venera na sua capela de Pereiros, no dia 11 de Dezembro, para que ela nos dê vista e claridade até no céu entrarmos, com lá estará escrito e eu rogarei. Vou dobrá-lo ao comprido, em três partes iguais e vou enfiá-lo na fita na fita do chapéu, com o rosto da santa voltado para fora, e este será o sinal certo de que fui romeiro mais uma vez.
- Será que o dinheiro chega, minha avó ?

Mais um bonito texto de Joaquim Nascimento...

9 comentários:

  1. Se outra coisa não viesse provar este texto de Joaquim Nascimento confirma uma ideia antiga: todos precisamos de uma avó e de uma aldeia para podermos viver. Sem elas não somos nada...

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  2. Se precisamos, Zé do Carmo Francisco...

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  3. Obrigado pelo vosso comentário.
    Quando vos contar dos sobreiros da minha terra, heí-de falar-vos também da minha avó Rosalina.
    Joaquim

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  4. Quem está de parabéns é o Joaquim...

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  5. Iremos aos sítios dos afectos e reencontraremos tudo diferente, mas voltaremos cheios de moedas que chegam para pagar dívidas de saudade.

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  6. Não sei se temos moedas suficientes, Paula...

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  7. Obrigada pela oportunidade que me deu de, por momentos, também ser transportada para a aldeia.

    Não que tivesse frequentado muitas romarias, mas recordo as festas de Agosto, na terra do meu pai, na Beira Alta.

    Na memória ficou o companheirismo da família que ao longo dos anos, por todas as razões e por nenhuma, foi-se perdendo.

    Recordo com saudade aqueles que nessa altura do ano regressavam ao seu país, os bailaricos, o cheiro e a beleza do campo, o rio Mondego onde aprendi a nadar, o sabor inconfundível da comida feita no forno a lenha, a sopa na panela de ferro que a minha avó fazia e a broa de milho quentinha com chouriço!

    Mas, a “minha terra” onde quase todos iam passar a Páscoa, ou as férias de verão, foi desaparecendo com os avós e com o tempo cedeu o seu lugar às férias na neve ou na praia…

    Sinto, com alguma pena, que as minhas filhas não vão ter a mesma recordação.

    Um abraço grande!

    Filomena

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  8. Mudam-se os tempos mudam-se as vontades, Filomena...

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  9. Olá Filomena:
    Se fosse Verão, havia de ensinar às suas filhas que os pêssegos da bisavó eram tão bons como os da minha avó Maria e elas acreditariam nisso pela vida fora.
    Volte sempre, Filomena e não deixe de trazer as suas filhas.
    Joaquim

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